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Comentando A Declaração Do Padre Marcelo Rossi

Nesta segunda-feira, dia 20, o padre popstar Marcelo Rossi, em entrevista ao Portal Terra, fez uma polêmica afirmação sobre política, que rendeu calorosas discussões nas redes sociais.

marcelo rossi

Padre Marcelo Rossi

Ao comentar o atual cenário político do país, o sacerdote deu sua opinião a respeito da associação que algumas pessoas fazem entre suas crenças religiosas e o exercício da política:

“Eu sou totalmente contra, seja padre ou pastor. Está errado. Ou você é um líder religioso, ou você é um líder político. Pode colocar minhas palavras: ‘Nunca vote em nenhuma pessoa religiosa’. A Igreja Católica viveu isso, a união de Estado, política e religião. Foi a pior fase. Pode ver que a Igreja Católica é a única que não tem candidato. Ela pode até dizer que gosta, mas nunca indica. Eu tenho medo. A pior coisa é fanático. Fuja dessas pessoas, que são as mais perigosas e as que se corrompem mais facilmente”

Descrentes e religiosos que defendem a laicidade do Estado não demoraram em aplaudir o que o padre falou:

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E é claro que alguns religiosos mais exaltados decidiram fazer o contrário, criticando ostensivamente o que foi dito:

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Sendo eu ateu, assim que li essa notícia na internet, minha primeira reação foi parecida com a das primeiras pessoas acima, concordando plenamente com o padre.

Porém, conforme eu parei para pensar melhor no que ele havia falado, me dei conta de que uma parte de seu discurso pode estar equivocada.

Primeiro, vamos deixar claro uma coisa. O padre Marcelo está enganado ao afirmar que a Igreja Catolica é a única que não tem candidato político. Não vou nem entrar no mérito do chefe de sua igreja ser também o governante do seu próprio Estado, já que isso não me parece estar diretamente relacionado ao que estava sendo afirmado. Porém, mesmo em referência somente às eleiçoes de nosso país, é notável que já houve casos de padres que foram eleitos para cargos políticos, como eu havia apontado antes. E, segundo o UOL, nessas últimas eleições mesmo, 23 párocos católicos disputavam o pleito.

Mas tudo bem, não vou afirmar que o padre mentiu nesse caso. Ele poderia simplesmente não ter conhecimento dos casos acima, ou talvez estivesse se referindo somente a um apoio oficial da Igreja, o que eu não saberia dizer se há ou não, já que não conheço os bastidores do Vaticano. Desconsideremos esse equívoco e nos concentremos em outra parte do que foi afirmado: “Nunca vote em uma pessoa religiosa”.

Depois que eu refleti melhor a respeito do que foi dito, percebi o quanto essa declaração soa discriminatória para com uma parcela da população brasileira. O padre está basicamente defendendo que uma parte da população (os religiosos) não deve poder gozar plenamente de seus direitos políticos, não devendo nunca serem eleitos. Se você não consegue perceber a gravidade do que foi dito, experimente fazer o seguinte: utilize qualquer outra parcela da população na mesma frase para ver se você concordaria com ela. “Nunca vote em um negro”. “Nunca vote em um homossexual”. “Nunca vote em um policial”. “Nunca vote em um ateu!“…

Eu até  entendi o sentido da afirmação do padre. Sua intenção era defender a laicidade, a separação entre o Estado e a religião, e a referência que ele faz à atuação da Igreja na Idade Média é indicativa disso. E eu concordo com o espírito do que ele quis dizer. No entanto, eu diria que a atitude que ele parece julgar necessária para que essa laicidade seja atingida não é a mais acertada.

O problema não está em uma pessoa religiosa, ou mesmo em um líder religioso atingir o poder político. O problema está nessa pessoa não saber separar suas crenças religiosas de seu mandato e deixá-las interferir em sua governança. Sendo assim, eu não veria problema nenhum no fato de um religioso, seja um padre, um pastor, um imame, um babalorixá ou qualquer outro, ascender a um cargo político, desde que ele não tomasse nenhuma decisão ou não propusesse nenhuma lei discriminatória, com base única e exclusivamente em seus preceitos religiosos.

Talvez uma melhor forma de se afirmar o que era pretendido seria dizer: “muito cuidado ao votar em uma pessoa religiosa, para que ele não deixe sua religião interferir negativamente em sua atuação política”, ou algo nesse sentido. Talvez até tenha sido exatamente isso o que o padre quis dizer… Imagino que ao dar uma entrevista ao vivo algumas palavras não exprimam exatamente o que se estava passando em sua mente. Mas é justamente por isso que uma pessoa pública tem que redobrar o cuidado com o que diz.

Em um país onde a democracia fosse melhor aplicada, essa advertência de nunca se votar em um religioso provavelmente seria vista com estranheza e talvez fosse até desnecessária. Eu não imagino, por exemplo, alguém na Suécia, um país onde os governantes são tratados como cidadãos comuns e como modelos a serem seguidos pela comunidade,  precisando alertar os eleitores a nunca votarem em um líder religioso. Mesmo que um deles alcançasse o poder, os próprios eleitores provavelmente não deixariam que medidas anti-democráticas e interesseiras fossem tomadas por esses políticos.

No entanto, é claro que isso também depende muito do povo do país. E no Brasil, onde os candidatos ostentam seus cargos religiosos como trunfo para conseguir votos, onde líderes religiosos pedem votos no púlpito em troca de dinheiro e onde milhares de eleitores seguem o modo de pensar da cidadã abaixo, eu duvido muito que esse discernimento político esteja próximo de ser alcançado:

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Vendo coisas como essa, eu chego a cogitar que no caso do Brasil talvez seja melhor mesmo uma proibição absoluta de se votar em candidatos religiosos…

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DIA DA HERESIA – Religião e Política

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Bem vindos a mais um DIA DA HERESIA. Este é um espaço utilizado para se falar tudo que for relevante a respeito de um tema controverso específico que envolva a religião, apresentando minha opinião como ateu.

E o tema desse mês será:

RELIGIÃO E POLÍTICA

O mês de outubro está chegando e, como em todo ano par, isso significa uma coisa: as eleições se aproximam!

Eleições no Brasil são sempre parecidas. Um monte de políticos de sorrisos amarelos fazem campanha na televisão, jingles idiotas são criados e retumbados pelas ruas em carros de som barulhentos, as vias públicas são poluídas com toneladas de santinhos e panfletos, cavaletes nas calçadas atrapalham o ir e vir das pessoas, outdoors são erguidos em lugares improváveis, artistas tentam alavancar suas carreiras em showmícios tumultuosos e empresas investem milhões nas campanhas políticas visando conseguir favores dos eleitos após a eleição.

Tudo isso, claro, para que o povo, bem instruído como é, possa exercer plenamente seu direito democrático de escolher racional e conscientemente seus representantes, em uma votação a qual você não tem a liberdade de deixar de comparecer.  E, no final das contas, são eleitos sempre os mesmos políticos ou seus indicados, e nada muda no país. (E eu, que sou “convidado” a ser mesário em todas as eleições, sinto os valores democráticos correndo com toda força em minhas veias a cada dois anos, quando tenho que sair da minha cama às 6 da manhã de um domingo.)

Porém, as últimas eleições têm apresentado um lado que há algumas décadas não parecia ser tão pronunciado em nosso país. A participação maciça de religiosos no processo eleitoral.

Não que a religião não influenciasse na política antes. Afinal, desde que o homem se organizou em sociedade, essas duas instituições estão intimamente ligadas. Em praticamente todas as comunidades antigas os líderes religiosos dividiam o poder com os políticos, isso quando não o exerciam diretamente. E democracias mais maduras que a brasileira dispõem até hoje de partidos com orientações religiosas, como o Cristão-Democrata francês e o União Social-Cristã alemão.

No Brasil, particularmente, a Igreja Católica foi, durante décadas,  uma das principais forças políticas a influenciar nossas eleições. Candidatos que apoiassem projetos contrários aos interesses da Santa Sé frequentemente eram derrotados nas urnas. Porém, essa influência exercida pela Igreja nunca foi direta.

O código de direito canônico, que são as leis editadas pelo Vaticano e que pautam o comportamento de seus sacerdotes, condena a candidatura de padres e bispos a cargos políticos, estipulando no parágrafo 2º de seu artigo 287 que eles:

[…] Não tomem parte activa em partidos políticos ou na direcção de associações sindicais, a não ser que, a juízo da autoridade eclesiástica competente, o exija a defesa dos direitos da Igreja ou a promoção do bem comum.

Como se pode perceber, essa não chega a ser rigorosamente uma proibição. Já houve casos de esclesiásticos da Igreja Católica sendo eleitos para cargos políticos. Porém essa norma da Santa Sé faz com que eles sejam raras exceções. A influência exercida pela Igreja na política sempre foi feita de maneira mais indireta, através do doutrinamento de seus milhões de fiéis.

Assim, se um candidato surgisse defendendo uma idéia que contrariasse a doutrina católica, como por exemplo, a descriminalização do aborto, ele era automaticamente visto com maus olhos por um imenso número de eleitores influenciados pelos dogmas da Igreja e acabava não sendo eleito. O que, em certa medida, tem reflexos até hoje, bastando notar a mentalidade conservadora do eleitor brasileiro médio.

Esse conservadorismo parecia tendente a diminuir com o tempo, principalmente por conta da queda do poder e do número de fiéis da Igreja Católica no país. Porém, ironicamente a situação se agravou, pois em resposta à diminuição de seguidores católicos, uma nova força religiosa vem se erguendo em nosso país: os evangélicos.

Se os católicos possuem uma liderança centralizada, que pode ditar regras a serem seguidas por todos, como a que rejeita a participação política direta, o mesmo não pode ser dito dos evangélicos. Cada denominação evangélica tem suas próprias normas internas, e nenhuma delas parece muito acanhada em eleger seus líderes e sacerdotes para cargos políticos.

Pelo contrário. Para essas orientações religiosas, o fato de um candidato ostentar a sua função eclesiástica é um trunfo que pode render mais votos, motivo pelo qual o número de candidatos estampando cargos como “bispo” e “pastor” à frente de seus nomes aumentou quase em 50% em relação às eleições de 2010, segundo uma reportagem da revista Época.

O exemplo mais notório disso já pode ser percebido entre os candidatos ao maior cargo do poder executivo, o de presidente da República. Um dos  postulantes a ocupar o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos é um pastor, que faz questão de evidenciar seu cargo clerical em seu material de campanha.

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Se há algumas décadas os evangélicos eram um grupo com pouca capacidade de influenciar os rumos de Brasília, o aumento de igrejas pentecostais e neo-pentecostais fez com que esse cenário mudasse. Uma outra reportagem da revista Época, feita no início desse mês, mostra como o voto dos evangélicos se tornou um poderosa arma nas últimas eleições, sendo decisivo na escolha de alguns candidatos.

Não é difícil perceber que agradar esse público passou a ser uma prioridade para qualquer político que queira possuir alguma chance de ser eleito. Agora todos os candidatos a qualquer cargo ficam pisando em ovos ao tratarem de temas que podem causar atrito com os evangélicos, como a descriminalização de drogas ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Um exemplo de como essa mudança no panorama religioso afeta o discurso político pode ser percebido em um posicionamento da presidente Dilma. Em outubro de 2007, quando ainda era ministra-chefe da Casa Civil, ela deu a seguinte declaração a respeito da legalização do aborto, segundo essa reportagem do jornal O Globo:

“Olha, eu acho que tem que haver a descriminalização do aborto. Hoje, no Brasil, isso é um absurdo que não haja a descriminalização.”

Em outubro de 2010, quando se candidatou ao cargo de presidente, ao perceber que seu posicionamento poderia custar o voto de eleitores conservadores, entre os quais os evangélicos, ela já passou a adotar um tom mais precavido em sua abordagem a respeito do assunto, afirmando uma coisa que, curiosamente, ia em total contradição ao que ela havia afirmado antes:

“Sou pessoalmente contra o aborto e defendo a manutenção da legislação atual sobre o assunto. Eleita presidente da República, não tomarei a iniciativa de propor alterações de pontos que tratem da legislação do aborto e de outros temas concernentes à família e à livre expressão de qualquer religião do país.”

E agora que está concorrendo à reeleição, a ordem de seu comitê de campanha é de evitar a todo custo a menção a temas espinhosos para os religiosos, com o declarado objetivo de conquistar o eleitorado evangélico. Uma estratégia que parece estar sendo seguida com afinco, quando notamos que, entre administrar um país e coordenar sua candidatura, a chefe de governo ainda conseguiu reservar um espaço em sua agenda para comparecer à inauguração do maior templo da maior congregação evangélica do país.

Sua adversária direta na luta pela presidência, Marina Silva, é, por sua vez, uma fiel da congregação evangélica Assembleia de Deus, e não esconde seu alinhamento à doutrina religiosa deste grupo, ao se posicionar pessoalmente contra a pesquisa com células-tronco e contra a descriminalização do aborto.

Se a candidatura de Dilma já dá sinais de sofrer certa influência exercida pelas tendências doutrinárias evangélicas, a de Marina a torna escancarada.

Ao lançar o programa de governo do seu partido para essas eleições, Marina – possivelmente contrariando suas convicções pessoais – defendia o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da criminalização da homofobia. Uma postura que, obviamente, deixou as lideranças religiosas evangélicas desgostosas.

Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, apontado como um dos pastores mais ricos do país, não deixou barato. Em seu twitter,  o líder religioso disparou uma série de declarações criticando o programa do partido e cobrando de Marina explicações a respeito de seu posicionamento:

Twitter malafaia

Bastou isso para que, no dia seguinte ao anúncio, o partido emitisse uma nota se retratando e informando que houve uma “falha processual na editoração” do programa e que, na verdade, eles não apoiavam a proposta de legalizar o casamento igualitário no Brasil.

Se um simples tweet do líder de uma congregação evangélica já é o suficiente para fazer com que uma candidata a presidente volte atrás e passe a afirmar quase o oposto do que vinha afirmando antes, imagine o que eles não poderiam fazer se essa candidata já estivesse no poder.

Já o terceiro candidato à presidência com maior número de intenções de voto segundo as pesquisas, Aécio Neves, é o que parece ser o mais neutro dos três em relação aos temas controversos para os religiosos. Ele diz não se opor ao casamento gay, que isso já é parte de nossa realidade e é uma pauta do passado. Ele acha que a legislação atual sobre aborto atende as demandas do Brasil e disse que não as modificaria. E afirma não ser a favor da descriminalização da maconha, mas defende um debate público sobre o assunto. Como se pode ver, ele parece estar se esforçando para ficar completamente em cima do muro em relação a todos esses assuntos espinhosos e não se comprometer. O que talvez explique porque ele está em terceiro lugar, enquanto as outras duas estão disparando à sua frente, com a conquista dos religiosos e conservadores…

No poder legislativo, a influência religiosa também só parece estar aumentando. A bancada evangélica, frente parlamentar composta por líderes e fieis dessas congregações religiosas que, apesar de pertencerem a partidos diferentes, se articulam para que seus votos sempre atendam a seus interesses teológicos, já seria o terceiro maior partido político da Câmara se contituísse uma só legenda, um cenário que, aliás, pode vir a se tornar verdadeiro em breve, com a possível fundação de um partido político evangélico.

Integrantes da bancada evangélica realizando um culto durante uma sessão da Câmara.

Integrantes da bancada evangélica realizando um culto durante uma sessão da Câmara.

Caso as eleições acompanhem a tendência demográfica dos evangélicos, é possível que por volta de  2040, os parlamentares evangélicos já se tornem maioria no Congresso.

Nesse ponto, devemos parar e nos perguntar: essa influência excessiva de um grupo religioso específico na política nacional seria necessariamente uma coisa ruim? E se seria, por que, exatamente?

Afinal, nós vivemos em uma democracia. Teoricamente, nossos governantes são os representates do povo, e escolhidos por este. Então, se a maioria dos nossos políticos um dia chegar a ser composta por líderes ou seguidores de determinada orientação religiosa não seria porque a maioria da população, em um processo democrático os elegeu? Eles não estariam, no fundo, representando o interesse da maior parte da nação, inclusive em sua crença religiosa?

Bom, a meu ver, esse cenário ilustra com perfeição um dos principais problemas do sistema democrático moderno: o governo das maiorias sobre as minorias. Praticamente todos os sistemas atuais de escolha de representantes políticos se baseiam somente no número absoluto de votos da população. E isso faz com que, invariavelmente, as camadas da população com um número menor de pessoas acabem com um poder político menor que os outros, um fato que se aplica não somente em relação à religião, mas a qualquer posição minoritária: etnias, posições filosóficas, orientação sexual, origem geográfica etc. Qualquer grupo desses que possua o menor número de pessoas automaticamente possuirá também menor representação política.

Essa falha no sistema democrático também é a causadora do circo no qual se tornou a política brasileira atual, com a execução das fanfarronagens descritas no primeiro parágrafo desse artigo. Como o número de votos recebidos é o fator mais importante para ser eleito, os políticos sabem que o método mais eficiente de alcançar o poder é se utilizar de métodos que façam com que eles fiquem em evidência para as massas votantes. Todo político quer virar um meme nessa época do ano. Daí vem os carros barulhentos, os jingles grudentos etc. E já sendo a religião naturalmente um meme, um sistema de propagação de ideias e de doutrinação de mentes, não foi difícil para eles perceberem como ela também poderia ser utilizada para o arrebanhamento de mais votos.

Isso é facilmente notável quando percebemos que nessa época de eleições diversos líderes religiosos surgem apoiando candidatos políticos de seu interesse, a exemplo do próprio pastor Silas Malafaia, que há meses aparece em cartazes e propagandas apadrinhando os candidatos Sóstenes Cavalcante para a Câmara dos Deputados e Samuel Malafaia – que curiosamente é seu próprio irmão – para a Assémbleia Legislativa do Rio.

Malafaia apoiando seus candidatos, sem nenhum interesse pessoal, obviamente.

Malafaia apoiando seus candidatos, sem nenhum interesse pessoal, obviamente.

É claro que esses apoios não são dados pelos pastores por eles acharem que esses candidatos são os mais indicados a liderar o povo ou porque eles realmente acreditam que eles possuem as melhores propostas legislativas para o país. Esses apoios são devidos primeiro porque esses candidatos possuem (ou fingem possuir, o que na prática dá na mesma) a mesma orientação religiosa do pastor, e segundo, porque ele sabe que ao ajudar esses candidatos a serem eleitos, uma vez que eles estejam no poder, podem ajudar a aprovar leis que ajudariam a legitimar e fortalecer o domínio dos religiosos sobre seus fieis.

Exemplos de como esses políticos passam a legislar em causa própria após as eleições não faltam entre as propostas da bancada evangélica. Em 1999, foi proposta na Câmara a PEC-99, que visava dar às igrejas o poder de contestar a constitucionalidade de leis diretamente ao Supremo Tribunal Federal, de autoria do deputado João Campos,  pastor da Assembleia de Deus e líder da bancada evangélica que, diga-se de passagem, foi também o autor do famigerado projeto da cura gay. Em 2009, outro membro da bancada evangélica apresentou um projeto que favoreceria diretamente as igrejas evangélicas: o PLC-160/2009, chamado de Lei Geral das Religiões, que daria a essas congregações vantagens fiscais já desfrutadas pela Igreja Católica. O autor dessa vez foi o deputado George Hilton, pastor da Universal do Reino de Deus, que foi expulso em 2005 do seu antigo partido, o PFL, ao ser detido transportando dinheiro da Igreja Universal em um jatinho particular.

Esses são apenas alguns exemplos, mas tramitações legislativas como essas, onde os parlamentares religiosos buscam retribuir os que apoiaram suas candidaturas ou favorecer suas próprias congregações religiosas existem às dúzias. Fica claro que a preocupação com o futuro do país ou até mesmo dos seus fieis nas igrejas fica, no mínimo, em segundo plano na mente desses políticos. O mais importante é garantir meios de perpetuar a influência que eles possuem sobre a sociedade e de somar ainda mais zeros às suas já polpudas contas bancárias.

E nem mesmo as irregularidades cometidas por esses políticos parecem ser capaz de indicar aos seus eleitores que eles talvez não sejam  a melhor opção a se colocar no plenário. A doutrina a que eles são submetidos é tão forte que, mesmo após a revelação de escândalos e crimes, eles continuam imaginando que por eles estarem no altar de uma igreja ou no púlpito de um culto, eles são representates de uma divindade, que o que eles estão realizando é a vontade divina então, obviamente, são também os melhores candidatos a serem eleitos. Ao que parece, uma boa parte dos religiosos continua levando a sério a filosofia de que “crente vota em crente”.

Crente vota em Crente! Não, espera...

Crente vota em Crente! Não, espera…

É espantoso, por exemplo, constatar como, mesmo após o envolvimento de 23 parlamentares da bancada evangélica no escândalo de desvio de dinheiro público que ficou conhecido como a Máfia dos Sanguessugas, em 2006, ou com seus parlamentares sendo considerados os mais ausentes e processados do país, a fé do eleitorado evangélico em seus líderes não parece ter diminuído nem um pouco, já que um número cada vez maior de pastores e bispos são eleitos para ocupar as cadeiras de nosso Parlamento.

Alguns líderes religiosos mais caras de pau chegam a abandonar completamente os pudores em relação à laicidade do Estado (sem falar da ética e do bom senso) e procuram candidatos interessados em comprar os votos dos fieis de sua congregação, institucionalizando, então, o voto de púlpito, uma nova leitura dos antigos votos de cabresto.

Em um país que se diz laico e cuja Constituição prega a separação entre a Igreja e o Estado, essa tendência é preocupante. Se hoje alguns políticos cristãos já veem com normalidade o fato de a Bíblia ser priorizada frente às leis, imagino como esses políticos se comportariam caso se tornassem a maioria dos membros do parlamento. Talvez seja exagero dizer que o Brasil está caminhando para se tornar uma teocracia moderna, a exemplo do Sudão e do Irã. Mas essa é uma aterradora possibilidade que não pode ser descartada.

Na melhor das hipóteses, eu diria que, caso a ascenção dos evangélicos e de sua influência política continuem no ritmo em que se encontram atualmente, o Brasil em breve será no mínimo parecido com Israel – que hoje é considerada por muito teóricos políticos como uma etnocracia liberal – onde o povo teoricamente exerce o poder democraticamente, mas uma classe social majoritária tem notáveis privilégios sobre as minorias.

E qual seria o caminho para se evitar isso?

Bom, eu consigo vislumbrar duas maneiras óbvias de se evitar que o evangelismo político divida efetivamente o país. A primeira seria uma revolução, violenta ou pacífica, que impediria os líderes religiosos de exercerem o poder político diretamente. Se você estivesse no rol de fundadores, diretores, administradores, dirigentes ou líderes de cultos em uma igreja, não poderia se candidatar a nenhum cargo político, institucionalizando no país inteiro uma regra parecida com a que o Vaticano aplica aos seus clérigos. Como qualquer solução radical, essa implicaria em notáveis consequências negativas. Por exemplo, se essa proibição fosse aplicada somente a evangélicos ou a qualquer outra denominação específica, estaríamos legalizando a discriminação a um setor da sociedade, que perderia seu sufrágio, retrocedendo na liberdade democrática que a sociedade levou tanto tempo para alcançar. E se, por outro lado, essa medida fosse estendida a líderes de todas as religiões, as minorias religiosas, que já não possuem muita representação política, perderiam de vez a possibilidade de elegerem representantes que defendessem seus interesses diretamente.

A outra maneira de se evitar isso seria investirmos maciçamente em educação e cultura, para que as futuras gerações que irão exercer seu direito de voto o façam de maneira consciente, elegendo candidatos que defendam racionalmente propostas que tragam benefícios ao povo, sem discriminações ou benefícios, e não somente por eles pertencerem a determinada congregação religiosa.

Porém essa segunda opção é uma medida que, infelizmente, depende dos políticos que já estão no poder para ser posta em prática, e que, obviamente, não iriam tomar nenhuma atitude que fizesse com que esse poder diminuísse ao longo do tempo. Quanto mais ignorante eles mantiverem a população, melhor será para políticos que queiram se aproveitar do sistema vigente para atingir interesses próprios.

Por isso mesmo, eu receio que nosso país já tenha entrado em um círculo vicioso do qual talvez não haja saída. A cada eleição que se aproxima eu vejo mais e mais pessoas alienadas politicamente e mais candidatos se aproveitando disso, e não somente através da religião, mas por qualquer outro meio que eles possam utilizar para manter o status quo da miséria e do poder. E não vejo nenhum sinal de melhoria no horizonte.

Sinceramente, temo pelo futuro desse país.

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[OFF-TOPIC] Revolta do Vinagre – O Gigante Acordou?

Abrirei uma rara exceção nesse blog e farei uma breve pausa em minhas ponderações a respeito de divindades e religiões para discorrer um pouco sobre as manifestações que vêm ocorrendo no país. Este pode ser um momento histórico para o Brasil, então acho que vale a pena abrir um espaço aqui para tratar do tema. E o espaço foi longo. O post ficou gigantesco pois eu tentei colocar aqui tudo o que eu penso a respeito do assunto, mas para quem está interessado em tudo que vem ocorrendo no país, acho que vai valer a pena ler até o final.

Estive presente nesta segunda-feira (17/06) na manifestação ocorrida aqui no Rio de Janeiro, logo, o que vou narrar aqui não é baseado no que ouvi falar, no que li em sites de notícias ou assisti em emissoras de televisão. Será o testemunho ocular do ocorrido. E como qualquer testemunho, se tratará da minha visão pessoal dos eventos, com minhas devidas opiniões.

Para começo de conversa, era óbvio para qualquer um lá presente que essas manifestações não mais dizem respeito apenas ao aumento nas passagens de ônibus. Esse foi apenas o estopim que deflagrou o pronunciamento popular. Já ouvi algumas pessoas – inclusive familiares – falando coisas do tipo “Mas estão fazendo essa bagunça toda por uma diferença de R$ 8,00 ao mês? Se for isso eu dou oito reais para eles me deixarem voltar do trabalho em paz!“. Desconfio que as pessoas que acreditam que isso ainda diz respeito apenas a um aumento de 20 centavos na passagem também acham que a Primeira Guerra Mundial ocorreu apenas por conta da morte de um arquiduque.

Na passeata, podiam ser vistas pessoas brandindo cartazes com as mais diversas exigências: melhoras na saúde, na educação, fim da corrupção, contra a PEC 37, contra a truculência policial, contra os gastos da Copa… e até mesmo contra o aumento das passagens. Os gritos de guerra também eram dos mais variados matizes, englobando todas essas exigências. Então, sem nenhuma sombra de dúvidas, não se tratava mais apenas de 20 centavos.

cartaz1

Cartaz2

Exemplos práticos de que não se trata mais só de R$ 0,20

O povo na verdade decidiu ir às ruas para demonstrar sua insatisfação com a situação atual do país de uma maneira genérica. Há um bom tempo sentimos um desgosto com os rumos tomados pelo Brasil em inúmeras áreas, e essas manifestações acabaram servindo como válvula de escape para extravasar esse sentimento enjaulado.

Outra coisa evidente na manifestação era a demografia bem específica dos presentes. Tratavam-se basicamente de jovens, entre 16 e 30 anos, e de representantes da classe média/média alta. Até havia um ou outro no meio da multidão com mais idade, ou que aparentava pertencer a outra classe econômica, mas pelas minhas impressões, a maioria esmagadora encontrava-se nesta camada social.

Era o esperado, considerando-se que a internet e as redes sociais foram os principais meios utilizados para se organizarem os protestos. Um grande número de manifestantes registrava a passeata com seus smartphones, tablets ou câmeras. Muitos eram estudantes de faculdades públicas e outros haviam acabado de sair do trabalho. Havia ainda alguns trajando ternos e roupas sociais.

Eu cheguei lá por volta das 19:00 hs, e até o momento em que fui embora, por volta das 21:30 hs, a manifestação foi completamente pacífica. Quando um ou outro manifestante começava a exibir um comportamento mais agressivo era imediatamente coibido pela multidão, com gritos de protesto. O ocorrido na Alerj posteriormente me parece ter sido obra de um grupo completamente distinto dos que estavam protestando na Cinelândia.

Nesse ponto, a atuação da polícia militar também merece ser aplaudida, pois enquanto a manifestação manteve sua natureza pacífica, eu não presenciei nenhuma demonstração de truculência ou abuso por conta dos policiais. Havia um grupo deles formando um cordão de isolamento, mas acho que era mais por motivo de organização da passeata do que por imposição de força.

A exclusão consciente de partidos políticos também era uma coisa patente. Alguns membros de partidos tentaram se meter no meio da manifestação com bandeirinhas, mas eram rapidamente afastados com gritos de “Ih, fora!” e “Não temos partido!“.

Embora essa ausência de alinhamento partidário tenha um lado positivo – manter a manifestação isenta de interesses de grupos políticos específicos – ela acaba trazendo também um ponto negativo. A manifestação fica sem uma liderança e objetivos definidos. Embora algumas pessoas puxassem gritos de guerra e outras estivessem com um carro de som e megafone na mão gritando palavras de ordem e de incentivo, não havia exatamente alguém responsável pela manifestação, à frente das pessoas.

Ah, mas essa era a idéia, demonstrar que não é apenas um grupo de pessoas que está insatisfeito, e sim a sociedade de um modo geral“, você pode estar pensando. Sim, uma manifestação que reúne 100.000 pessoas no centro da cidade, demonstrando a insatisfação com o andamento do país com certeza é uma otima maneira de demonstrar descontentamento com o governo. Porém, em minha opinião, mais importante do que demonstrar esse descontentamento, seria apresentar maneiras de solucionar os problemas contra os quais nos manifestávamos.

E é nessa hora que as lideranças são importantes. Para chegar junto às autoridades, apresentar as insatisfações e exigir que elas sejam cumpridas. Políticos são indivíduos simples de se entender, eles fazem o máximo para resolver seus problemas da maneira que, ou não percam votos, ou venham a angariar o máximo de eleitores. Assim, a forma mais fácil de resolver essas manifestações para eles é através de negociações. E não dá para negociar com uma multidão.

Exemplo disso foi o governador Alckmin, que se apressou em forjar uma negociação com os representantes do Movimento Passe Livre – e depois reclamou que eles não haviam cumprido o acordo feito. Mas é claro, o Movimento Passe Livre àquela altura já não era mais o único grupo se manifestando, eles não tinham mais nenhuma gerência sobre aquele povo todo presente.

Assim, as manifestações podem ficar muito bonitas em fotos, lotar ruas, mas será que conseguirão trazer efetivamente alguma mudança?

Se elas continuarem acontecendo sem nenhuma liderança para tomar a frente e dizer exatamente o que está sendo exigido e quais mudanças devem ser implementadas, elas correm o risco de se tornarem inócuas, perdendo o foco. O que se quer afinal de contas com as manifestações? O que se propõe para satisfazê-las?

Se amanhã ou depois as tarifas de ônibus forem reduzidas, os protestos irão acabar, ou seguirão por conta de todos os outros problemas apresentados? E até quando? Até o Brasil se tornar um país de primeiro mundo em todas as áreas? Certamente foi com essas dúvidas em mente que vários governantes já deram um jeito de anunciar em tempo recorde que as tarifas das passagens de seus municípios serão reduzidas, visando dar um fim às passeatas da maneira mais célere possível.

Nessas horas os manifestantes devem olhar a situação a longo prazo. Não é viável fazer manifestações todos os dias reclamando genericamente que o país está uma porcaria. Até porque disso todo mundo já sabia mesmo antes das manifestações. Admito que elas servem, sim, para demonstrar que uma parte dos eleitores acordou e não vai mais aguentar isso calado, mas quando a poeira abaixar e o povo parar de fazer barulho nas ruas – o que fatalmente irá acontecer uma hora – alguma coisa terá efetivamente mudado?

Uma figura que tome a frente dos protestos e ofereça um rosto que represente todos os manifestantes e exigências específicas pode ser importante para garantir que os objetivos dos protestos sejam implementados, por maior que seja o risco de influências partidárias. Não estou dizendo que essa liderança deva partir necessariamente de um partido político ou de um líder partidário, mas alguma liderança para apresentar exigências tem que haver, em minha opinião.

Aliás, havia até alguns manifestantes que afirmavam que essa não era uma manifestação política. Ora, uma manifestação pode até ser apartidária, mas não há como ser apolítica. Qualquer mudança que se queira realizar no país terá que passar obrigatoriamente pela política. E neste ponto, uma importante observação deve ser feita.

Infelizmente, para que os políticos implementem alguma mudança de fato, eles têm que sentir que seu mandato ou o número de votos que seu partido receberá está sendo ameaçado com essas manifestações. Para eles essa é a única coisa que importa, a única moeda de troca, votos. Aí, cabe uma pergunta relevante: será que os manifestantes presentes na rua do Brasil são as mesmas pessoas que votaram nos atuais governantes, ou que votariam neles nas próximas eleições, apresentando assim, alguma relevância ou ameaça real às suas candidaturas?

Considere que, segundo o IBGE, metade da população brasileira tem um rendimento per capita de R$ 375,00. É natural supor que entre os eleitores, essa mesma proporção seja mantida. Assim, acho seguro concluir que mais da metade dos eleitores desse país pertencem à classes ecônomicas baixas, e sendo assim, são elas quem define de fato os rumos de uma eleição.

Logo, os representantes políticos no poder provavelmente não estão nem aí para o que a classe média está reinvidicando nas ruas. Eles devem estar muito mais preocupados com a influência que as manifestações terão sobre as classes mais pobres. Você que está lendo esse post tem acesso à internet, se interessa pelas novidades a respeito das manifestações (do contrário, não estaria lendo este blog) e deve estar ciente de tudo que vem acontecendo no país nos últimos dias, mas será que alguém que tem uma renda de R$ 375,00 mensais tem o mesmo acesso a informação que você?

Por esse motivo é tão politicamente relevante a maneira como esses fatos serão apresentados pela grande mídia. A grande maioria dos eleitores não vai ler blogs sobre as manifestações, não vai verificar no facebook o andamento dos protestos e não vai acessar portais independentes de notícias em busca de informações imparciais. Para cada eleitor presente na manifestação há pelo menos uns vinte que somente saberão o que está acontecendo pelos telejornais, pelos plantões nos intervalos das novelas, pelas notícias do rádio e pelo que os jornais populares mostrarem. E no momento o que eles estão mostrando é isso:

Matéria online do jornal Meia Hora

Matéria online do jornal Meia Hora

Manchete da versão em papel do jornal Meia Hora

Manchete da versão em papel do jornal Meia Hora

Manchete da versão física do Jornal Extra

Manchete da versão em papel do jornal Extra

Estima-se que havia 100.000 pessoas presentes na manifestação do Rio nesta segunda-feira. Estima-se também que o número de vândalos que atacou a Alerj foi de 300 pessoas. Ou seja, 0,3% dos presentes foram responsáveis pelas imagens e notícias que acabaram se tornando o destaque nos jornais lidos pelas pessoas que não estavam presentes na manifestação, que não têm acesso à internet e que não sabem ler notícias criticamente, mas que irão escolher nossos futuros governantes.

Com isso, você pode até ter consciência de que esses protestos são importantes para se alterar os rumos que a nação tem tomado. Mas a sua empregada terá essa consciência? Seu porteiro? O motorista do seu ônibus?

Pode parecer preconceituoso de minha parte afirmar que esse grupo de pessoas estará alheio ao que se passa na política do país, ou será facilmente influenciado pela mídia de massas. Não é a minha intenção menosprezar ou depreciar os menos favorecidos economicamente. Essa é apenas a constatação de um fato. Afirmar que uma parede pintada de vermelho é vermelha não é emitir uma opinião sobre essa tonalidade, é apenas constatar a realidade. E a realidade é que as pessoas de classes econômicas mais baixas são mais fáceis de serem manipuladas politicamente pela grande mídia, não por elas serem pessoas piores ou menos inteligentes, mas sim porque elas normalmente têm menos acesso à educação e à cultura em virtude da falta de recursos econômicos e incentivo governamental. E o governo com sua política assistencialista (*cof*bolsafamília*cof*) faz questão de mantê-los assim, visando consolidar sua esfera de influência.

Com isso o voto direto e obrigatório, longe de ser uma outra maneira efetiva de mudar o governo – como algumas pessoas que condenam os protestos parecem pensar – acaba se tornando apenas uma modo de legitimar uma governança negligente. Nesse sentido eu não sei se é verossímel afirmar que o gigante acordou de fato com essas manifestações, eu diria mais que um braço ou uma perna do gigante estão acordados, enquanto o resto continua em sono profundo.

Uma outra medida governamental estapafúrdia que visa diminuir o barulho causado pelos protestos é a cogitação de ressurreição de uma bizarrice legislativa, um projeto de lei criado pelo senador Marcelo Crivella há dois anos (PL 728/2011) que tornaria possível a tipificação dessas manifestações como crime de terrorismo. Assim, qualquer movimento que, segundo os termos do projeto, incitasse à revolta, insurreição ou revolução, poderia ser punido com reclusão de 15 a 30 anos.

Marcello Crivella,

Marcello Crivella, autor do PL 728 e atual ministro da pesca do governo Dilma

Essa repercussão negativa imposta pelo governo e pela mídia aos movimentos populares têm a função não só de influenciar as classes sociais mais baixas, mas também as classes que deveriam apoiá-los incondicionalmente. Vários integrantes da classe média com quem convivo desaprovam as manifestações, afirmando que se tratam de um monte de vândalos, ou que eles deveriam protestar sem atrapalhar os outros.

Bom, quanto a isto, tenho somente essas observações a serem feitas. Em primeiro lugar, os vândalos são minoria absoluta, como demonstrado alguns parágrafos acima. Julgar um pomar inteiro por umas poucas maçãs podres é fechar os olhos para a realidade e enxergar apenas o que se deseja enxergar para justificar uma opinião prévia.

Em segundo lugar, me mostre de que maneira 100.000 pessoas iriam fazer uma manifestação sem atrapalhar absolutamente ninguém que eu a apoiarei plenamente. Porque eu não vislumbro a hipótese de essa quantidade de manifestantes fazerem uma passeata sem que pelo menos uma pessoa sofresse algum tipo de contratempo. E ainda que eu não estivesse entre os manifestantes, eu consideraria um mero atraso na minha volta para casa, ou uma caminhada maior para pegar o ônibus como preços justos a serem pagos pela possibilidade de melhoras do meu país.

Agora, se por ¨atrapalhar os outros¨, se quer dizer atrapalhar especificamente a quem está reclamando, desculpe, mas isso é meramente egoísmo da parte dos reclamões. Assim como o seu direito de ir e vir é garantido na Constituição, o direito de reunião dos manifestantes também é. ¨O direito de um termina onde o direito do outro começa” é uma regra que vale para ambos os lados. Você pode estar plenamente satisfeito com a situação de seu país, o que eu não entenderia, mas respeitaria, no entanto deixe aqueles que não estão buscar uma maneira de modificar as coisas.

A menos que os reclamões de plantão o estejam fazendo porque eles conhecem uma maneira mais eficiente de mudar um país (considerando que voto consciente não é uma opção viável, pelos motivos já apresentados). Se for este o caso, sou todo ouvidos à apresentação de suas alternativas mais eficientes de se mudar uma nação.

Para finalizar esse post, deixo a sugestão de algumas pautas que, em minha opinião, mereciam ser defendidas pelos manifestantes tanto quanto ou até mais do que o aumento das tarifas de ônibus. E que, diferente de temas controversos, como legalização do aborto ou das drogas, são causas unânimes, podendo ser abraçadas por qualquer cidadão com um mínimo de bom senso e que não tenha rabo preso com o governo, o que ajudaria a unir todas as classes em protesto, o que será fundamental para o sucesso dessa pretensa revolução tupiniquim:

  • Fim das regalias parlamentares: 14° e 15° salários, semana de trabalho reduzida, faltas não computadas, foro privilegiado, auxílio moradia, livre nomeação de diversos assessores, carro oficial, aposentadoria integral após o mandato… Ser parlamentar no Brasil é padecer no paraíso. Acho que em nenhum outro país do mundo os membros do parlamento têm tantos mimos pagos com dinheiro do povo. Uma manifestação dessa magnitude exigindo que essas mordomias fossem encerradas, ou, no mínimo diminuídas, com certeza receberia um apoio incondicional de toda a nação. Sigamos o exemplo da Suécia.
  • Aumento da malha ferroviária: qualquer país com dimensões continentais que se preze investe maciçamente no transporte ferroviário. É mais econômico, mais rápido e mais limpo. Não há nenhuma desvantagem dele em relação ao transporte rodoviário. O único motivo para o Brasil ignorar as linhas férreas e investir tanto em rodovias é fazer com que a indústria automobilística do país, que já é a 5° maior do mundo em número de vendas, continue vendendo mais, mesmo não havendo mais onde enfiar tantos carros. Interesses meramente econômicos. Para se ter uma idéia, a Alemanha, que tem uma área territorial 23 vezes menor que o Brasil, tem uma malha ferroviária maior que a nossa. Os EUA, que têm quase o mesmo tamanho do nosso país, possuem quase oito vezes mais linhas ferroviárias que o Brasil. Isso baratearia os custos de produção, de viagens, de tudo, e ainda melhoraria o trânsito nas grandes cidades. Mas não atenderia aos interesses políticos do país, logo só seria alcançado através de mais protestos.
  • Investimento maciço em educação: manter o nível educacional da população em baixa é uma antiga estratégia política para se alienar os eleitores. Assim, conseguem se manter no poder os políticos que utilizam desse instrumento, que por sua vez, continuam aplicando essa política, criando assim um círculo vicioso. A única maneira de se quebrar esse círculo seria exigir que uma porcentagem fixa e vultuosa do orçamento ou do PIB fosse investida diretamente na educação. Algo como 10% ou até 15% do PIB parece ser o investimento ideal para sair dessa situação de defasagem educacional em que nos encontramos atualmente.
  • Referendo da população interessada para aprovação de aumentos do legislativo: o que você faria se tivesse o poder de escolher o seu próprio salário? Por mais bem intencionada que seja, qualquer pessoa com esse poder se sentiria tentada a, em toda oportunidade possível, aumentar seu próprio salário ao máximo permitido. E, obviamente, é o que os membros do legislativo fazem. São eles que votam as leis que determinam quanto eles mesmos vão receber de salário. Não é possível que não se perceba o absurdo da situação. Embora o executivo tenha poder de veto sobre as leis, esse veto pode ser derrubado pelo legislativo, e mesmo que não fosse, isso geralmente é resolvido com acordos que beneficiam ambos os lados. Uma boa exigência a ser feita em manifestações seria que esses aumentos só fossem aprovados após o referendo da população interessada, nos municípios, estados e na União. Assim, inverteria-se a relação de dependência entre o eleitor e o eleito e os legisladores não poderiam ignorar a população que os elegeu, fazendo todo o possível para satisfazer suas necessidades.

Esses são apenas exemplos de bandeiras que poderiam ser levantadas por essas manifestações. Várias outras são possíveis, o que não falta é coisa errada para se apontar nesse país. Uma pessoa que levasse essas reivindicações ao poder público teria grande chances de trazer mudanças reais ao Brasil e de trazer as grandes massas para o movimento, o que legitimaria de vez esse como um verdadeiro momento histórico nesse país, e não apenas um fogo de palha, que vai nadar e morrer na praia.

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