Arquivo da tag: Padre Marcelo Rossi

Comentando A Declaração Do Padre Marcelo Rossi

Nesta segunda-feira, dia 20, o padre popstar Marcelo Rossi, em entrevista ao Portal Terra, fez uma polêmica afirmação sobre política, que rendeu calorosas discussões nas redes sociais.

marcelo rossi

Padre Marcelo Rossi

Ao comentar o atual cenário político do país, o sacerdote deu sua opinião a respeito da associação que algumas pessoas fazem entre suas crenças religiosas e o exercício da política:

“Eu sou totalmente contra, seja padre ou pastor. Está errado. Ou você é um líder religioso, ou você é um líder político. Pode colocar minhas palavras: ‘Nunca vote em nenhuma pessoa religiosa’. A Igreja Católica viveu isso, a união de Estado, política e religião. Foi a pior fase. Pode ver que a Igreja Católica é a única que não tem candidato. Ela pode até dizer que gosta, mas nunca indica. Eu tenho medo. A pior coisa é fanático. Fuja dessas pessoas, que são as mais perigosas e as que se corrompem mais facilmente”

Descrentes e religiosos que defendem a laicidade do Estado não demoraram em aplaudir o que o padre falou:

declaraçoes1

E é claro que alguns religiosos mais exaltados decidiram fazer o contrário, criticando ostensivamente o que foi dito:

declaracoes2

Sendo eu ateu, assim que li essa notícia na internet, minha primeira reação foi parecida com a das primeiras pessoas acima, concordando plenamente com o padre.

Porém, conforme eu parei para pensar melhor no que ele havia falado, me dei conta de que uma parte de seu discurso pode estar equivocada.

Primeiro, vamos deixar claro uma coisa. O padre Marcelo está enganado ao afirmar que a Igreja Catolica é a única que não tem candidato político. Não vou nem entrar no mérito do chefe de sua igreja ser também o governante do seu próprio Estado, já que isso não me parece estar diretamente relacionado ao que estava sendo afirmado. Porém, mesmo em referência somente às eleiçoes de nosso país, é notável que já houve casos de padres que foram eleitos para cargos políticos, como eu havia apontado antes. E, segundo o UOL, nessas últimas eleições mesmo, 23 párocos católicos disputavam o pleito.

Mas tudo bem, não vou afirmar que o padre mentiu nesse caso. Ele poderia simplesmente não ter conhecimento dos casos acima, ou talvez estivesse se referindo somente a um apoio oficial da Igreja, o que eu não saberia dizer se há ou não, já que não conheço os bastidores do Vaticano. Desconsideremos esse equívoco e nos concentremos em outra parte do que foi afirmado: “Nunca vote em uma pessoa religiosa”.

Depois que eu refleti melhor a respeito do que foi dito, percebi o quanto essa declaração soa discriminatória para com uma parcela da população brasileira. O padre está basicamente defendendo que uma parte da população (os religiosos) não deve poder gozar plenamente de seus direitos políticos, não devendo nunca serem eleitos. Se você não consegue perceber a gravidade do que foi dito, experimente fazer o seguinte: utilize qualquer outra parcela da população na mesma frase para ver se você concordaria com ela. “Nunca vote em um negro”. “Nunca vote em um homossexual”. “Nunca vote em um policial”. “Nunca vote em um ateu!“…

Eu até  entendi o sentido da afirmação do padre. Sua intenção era defender a laicidade, a separação entre o Estado e a religião, e a referência que ele faz à atuação da Igreja na Idade Média é indicativa disso. E eu concordo com o espírito do que ele quis dizer. No entanto, eu diria que a atitude que ele parece julgar necessária para que essa laicidade seja atingida não é a mais acertada.

O problema não está em uma pessoa religiosa, ou mesmo em um líder religioso atingir o poder político. O problema está nessa pessoa não saber separar suas crenças religiosas de seu mandato e deixá-las interferir em sua governança. Sendo assim, eu não veria problema nenhum no fato de um religioso, seja um padre, um pastor, um imame, um babalorixá ou qualquer outro, ascender a um cargo político, desde que ele não tomasse nenhuma decisão ou não propusesse nenhuma lei discriminatória, com base única e exclusivamente em seus preceitos religiosos.

Talvez uma melhor forma de se afirmar o que era pretendido seria dizer: “muito cuidado ao votar em uma pessoa religiosa, para que ele não deixe sua religião interferir negativamente em sua atuação política”, ou algo nesse sentido. Talvez até tenha sido exatamente isso o que o padre quis dizer… Imagino que ao dar uma entrevista ao vivo algumas palavras não exprimam exatamente o que se estava passando em sua mente. Mas é justamente por isso que uma pessoa pública tem que redobrar o cuidado com o que diz.

Em um país onde a democracia fosse melhor aplicada, essa advertência de nunca se votar em um religioso provavelmente seria vista com estranheza e talvez fosse até desnecessária. Eu não imagino, por exemplo, alguém na Suécia, um país onde os governantes são tratados como cidadãos comuns e como modelos a serem seguidos pela comunidade,  precisando alertar os eleitores a nunca votarem em um líder religioso. Mesmo que um deles alcançasse o poder, os próprios eleitores provavelmente não deixariam que medidas anti-democráticas e interesseiras fossem tomadas por esses políticos.

No entanto, é claro que isso também depende muito do povo do país. E no Brasil, onde os candidatos ostentam seus cargos religiosos como trunfo para conseguir votos, onde líderes religiosos pedem votos no púlpito em troca de dinheiro e onde milhares de eleitores seguem o modo de pensar da cidadã abaixo, eu duvido muito que esse discernimento político esteja próximo de ser alcançado:

maluca

Vendo coisas como essa, eu chego a cogitar que no caso do Brasil talvez seja melhor mesmo uma proibição absoluta de se votar em candidatos religiosos…

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Uncategorized