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DIA DA HERESIA – Religião e Política

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Bem vindos a mais um DIA DA HERESIA. Este é um espaço utilizado para se falar tudo que for relevante a respeito de um tema controverso específico que envolva a religião, apresentando minha opinião como ateu.

E o tema desse mês será:

RELIGIÃO E POLÍTICA

O mês de outubro está chegando e, como em todo ano par, isso significa uma coisa: as eleições se aproximam!

Eleições no Brasil são sempre parecidas. Um monte de políticos de sorrisos amarelos fazem campanha na televisão, jingles idiotas são criados e retumbados pelas ruas em carros de som barulhentos, as vias públicas são poluídas com toneladas de santinhos e panfletos, cavaletes nas calçadas atrapalham o ir e vir das pessoas, outdoors são erguidos em lugares improváveis, artistas tentam alavancar suas carreiras em showmícios tumultuosos e empresas investem milhões nas campanhas políticas visando conseguir favores dos eleitos após a eleição.

Tudo isso, claro, para que o povo, bem instruído como é, possa exercer plenamente seu direito democrático de escolher racional e conscientemente seus representantes, em uma votação a qual você não tem a liberdade de deixar de comparecer.  E, no final das contas, são eleitos sempre os mesmos políticos ou seus indicados, e nada muda no país. (E eu, que sou “convidado” a ser mesário em todas as eleições, sinto os valores democráticos correndo com toda força em minhas veias a cada dois anos, quando tenho que sair da minha cama às 6 da manhã de um domingo.)

Porém, as últimas eleições têm apresentado um lado que há algumas décadas não parecia ser tão pronunciado em nosso país. A participação maciça de religiosos no processo eleitoral.

Não que a religião não influenciasse na política antes. Afinal, desde que o homem se organizou em sociedade, essas duas instituições estão intimamente ligadas. Em praticamente todas as comunidades antigas os líderes religiosos dividiam o poder com os políticos, isso quando não o exerciam diretamente. E democracias mais maduras que a brasileira dispõem até hoje de partidos com orientações religiosas, como o Cristão-Democrata francês e o União Social-Cristã alemão.

No Brasil, particularmente, a Igreja Católica foi, durante décadas,  uma das principais forças políticas a influenciar nossas eleições. Candidatos que apoiassem projetos contrários aos interesses da Santa Sé frequentemente eram derrotados nas urnas. Porém, essa influência exercida pela Igreja nunca foi direta.

O código de direito canônico, que são as leis editadas pelo Vaticano e que pautam o comportamento de seus sacerdotes, condena a candidatura de padres e bispos a cargos políticos, estipulando no parágrafo 2º de seu artigo 287 que eles:

[…] Não tomem parte activa em partidos políticos ou na direcção de associações sindicais, a não ser que, a juízo da autoridade eclesiástica competente, o exija a defesa dos direitos da Igreja ou a promoção do bem comum.

Como se pode perceber, essa não chega a ser rigorosamente uma proibição. Já houve casos de esclesiásticos da Igreja Católica sendo eleitos para cargos políticos. Porém essa norma da Santa Sé faz com que eles sejam raras exceções. A influência exercida pela Igreja na política sempre foi feita de maneira mais indireta, através do doutrinamento de seus milhões de fiéis.

Assim, se um candidato surgisse defendendo uma idéia que contrariasse a doutrina católica, como por exemplo, a descriminalização do aborto, ele era automaticamente visto com maus olhos por um imenso número de eleitores influenciados pelos dogmas da Igreja e acabava não sendo eleito. O que, em certa medida, tem reflexos até hoje, bastando notar a mentalidade conservadora do eleitor brasileiro médio.

Esse conservadorismo parecia tendente a diminuir com o tempo, principalmente por conta da queda do poder e do número de fiéis da Igreja Católica no país. Porém, ironicamente a situação se agravou, pois em resposta à diminuição de seguidores católicos, uma nova força religiosa vem se erguendo em nosso país: os evangélicos.

Se os católicos possuem uma liderança centralizada, que pode ditar regras a serem seguidas por todos, como a que rejeita a participação política direta, o mesmo não pode ser dito dos evangélicos. Cada denominação evangélica tem suas próprias normas internas, e nenhuma delas parece muito acanhada em eleger seus líderes e sacerdotes para cargos políticos.

Pelo contrário. Para essas orientações religiosas, o fato de um candidato ostentar a sua função eclesiástica é um trunfo que pode render mais votos, motivo pelo qual o número de candidatos estampando cargos como “bispo” e “pastor” à frente de seus nomes aumentou quase em 50% em relação às eleições de 2010, segundo uma reportagem da revista Época.

O exemplo mais notório disso já pode ser percebido entre os candidatos ao maior cargo do poder executivo, o de presidente da República. Um dos  postulantes a ocupar o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos é um pastor, que faz questão de evidenciar seu cargo clerical em seu material de campanha.

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Se há algumas décadas os evangélicos eram um grupo com pouca capacidade de influenciar os rumos de Brasília, o aumento de igrejas pentecostais e neo-pentecostais fez com que esse cenário mudasse. Uma outra reportagem da revista Época, feita no início desse mês, mostra como o voto dos evangélicos se tornou um poderosa arma nas últimas eleições, sendo decisivo na escolha de alguns candidatos.

Não é difícil perceber que agradar esse público passou a ser uma prioridade para qualquer político que queira possuir alguma chance de ser eleito. Agora todos os candidatos a qualquer cargo ficam pisando em ovos ao tratarem de temas que podem causar atrito com os evangélicos, como a descriminalização de drogas ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Um exemplo de como essa mudança no panorama religioso afeta o discurso político pode ser percebido em um posicionamento da presidente Dilma. Em outubro de 2007, quando ainda era ministra-chefe da Casa Civil, ela deu a seguinte declaração a respeito da legalização do aborto, segundo essa reportagem do jornal O Globo:

“Olha, eu acho que tem que haver a descriminalização do aborto. Hoje, no Brasil, isso é um absurdo que não haja a descriminalização.”

Em outubro de 2010, quando se candidatou ao cargo de presidente, ao perceber que seu posicionamento poderia custar o voto de eleitores conservadores, entre os quais os evangélicos, ela já passou a adotar um tom mais precavido em sua abordagem a respeito do assunto, afirmando uma coisa que, curiosamente, ia em total contradição ao que ela havia afirmado antes:

“Sou pessoalmente contra o aborto e defendo a manutenção da legislação atual sobre o assunto. Eleita presidente da República, não tomarei a iniciativa de propor alterações de pontos que tratem da legislação do aborto e de outros temas concernentes à família e à livre expressão de qualquer religião do país.”

E agora que está concorrendo à reeleição, a ordem de seu comitê de campanha é de evitar a todo custo a menção a temas espinhosos para os religiosos, com o declarado objetivo de conquistar o eleitorado evangélico. Uma estratégia que parece estar sendo seguida com afinco, quando notamos que, entre administrar um país e coordenar sua candidatura, a chefe de governo ainda conseguiu reservar um espaço em sua agenda para comparecer à inauguração do maior templo da maior congregação evangélica do país.

Sua adversária direta na luta pela presidência, Marina Silva, é, por sua vez, uma fiel da congregação evangélica Assembleia de Deus, e não esconde seu alinhamento à doutrina religiosa deste grupo, ao se posicionar pessoalmente contra a pesquisa com células-tronco e contra a descriminalização do aborto.

Se a candidatura de Dilma já dá sinais de sofrer certa influência exercida pelas tendências doutrinárias evangélicas, a de Marina a torna escancarada.

Ao lançar o programa de governo do seu partido para essas eleições, Marina – possivelmente contrariando suas convicções pessoais – defendia o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da criminalização da homofobia. Uma postura que, obviamente, deixou as lideranças religiosas evangélicas desgostosas.

Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, apontado como um dos pastores mais ricos do país, não deixou barato. Em seu twitter,  o líder religioso disparou uma série de declarações criticando o programa do partido e cobrando de Marina explicações a respeito de seu posicionamento:

Twitter malafaia

Bastou isso para que, no dia seguinte ao anúncio, o partido emitisse uma nota se retratando e informando que houve uma “falha processual na editoração” do programa e que, na verdade, eles não apoiavam a proposta de legalizar o casamento igualitário no Brasil.

Se um simples tweet do líder de uma congregação evangélica já é o suficiente para fazer com que uma candidata a presidente volte atrás e passe a afirmar quase o oposto do que vinha afirmando antes, imagine o que eles não poderiam fazer se essa candidata já estivesse no poder.

Já o terceiro candidato à presidência com maior número de intenções de voto segundo as pesquisas, Aécio Neves, é o que parece ser o mais neutro dos três em relação aos temas controversos para os religiosos. Ele diz não se opor ao casamento gay, que isso já é parte de nossa realidade e é uma pauta do passado. Ele acha que a legislação atual sobre aborto atende as demandas do Brasil e disse que não as modificaria. E afirma não ser a favor da descriminalização da maconha, mas defende um debate público sobre o assunto. Como se pode ver, ele parece estar se esforçando para ficar completamente em cima do muro em relação a todos esses assuntos espinhosos e não se comprometer. O que talvez explique porque ele está em terceiro lugar, enquanto as outras duas estão disparando à sua frente, com a conquista dos religiosos e conservadores…

No poder legislativo, a influência religiosa também só parece estar aumentando. A bancada evangélica, frente parlamentar composta por líderes e fieis dessas congregações religiosas que, apesar de pertencerem a partidos diferentes, se articulam para que seus votos sempre atendam a seus interesses teológicos, já seria o terceiro maior partido político da Câmara se contituísse uma só legenda, um cenário que, aliás, pode vir a se tornar verdadeiro em breve, com a possível fundação de um partido político evangélico.

Integrantes da bancada evangélica realizando um culto durante uma sessão da Câmara.

Integrantes da bancada evangélica realizando um culto durante uma sessão da Câmara.

Caso as eleições acompanhem a tendência demográfica dos evangélicos, é possível que por volta de  2040, os parlamentares evangélicos já se tornem maioria no Congresso.

Nesse ponto, devemos parar e nos perguntar: essa influência excessiva de um grupo religioso específico na política nacional seria necessariamente uma coisa ruim? E se seria, por que, exatamente?

Afinal, nós vivemos em uma democracia. Teoricamente, nossos governantes são os representates do povo, e escolhidos por este. Então, se a maioria dos nossos políticos um dia chegar a ser composta por líderes ou seguidores de determinada orientação religiosa não seria porque a maioria da população, em um processo democrático os elegeu? Eles não estariam, no fundo, representando o interesse da maior parte da nação, inclusive em sua crença religiosa?

Bom, a meu ver, esse cenário ilustra com perfeição um dos principais problemas do sistema democrático moderno: o governo das maiorias sobre as minorias. Praticamente todos os sistemas atuais de escolha de representantes políticos se baseiam somente no número absoluto de votos da população. E isso faz com que, invariavelmente, as camadas da população com um número menor de pessoas acabem com um poder político menor que os outros, um fato que se aplica não somente em relação à religião, mas a qualquer posição minoritária: etnias, posições filosóficas, orientação sexual, origem geográfica etc. Qualquer grupo desses que possua o menor número de pessoas automaticamente possuirá também menor representação política.

Essa falha no sistema democrático também é a causadora do circo no qual se tornou a política brasileira atual, com a execução das fanfarronagens descritas no primeiro parágrafo desse artigo. Como o número de votos recebidos é o fator mais importante para ser eleito, os políticos sabem que o método mais eficiente de alcançar o poder é se utilizar de métodos que façam com que eles fiquem em evidência para as massas votantes. Todo político quer virar um meme nessa época do ano. Daí vem os carros barulhentos, os jingles grudentos etc. E já sendo a religião naturalmente um meme, um sistema de propagação de ideias e de doutrinação de mentes, não foi difícil para eles perceberem como ela também poderia ser utilizada para o arrebanhamento de mais votos.

Isso é facilmente notável quando percebemos que nessa época de eleições diversos líderes religiosos surgem apoiando candidatos políticos de seu interesse, a exemplo do próprio pastor Silas Malafaia, que há meses aparece em cartazes e propagandas apadrinhando os candidatos Sóstenes Cavalcante para a Câmara dos Deputados e Samuel Malafaia – que curiosamente é seu próprio irmão – para a Assémbleia Legislativa do Rio.

Malafaia apoiando seus candidatos, sem nenhum interesse pessoal, obviamente.

Malafaia apoiando seus candidatos, sem nenhum interesse pessoal, obviamente.

É claro que esses apoios não são dados pelos pastores por eles acharem que esses candidatos são os mais indicados a liderar o povo ou porque eles realmente acreditam que eles possuem as melhores propostas legislativas para o país. Esses apoios são devidos primeiro porque esses candidatos possuem (ou fingem possuir, o que na prática dá na mesma) a mesma orientação religiosa do pastor, e segundo, porque ele sabe que ao ajudar esses candidatos a serem eleitos, uma vez que eles estejam no poder, podem ajudar a aprovar leis que ajudariam a legitimar e fortalecer o domínio dos religiosos sobre seus fieis.

Exemplos de como esses políticos passam a legislar em causa própria após as eleições não faltam entre as propostas da bancada evangélica. Em 1999, foi proposta na Câmara a PEC-99, que visava dar às igrejas o poder de contestar a constitucionalidade de leis diretamente ao Supremo Tribunal Federal, de autoria do deputado João Campos,  pastor da Assembleia de Deus e líder da bancada evangélica que, diga-se de passagem, foi também o autor do famigerado projeto da cura gay. Em 2009, outro membro da bancada evangélica apresentou um projeto que favoreceria diretamente as igrejas evangélicas: o PLC-160/2009, chamado de Lei Geral das Religiões, que daria a essas congregações vantagens fiscais já desfrutadas pela Igreja Católica. O autor dessa vez foi o deputado George Hilton, pastor da Universal do Reino de Deus, que foi expulso em 2005 do seu antigo partido, o PFL, ao ser detido transportando dinheiro da Igreja Universal em um jatinho particular.

Esses são apenas alguns exemplos, mas tramitações legislativas como essas, onde os parlamentares religiosos buscam retribuir os que apoiaram suas candidaturas ou favorecer suas próprias congregações religiosas existem às dúzias. Fica claro que a preocupação com o futuro do país ou até mesmo dos seus fieis nas igrejas fica, no mínimo, em segundo plano na mente desses políticos. O mais importante é garantir meios de perpetuar a influência que eles possuem sobre a sociedade e de somar ainda mais zeros às suas já polpudas contas bancárias.

E nem mesmo as irregularidades cometidas por esses políticos parecem ser capaz de indicar aos seus eleitores que eles talvez não sejam  a melhor opção a se colocar no plenário. A doutrina a que eles são submetidos é tão forte que, mesmo após a revelação de escândalos e crimes, eles continuam imaginando que por eles estarem no altar de uma igreja ou no púlpito de um culto, eles são representates de uma divindade, que o que eles estão realizando é a vontade divina então, obviamente, são também os melhores candidatos a serem eleitos. Ao que parece, uma boa parte dos religiosos continua levando a sério a filosofia de que “crente vota em crente”.

Crente vota em Crente! Não, espera...

Crente vota em Crente! Não, espera…

É espantoso, por exemplo, constatar como, mesmo após o envolvimento de 23 parlamentares da bancada evangélica no escândalo de desvio de dinheiro público que ficou conhecido como a Máfia dos Sanguessugas, em 2006, ou com seus parlamentares sendo considerados os mais ausentes e processados do país, a fé do eleitorado evangélico em seus líderes não parece ter diminuído nem um pouco, já que um número cada vez maior de pastores e bispos são eleitos para ocupar as cadeiras de nosso Parlamento.

Alguns líderes religiosos mais caras de pau chegam a abandonar completamente os pudores em relação à laicidade do Estado (sem falar da ética e do bom senso) e procuram candidatos interessados em comprar os votos dos fieis de sua congregação, institucionalizando, então, o voto de púlpito, uma nova leitura dos antigos votos de cabresto.

Em um país que se diz laico e cuja Constituição prega a separação entre a Igreja e o Estado, essa tendência é preocupante. Se hoje alguns políticos cristãos já veem com normalidade o fato de a Bíblia ser priorizada frente às leis, imagino como esses políticos se comportariam caso se tornassem a maioria dos membros do parlamento. Talvez seja exagero dizer que o Brasil está caminhando para se tornar uma teocracia moderna, a exemplo do Sudão e do Irã. Mas essa é uma aterradora possibilidade que não pode ser descartada.

Na melhor das hipóteses, eu diria que, caso a ascenção dos evangélicos e de sua influência política continuem no ritmo em que se encontram atualmente, o Brasil em breve será no mínimo parecido com Israel – que hoje é considerada por muito teóricos políticos como uma etnocracia liberal – onde o povo teoricamente exerce o poder democraticamente, mas uma classe social majoritária tem notáveis privilégios sobre as minorias.

E qual seria o caminho para se evitar isso?

Bom, eu consigo vislumbrar duas maneiras óbvias de se evitar que o evangelismo político divida efetivamente o país. A primeira seria uma revolução, violenta ou pacífica, que impediria os líderes religiosos de exercerem o poder político diretamente. Se você estivesse no rol de fundadores, diretores, administradores, dirigentes ou líderes de cultos em uma igreja, não poderia se candidatar a nenhum cargo político, institucionalizando no país inteiro uma regra parecida com a que o Vaticano aplica aos seus clérigos. Como qualquer solução radical, essa implicaria em notáveis consequências negativas. Por exemplo, se essa proibição fosse aplicada somente a evangélicos ou a qualquer outra denominação específica, estaríamos legalizando a discriminação a um setor da sociedade, que perderia seu sufrágio, retrocedendo na liberdade democrática que a sociedade levou tanto tempo para alcançar. E se, por outro lado, essa medida fosse estendida a líderes de todas as religiões, as minorias religiosas, que já não possuem muita representação política, perderiam de vez a possibilidade de elegerem representantes que defendessem seus interesses diretamente.

A outra maneira de se evitar isso seria investirmos maciçamente em educação e cultura, para que as futuras gerações que irão exercer seu direito de voto o façam de maneira consciente, elegendo candidatos que defendam racionalmente propostas que tragam benefícios ao povo, sem discriminações ou benefícios, e não somente por eles pertencerem a determinada congregação religiosa.

Porém essa segunda opção é uma medida que, infelizmente, depende dos políticos que já estão no poder para ser posta em prática, e que, obviamente, não iriam tomar nenhuma atitude que fizesse com que esse poder diminuísse ao longo do tempo. Quanto mais ignorante eles mantiverem a população, melhor será para políticos que queiram se aproveitar do sistema vigente para atingir interesses próprios.

Por isso mesmo, eu receio que nosso país já tenha entrado em um círculo vicioso do qual talvez não haja saída. A cada eleição que se aproxima eu vejo mais e mais pessoas alienadas politicamente e mais candidatos se aproveitando disso, e não somente através da religião, mas por qualquer outro meio que eles possam utilizar para manter o status quo da miséria e do poder. E não vejo nenhum sinal de melhoria no horizonte.

Sinceramente, temo pelo futuro desse país.

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DIA DA HERESIA – Dízimo

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Bem vindos a mais um DIA DA HERESIA. Este é um espaço utilizado para se falar tudo que for relevante a respeito de um tema controverso específico que envolva a religião, apresentando minha opinião como ateu. O dia da Heresia ocorre todo penúltimo domingo de cada mês.

E o tema desse mês será:

A OFERTA DO DÍZIMO

Minha intenção ao criar este blog não era utilizá-lo para me comunicar exclusivamente com ateus ou agnósticos. Ele é, antes de tudo, uma ferramenta da qual eu me valho para tornar públicos meus pensamentos a respeito de alguns aspectos envolvendo religiosidade e crenças e que, geralmente são do interesse de descrentes, mas ocasionalmente também podem ser de religiosos.

Por isso, o Dia da Heresia desse mês será a respeito de um assunto que provavelmente interessará mais a quem segue alguma religião e sobre o qual eu vou escrever e opinar predominantemente da posição de um observador curioso: a oferta do dízimo.

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Um costume presente em todas as religiões.

A oferta de dinheiro por parte dos fiéis parece ser a principal fonte monetária da maioria das congregações religiosas, independente de sua orientação. Embora a necessidade dessas ofertas para a manutenção das instituições varie de uma pra outra, é provável que as doações advindas de seus seguidores sejam de suma importância para todas elas, sejam templos espíritas, mórmons, candomblecistas, umbandistas, islâmicos etc.

Porém, como nós vivemos em um país onde pelo menos 87% da população segue religiões de origem judaico-cristã (segundo o último censo do IBGE)  e como – graças ao histórico dessas congregações e do próprio dízimo – a ênfase dada à necessidade de ofertas me parece muito mais acentuada nestas orientações religiosas, meus comentários serão majoritariamente a respeito delas.

O pedido do dízimo nessas congregações é um processo que se utiliza predominantemente de três sentimentos distintos, que podem ser estimulados em separado ou em combinação: o amedrontamento, a culpa e a ambição. Mas antes de falarmos desses métodos, vamos conhecer um pouco a respeito da história do dízimo.

O termo dízimo vem do latim “decimus” e significa a décima parte de algo. Inicialmente ele não se referia à oferta de dinheiro, e sim à doação de um décimo da produção agrícola. A primeira menção bíblica feita ao dízimo ocorre em Gn 14:20, quando Abrão se encontra com o rei/sacerdote Melquisedeque depois de conduzir uma campanha militar a fim de resgatar seu sobrinho Ló, e divide com o religioso uma parte de seus espólios de guerra:

E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo. E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra; E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.

Gênesis 14:18-20

A lei mosaica institui o dízimo de modo mais preciso a partir dos livros de Levíticos, Números e Deuteronômio, estabelecendo para ele vários propósitos diferentes. O sistema de dízimos era organizado em um ciclo de três anos, devendo uma parte ser oferecida a Jeová em holocausto, outra parte consumida pelo próprio fiel em locais e períodos específicos, como forma de lembrar o temor a Deus, e outra parte era dedicada à assistência social aos menos favorecidos: viúvas, órfãos, estrangeiros e membros da tribo dos levitas.

Os levitas eram descendentes da tribo de Levi que trabalhavam  como funcionários nos templos, e, por isso, não tinham direito a patrimônio territorial (Nm 18:21). O dízimo era, então, sua única fonte de sustento, e, portanto, não era opcional, sendo compulsório aos seguidores da Torah, funcionando, assim, como uma espécie de taxa exigida do povo de Israel.

Porém, a exemplo dos tempos modernos, parece que já naquela época alguns representantes da classe clerical não demonstravam muito boa vontade em renunciar tão desapegadamente a bens materiais. Alguns sacerdotes que controlavam a distribuição do dízimo, percebendo uma boa oportunidade de aumentar seu patrimônio pessoal, deixavam de repassar as ofertas destinadas originariamente aos levitas e aos necessitados e a oferecer em sacrifício somente os bens de menor valor, como animais coxos ou doentes, mantendo para si os recursos mais valorosos.

Percebendo a adoção desse comportamento lesivo para a sociedade, as autoridades hebraicas passaram a se utilizar de uma tática já velha conhecida dos religiosos para manter as coisas em ordem: instilar o medo. O profeta Malaquias, que foi um contemporâneo de outros profetas hebraicos importantes como Esdras e Neemias, escreveu então um texto condenando as atitudes desses sacerdotes mesquinhos, dizendo que depreciar o dízimo era como roubar do próprio Deus e ameaçando-nos com maldições, como receber fezes no rosto (!) e coisas do gênero:

Agora, ó sacerdotes, este mandamento é para vós. Se não ouvirdes e se não propuserdes, no vosso coração, dar honra ao meu nome, diz o Senhor dos Exércitos, enviarei a maldição contra vós, e amaldiçoarei as vossas bênçãos; e também já as tenho amaldiçoado, porque não aplicais a isso o coração. Eis que reprovarei a vossa semente, e espalharei esterco sobre os vossos rostos, o esterco das vossas festas solenes; e para junto deste sereis levados.

Malaquias 2:1-3

A despeito de as advertências cropológicas de Malaquias estarem se referindo somente a um comportamento específico de um grupo social específico, vivendo em uma época específica e em um contexto religioso específico, é claro que isso não impede que líderes religiosos atuais utilizem essas passagens para convencer os outros de que na verdade a oferta do dízimo se refere a dinheiro e é devida por todos que queiram ficar bem nas graças de Deus.

Por isso, foi em boa parte graças a esse texto que se tornou possível a aplicação da primeira tática para o convencimento de que o pagamento do dízimo é uma obrigação de todo bom fiel: o amedrontamento. Utilizando-se de uma interpretação particular desse livro de Malaquias e de algumas outras passagens que podem ou não ter a ver com a oferta do dízimo, alguns líderes religiosos fazem os fiéis acreditarem que se não oferecerem parte de seus ganhos para o templo, estarão desagradando ao próprio Deus, que de alguma forma os amaldiçoará por isso.

Esse método do amedrontamento para se conseguir o dízimo é atualmente mais observado nas congregações cristãs chamadas neopentecostais, embora ele não seja totalmente ignorado por outras, como nos demonstra o site da Pastoral do Dízimo:

“Diz Javé: “Vocês perguntam: Em que te enganamos? No dízimo e na contribuição. Vocês estão ameaçados de maldição, e mesmo assim estão me enganando, vocês e a nação inteira! Tragam o dízimo completo para o cofre do Templo, para que haja alimento em meu Templo.”

Porém, a maior parte das outras doutrinas cristãs, entre as quais a católica, preferem, hoje em dia, se utilizar do segundo método de convencimento para a oferta do dízimo: a culpa. Essa estratégia funciona de dois modos: ou se equipara a oferta do dízimo a uma forma de se redimir pelos pecados cometidos ou como meio de demonstrar gratidão pela graça divina.

Como, obviamente, todo ser humano comete erros e, à luz da religião, alguns desses erros podem ser vistos como transgressões diretas a mandamentos divinos, as igrejas sabem que não existe um ser humano que possa ser considerado livre de pecados no mundo. Afirma-se, então, que o dízimo é uma forma de se compensar aos olhos de Deus essas transgressões.

Já pelo prisma da gratidão, utiliza-se esse método, por sua vez, buscando afirmar que todo sucesso conquistado por um fiel nesta vida é alcançado somente por permissão divina. Portanto, uma parte dos ganhos é automaticamente devida a Deus como forma de retribuição por Sua graça.

Assim, os fiéis que não contribuírem passam a se sentir culpados por não estarem demonstrando ou seu  arrependimento ou seu agradecimento perante Deus.

A tática da culpa conta basicamente com a consciência pesada dos fiéis por se saberem pecadores.

A tática da culpa conta basicamente com a consciência pesada dos fiéis.

E, por fim, temos o terceiro método utilizado para se arrecadar o dízimo, que é a ambição.

Embora o termo “ambição” tenha claramente adquirido uma conotação negativa em nossa sociedade, eu o utilizo aqui apenas na acepção de se conquistar melhorias na vida. Nesse sentido, podemos dizer que todo ser humano é ambicioso em algum nível. Por mais humilde e conformada que uma pessoa seja, ao surgir uma oportunidade de se conquistar algo que melhorará de alguma maneira sua vida, ninguém em sã consciência deixa que ela passe em branco.

A oferta do dízimo, nesse caso, é apresentada como uma espécie de acordo feito com a entidade divina, onde você dá uma parte de seus ganhos, sob a promessa de conseguir a graça de Deus futuramente. A Igreja Católica utiliza essa tática de maneira sutil, dando a entender em alguns textos e sermões que quem contribui com o dízimo receberá bençãos divinas em sua vida.

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Porém, mais uma vez podemos ver essa tática sendo utilizada com muito mais ênfase pelos movimentos neopentecostais. A epítome dessa estratégia pode ser observada na famigerada teologia da prosperidade, uma doutrina que defende que o contrato feito entre os homens e Deus através da oferta de doações será recompensado com a prosperidade no futuro, seja ela na forma de dinheiro, saúde ou felicidade.

Depois de identificar a utilização de todos esses métodos de convencimento para a doação do dízimo, a que conclusão podemos chegar a respeito desse tipo de oferta? Que o dízimo é uma coisa nefasta, perniciosa, que deveria ser proibida?

Bom, não exatamente. Pelo menos essa não é essa a posição que eu defendo em relação ao dízimo, pelo menos não de maneira tão draconiana.

Qualquer instituição organizada por pessoas que tenham um objetivo em comum precisa de dinheiro para se sustentar. Isso é válido tanto para os templos religiosos quanto para qualquer outro tipo de sociedade: clubes de futebol, sindicatos, fã-clubes, ONGs etc. Nenhuma delas se mantém apenas pela boa vontade de seus integrantes. Contas precisam ser pagas, funcionários têm que receber salários, tributos são cobrados pelo governo, imóveis demandam aluguéis. O dinheiro para pagar todas essas coisas tem que sair de algum lugar, e geralmente é dos próprios integrantes da instituição. Assim, ao meu ver, já que nossa legislação dá atualmente às igrejas o mesmo direito que as outras entidades têm de serem constituídas livremente, tem que dar também o direito de cobrar contribuições de seus fiéis como qualquer outra instituição.

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As contribuições ofertadas aos clubes de futebol mostram como não só as ideologias religiosas podem ser alvo de ofertas patrimoniais.

Porém, embora suas finalidades sejam semelhantes, a natureza do dízimo é bem diferente da natureza das contribuições voluntárias oferecidas a outras instituições.

Quando colaboramos monetariamente com um clube, uma associação, ou qualquer outro tipo de organização, fazemos isso porque analisamos os objetivos daquela entidade criticamente e concordamos com as propostas por ela oferecidas. O dinheiro ou os bens doados serviriam então para ajudar a manter ou expandir as ações e/ou ideologias defendidas pela instituição.

Em certa medida isso até ocorre com as religiões também. Os fiéis que contribuem com o dízimo acreditam, entre outras coisas, que estão ajudando a espalhar as palavras originárias da entidade divina na qual acreditam a pessoas ignorantes a seu respeito, o que, sob a ótica deles, é uma ação solidária.

No entanto, há um outro motivo que leva os crentes a ofertarem o dízimo e que não pode ser reproduzido por nenhuma outra instituição que não se utilize de fundamentos religiosos: a crença de que aquilo é uma ordem divina e contribui de alguma forma para a salvação da alma do contribuinte.

A grande maioria dos dizimistas têm a visão de que suas ofertas destinam-se a ajudar na execução da obra de Deus, isso quando não acreditam estar doando o dinheiro diretamente a Ele. E é interessante notar como os líderes religiosos fazem questão de enfatizar que as ofertas feitas pelos fiéis em seus templos destinam-se não ao templo ou aos líderes religiosos, como de fato elas são, mas à entidade divina na qual eles creem ou à realização de sua obra, embora não se preocupem em detalhar como exatamente esses valores são transferidos para a conta bancária divina ou a finalidade dada a eles.

Quando, por exemplo, o pastor Silas Malafaia aparece no programa da Marília Gabriela em posse de sua declaração do imposto de renda para demonstrar que a doação dos fiéis não vai para sua conta, trata-se obviamente de um engodo por parte do pastor. É óbvio que as ofertas não vão para sua conta pessoal, vão para a conta da instituição religiosa sob seu poder. E a partir daí ele, como dirigente da instituição, pode fazer o que quiser com o dinheiro. Se o nobre líder religioso tivesse mesmo a intenção de mostrar como a oferta dos fiéis é utilizada na prática para a realização da obra de Deus, teria apresentado não o seu imposto de renda, mas o da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, junto com os livro-caixas demonstrando a aplicação dos valores recebidos. O que obviamente ele nunca faria.

Além disso, muitos líderes religiosos conseguem convencer fiéis que já passam por imensas dificuldades financeiras a doarem uma parte de sua renda para a igreja, sob a promessa de que no futuro receberão aquilo de volta multiplicado e nunca mais passarão por apertos econômicos, a despeito de essa privação fazer com que suas dificuldades fiquem ainda maiores a cada dia que passa sem que essa vaga promessa se cumpra.

Somando-se tudo isso à doutrinação infantil incutida em algumas crianças por líderes religiosos que as obrigam a imaginar desde pequenas que até mesmo seus brinquedos devem ser doados para o templo, torna-se muito tênue a linha que separa a doação consciente e voluntariosa do dízimo da coação moral. Não acredito que seria exagero considerar que em alguns casos a cobrança do dízimo equivale à extorsão. De fato, até a justiça já reconheceu a ilegalidade de algumas dessas doações, obrigando a IURD a devolver uma oferta de R$ 74 mil feita por uma de suas então seguidoras.

É interessante notar também que, enquanto os fiéis se esforçam tanto para manter a doação de uma parcela de seu dinheiro suado, muitas entidades religiosas, assim como seus líderes, conseguem dispor de uma quantia de dinheiro cada vez mais volumosa. Tivemos uma demonstração esdrúxula do esbanjamento que o dízimo permite aos líderes religiosos em um culto promovido na Universal do Reino de Deus, em que um dos pastores resolveu entrar com seu carro importado no templo, a fim de demonstrar o que seus seguidores poderiam alcançar se permanecessem fiéis nas ofertas para a igreja.

Permaneça dando o dízimo e um dia você poderá ter seu próprio carro importado para entrar no templo.

“Continue dando o dízimo e um dia você também poderá  entrar de carro importado no templo”.

Também não é novidade para ninguém a lista elaborada pela revista Forbes no ano passado relacionando os cinco pastores mais ricos do país, onde o último colocado dispõe de um capital de R$ 65 milhões. Nesse exato momento, a Igreja Universal do Reino de Deus está investindo a singela quantia de R$ 685 milhões na construção de uma réplica do tempo de Salomão em São Paulo. E a Igreja Católica não fica atrás, sendo dona de seu próprio Estado, dispondo de milhares de imóveis ao redor do mundo inteiro e de uma quantia de dinheiro incalculável.

A Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo, que também deve ter custado alguns milhões de dólares para a Igreja Católica

A Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em SP. O segundo maior templo católico do mundo, que também deve ter custado alguns milhões de reais para a Igreja Católica

Enquanto isso, os seguidores dessas e de algumas outras orientações religiosas seguem doando dinheiro para elas, imaginando que desta maneira estão contribuindo para fazer do mundo um lugar melhor. Eu particularmente acho que se eles querem usar uma parcela de seu salário para a prática do bem, o fariam de maneira mais eficiente se financiassem diretamente alguma boa ação, por exemplo, doando o dinheiro para um orfanato, um hospital, um asilo etc. Quem quer realmente praticar boas ações não precisa de um intermediário para isso, ainda mais quando esse intermediário se trata de uma instituição que já dispõe de milhões de reais em caixa e tem o poder de exercer enorme influência política no país.

Nesse ponto, algumas pessoas poderiam dizer que, como o dinheiro doado é dos fiéis, eles têm a liberdade de fazer o que quiserem com o valor. Se querem doar para a igreja de sua escolha, é problema deles.

Entretanto, em casos de coação moral ou psicólogica, o problema não está na parte que doa o dinheiro e sim na parte que o recebe, que o faz de má-fé (com o perdão do trocadilho). E é isso que torna essa transação ilícita. Pelo mesmo motivo, um sequestrador que recebe o dinheiro de um resgate não se torna proprietário dessa verba, ainda que a vítima do crime tenha querido dar o dinheiro para ele. A questão maior nesses dois casos não é se a pessoa que está dando o dinheiro quer fazê-lo ou não, já que quem sofre coação moral tem sua vontade suprimida, e sim se a pessoa que recebe o dinheiro o faz de boa-fé, o que certamente não ocorre em muitos casos de oferecimento do dízimo. Para se analisar então se as ofertas feitas pelos fiéis são válidas ou não, não se deve analisar simplesmente se eles querem fazê-la, e sim de que maneira exatamente esse pedido é feito por seu líder religioso.

De qualquer modo, há um equívoco ainda mais evidente em qualquer doutrina que pregue que a doação do dízimo é essencial para se alcançar alguma prosperidade ou felicidade. Se essa afirmação fosse verdade, qualquer pessoa que não colaborasse monetariamente com alguma instituição religiosa jamais poderia ser considerada próspera, seja lá em que sentido os líderes religiosos queiram empregar essa palavra, o que evidentemente não é verdade. Existem aos milhões pessoas que não só não colaboram com nenhuma igreja, como também não seguem nenhuma religião, e vivem felizes, saudáveis e satisfeitas.

De fato, creio que eu mesmo seria um ótimo exemplo disso. Sou feliz, tenho um ótimo emprego, uma família formidável e bem estruturada, não considero que tenho nenhum problema muito sério e me considero uma pessoa boa. Não sou rico, mas nenhuma das minhas necessidades básicas deixam de ser atendidas por falta de dinheiro e, de vez em quando e com algum esforço, ainda posso me conceder alguns caprichos. E eu não só não colaboro com nenhum templo, como não sigo religião nenhuma e nem acredito na existência de entidades divinas há pelo menos uns dez anos.

Portanto, se contra todas as probabilidades, realmente existisse um Deus e ele tivesse alguma exigência cósmica misteriosa para distribuir a prosperidade entre os seres humanos, eu diria que a maneira como eu vivo, ignorando as religiões e buscando fazer o bem sempre que possível, deve estar bastante de acordo com essas exigências.

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DIA DA HERESIA – Casamento Homossexual

dia da heresia

Bem vindos a mais um DIA DA HERESIA. Este é um espaço utilizado para se falar tudo que for relevante a respeito de um tema controverso específico que envolva a religião, apresentando minha opinião como ateu. O dia da Heresia ocorre todo terceiro domingo de cada mês.

E o tema desse mês será:

CASAMENTO HOMOSSEXUAL

Em primeiro lugar, deixe-me registrar que eu acho extremamente bizarro em pleno Brasil do século XXI ainda haver a necessidade de alguém escrever um texto defendendo a união entre duas pessoas que se amam. Parece que estou argumentando com um viajante do tempo vindo da Idade Média que o uso de ervas para fazer um chá não indica que uma pessoa seja bruxa… Mas tudo bem, vamos lá…

Em maio de 2011, uma decisão do Supremo Tribunal Federal surpreendeu o Brasil e fez os conservadores de todo o país ficarem alvoroçados. Em uma votação unânime a corte reconheceu que a expressão “homem e mulher” deveria ser afastada do artigo 1.723 do Código Civil, que trata da união estável, permitindo sua interpretação extensiva aos casais de mesmo sexo.

Art. 1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família.

Isso significa que, a partir de então, a união estável entre pessoas do mesmo sexo deveria ter o mesmo reconhecimento de entidade familiar que a união entre heterossexuais, teoricamente permitindo que casais homossexuais registrassem sua união estável em cartórios.

Entretanto, muitos cartórios do país ainda continuavam se recusando a reconhecer a união estável ou a convertê-las em casamento quando os requerentes eram um casal de homossexuais, alegando que não havia previsão legal para isso, uma vez que a decisão do STF não tinha força de lei.

Então, em resposta a essas alegações, em maio do ano passado, o CNJ, Conselho Nacional de Justiça, aprovou, por 14 votos a 1, uma resolução apresentada por seu presidente, o ministro Joaquim Barbosa, obrigando os cartórios de todo o país a aceitarem o casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo, deixando claro que nenhum casal, homossexual ou não, poderia ter o pedido de casamento ou reconhecimento de união estável recusado com base na orientação sexual de seus integrantes.

Segundo o texto, “é vedada às autoridades competentes a recusa de habilitação, celebração de casamento civil ou de conversão de união estável em casamento entre pessoas do mesmo sexo.” Na ocasião, Joaquim Barbosa afirmou que a decisão “remove obstáculos administrativos à efetivação” da decisão anterior do Supremo. Essa resolução tem força de lei e, sendo descumprida, cabe comunicação ao juiz corregedor do respectivo tribunal local, e até mesmo recurso ao próprio CNJ.

Essas decisões da Justiça vieram pôr fim a uma situação há muito controvertida e que se dependesse da boa vontade de nossos parlamentares provavelmente não seria solucionada tão cedo. A regularização do casamento entre pessoas do mesmo sexo no Brasil.

Mas, para começarmos a falar a respeito de casamento homossexual, primeiro temos que definir exatamente o que é “casamento”. Essa palavra tão simples pode ter significações diversas, dependendo do contexto em que é empregada.

Para o Estado, o casamento é um mero procedimento administrativo. É simplesmente o reconhecimento governamental de uma relação existente entre duas pessoas. Essa relação, por sua vez, pressupõe direitos e deveres entre as duas partes envolvidas, previstos em lei. Assim, o casamento seria mais ou menos como uma espécie de contrato firmado entre os dois nubentes.

Já para as doutrinas religiosas, o termo tem outro significado. Assim como o casamento civil, ele também representa a união entre duas pessoas, porém essa união se submete às regras da religião em questão, podendo ter objetivos e exigências totalmente distintos do casamento reconhecido pelo Estado. Para a Igreja Católica, por exemplo, o casamento (ou matrimônio) representa um dos sacramentos – os sinais sagrados que visam renovar a salvação da humanidade – e, graças a uma interpretação bíblica, só pode ser realizado entre um homem e uma mulher.

Uma maneira efetiva da humanidade ser salva, segundo a ICAR.

Uma maneira efetiva da humanidade ser salva, segundo a ICAR.

E há ainda um terceiro entendimento do termo casamento, este derivado das mudanças socioculturais ocorridas em nossa sociedade nos últimos anos, que é quando duas pessoas resolvem morar juntas, dividindo o teto, a cama, as contas e as preocupações, porém sem formalizar a união. Embora a sociedade veja estas pessoas como casadas de fato, o Direito considera essa relação como uma união estável, que apresenta algumas diferenças sutis, porém importantes, para com o casamento.

Portanto, quando se fala em casamento, podemos estar nos referindo ao casamento civil (estatal), ao casamento religioso (matrimônio) ou à união estável (“juntada”). Porém, quando se discute o casamento entre pessoas do mesmo sexo, normalmente os movimentos em seu favor estão se referindo ao primeiro dos conceitos acima, o casamento civil.

E a explicação para isso é simples. Se virmos a união estável como casamento, então poderíamos considerar que o casamento entre pessoas do mesmo sexo na prática já existe há muitos anos no país, antes mesmo do Supremo ter decidido qualquer coisa. Afinal, o que não faltam por aí são exemplos de casais de homossexuais e lésbicas vivendo juntos há anos, como qualquer outro casal heterossexual. E iriam continuar vivendo, independente do que a lei dissesse ou o do que qualquer religioso achasse disso. E se nos referirmos ao casamento religioso, isso se torna um assunto particular de cada religião, retirando o Estado da equação. Cada crença religiosa que defina o que entende por casamento como melhor entender.

Portanto, o que se reivindicava para os homossexuais era que o Estado lhes desse a oportunidade de ter suas uniões reconhecidas oficialmente, permitindo que eles se casassem no civil, como já era permitido entre um homem e uma mulher.

Achava-se que com essas eloquentes decisões judiciais o assunto estaria encerrado. Porém, aparentemente isso está longe de acontecer. Assim que o CNJ divulgou sua decisão, diversos grupos contrários ao casamento gay resolveram se manifestar, desaprovando o posicionamento do judiciário e clamando a existência de uma suposta “ditadura gay”.

Aliás, eu confesso que sempre considerei a causa defendida por esses grupos uma coisa difícil de se entender. Por que, afinal de contas, alguém seria contra um determinado grupo de pessoas adquirirem direitos que já são garantidos a outras pessoas? E por que elas acham que está sendo imposta uma “ditadura” se nenhum direito está sendo efetivamente retirado de ninguém? Talvez as pessoas que utilizam essa expressão não tenham muito conhecimento geopolítico, mas ditaduras não costumam distribuir direitos a quem não os tem, e sim retirar de quem já tem. E nesse caso ninguém está tendo nenhum direito tolhido. Mas enfim, divago…

Assim que o CNJ divulgou sua resolução, o pastos Silas Malafaia deu uma declaração criticando a decisão e afirmando que o conselho extrapolou sua competência ao decidir sobre esse assunto. O pastor Marco Feliciano, aproveitando a proximidade do fim de seu mandato como presidente da Comissão de Direitos Humanos, aprovou dois projetos legislativos que visam retirar o direito de casamento obtido pelos homossexuais e rejeitou um terceiro que almejava garantir o direito em lei. O vereador Carlos Apolinário alegou que o STF só tomou essa postura por estar sendo pressionado pelos gays a se posicionar, e afirmou coisas como:

“…os gays querem enfiar tudo goela abaixo do Congresso e da sociedade. Os gays precisam aprender a conviver com quem não concorda com eles. Eles têm de se acostumar ao fato de existirem pessoas que continuarão contrárias ao casamento gay, mesmo que ele seja aprovado.”

É irônico perceber que o digníssimo vereador acha que os gays devem aprender a viver com opiniões contrárias às deles, embora ele não pretenda fazer o mínimo esforço para conviver com pessoas que discordem de sua maneira de pensar. E não sei porque ele acha que os gays estão exigindo que as pessoas passem a ser a favor do casamento gay. Mesmo se ele fosse aprovado, obviamente as pessoas poderiam continuar sendo contrárias à sua realização.

Feliciano defendendo os interesses da nação no Congresso.

Feliciano defendendo os interesses da nação no Congresso.

Todos esses ilustres cidadãos acima deixaram bem claro que abominam o casamento gay, que são contra relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo e que acham que ser gay é errado, porém não apresentam um argumento que responda à esse questionamento: por que o Estado deveria impor o ponto de vista deles sobre outras pessoas que pensem diferente?

O que a maior parte das pessoas que se posicionam contra o casamento gay falham em perceber é que o fato de o Estado permitir que alguém faça alguma coisa não obriga ninguém a achá-la boa ou correta. Eu, por exemplo, tenho ojeriza a funk, porém jamais ia lutar para que o Estado proibisse outras pessoas de ouvir esse ritmo. Eu estaria apenas tolhendo a liberdade delas em adequação a meu gosto pessoal. E o fato de elas poderem ouvir esse ritmo também não significa que eu tenha que achá-lo legal ou seja obrigado a ouvi-lo.

É mais do que óbvio que o principal argumento de que essas pessoas dispõem para justificar seu posicionamento contra a união entre pessoas do mesmo sexo é o simples fato de querer impor seu modo de pensar sobre outras pessoas que pensem diferente.

Certamente esse não é um comportamento exclusivo dos religiosos. Eu já conheci ateus e pessoas sem religião que eram contra o casamento homossexual, pelo simples fato de não gostarem de gays. Confesso que  desconheço o processo lógico que as levava a pensar assim, me levando a imaginar que era pura discriminação de sua parte. Afinal, como eu demonstrei no exemplo acima, o simples fato de não gostar de determinado posicionamento não significa que outras pessoas não possam gostar dele e segui-lo.

Porém, entre os religiosos essa condenação é muito mais expressiva e perniciosa. Devido à estrutura doutrinária adotada pela maioria das religiões, a questão do casamento gay é ofuscada por uma série de dogmas, crenças, mitos e ideias pré concebidas, impedindo que as pessoas pensem sobre o assunto sob um prisma racional. E agrava ainda mais a situação o fato de os líderes religiosos disporem de tanto poder político em nosso país.

A maior parte dos argumentos usados pelos religiosos para condenar o casamento entre homossexuais é baseada em ideias teológicas que, embora possam ser aplicáveis à doutrinas religiosas, não podem ser relevantes à legislatura de um Estado laico, sob pena de se impor a crença de uma religião específica a todos os cidadãos, ainda que eles não a sigam.

Passo a listar a seguir alguns dos argumentos com que já me deparei em rejeição à legalização do casamento homossexual e a minha opinião a respeito:

  • Ser gay não é natural – Em primeiro lugar, quem disse que ser gay não é natural? Aliás, o que se entende por “ser natural”? Significa que outras espécies na natureza não realizam essa conduta? Porque se for por isso, então podemos considerar que ser gay é a coisa mais natural do mundo, já que centenas de outras espécies apresentam comportamento sexual entre indivíduos do mesmo gênero. E se por acaso se está referindo à “natureza humana”, que os seres humanos que não devem fazer sexo entre pessoas do mesmo gênero, esse argumento é contraditório, já que, uma vez que existem seres humanos que adotam esse comportamento, tem que ser necessariamente porque ele faz parte da natureza humana. E em segundo lugar, por que diabos o fato de alguma atividade ser natural ou não deveria ter alguma influência em nossas leis a autorizarem? Seres humanos lidam com coisas que não fazem parte da natureza cotidianamente. Ou alguém acha que faz parte da natureza usar roupas? Dirigir automóveis? Usar computadores? Aliás, se existe algo que definitivamente não faz parte da natureza é o próprio casamento. Não conheço uma espécie animal que precise trocar alianças ou assinar um papel para manter um relacionamento. Então se alguém acha que o casamento gay não deve ser permitido por não fazer parte da natureza, seria no mínimo coerente que ele estendesse essa forma de pensar a todos os casórios.
  • Liberar o casamento gay vai fazer com que mais pessoas virem gays – Primeiramente é importante ressaltar que ninguém “vira gay”. A visão predominante hoje entre os pesquisadores da área é de que a orientação sexual é determinada por fatores biogenéticos e, portanto, não está sujeita a escolhas deliberadas. Mas, concedamos o benefício da dúvida e digamos que fatores externos podem influenciar na orientação sexual de alguém. O que essas pessoas imaginam, que alguém vai ver um casal gay se casando e de repente vai querer fazer o mesmo? Ou alguém irá mudar todo o estilo de vida porque ficou sabendo que agora os homossexuais têm o mesmo direito dos héteros? Ora, por essa linha de pensamento deveríamos supor que não há mais gays no Brasil, já que casamentos héteros são realizados há décadas, enquanto nenhum gay havia se casado até recentemente. Suspeito que o máximo que pode acontecer é que mais gays saiam do armário para perseguirem seus direitos, mas isso não quer dizer que o número de gays irá aumentar, eles só vão se tornar socialmente mais visíveis. Mas talvez seja justamente este o problema para quem é contra. Na verdade eles gostariam que os gays continuassem oprimidos, não possuindo os direitos que os outros já tinham, já que o contrário os tornaria iguais perante o resto da sociedade.
  • Autorizar o casamento gay vai abrir a porteira para outros tipos de casamentos bizarros, com animais ou crianças – Pérolas como essa já foram afirmadas por pessoas como o pastor Silas Malafaia. Trata-se de uma falácia lógica conhecida como Slippery Slope, ou Bola de Neve, que consiste em partir de uma proposição e encadear outras proposições até chegar a uma conclusão absurda, sem nenhum argumento racional ou mecanismo que demonstre a inevitabilidade do afirmado. Não há nenhum motivo para se imaginar que as situações mencionadas irão acontecer, a não ser o fato de quem as afirma não ter interesse em ver realizada a primeira situação.
  • Não é casamento. O casamento é uma instituição tradicionalmente entre homem e mulher – Se estamos falando do casamento religioso, ele realmente sempre foi entre homem e mulher e se vai permanecer assim ou não é problema da religião em questão e de seus seguidores, não do Estado. Mas se estamos falando do casamento civil, que é o reivindicado pelos homossexuais, então não há instituição mais mutante no ordenamento jurídico. Basta lembrar que há algumas décadas o casamento entre pessoas de diferentes “raças” não era permitido. Se um homem branco fosse casar com uma negra o Estado não reconheceria essa união. E até 1977 o casamento entre duas pessoas era um vínculo indissolúvel, porém, a partir daquele ano, qualquer pessoa casada poderia se divorciar e casar novamente. O casamento também já foi uma maneira de selar alianças políticas e econômicas e de libertar ou fazer escravos. Como se pode ver, o conceito civil de casamento é constantemente adaptado de acordo com a realidade social. Então essa seria só mais uma das alterações ocorridas em face de novos entendimentos. Afinal, se as leis não pudessem se adaptar a novas realidades, sob a desculpa da tradição, ainda estaríamos matando quem fosse considerado herege ou apedrejando quem cometesse adultério. E se o problema é com a nomenclatura, então se está discutindo semântica. Se isso vai satisfazer aos críticos, que eles deem então à união entre duas pessoas do mesmo sexo outro nome, sei lá, “gaymento” – que na prática vai permitir os mesmo direitos do casamento – e permitam que eles se casem. Ou, no caso, que se “gayem”.
  • O casamento hétero perderia o sentido – Eu não vejo porque permitir que gays se casem automaticamente fará com que os outros casamentos realizados percam o sentido. Afinal, os casais héteros que se casassem continuariam se amando, continuariam tendo os mesmos direitos e deveres, continuariam podendo gostar ou não gostar do que quisessem e poderiam continuar seguindo qualquer crença que possuíssem. A única coisa que aconteceria de diferente é que casais do mesmo sexo poderiam fazer a mesma coisa e eu não vejo como isso poderia afetar a vida ou o modo de pensar de alguém que não fizesse parte desses casais. É o mesmo que afirmar que o fato de as mulheres agora poderem votar faz com que meu direito de voto perca o sentido.
  • Os gays já têm a união estável, não precisam do casamento – Se alguém acha que os gays não precisam se casar por já poderem se juntar em união estável, não vejo porque esse mesmo pensamento não possa ser ampliado a todos os casais, gays ou não. Se o casamento é desnecessário por já se possuir o direito de se unir estavelmente, ninguém precisa se casar, oras. Deveríamos abolir a instituição do casamento de nossas leis. Mas o fato de o casamento ainda existir em nosso Código Civil é a prova cabal de que união estável e casamento não são efetivamente a mesma coisa. A diferença entre um e outro é basicamente o acesso a diversos direitos que os casados têm entre si e que não são garantidos às pessoas que vivem em união estável. Entre esses direitos encontram-se o de poder adotar o sobrenome do parceiro, o de inscrever o parceiro como dependente de servidor público ou na previdência, o de adotar filhos em conjunto, de ter direito à herança, de acompanhar a companheira ao parto ou autorizar cirurgias de risco, entre diversos outros. Por mais que alguns casais conviventes em união estável consigam esses direitos reinvicando-os administrativa ou judicialmente, eles são garantidos automaticamente para quem é casado.
  • Casamentos entre gays não geram filhos, portanto não fazem sentido – Claro, porque é só para isso que as pessoas se casam, para colocar filhos no mundo. Eu entendo que isso possa fazer sentido para alguém que segue um livro que dá ordens como “crescei e multiplicai-vos”, a despeito de já estarmos em um mundo onde a superpopulação é um problema constante para as autoridades, mas o fato é que pessoas se casam por diferente motivos. Sim, um deles pode ser ter filhos, mas se eu tivesse que arriscar eu diria que, pelo menos nos países democráticos, o principal motivo para as pessoas se casarem é o simples fato de amarem outra pessoa e quererem passar a vida ao lado dela. Além disso, se fossemos levar esse argumento a sério, pessoas héteros que fossem estéreis ou idosas também não poderiam se casar. Ou mesmo pessoas que podem ter filhos, mas não planejam tê-los. Isso sem contar com o fato de que casais gays podem sim ter filhos: através da adoção. Aliás, essa era uma das principais reivindicações para quem apoiava o casamento gay, pois isso permitiria que eles pudessem adotar filhos. E se alguém acha que permitir que uma criança seja criada no orfanato é melhor que ser criada por um casal do mesmo sexo com amor e carinho, desconfio que a bússola moral dessa pessoa já esteja seriamente comprometida pelo preconceito.
  • Um filho criado por um casal gay também será gay – Mais uma vez, uma pérola apresentada por nosso digníssimo pastor Silas Malafaia, na entrevista que ele concedeu à Marília Gabriela. Mas o fato é que a orientação sexual dos pais não influencia a dos filhos. Isso já foi desmistificado por pesquisadores da área, assim como outros mitos a respeito de filhos de pais gays, como o que afirma que eles terão problemas psicológicos ou sofrerão abusos sexuais. Aliás, basta fazer uma simples observação para perceber que esse argumento não tem o menor sentido lógico: se todos os casais gays gerasse filhos gays, todos os casais héteros gerariam filhos héteros. E é óbvio que todos os gays existentes hoje em dia não são somente filhos de casais gays.
  • O casamento teve origem na religião, e a maioria dos religiosos são contra – Em primeiro lugar, como eu já mencionei acima, o casamento reivindicado pelos gays não é o religioso, é o civil, tratando-se de conceitos totalmente diferentes. Na prática, nada mudaria para religião nenhuma. Os líderes que não quisessem celebrar cerimônias de casamento gay em suas instituições não seriam obrigados a isso (embora eu me pergunte que gay gostaria de casar em uma instituição que os condena) e os fiéis que não gostassem de gays poderiam continuar não gostando. Ninguém muda de opinião por conta de uma lei. E em segundo lugar, o casamento não teve origem na religião. Antes de os religiosos definirem o que era e como deveria ser o casamento, uniões entre casais já eram celebradas na forma de acordos entre o pai da noiva e o noivo e implicava no pagamento de um dote. E, mesmo considerando-se que o casamento tenha sido invenção da religião, teríamos outro problema. Qual religião deveria ser privilegiada com o poder de definir o que é ou não é casamento? Porque certamente todas as religiões existentes vêem o tema de forma diferente. Duvido que um casamento hinduísta ou islâmico tenha exatamente as mesmas definições de um católico ou protestante. Privilegiar qualquer posição religiosa, ainda que a majoritária, seria desconsiderar todas as outras discordantes, e arriscaria a transformar o Estado em uma teocracia, defendendo oficialmente uma determinação religiosa, desmantelando-se, assim, a laicidade estatal.

Como se pode perceber, eu ainda não fui apresentado a um argumento contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo que no final das contas não fosse sustentado por uma crença religiosa, por desinformação ou por pura discriminação. E nenhuma dessas bases pode servir de fonte legal a posições adotadas por um Estado de Direito laico e democrático.

Eu fiz uma rápida pesquisa online para saber o posicionamento de dois diferentes grupos de pessoas a respeito do casamento gay: usuários do site Gospel Mais e ateus que frequentam a página da Associação de Ateus e Agnósticos no Facebook. Minha pergunta foi a mesma para os dois grupos: “O que vocês acham a respeito do casamento entre pessoas do mesmo sexo? São a favor, são contra, são neutros, e por quê?“. É óbvio que a intenção dessa pergunta não era buscar nenhum posicionamento oficial ou estatístico dos referidos grupos, ela foi feita como mera curiosidade. Mas as respostas recebidas em cada grupo de pessoas é bem sintomática de como a doutrinação religiosa pode interferir no posicionamento a respeito do tema. Primeiro, vejamos algumas das respostas do Gospel Mais:

resposta1

resposta2

resposta3

E agora, algumas das respostas dadas pelos ateus:

resposta4

resposta5

resposta6

Como se vê, quando não há nenhuma doutrinação religiosa ou discriminatória em consideração, o posicionamento a respeito do casamento homossexual parece bem óbvio a qualquer ser humano que possua um mínimo de consideração em relação a seus semelhantes.

Nos encontramos em um momento determinante em relação a este assunto. Provavelmente as decisões tomadas por nossos representantes nos próximos meses serão decisivas para que o Brasil finalmente decida como será o futuro de milhões de casais homossexuais que se amam e gostariam de constituir uma família.

Eu sinceramente espero que daqui a alguns anos possamos olhar para trás e ver a polêmica existente em relação ao casamento homossexual com a mesma estranheza com que olhamos a polêmica existente em relação ao divórcio três décadas atrás. Naquela época, quem se posicionava a favor da separação entre os casais também era visto como uma “ameaça à família”. Na sessão que aprovou o divórcio, um parlamentar chegou a afirmar que o país criava uma “fábrica de menores abandonadas” e a Igreja também se posicionou firmemente contra sua aprovação. No entanto, hoje em dia achamos a coisa mais natural do mundo alguém ser divorciado e não esperamos que nenhuma criança seja melhor ou pior criada por conta de seus pais não serem mais casados.

E é mais do que óbvio que a religião terá mais uma vez um papel crucial no posicionamento de nosso Estado. Ou a laicidade estatal irá prevalecer e poderemos progredir, nos juntando ao grupo de países que já aprovaram o casamento entre homossexuais, como Dinamarca, Noruega, Holanda, Canadá e França, ou nos juntaremos às nações onde a religião ainda tem grande influência na legislatura e, portanto, não reconhecem o casamento entre pessoas do mesmo sexo, como quase todos os países da África e do Oriente Médio.

Acho que podemos perceber claramente em qual desses grupos a balança social pende para o lado do progresso.

Torçamos.

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Pastor evangélico é preso acusado de estupro e envolvimento com o tráfico

Semana passada, veio à tona a notícia de que o pastor Marcos Pereira da Silva, um dos líderes da igreja evangélica Assembléia de Deus dos Últimos Dias, foi preso, acusado de estupro, assassinato, tráfico de drogas, associação com o tráfico e lavagem de dinheiro.

Até então, o pastor Marcos era conhecido apenas por seus cultos exageradamente teatrais, com exibições de exorcismos e testemunhos de fiéis.

pastor marcos

Pastor Marcos em um de seus dias de habituais lutas contra demônios

Porém, após a divulgação de sua prisão surgiu uma avalancha de notícias esdrúxulas a respeito do pastor. Então, para facilitar quem não acompanhou os notíciários nos últimos dias, vou colocar aqui as principais manchetes a respeito do tema. Basta ir clicando em cada uma para acessar as notícias completas:

pastor preso

pastor extra

pastor assassinato

garagem

Depois da divulgação da notícia de sua prisão, para surpresa de ninguém, outros pastores saíram em defesa do pastor Marcos Pereira. Marco Feliciano, em seu blog, disse acreditar tratar-se de perseguição religiosa ao pastor:

perseguição

Silas Malafaia achou estranhíssima a prisão do pastor:

silas mal

Até a própria esposa do pastor deu seu depoimento, afirmando em entrevista que as acusações eram sem fundamento:

esposa

E, óbvio, o site da própria Igreja publicou um artigo em que afirma que o pastor Marcos está sendo perseguido e clama pela aplicação da justiça:

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Bom, ainda é cedo para afirmar se o pastor realmente é esse monstro que a imprensa está fazendo parecer que é. Ao que tudo indica, há sim algo de muito estranho ocorrendo por trás das portas daquela igreja. Mas como estamos em um país onde existem duas pequenas coisas chamadas presunção de inocência e devido processo legal, acho mais sensato esperar o julgamento do pastor para fazer qualquer comentário a respeito de suas supostas atividades ilegais.

Para mim, o que é mais importante nessa história, no momento, são dois aspectos curiosos.

Primeiro, a força da doutrinação sofrida pelos fiéis da igreja, que são levados a defender fervorosamente o pastor e jurar pela sua inocência.

É claro que essa reação não é tão incompreensível assim. Se amanhã ou depois aparecer alguém dizendo que uma pessoa do meu convívio diário, como meu chefe, ou minha empregada, estão envolvidos em crimes dessa magnitude, acho que, a princípio, eu também relutaria em acreditar.

Sendo o homem o animal social que é, para nos relacionamos cotidianamente com alguém, ainda que de maneira superficial, avaliamos se aquela pessoa merece fazer parte de nossas vidas, e se o conhecimento que temos a respeito dela é o suficiente para fazer esse julgamento a seu respeito sem o risco de cometer erros.

Essa suposição se torna ainda mais forte na relação entre os fiéis e os pastores que eles seguem. Além de ser uma pessoa com quem os seguidores mantém uma relação habitual, o pastor é visto como um exemplo a ser seguido, um representante de Deus na Terra, um confidente e, muitas vezes, um amigo.

Porém, diferente das outras relações sociais, esse julgamento dos líderes religiosos feito por seus fiéis, em boa parte não se baseia nos atos dessas pessoas e sim na mera hierarquia religiosa. Se alguém está à frente do altar, pregando para a comunidade, já se parte do pressuposto que ele é uma pessoa decente.

Portanto, acredito que deva ser realmente muito complicado imaginar que aquela pessoa que até a semana passada você via como um exemplo, e que dizia a você e aos seus filhos o que era certo e o que era errado, seja o responsável direto por quatro assassinatos, estupros e incontáveis mortes indiretas.

Talvez seja isso que leve algumas pessoas à negação e a dizerem coisas como essas, que foram ditas no fórum do site Verdade Gospel:

“Eu nunca acreditei nisso, já imaginava que tudo não passa de mais uma sujeira, globo e esse afro regue (sic) essa gente, quando quer incriminar alguém, vale tudo pra eles, mentira é o prato principal deles. Mais (sic) vão todos pagar, Deus fará justiça”

“eu nao acredito em nada do que estao falando deste grande homen de Deus , é só fazer o que ele faz , ele nao fica brincando ele vai atraz (sic) de vidas para Jesus as salva ,..”

“Eu não acredito. Isso tudo, com certeza, é mais uma armação do inferno com a participação daqueles que estão insatisfeitos com tudo que vem acontecendo com os crentes em Jesus.
Tentaram o querido Pr Feliciano, não deu certo, vão atirando para verem algum escândalo”

É muito mais fácil acreditar que há uma teoria da conspiração contra as suas crenças, do que perceber que você fez um mau julgamento a respeito de uma pessoa, o que o levou a manter algum tipo de relação com um criminoso.

Isso me leva ao segundo aspecto dessa notícia. A mania de perseguição de que sofrem alguns evangélicos nesse país.

Como se pode notar das afirmações acima, e das declarações dos pastores Silas Malafaia e Marco Feliciano, alguns evangélicos parecem crer que o fato de a polícia estar investigando os supostos crimes do pastor Marcos Pereira se deve não à possibilidade de o líder religioso ser realmente um criminoso, mas apenas ao fato de ele ser evangélico em um país de maioria católica.

Aparentemente, para uma parte dos evangélicos, essas acusações são fruto da perseguição aos evangélicos, feita pela imprensa marrom, que visa incriminar o pobre pastor divulgando notícias falaciosas, ou pela rede Globo, que é contra a ascensão evangélica no país, ou pelo próprio Capeta, que fica espalhando a discórdia e a mentira pelos quatro cantos da Terra.

Para eles é simplesmente inconcebível a aplicação da hipótese mais plausível ao caso: a de que o pastor seja realmente culpado e que eles estavam esse tempo todo sendo arrebanhados por um traficante assassino estuprador que enriqueceu com as doações de seus fiéis.

É óbvio que isso não se trata de perseguição religiosa. Ninguém está acusando o pastor por ele ser evangélico, e sim por haver a possibilidade de ele estar relacionado a crimes, independente de sua orientação religiosa. Imaginar que só por alguém ser um líder religioso significa que ele não cometa crimes, é dar carta branca a criminosos mal intencionados. É um comportamente perigoso, pois faz com que os bandidos percebam que posar de pastor (ou qualquer outra liderança religiosa que possua fiéis com o mesmo fervor) é um bom disfarce para suas pilantragens.

Tanto não é uma perseguição religiosa que você não vê ninguém dizendo nas notícias que todos os pastores são ladrões safados ou assassinos. Não há generalização de uma classe inteira. O fato de ele ser da liderança de uma igreja é mencionado apenas porque ele se aproveitou dessa posição para cometer seus crimes, assim como seria mencionado se ele fosse o presidente do Banco Central ou o diretor do Detran, o que não significa que todos os presidentes e diretores desses órgãos sejam criminosos.

Mas agora, tente imaginar o cenário caso o acusado não fosse um pastor evangélico, e sim um conhecido (ou até um suposto) ateu. Custo a crer que não surgiriam notícias na imprensa dizendo que a culpa pelos crimes era a falta de Deus no coração, e que todos os ateus são perigosos.

Ah, é verdade, não é necessário imaginar. Isso já aconteceu antes.

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Opinando a entrevista de Silas Malafaia – parte final

E chegamos à última parte da série de posts comentando a entrevista dada pelo pastor Silas Malafaia ao programa De frente com Gabi, em 03/02/13. Veja as partes anteriores aqui: parte 1; parte 2; parte 3.

23:59/24:30

(…)

MG – Mas acontece que não todas as pessoas têm a formação que você tem ou têm um tipo de disposição esclarecida. Você falando com essa convicção e desta forma e com essa sua interpretação pode eventualmente estar influenciando pessoas que vão sim praticar violência contra os homossexuais.

SM – Aí minha filha, aí vai me desculpar, então vamos cortar programas de televisão, vamos cortar novelas, vamos cortar filmes que têm ação, porque vai influenciar alguém a matar. Aí nós vamos… Aí a sociedade pára. Então a televisão vai ter que parar agora, vai ficar só Marília Gabriela porque tem entrevista.

Comparar a influência que um filme ou um programa de televisão terão sobre a mente de uma pessoa com a que um pastor tem é até covardia. Quem assiste a um filme ou um programa sabe que se trata de ficção, enquanto quem assiste a um culto ministrado pelo pastor acredita estar ouvindo a palavra da Verdade. Filmes não são vistos como sagrados pelos espectadores, têm restrições de idade, não dizem que as atitudes ali mostradas devem ser imitadas para que você seja salvo, enfim, é óbvio que o pastor está a comparar alhos com bugalhos.

29:01/29:25

MG – …mas quando você diz assim: “Eu estou aqui para defender a família”, eu quero saber que família é essa, que conceito de família é esse, que desde a época de Cristo não foi revisto

SM – Tá. Que conceito de família? Toda história da civilização humana… toda história! O que eu tô te falando é antropológico, sociológico e teológico. Toda a história da civilização humana está sustentada: um homem, uma mulher e sua prole.

Pederastia na grécia antiga. Poligamia na arábia e diversos outros países. Troca de casais entre os esquimós. Sociedade matriarcal na China. Prostituição e homossexualidade liberadas na antiguidade.

É, realmente, a história da humanidade sempre foi sustentada pela relação homem/mulher, em todas as épocas, em todos os lugares do mundo… Do mundo do Silas Malafaia. Isso não é antropologia nem sociologia. É desonestidade intelectual somente.

29:58/30:26

SM – … a Bíblia… eu tô falando de Bíblia porque eu creio. Eu tô falando daquilo que eu creio e o que a Bíblia fala. A Bíblia é um livro pra quem quer crer ou  quem não quer crer que é um direito de cada um. À medida que eu sigo aquele livro, certo, que eu creio que é a palavra de Deus, porque é a única fonte de conhecimento filosófico, teológico, científico e vulgar. Não tem outro livro no mundo que tenha essas quatro fontes de conhecimento. Só a Bíblia. Certo? Nenhum verdade científica da Bíblia até hoje foi derrubada. Nenhuma delas.

Não é possível que o pastor estivesse falando sério nessa hora. Tudo bem os cristãos acreditarem que a Bíblia é um livro sagrado, mas dizer que as “verdades científicas” da Bíblia não foram derrubadas até hoje? Que verdades científicas? Que a Terra tem 6.000 anos de idade e foi criada em 6 dias? A cura da lepra? Que o morcego é uma ave? A lista de absurdos científicos da Bíblia é tão gigantesca que dá até preguiça de colocar todos aqui…

…Mas, por sorte, uma alma caridosa resolveu compilá-los. Clique aqui pastor, e perceba o tamanho da besteira que você falou. Mas é claro que você sabe que é besteira não é mesmo… O problema são os fiéis que ouvem uma coisa dessas, acreditam no que você diz, e vão passar a vida toda imaginando que coisas como colocar todas as espécies de animais em uma arca são verossímeis. Eu inclusive tenho pra mim que uma boa parte dos cristãos nunca chegaram a ler a Bíblia toda, apenas decoram algumas partes bonitas ditas pelo pastor, porque eu tenho certeza que no dia em que pararem pra ler vão começar a se questionar o porquê de levá-la a sério.

31:27/32:33

(…)

MG – Olha eu vou fazer um… vou propor um problema a você. Que é contra, inclusive, o aborto… a legalização do aborto. Supondo que nasça uma criança e que a mãe dessa criança não vá poder criá-la. Um casal homossexual se dispõe a criar essa, essa criatura, que senão vai ficar jogada à disposição do que seja, numa instituição que vai tratá-la mal. Você acha que ainda assim um casal homossexual não pode ter essa criança e fazer dela um belo cidadão, uma bela cidadã e criar um ser humano digno, com todos seus direitos, com toda sua inteligência, com todo seu amor e compaixão pelo outro?

SM – Primeiro, têm mais na fila casais héteros esperando crianças que…

MG – Não, eu não tô perguntado isso pra você, eu tô perguntando conceitualmente. Eu tô falando das novas famílias.

SM – Não acredito. Eu não acredito que dois homens possam criar uma criança perfeita, no sentido total que você quer, como certo, não acredito. Porque eu acredito que Deus fez homem e mulher, e esses seres que se completam…

Infelizmente o pastor não deixa claro qual exatamente é o seu medo no fato de uma criança ser criada por um casal homossexual. Ele só repete que a criança não vai crescer perfeita. Acredito que nesse caso o que ele quer dizer com imperfeição é que ela também será homossexual, o que, sob os olhos do pastor certamente seria uma tremenda imperfeição. Porém, esse e outros mitos sobre crianças sendo criadas por casais de homossexuais já foram desmitificados.

Anos atrás acreditava-se que crianças criadas por pais solteiros ou separados também seriam problemáticas. O pastor pode acreditar no que ele quiser, mas isso não significa que isso é a verdade. Hoje em dia sabe-se que as pessoas com quem os pais dormem ou deixam de dormir na cama têm pouca influência sobre a personalidade da criança. O caráter dos pais e os exemplos dados por eles são muito mais  importantes nesse aspecto, e existem héteros bons e héteros maus, assim como existem homossexuais bons e maus. Ao invés de se preocupar com a orientação sexual de quem vai adotar uma criança, o Estado deveria se concentrar em analisar a índole dos futuros pais.

36:23/37:07

MG – Eu queria falar sobre, ah… primeiro, política e religião. Caminham bem juntas? Você acha… é, nós temos um Estado laico, agora os evangélicos têm…

SM – É laico mas não é laicista.

MG – Ahn. Vai dar em quê?

SM – Vai dar em quê. Assim como um ateísta pode com as suas convicções trafegar na política, eu também com as minhas convicções religiosas posso. O que eu não posso é querer fazer com que a minha religião seja dominante, entre pela goela das pessoas. Agora, eu como cidadão… porque o que que você é eu sou…

MG – Mas você não quer ser político?

SM – De jeito nenhum. Nunca serei.

MG – Mas quer influenciar na política.

SM – Com toda certeza, não só na política, na sociedade.

Bom, acho que essa foi a primeira vez na entrevista que eu concordei em um ponto com o pastor. Não em relação ao Estado ser laico, assunto que eu já pincelei nesse post, mas em relação à influência política.

A sociedade em que vivemos é diversificada. Existem pessoas de diferentes crenças, diferentes culturas e diferentes cenários sociais. A democracia consiste em dar o poder de decidir a todo o povo. Apesar dos representantes políticos serem escolhidos pela maioria, eles devem governar para todos. Então nesse sentido, eu acho que os evangélicos devem sim ter o poder de influenciar na política, assim como os católicos, espíritas, ateus etc.

E na teoria isso tudo seria muito bonito. Porém na prática, em um país com um cenário político como o nosso, sabemos como a influência religiosa funciona na política, com nossos governantes apoiando os líderes que mais convençam suas ovelhas a votarem em quem for de seu interesse, e uma mão lavando a outra depois das eleições.

42:11/42:48

MG – Mas vamos ver lá, agora, bate-bola, jogo rápido. (…) Islamismo?

SM – É, eu acredito de um radicalismo muito horroroso, para o que a gente chama de religião.

E com essa excelente piada feita pelo pastor que deixaria Alanis Morissete orgulhosa, encerro minha série de posts opinando a entrevista do pastor Silas Malafaia. Voltarei em breve à nossa programação normal.

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Opinando a entrevista de Silas Malafaia – parte 3

Continuação dos comentários feitos à entrevista do pastor Silas Malafaia ao programa De Frente com Gabi em 03/02/13. Veja as partes anteriores aqui: parte 1; parte 2.

18:07/22:40

MG – Ô pastor, ô Silas. No discurso de posse pro segundo mandato, o presidente americano Barack Obama disse textualmente: “Nossa jornada não estará completa até que nossos irmãos e irmãs gays sejam tratados como qualquer pessoa”. Na sua igreja ele não teria sido reeleito.

Sm – Na minha igreja não. Ele não teria sido reeleito… Deixa eu falar sobre essa questão de homossexualismo.

MG – …dade.

SM – Ahn?

MG – Homossexualidade.

SM – Homossexualidade, isso, obrigado. Deixa eu te falar uma coisa. Primeiro, ninguém nasce gay. Homossexualismo é um comportamento.

MG – Isso é contestável.

SM – Tá, então vamos lá. É contestável? Eu mando vir na genética. Quem é que pode dizer se alguém nasce gay ou não? Não é a psicologia, é a genética. A ciência que pode dizer… é igual ao aborto. Quem é que pode dizer aonde começa a vida? A biologia. Então onde é… Quem é que na ciência…

MG – Bom, você sabe que as últimas pesquisas andaram mapeando o cérebro de gente aí.

SM – Não deu nada. Olha aqui…

MG – Deu sim.

SM – Deixa, deixa eu te falar. Deixa eu falar uma coisa pra você aqui que é muito interessante. Ninguém nasce gay. Não existe ordem cromossômica homossexual. Não existe gen homossexual. Existem ordens cromossômicas de macho e de fêmea. Então vou fazer uma definição de homossexualismo. Um homem e uma mulher…

MG – Homossexualidade.

SM – Não, homossexualismo, a prática. Eu posso falar homossexualismo ou a homossexualidade, não tem…

MG – Não, é que homossexualismo caracteriza doença.

SM – Não, mas não, eu não vejo. Não vejo como doença, eu não vejo. Vejo como comportamento. Não há nada de doença. Então a homossexualidade. Um homem ou uma mulher por determinação genética e homossexual por preferência aprendida ou imposta. Agora vamos pra pesquisa. 46% dos homossexuais foram violados, violentados quando crianças ou adolescentes. Como é que alguém nasce? 46%! 54% escolheram ser. Então primeiro, homossexualismo é comportamento. Então vamos pra genética. Gêmeos iguais… tô falando de genética. Gêmeos iguais, isso é, o mesmo embrião, que se divide, tá, é chamado geneticamente iguais, é, homozigóticos. São gêmeos iguais. Então o que que tinha que acontecer? Se um gêmeo é hétero, o outro teria que ser hétero. Se um gêmeo é homossexual, o outro teria que ser. Então vamos lá. 35% dos gêmeos que são homossexuais, o outro, 65% são héteros, então como é que são iguais? Como é que nasce? Peraí, eu tô falando de nascer, nascer homossexual, eu tô falando de genética. Não tem uma fonte na genética, não tem uma fonte… ah, traços psíquicos, não sei que… então vamos lá… 46% passaram a ser homossexuais… eles não falam. O dia que eu falei isso… a partir do dia que foram violados e violentados

MG – Peraí… então vamos lá… então você já tá dando um outro dado.

SM – Eu tô dando um dado.

MG – No geral violentados por quem?

SM – Não… Por parentes, violentados por vizinhos…

MG – Homossexuais?

SM – Não, não. Por ser heterossexuais. Então já… nascer. Nascer é o seguinte. Eu vim a esse mundo e tenho essa vontade…

MG – Por que que animais – e nós somos mais um na natureza – por que que animais praticam sexo com o mesmo…

SM – Não nasce homossexual.

MG – Praticam sexo – muitos animais – com animais do mesmo sexo e não são perturbados na outra sexualidade?

SM – E não é… os animais… não são considerados uma prática homossexual…

MG – Venha cá…

SM – Olha a pergunta que você me fez. Olha a pergunta. Nós tamos conversando, você disse… eu disse aqui: “Ninguém nasce homossexual”. Foi minha resposta aqui pra você…

MG – Eu já disse que é contestável isso.

Sm – Você diz que é contestável eu digo que tem argumentos. A ciência… O que que é ciência? Tem que ter observação. Por que a evolução é teoria? Porque você não pode comprová-la na observação.

Ambos – (falando ao mesmo tempo)

MG – Essa conversa não vai terminar nunca, e eu quero saber de você… eu quero saber qual é a sua questão com a homossexualidade.

SM – Eu vou te dizer qual é a questão. A minha questão aqui no Brasil… A minha questão aqui no Brasil é os direitos que eles querem em detrimento da coletividade…

MG – Quais são os direitos?

Sm – Os direitos? Então vou dizer pra você…

MG – Serem respeitados? Não serem mortos e agredidos?

Sm – Não, não, não, não. Não é nada disso. Vamos lá, você tá falando de mortos, quando eles falam de números eu não… eu acho que ninguém deve morrer. Eu não quero que ninguém morra de nada. Mas quando eles utilizam números é contra eles totalmente…

Nesta parte da entrevista o pastor Silas tenta apresentar justificativas para o seu repúdio aos homossexuais. Surpreendentemente ele quase não se utiliza de passagens bíblicas para isso. Alguns versículos, como esse, por exemplo, costumam estar na ponta da língua nessas horas e vêm sempre a calhar. Ele, no entanto, prefere utilizar uma abordagem mais “científica”. Não sei o porquê dessa escolha do pastor, talvez ele esteja almejando conquistar uma nova camada social com sua retórica ou talvez ele tenha percebido que a audiência do programa da Marília Gabriela não é a mesma com a qual ele está acostumado a lidar em seu programa, já que seus fiéis já estão suficientemente doutrinados a acreditar no que ele afirma sem maiores questionamentos.

Porém, nessa tentativa diferente de se justificar ele acabou falando muitos disparates. Em primeiro lugar, vamos lembrar que o pastor não tem nenhuma formação acadêmica que o qualifique a afirmar com tanta asserção a respeito de genética, ou qualquer coisa da área biológica.  É curioso notar como o pastor fica tão alvoroçado quando o deputado federal Jean Wyllys se arrisca a falar de psicologia, afirmando que ele não tem autoridade para tal por não ter formação acadêmica nessa área, porém não se acanha em falar de genética e traços cromossômicos como se fosse um expert no tema. Claro que qualquer pessoa pode conhecer a respeito de qualquer assunto caso pesquise a respeito, se mantenha atualizado com as pesquisas mais recentes etc. Mas então nesse caso, ele também deve aceitar a opinião de outras pessoas leigas que venham a pesquisar sobre sua área de formação sem exigir toda essa formalidade de credenciais quando as conclusões alheias vão de encontro às de sua religião.

No caso dos traços genéticos, se a pessoa nasce homossexual ou não, alguém que realmente tem autoridade para falar sobre o assunto já se pronunciou a respeito, e deixou claro que o pastor está falando besteiras. O mestre em genética Eli Vieira Araujo, doutorando pela universidade de Cambridge,  postou este vídeo em resposta ao pastor Silas, informando o que os cientistas da área afirmam sobre o assunto. E que, por acaso, não tem nada a ver com o que o pastor afirma.

Eu, do alto da minha leiguice, nem entendi exatamente o que o pastor quis dizer quando afirma que não existe ordem cromossômica homossexual. Isso significa o que? Que os genes determinam nosso correto comportamento sexual? Segundo o entendimento do pastor, os genes determinam que nós somos homens ou mulheres e por isso devemos nos comportar como tais? Isso implicaria em dizer que nós somos escravos do que nossos genes definem, não podendo nos desviar da determinação genética.

Isso me soa um tanto quanto estranho pois, se os traços físicos determinados pelos genes não são passíveis de ser escolhidos, como a cor dos olhos, altura, o sexo etc, os traços comportamentais, por sua vez, são escolhidos por nós a toda hora. Nossos genes nos induzem, por exemplo,  a nos reproduzirmos e propagarmos nosso material genético o máximo possível. Se fôssemos pautar nosso comportamento pelo que nossos genes estabelecem, iríamos sempre fazer sexo com o máximo de pessoas possíveis. O casamento e a monogamia, tão defendidos pelo pastor para manutenção da família, iriam para o espaço. E o sexo com familiares próximos seria algo corriqueiro. Vide as outras espécies de animais, que não têm pudores nenhum em relação a essas duas coisas, como os cachorros, que, como diziam os mamonas “comem a própria mãe, sua irmã e suas tias”.

Eu acredito que nossos genes não determinem comportamento nenhum. Eles podem apontar uma direção comportamental, mas se iremos seguí-la ou não depende de diversos fatores, como o meio social e cultural em que estamos inseridos, nossa convenção de moral e costumes, nosso conhecimento e nossas crenças.

Mas a questão mais importante aqui é realmente essa levantada pelo pastor? Se as pessoas são homossexuais por escolha ou por determinação biológica? Porque para mim, isso tudo que foi discutido na entrevista me parece ser secundário. O que é realmente importante, em minha opinião é que a orientação sexual de alguém é um problema pessoal e, não atrapalhando os outros em nada,  deve ser respeitada. Na verdade não deveria fazer diferença nenhuma se ser homossexual é uma escolha ou não. Uma vez que a pessoa é, isso é problema dela. Seja por sua escolha ou por determinação dos seus genes, ninguém que é homossexual deve deixar de ser ou ter seus direitos tolhidos só porque determinado segmento religioso não gosta desse tipo de gente.

E é claro que aqui o pastor diria que não deixa de gostar deles por isso. Que  na verdade os ama (como ama aos bandidos). Bom, talvez o conceito de amor do pastor seja diferente do meu, mas eu não diria a uma pessoa que eu amo que ela está errada só por amar (ou mesmo se relacionar sem compromisso) outra pessoa, mesmo que do mesmo sexo, e que a entidade divina em que eu acredito vai condená-la à tortura eterna se ela não der um jeito de mudar seu comportamento, ainda que contra sua vontade. Eu não sou exatamente um romântico inveterado, mas essa é uma forma de amor muito estranha até pra mim.

E uma coisa que eu certamente não faria com alguém que eu amo é lutar para que ela não tenha reconhecidos os direitos que eu já tenho. Eu até reconheço que o PLC 122 referido pelo pastor era, em certa medida, uma redundância jurídica, porém pergunte ao pastor o que ele acha a respeito da legalização do casamento homossexual. Eu não entendo como permitir que duas pessoas do mesmo sexo se casem iria afetar a liberdade religiosa dele ou de sua congregação. Ninguém ia obrigá-lo a se relacionar com outra pessoa do mesmo sexo, ninguém ia obrigá-lo a realizar casamentos gays (embora eu me pergunte que casal gay faria questão de se casar em sua instituição) e ninguém iria obrigá-lo a gostar de ver gays juntos. Em suma, nada iria mudar para religioso nenhum se o casamento gay fosse legalizado, mas para os homossexuais faria uma enorme diferença. Porém, as igrejas fazem questão de impedir que pessoas com um comportamento diferente do que eles acreditam ser o correto tenham os mesmos direitos que seus fiéis já têm.

Só posso presumir que o que o pastor quer na verdade é manter o controle que tem sobre seus seguidores. Ao manter os homossexuais à margem do resto da sociedade, é mais fácil mostrar que o que você prega é o correto, afinal, se nem o Estado permite essa prática, não deve ser coisa boa. Se os gays tivessem os mesmos direitos do “povo de Deus”, como eles poderiam se sentir especiais? Assim, ele vai seguir querendo determinar com quem as pessoas devem se relacionar, mesmo que para isso tenha que usar de supostos textos sagrados ou de “pseudociência”. Aliás, de onde ele tirou esses números? 46% dos homossexuais foram estuprados? Haja estuprador nesse país…

E eu vou fingir que nem ouvi o que ele fala a respeito da evolução ser uma teoria, porque isso dá assunto pra mais uns 10 posts… mas espero poder me aprofundar no tema futuramente…

Em breve postarei a parte final dos comentários sobre a entrevista.

*Update: veja a parte final aqui.

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Opinando a entrevista de Silas Malafaia – parte 2

Dando continuidade ao post anterior, onde opinava a entrevista dada pelo pastor Silas Malafaia à Marília Gabriela em 03/02/13. Veja a parte 1 desse post aqui.

07:06 – 11:41

SM – Então eu vou dizer uma coisa pra você. A Forbes pode falar da fortuna de qualquer um. Mas fale dos que têm. Quando ele diz que eu tenho 300 milhões de reais, o que que a pessoa vai associar? O ser humano, o cérebro humano, o ser humano ele é um ser que se diferencia dos animais porque ele tem inteligência e percepção, ele faz associações, então ele diz assim “pô, esse malandro aí, esse vagabundo aí, tem 300 milhões porque roubou os fiéis”. Então essa é a idéia. E eu não vou receber fama daquilo que eu não tenho. Porque para o bilionário, Gabi, pro empresário, isso aí, olha, “eu estou entre os 100 mais ricos do mundo”, isso dá até crédito pro cara, os bancos, “pô, esse cara aqui tá entre os milionários”. Pra mim é o contrário. O efeito é negativo.

MG – Mas ô pastor, você não devia estar fazendo esse tipo de não defesa da teologia da prosperidade.

SM – Não, diferente, aí vem cá. Quem disse? Existe uma coisa, existe o besteirol da teologia da prosperidade e existe a teologia da prosperidade da Bíblia.

MG – Então explica pra gente.

SM – Eu explico pra você. Qual é o besteirol da teologia da prosperidade? “Olha, vem pra Deus que você vai ficar rico. Vem pra Deus que se você tem um emprego você vai ser patrão. Venha pra Deus que você vai ter um monte de casa”. Então, isso é o besteirol da teologia da prosperidade. Agora, a prosperidade tá em toda a Bíblia. E o cerne da prosperidade diz assim, “bem, pastor, me diga uma coisa que a Bíblia mostra que a pessoa pode ser próspera” ou “o que faz uma pessoa ser próspera à luz da Bíblia”? A Bíblia diz que prosperidade é obedecer as leis de Deus. Tem um salmo que é o salmo 112 que diz assim: “Bem aventurado é o homem que teme ao senhor e que obedece os seus mandamentos. A sua geração será poderosa. A sua descendência será grande na Terra. Fazenda e riqueza haverá na sua casa e a sua descendência permanece pra sempre.” O salmo 1º que é um salmo muito lindo que diz que aquele que medita dia e noite na lei do senhor… olha o que que diz o salmo, é muito interessante… é como árvore plantada junto a ribeiros que dá o seu fruto na estação própria, cujas folhas não caem e tudo quanto o fizer prosperará. Eu sou a favor da prosperidade. Eu prego prosperidade, eu não prego é besteirol. Porque prosperidade não é só finanças. Prosperidade envolve bem estar, prosperidade é você viver bem. Tem um monte de coisa junto.

MG – Mas a minha pergunta é, os seus fiéis, os mais simples, que eu sei, todo mundo… você tem fiéis também que são poderosos…

SM – Todos os níveis sociais, eu tenho.

MG – … e que fazem doações poderosas e sabem o que estão fazendo e querem fazer isso e podem fazer isso. Agora, quando você fala – eu às vezes misturo você e senhor…

SM – Você, pelo amor de Jesus.

MG – Tá bom. Quando você fala dessa… quando você divaga em cima dessa teoria da prosperidade, você de alguma maneira não leva o povo, o fiel, a crer que dando o dízimo a vida dele vai melhorar?

SM – Bem, deixa eu te dizer, não sou eu que digo isso, é a Bíblia. Eu não digo, existe uma coisa, a Bíblia, como qualquer coisa na vida, como qualquer ideologia ou religião, você… os comunistas… ou a ideologia ateísta… ele crê naquilo. OK. Quando você crê existem um conjunto de crenças e valores que estão arraigados ali. Então, quando eu digo pro meu fiel que ele vai dar dízimo e oferta pra ser rico, eu tô falando uma mentira. Agora quando eu digo pro meu fiel que ele tá dando oferta e dízimo porque Deus vai abençoá-lo, é uma verdade. Porque é isso que a Bíblia lá conta. Eu não posso declarar e nunca declarei isso que eu não sou tolo, eu tenho um certo conhecimento, eu tenho uma certa formação teológica, e venho de uma família muito tradicional de formação teológica. Meus pais são pioneiros no ensino teológico e também gente da área de educação.

MG – Eu sei. E você além do mais é formado em psicologia.

SM – É, sou psicólogo. Então, deixa eu te falar, se eu chegar pro meu fiel e dizer: “Minha gente, dá aqui o seu dízimo que você vai ficar rico”. Isso é uma afronta. Agora, quando eu digo pra ele: “Se você for fiel naquilo que a Bíblia diz, Deus vai te abençoar”. Porque aí eu digo assim…

MG – E aí não tá…

Sm – Não, não tá, e eu te explico porque…

MG – Não tá passando uma idéia de que seus desejos serão satisfeitos?

SM – Não, não. Escuta bem, a prosperidade… isso que eu digo, Gabi… se você falar que prosperidade, se um pastor falar que prosperidade é só dinheiro, ele tá incorrendo num erro gravíssimo…

A citada teologia da prosperidade, por vezes chamada de lei da reciprocidade ou ainda lei da recompensa, consiste em afirmar que se você cumprir fielmente determinados preceitos religiosos será recompensado por deus de alguma maneira (normalmente é colocada ênfase na recompensa financeira).

Nessa parte da entrevista, vemos basicamente o pastor fazendo questão de deixar claras duas coisas: que não rouba o dinheiro do dízimo pago por seus fiéis e que estes não dão o dízimo para sua igreja apenas porque acreditam que terão retorno financeiro.

No entanto, conforme ele próprio dá a entender, mesmo quando os seguidores não esperam compensação financeira por suas contribuições, esperam algo. O bem estar da família, saúde, tirar alguém das drogas etc. Eu sinceramente não acho que qualquer exemplo que ele pudesse dar nesse caso seria muito diferente do “besteirol da prosperidade” que ele cita. Qual é a diferença de se pedir para um fiel contribuir com o dízimo para ele conseguir mais dinheiro e para conseguir a cura de uma doença, por exemplo? Em ambos os casos ele não está dando dinheiro para a igreja em troca de algo que deseja muito, em uma espécie de suborno divino?

A questão aqui não é se a contribuição do fiel à sua igreja é uma coisa boa ou não. Qualquer instituição religiosa precisará da doação de seus fiéis para manter-se, mesmo que conte com outras fontes de renda, como venda de imagens, livros, dvds etc. Confesso que nunca pesquisei a participação de cada fonte de renda das intituições religiosas para saber qual é a principal de cada uma delas (e considerando o cuidado que essas instituições dedicam à divulgação de sua contabilidade, suspeito que seja uma pesquisa não tão fácil de ser feita), mas creio que as doações dos fiéis sejam a principal fonte de renda da maioria delas.

A grande polêmica aqui é atrelar a doação feita pelo fiel ao valor de sua fé, e por conseguinte, à graça que ele vai alcançar. Uma coisa é você pedir para alguém colaborar com a sua congregação se ele quiser/puder, outra é dizer que ele só vai alcançar o que ele pediu a Deus, ou atingir a salvação se ele fizer aquela doação. Se a pessoa busca uma solução divina para um problema, é razoável supor que ela já esteja com um certo desespero, e ao ser apresentado a essa doutrina pelo pastor, acaba achando que não há outra saída para seu problema que não seja colaborar com a igreja para que possa receber parte da recompensa divina. Essa prática torna muito tênue a linha que separa a doação voluntariosa da coação moral e também pode impedir que as pessoas encontrem soluções mais reais, simples ou efetivas para seus problemas, imaginando que a igreja ou seu pastor são o único caminho para a resolução de suas dificuldades.

Há ainda quem defenda o dízimo, mesmo de valores desproporcionais à situação financeira da pessoa, dizendo que onde a pessoa emprega seu salário é um problema pessoal. “Cada um faz o que quiser com seu dinheiro”. Para começo de conversa, nem sempre você pode fazer o que quiser com seu dinheiro. Por exemplo, se você for pródigo e interdito, mesmo que receba seu salário não vai poder fazer o que quiser com ele. E não vou nem entrar no mérito dos impostos, destino certo de boa parte do seu salário antes mesmo de ele entrar na conta. Porém, no caso em questão, do dízimo exorbitante, trata-se de uma situação de coação moral ou psicológica. O dinheiro é doado, mas a pessoa que o recebe o está fazendo de má fé, e é isso que a torna uma transação inválida. O problema não está na parte que dá o dinheiro, mas na que recebe. Imagine um sequestrador que é preso após ter recebido o dinheiro do resgate. Ele vai ter que devolver o dinheiro para quem o pagou, independente de a pessoa ter pago porque quis ou não. A questão maior nesses dois exemplos não é se a pessoa que está dando o dinheiro o faz porque quer ou não, já que com a coação moral a pessoa sempre vai querer. A questão é se quem o recebe o faz de boa fé ou não.

Mas há ainda um problema maior com esta teologia de prosperidade. Ela é simplesmente uma afirmação falsa. Se fosse verdade que a prosperidade só é alcançada por quem colabora com a igreja, nenhuma das pessoas que não colaboram a alcançariam. No entanto, existem várias pessoas que não só não colaboram com igreja nenhuma, como também não dividem as mesmas crenças do pastor, e no entanto podem ser consideradas pessoas prósperas, seja lá em qual concepção o pastor queira empregar a palavra.

De fato, acredito que eu mesmo poderia ser o exemplo disso. Sou uma pessoa feliz, tenho um ótimo emprego, me dou muito bem com minha família, não tenho vícios ou nenhum problema muito sério, me considero uma pessoa boa e o último dízimo que eu dei provavelmente foi pra igreja católica e deve ter sido há mais de 10 anos. Não sigo nenhuma religião há um bom tempo e nem sequer acredito em entidades divinas. Se Deus realmente tivesse alguma exigência especial para distribuir a prosperidade, então eu diria que o modo como eu vivo, ignorando as religiões, deve estar bastante de acordo com essas exigências.

Em breve, a parte 3.

*update: veja a parte 3 aqui.

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