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Comentando A Declaração Do Padre Marcelo Rossi

Nesta segunda-feira, dia 20, o padre popstar Marcelo Rossi, em entrevista ao Portal Terra, fez uma polêmica afirmação sobre política, que rendeu calorosas discussões nas redes sociais.

marcelo rossi

Padre Marcelo Rossi

Ao comentar o atual cenário político do país, o sacerdote deu sua opinião a respeito da associação que algumas pessoas fazem entre suas crenças religiosas e o exercício da política:

“Eu sou totalmente contra, seja padre ou pastor. Está errado. Ou você é um líder religioso, ou você é um líder político. Pode colocar minhas palavras: ‘Nunca vote em nenhuma pessoa religiosa’. A Igreja Católica viveu isso, a união de Estado, política e religião. Foi a pior fase. Pode ver que a Igreja Católica é a única que não tem candidato. Ela pode até dizer que gosta, mas nunca indica. Eu tenho medo. A pior coisa é fanático. Fuja dessas pessoas, que são as mais perigosas e as que se corrompem mais facilmente”

Descrentes e religiosos que defendem a laicidade do Estado não demoraram em aplaudir o que o padre falou:

declaraçoes1

E é claro que alguns religiosos mais exaltados decidiram fazer o contrário, criticando ostensivamente o que foi dito:

declaracoes2

Sendo eu ateu, assim que li essa notícia na internet, minha primeira reação foi parecida com a das primeiras pessoas acima, concordando plenamente com o padre.

Porém, conforme eu parei para pensar melhor no que ele havia falado, me dei conta de que uma parte de seu discurso pode estar equivocada.

Primeiro, vamos deixar claro uma coisa. O padre Marcelo está enganado ao afirmar que a Igreja Catolica é a única que não tem candidato político. Não vou nem entrar no mérito do chefe de sua igreja ser também o governante do seu próprio Estado, já que isso não me parece estar diretamente relacionado ao que estava sendo afirmado. Porém, mesmo em referência somente às eleiçoes de nosso país, é notável que já houve casos de padres que foram eleitos para cargos políticos, como eu havia apontado antes. E, segundo o UOL, nessas últimas eleições mesmo, 23 párocos católicos disputavam o pleito.

Mas tudo bem, não vou afirmar que o padre mentiu nesse caso. Ele poderia simplesmente não ter conhecimento dos casos acima, ou talvez estivesse se referindo somente a um apoio oficial da Igreja, o que eu não saberia dizer se há ou não, já que não conheço os bastidores do Vaticano. Desconsideremos esse equívoco e nos concentremos em outra parte do que foi afirmado: “Nunca vote em uma pessoa religiosa”.

Depois que eu refleti melhor a respeito do que foi dito, percebi o quanto essa declaração soa discriminatória para com uma parcela da população brasileira. O padre está basicamente defendendo que uma parte da população (os religiosos) não deve poder gozar plenamente de seus direitos políticos, não devendo nunca serem eleitos. Se você não consegue perceber a gravidade do que foi dito, experimente fazer o seguinte: utilize qualquer outra parcela da população na mesma frase para ver se você concordaria com ela. “Nunca vote em um negro”. “Nunca vote em um homossexual”. “Nunca vote em um policial”. “Nunca vote em um ateu!“…

Eu até  entendi o sentido da afirmação do padre. Sua intenção era defender a laicidade, a separação entre o Estado e a religião, e a referência que ele faz à atuação da Igreja na Idade Média é indicativa disso. E eu concordo com o espírito do que ele quis dizer. No entanto, eu diria que a atitude que ele parece julgar necessária para que essa laicidade seja atingida não é a mais acertada.

O problema não está em uma pessoa religiosa, ou mesmo em um líder religioso atingir o poder político. O problema está nessa pessoa não saber separar suas crenças religiosas de seu mandato e deixá-las interferir em sua governança. Sendo assim, eu não veria problema nenhum no fato de um religioso, seja um padre, um pastor, um imame, um babalorixá ou qualquer outro, ascender a um cargo político, desde que ele não tomasse nenhuma decisão ou não propusesse nenhuma lei discriminatória, com base única e exclusivamente em seus preceitos religiosos.

Talvez uma melhor forma de se afirmar o que era pretendido seria dizer: “muito cuidado ao votar em uma pessoa religiosa, para que ele não deixe sua religião interferir negativamente em sua atuação política”, ou algo nesse sentido. Talvez até tenha sido exatamente isso o que o padre quis dizer… Imagino que ao dar uma entrevista ao vivo algumas palavras não exprimam exatamente o que se estava passando em sua mente. Mas é justamente por isso que uma pessoa pública tem que redobrar o cuidado com o que diz.

Em um país onde a democracia fosse melhor aplicada, essa advertência de nunca se votar em um religioso provavelmente seria vista com estranheza e talvez fosse até desnecessária. Eu não imagino, por exemplo, alguém na Suécia, um país onde os governantes são tratados como cidadãos comuns e como modelos a serem seguidos pela comunidade,  precisando alertar os eleitores a nunca votarem em um líder religioso. Mesmo que um deles alcançasse o poder, os próprios eleitores provavelmente não deixariam que medidas anti-democráticas e interesseiras fossem tomadas por esses políticos.

No entanto, é claro que isso também depende muito do povo do país. E no Brasil, onde os candidatos ostentam seus cargos religiosos como trunfo para conseguir votos, onde líderes religiosos pedem votos no púlpito em troca de dinheiro e onde milhares de eleitores seguem o modo de pensar da cidadã abaixo, eu duvido muito que esse discernimento político esteja próximo de ser alcançado:

maluca

Vendo coisas como essa, eu chego a cogitar que no caso do Brasil talvez seja melhor mesmo uma proibição absoluta de se votar em candidatos religiosos…

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DIA DA HERESIA – Casamento Homossexual

dia da heresia

Bem vindos a mais um DIA DA HERESIA. Este é um espaço utilizado para se falar tudo que for relevante a respeito de um tema controverso específico que envolva a religião, apresentando minha opinião como ateu. O dia da Heresia ocorre todo terceiro domingo de cada mês.

E o tema desse mês será:

CASAMENTO HOMOSSEXUAL

Em primeiro lugar, deixe-me registrar que eu acho extremamente bizarro em pleno Brasil do século XXI ainda haver a necessidade de alguém escrever um texto defendendo a união entre duas pessoas que se amam. Parece que estou argumentando com um viajante do tempo vindo da Idade Média que o uso de ervas para fazer um chá não indica que uma pessoa seja bruxa… Mas tudo bem, vamos lá…

Em maio de 2011, uma decisão do Supremo Tribunal Federal surpreendeu o Brasil e fez os conservadores de todo o país ficarem alvoroçados. Em uma votação unânime a corte reconheceu que a expressão “homem e mulher” deveria ser afastada do artigo 1.723 do Código Civil, que trata da união estável, permitindo sua interpretação extensiva aos casais de mesmo sexo.

Art. 1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família.

Isso significa que, a partir de então, a união estável entre pessoas do mesmo sexo deveria ter o mesmo reconhecimento de entidade familiar que a união entre heterossexuais, teoricamente permitindo que casais homossexuais registrassem sua união estável em cartórios.

Entretanto, muitos cartórios do país ainda continuavam se recusando a reconhecer a união estável ou a convertê-las em casamento quando os requerentes eram um casal de homossexuais, alegando que não havia previsão legal para isso, uma vez que a decisão do STF não tinha força de lei.

Então, em resposta a essas alegações, em maio do ano passado, o CNJ, Conselho Nacional de Justiça, aprovou, por 14 votos a 1, uma resolução apresentada por seu presidente, o ministro Joaquim Barbosa, obrigando os cartórios de todo o país a aceitarem o casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo, deixando claro que nenhum casal, homossexual ou não, poderia ter o pedido de casamento ou reconhecimento de união estável recusado com base na orientação sexual de seus integrantes.

Segundo o texto, “é vedada às autoridades competentes a recusa de habilitação, celebração de casamento civil ou de conversão de união estável em casamento entre pessoas do mesmo sexo.” Na ocasião, Joaquim Barbosa afirmou que a decisão “remove obstáculos administrativos à efetivação” da decisão anterior do Supremo. Essa resolução tem força de lei e, sendo descumprida, cabe comunicação ao juiz corregedor do respectivo tribunal local, e até mesmo recurso ao próprio CNJ.

Essas decisões da Justiça vieram pôr fim a uma situação há muito controvertida e que se dependesse da boa vontade de nossos parlamentares provavelmente não seria solucionada tão cedo. A regularização do casamento entre pessoas do mesmo sexo no Brasil.

Mas, para começarmos a falar a respeito de casamento homossexual, primeiro temos que definir exatamente o que é “casamento”. Essa palavra tão simples pode ter significações diversas, dependendo do contexto em que é empregada.

Para o Estado, o casamento é um mero procedimento administrativo. É simplesmente o reconhecimento governamental de uma relação existente entre duas pessoas. Essa relação, por sua vez, pressupõe direitos e deveres entre as duas partes envolvidas, previstos em lei. Assim, o casamento seria mais ou menos como uma espécie de contrato firmado entre os dois nubentes.

Já para as doutrinas religiosas, o termo tem outro significado. Assim como o casamento civil, ele também representa a união entre duas pessoas, porém essa união se submete às regras da religião em questão, podendo ter objetivos e exigências totalmente distintos do casamento reconhecido pelo Estado. Para a Igreja Católica, por exemplo, o casamento (ou matrimônio) representa um dos sacramentos – os sinais sagrados que visam renovar a salvação da humanidade – e, graças a uma interpretação bíblica, só pode ser realizado entre um homem e uma mulher.

Uma maneira efetiva da humanidade ser salva, segundo a ICAR.

Uma maneira efetiva da humanidade ser salva, segundo a ICAR.

E há ainda um terceiro entendimento do termo casamento, este derivado das mudanças socioculturais ocorridas em nossa sociedade nos últimos anos, que é quando duas pessoas resolvem morar juntas, dividindo o teto, a cama, as contas e as preocupações, porém sem formalizar a união. Embora a sociedade veja estas pessoas como casadas de fato, o Direito considera essa relação como uma união estável, que apresenta algumas diferenças sutis, porém importantes, para com o casamento.

Portanto, quando se fala em casamento, podemos estar nos referindo ao casamento civil (estatal), ao casamento religioso (matrimônio) ou à união estável (“juntada”). Porém, quando se discute o casamento entre pessoas do mesmo sexo, normalmente os movimentos em seu favor estão se referindo ao primeiro dos conceitos acima, o casamento civil.

E a explicação para isso é simples. Se virmos a união estável como casamento, então poderíamos considerar que o casamento entre pessoas do mesmo sexo na prática já existe há muitos anos no país, antes mesmo do Supremo ter decidido qualquer coisa. Afinal, o que não faltam por aí são exemplos de casais de homossexuais e lésbicas vivendo juntos há anos, como qualquer outro casal heterossexual. E iriam continuar vivendo, independente do que a lei dissesse ou o do que qualquer religioso achasse disso. E se nos referirmos ao casamento religioso, isso se torna um assunto particular de cada religião, retirando o Estado da equação. Cada crença religiosa que defina o que entende por casamento como melhor entender.

Portanto, o que se reivindicava para os homossexuais era que o Estado lhes desse a oportunidade de ter suas uniões reconhecidas oficialmente, permitindo que eles se casassem no civil, como já era permitido entre um homem e uma mulher.

Achava-se que com essas eloquentes decisões judiciais o assunto estaria encerrado. Porém, aparentemente isso está longe de acontecer. Assim que o CNJ divulgou sua decisão, diversos grupos contrários ao casamento gay resolveram se manifestar, desaprovando o posicionamento do judiciário e clamando a existência de uma suposta “ditadura gay”.

Aliás, eu confesso que sempre considerei a causa defendida por esses grupos uma coisa difícil de se entender. Por que, afinal de contas, alguém seria contra um determinado grupo de pessoas adquirirem direitos que já são garantidos a outras pessoas? E por que elas acham que está sendo imposta uma “ditadura” se nenhum direito está sendo efetivamente retirado de ninguém? Talvez as pessoas que utilizam essa expressão não tenham muito conhecimento geopolítico, mas ditaduras não costumam distribuir direitos a quem não os tem, e sim retirar de quem já tem. E nesse caso ninguém está tendo nenhum direito tolhido. Mas enfim, divago…

Assim que o CNJ divulgou sua resolução, o pastos Silas Malafaia deu uma declaração criticando a decisão e afirmando que o conselho extrapolou sua competência ao decidir sobre esse assunto. O pastor Marco Feliciano, aproveitando a proximidade do fim de seu mandato como presidente da Comissão de Direitos Humanos, aprovou dois projetos legislativos que visam retirar o direito de casamento obtido pelos homossexuais e rejeitou um terceiro que almejava garantir o direito em lei. O vereador Carlos Apolinário alegou que o STF só tomou essa postura por estar sendo pressionado pelos gays a se posicionar, e afirmou coisas como:

“…os gays querem enfiar tudo goela abaixo do Congresso e da sociedade. Os gays precisam aprender a conviver com quem não concorda com eles. Eles têm de se acostumar ao fato de existirem pessoas que continuarão contrárias ao casamento gay, mesmo que ele seja aprovado.”

É irônico perceber que o digníssimo vereador acha que os gays devem aprender a viver com opiniões contrárias às deles, embora ele não pretenda fazer o mínimo esforço para conviver com pessoas que discordem de sua maneira de pensar. E não sei porque ele acha que os gays estão exigindo que as pessoas passem a ser a favor do casamento gay. Mesmo se ele fosse aprovado, obviamente as pessoas poderiam continuar sendo contrárias à sua realização.

Feliciano defendendo os interesses da nação no Congresso.

Feliciano defendendo os interesses da nação no Congresso.

Todos esses ilustres cidadãos acima deixaram bem claro que abominam o casamento gay, que são contra relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo e que acham que ser gay é errado, porém não apresentam um argumento que responda à esse questionamento: por que o Estado deveria impor o ponto de vista deles sobre outras pessoas que pensem diferente?

O que a maior parte das pessoas que se posicionam contra o casamento gay falham em perceber é que o fato de o Estado permitir que alguém faça alguma coisa não obriga ninguém a achá-la boa ou correta. Eu, por exemplo, tenho ojeriza a funk, porém jamais ia lutar para que o Estado proibisse outras pessoas de ouvir esse ritmo. Eu estaria apenas tolhendo a liberdade delas em adequação a meu gosto pessoal. E o fato de elas poderem ouvir esse ritmo também não significa que eu tenha que achá-lo legal ou seja obrigado a ouvi-lo.

É mais do que óbvio que o principal argumento de que essas pessoas dispõem para justificar seu posicionamento contra a união entre pessoas do mesmo sexo é o simples fato de querer impor seu modo de pensar sobre outras pessoas que pensem diferente.

Certamente esse não é um comportamento exclusivo dos religiosos. Eu já conheci ateus e pessoas sem religião que eram contra o casamento homossexual, pelo simples fato de não gostarem de gays. Confesso que  desconheço o processo lógico que as levava a pensar assim, me levando a imaginar que era pura discriminação de sua parte. Afinal, como eu demonstrei no exemplo acima, o simples fato de não gostar de determinado posicionamento não significa que outras pessoas não possam gostar dele e segui-lo.

Porém, entre os religiosos essa condenação é muito mais expressiva e perniciosa. Devido à estrutura doutrinária adotada pela maioria das religiões, a questão do casamento gay é ofuscada por uma série de dogmas, crenças, mitos e ideias pré concebidas, impedindo que as pessoas pensem sobre o assunto sob um prisma racional. E agrava ainda mais a situação o fato de os líderes religiosos disporem de tanto poder político em nosso país.

A maior parte dos argumentos usados pelos religiosos para condenar o casamento entre homossexuais é baseada em ideias teológicas que, embora possam ser aplicáveis à doutrinas religiosas, não podem ser relevantes à legislatura de um Estado laico, sob pena de se impor a crença de uma religião específica a todos os cidadãos, ainda que eles não a sigam.

Passo a listar a seguir alguns dos argumentos com que já me deparei em rejeição à legalização do casamento homossexual e a minha opinião a respeito:

  • Ser gay não é natural – Em primeiro lugar, quem disse que ser gay não é natural? Aliás, o que se entende por “ser natural”? Significa que outras espécies na natureza não realizam essa conduta? Porque se for por isso, então podemos considerar que ser gay é a coisa mais natural do mundo, já que centenas de outras espécies apresentam comportamento sexual entre indivíduos do mesmo gênero. E se por acaso se está referindo à “natureza humana”, que os seres humanos que não devem fazer sexo entre pessoas do mesmo gênero, esse argumento é contraditório, já que, uma vez que existem seres humanos que adotam esse comportamento, tem que ser necessariamente porque ele faz parte da natureza humana. E em segundo lugar, por que diabos o fato de alguma atividade ser natural ou não deveria ter alguma influência em nossas leis a autorizarem? Seres humanos lidam com coisas que não fazem parte da natureza cotidianamente. Ou alguém acha que faz parte da natureza usar roupas? Dirigir automóveis? Usar computadores? Aliás, se existe algo que definitivamente não faz parte da natureza é o próprio casamento. Não conheço uma espécie animal que precise trocar alianças ou assinar um papel para manter um relacionamento. Então se alguém acha que o casamento gay não deve ser permitido por não fazer parte da natureza, seria no mínimo coerente que ele estendesse essa forma de pensar a todos os casórios.
  • Liberar o casamento gay vai fazer com que mais pessoas virem gays – Primeiramente é importante ressaltar que ninguém “vira gay”. A visão predominante hoje entre os pesquisadores da área é de que a orientação sexual é determinada por fatores biogenéticos e, portanto, não está sujeita a escolhas deliberadas. Mas, concedamos o benefício da dúvida e digamos que fatores externos podem influenciar na orientação sexual de alguém. O que essas pessoas imaginam, que alguém vai ver um casal gay se casando e de repente vai querer fazer o mesmo? Ou alguém irá mudar todo o estilo de vida porque ficou sabendo que agora os homossexuais têm o mesmo direito dos héteros? Ora, por essa linha de pensamento deveríamos supor que não há mais gays no Brasil, já que casamentos héteros são realizados há décadas, enquanto nenhum gay havia se casado até recentemente. Suspeito que o máximo que pode acontecer é que mais gays saiam do armário para perseguirem seus direitos, mas isso não quer dizer que o número de gays irá aumentar, eles só vão se tornar socialmente mais visíveis. Mas talvez seja justamente este o problema para quem é contra. Na verdade eles gostariam que os gays continuassem oprimidos, não possuindo os direitos que os outros já tinham, já que o contrário os tornaria iguais perante o resto da sociedade.
  • Autorizar o casamento gay vai abrir a porteira para outros tipos de casamentos bizarros, com animais ou crianças – Pérolas como essa já foram afirmadas por pessoas como o pastor Silas Malafaia. Trata-se de uma falácia lógica conhecida como Slippery Slope, ou Bola de Neve, que consiste em partir de uma proposição e encadear outras proposições até chegar a uma conclusão absurda, sem nenhum argumento racional ou mecanismo que demonstre a inevitabilidade do afirmado. Não há nenhum motivo para se imaginar que as situações mencionadas irão acontecer, a não ser o fato de quem as afirma não ter interesse em ver realizada a primeira situação.
  • Não é casamento. O casamento é uma instituição tradicionalmente entre homem e mulher – Se estamos falando do casamento religioso, ele realmente sempre foi entre homem e mulher e se vai permanecer assim ou não é problema da religião em questão e de seus seguidores, não do Estado. Mas se estamos falando do casamento civil, que é o reivindicado pelos homossexuais, então não há instituição mais mutante no ordenamento jurídico. Basta lembrar que há algumas décadas o casamento entre pessoas de diferentes “raças” não era permitido. Se um homem branco fosse casar com uma negra o Estado não reconheceria essa união. E até 1977 o casamento entre duas pessoas era um vínculo indissolúvel, porém, a partir daquele ano, qualquer pessoa casada poderia se divorciar e casar novamente. O casamento também já foi uma maneira de selar alianças políticas e econômicas e de libertar ou fazer escravos. Como se pode ver, o conceito civil de casamento é constantemente adaptado de acordo com a realidade social. Então essa seria só mais uma das alterações ocorridas em face de novos entendimentos. Afinal, se as leis não pudessem se adaptar a novas realidades, sob a desculpa da tradição, ainda estaríamos matando quem fosse considerado herege ou apedrejando quem cometesse adultério. E se o problema é com a nomenclatura, então se está discutindo semântica. Se isso vai satisfazer aos críticos, que eles deem então à união entre duas pessoas do mesmo sexo outro nome, sei lá, “gaymento” – que na prática vai permitir os mesmo direitos do casamento – e permitam que eles se casem. Ou, no caso, que se “gayem”.
  • O casamento hétero perderia o sentido – Eu não vejo porque permitir que gays se casem automaticamente fará com que os outros casamentos realizados percam o sentido. Afinal, os casais héteros que se casassem continuariam se amando, continuariam tendo os mesmos direitos e deveres, continuariam podendo gostar ou não gostar do que quisessem e poderiam continuar seguindo qualquer crença que possuíssem. A única coisa que aconteceria de diferente é que casais do mesmo sexo poderiam fazer a mesma coisa e eu não vejo como isso poderia afetar a vida ou o modo de pensar de alguém que não fizesse parte desses casais. É o mesmo que afirmar que o fato de as mulheres agora poderem votar faz com que meu direito de voto perca o sentido.
  • Os gays já têm a união estável, não precisam do casamento – Se alguém acha que os gays não precisam se casar por já poderem se juntar em união estável, não vejo porque esse mesmo pensamento não possa ser ampliado a todos os casais, gays ou não. Se o casamento é desnecessário por já se possuir o direito de se unir estavelmente, ninguém precisa se casar, oras. Deveríamos abolir a instituição do casamento de nossas leis. Mas o fato de o casamento ainda existir em nosso Código Civil é a prova cabal de que união estável e casamento não são efetivamente a mesma coisa. A diferença entre um e outro é basicamente o acesso a diversos direitos que os casados têm entre si e que não são garantidos às pessoas que vivem em união estável. Entre esses direitos encontram-se o de poder adotar o sobrenome do parceiro, o de inscrever o parceiro como dependente de servidor público ou na previdência, o de adotar filhos em conjunto, de ter direito à herança, de acompanhar a companheira ao parto ou autorizar cirurgias de risco, entre diversos outros. Por mais que alguns casais conviventes em união estável consigam esses direitos reinvicando-os administrativa ou judicialmente, eles são garantidos automaticamente para quem é casado.
  • Casamentos entre gays não geram filhos, portanto não fazem sentido – Claro, porque é só para isso que as pessoas se casam, para colocar filhos no mundo. Eu entendo que isso possa fazer sentido para alguém que segue um livro que dá ordens como “crescei e multiplicai-vos”, a despeito de já estarmos em um mundo onde a superpopulação é um problema constante para as autoridades, mas o fato é que pessoas se casam por diferente motivos. Sim, um deles pode ser ter filhos, mas se eu tivesse que arriscar eu diria que, pelo menos nos países democráticos, o principal motivo para as pessoas se casarem é o simples fato de amarem outra pessoa e quererem passar a vida ao lado dela. Além disso, se fossemos levar esse argumento a sério, pessoas héteros que fossem estéreis ou idosas também não poderiam se casar. Ou mesmo pessoas que podem ter filhos, mas não planejam tê-los. Isso sem contar com o fato de que casais gays podem sim ter filhos: através da adoção. Aliás, essa era uma das principais reivindicações para quem apoiava o casamento gay, pois isso permitiria que eles pudessem adotar filhos. E se alguém acha que permitir que uma criança seja criada no orfanato é melhor que ser criada por um casal do mesmo sexo com amor e carinho, desconfio que a bússola moral dessa pessoa já esteja seriamente comprometida pelo preconceito.
  • Um filho criado por um casal gay também será gay – Mais uma vez, uma pérola apresentada por nosso digníssimo pastor Silas Malafaia, na entrevista que ele concedeu à Marília Gabriela. Mas o fato é que a orientação sexual dos pais não influencia a dos filhos. Isso já foi desmistificado por pesquisadores da área, assim como outros mitos a respeito de filhos de pais gays, como o que afirma que eles terão problemas psicológicos ou sofrerão abusos sexuais. Aliás, basta fazer uma simples observação para perceber que esse argumento não tem o menor sentido lógico: se todos os casais gays gerasse filhos gays, todos os casais héteros gerariam filhos héteros. E é óbvio que todos os gays existentes hoje em dia não são somente filhos de casais gays.
  • O casamento teve origem na religião, e a maioria dos religiosos são contra – Em primeiro lugar, como eu já mencionei acima, o casamento reivindicado pelos gays não é o religioso, é o civil, tratando-se de conceitos totalmente diferentes. Na prática, nada mudaria para religião nenhuma. Os líderes que não quisessem celebrar cerimônias de casamento gay em suas instituições não seriam obrigados a isso (embora eu me pergunte que gay gostaria de casar em uma instituição que os condena) e os fiéis que não gostassem de gays poderiam continuar não gostando. Ninguém muda de opinião por conta de uma lei. E em segundo lugar, o casamento não teve origem na religião. Antes de os religiosos definirem o que era e como deveria ser o casamento, uniões entre casais já eram celebradas na forma de acordos entre o pai da noiva e o noivo e implicava no pagamento de um dote. E, mesmo considerando-se que o casamento tenha sido invenção da religião, teríamos outro problema. Qual religião deveria ser privilegiada com o poder de definir o que é ou não é casamento? Porque certamente todas as religiões existentes vêem o tema de forma diferente. Duvido que um casamento hinduísta ou islâmico tenha exatamente as mesmas definições de um católico ou protestante. Privilegiar qualquer posição religiosa, ainda que a majoritária, seria desconsiderar todas as outras discordantes, e arriscaria a transformar o Estado em uma teocracia, defendendo oficialmente uma determinação religiosa, desmantelando-se, assim, a laicidade estatal.

Como se pode perceber, eu ainda não fui apresentado a um argumento contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo que no final das contas não fosse sustentado por uma crença religiosa, por desinformação ou por pura discriminação. E nenhuma dessas bases pode servir de fonte legal a posições adotadas por um Estado de Direito laico e democrático.

Eu fiz uma rápida pesquisa online para saber o posicionamento de dois diferentes grupos de pessoas a respeito do casamento gay: usuários do site Gospel Mais e ateus que frequentam a página da Associação de Ateus e Agnósticos no Facebook. Minha pergunta foi a mesma para os dois grupos: “O que vocês acham a respeito do casamento entre pessoas do mesmo sexo? São a favor, são contra, são neutros, e por quê?“. É óbvio que a intenção dessa pergunta não era buscar nenhum posicionamento oficial ou estatístico dos referidos grupos, ela foi feita como mera curiosidade. Mas as respostas recebidas em cada grupo de pessoas é bem sintomática de como a doutrinação religiosa pode interferir no posicionamento a respeito do tema. Primeiro, vejamos algumas das respostas do Gospel Mais:

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E agora, algumas das respostas dadas pelos ateus:

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Como se vê, quando não há nenhuma doutrinação religiosa ou discriminatória em consideração, o posicionamento a respeito do casamento homossexual parece bem óbvio a qualquer ser humano que possua um mínimo de consideração em relação a seus semelhantes.

Nos encontramos em um momento determinante em relação a este assunto. Provavelmente as decisões tomadas por nossos representantes nos próximos meses serão decisivas para que o Brasil finalmente decida como será o futuro de milhões de casais homossexuais que se amam e gostariam de constituir uma família.

Eu sinceramente espero que daqui a alguns anos possamos olhar para trás e ver a polêmica existente em relação ao casamento homossexual com a mesma estranheza com que olhamos a polêmica existente em relação ao divórcio três décadas atrás. Naquela época, quem se posicionava a favor da separação entre os casais também era visto como uma “ameaça à família”. Na sessão que aprovou o divórcio, um parlamentar chegou a afirmar que o país criava uma “fábrica de menores abandonadas” e a Igreja também se posicionou firmemente contra sua aprovação. No entanto, hoje em dia achamos a coisa mais natural do mundo alguém ser divorciado e não esperamos que nenhuma criança seja melhor ou pior criada por conta de seus pais não serem mais casados.

E é mais do que óbvio que a religião terá mais uma vez um papel crucial no posicionamento de nosso Estado. Ou a laicidade estatal irá prevalecer e poderemos progredir, nos juntando ao grupo de países que já aprovaram o casamento entre homossexuais, como Dinamarca, Noruega, Holanda, Canadá e França, ou nos juntaremos às nações onde a religião ainda tem grande influência na legislatura e, portanto, não reconhecem o casamento entre pessoas do mesmo sexo, como quase todos os países da África e do Oriente Médio.

Acho que podemos perceber claramente em qual desses grupos a balança social pende para o lado do progresso.

Torçamos.

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O Papa é Pop , Parte 3 – Análise Social

Chegamos à terceira e última parte da série de posts sobre a vinda do papa ao Brasil. Confira as anteriores, onde eu fiz as análises econômica e religiosa de sua vinda, aqui: Parte 1; Parte2.

Nessa terceira parte, farei uma análise social da vinda do papa, ou seja, a relação entre o Sumo Pontífice, sua Igreja, e o restante da sociedade.

Para ser completamente sincero, essa terceira parte não será uma análise aprofundada de todas as relações sociais envolvidas na JMJ, pois isso requereria muito tempo e provavelmente fugiria da proposta do blog. Então não esperem tantos dados e números quanto nas outras duas. Será mais uma breve reflexão a respeito de alguns acontecimentos sociais ocorridos durante o evento e que eu achei merecedores de observações.

Como eu demonstrei na segunda parte dessa série de posts, o catolicismo está perdendo terreno no Brasil. O ateísmo, o agnosticismo e, principalmente, o protestantismo vêm cada vez mais arregimentando os fiéis de Roma.

No entanto, a Igreja Católica ainda detém o maior número de religiosos no país. Para ser mais exato, 64% da população, segundo o IBGE. Assim, as posições e decisões tomadas pelo Vaticano ainda possuem grande peso para a sociedade brasileira, interferindo em nossa cultura, leis e sociedade de modo geral.

Portanto, não é de se espantar que alguns grupos sociais tenham tomado a decisão de se manifestarem durante a vinda do líder da religião ao Brasil. Os motivos dessas manifestações foram os mais variados. Havia grupos contestando as posições polêmicas da Igreja, reclamando dos recursos aplicados pelo governo nessa visita papal, protestando contra a interferência do Vaticano na política brasileira… Havia inclusive grupos que se aproveitaram da publicidade gerada pela vinda do Papa para apresentar pautas que não tinham necessariamente relação direta com a visita do líder religioso, como, por exemplo, uma turma que resolveu protestar contra o Governador Sérgio Cabral:

Será que o papa votou no Cabral?

Será que o papa votou no Cabral?

Dentre todos esses grupos, três me pareceram merecer destaque nessa análise.

Um grupo de ativistas gays promoveu um beijaço, um grupo de feministas realizou uma “marcha das vadias” e a ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos) promoveu um desbatismo público.

Com tanta comoção popular com a visita papal e algumas atitudes mais ousadas tomadas durante essas manifestações, esses grupos foram prontamente acusados de se excederem.

Quase todas as críticas direcionadas a essas manifestações utilizavam o mesmo argumento, de que os manifestantes estavam desrespeitando ou afrontando as crenças alheias e o direito à liberdade de religião dos fiéis.

Não entrarei aqui no mérito do desrespeito às religiões, pois esse é um tema que pede uma análise mais aprofundada e sobre o qual eu pretendo escrever um post específico muito em breve (atualização: este post aqui). Então usarei esse espaço para refletir somente sobre uma coisa: se as manifestações realizadas do modo como foram tinham a capacidade de serem eficazes, ou seja, se alcançariam o objetivo por elas pretendido.

Quando se faz uma manifestação protestando contra alguma coisa, se supõe que as ações ou o posicionamento contra os quais se está protestando são vistos como algo nocivo, que merece ser combatido. A manifestação seria então uma forma de dar publicidade a esse inconformismo, de tentar fazer os outros entenderem o porquê de você ser contra aquilo e, se possível, fazê-los apoiar o seu lado da discussão.

E, por vezes, essa publicidade necessária realmente requererá atos de maior ousadia. Caberá aos responsáveis pela manifestação ponderar se a atenção negativa causada pela comoção pública e o choque com uma eventual performance audaz em busca de publicidade será compensada pela atenção positiva trazida para a sua causa.

Então para analisar se as atitudes tomadas durante as manifestações foram ou não justificáveis, precisamos verificar mais detalhadamente o que exatamente cada grupo elaborou para promover suas opiniões e críticas.

Os ativistas da causa gay promoveram um beijaço entre casais homossexuais no dia 22/07, em frente à Igreja Nossa Senhora da Glória, na Zona Sul do Rio, onde algumas atrizes encenaram cenas de catequizações católicas e algumas mulheres chegara a ficar seminuas, mostrando os seios. Segundo João Pedro Accioly, um dos organizadores do evento, o objetivo era questionar a influência da Igreja Católica no Estado.

Um casal homossexual se beijando em frente à Igreja durante o beijaço

Um casal homossexual se beijando em frente à Igreja durante o beijaço

Atrizes seminuas encenam a catequização dos índios

Atrizes encenando a catequização de índios

Já as “vadias” realizaram sua marcha saindo da avenida Atlântica em Copacabana e indo em direção à avenida Vieira Souto, em Ipanema. O grupo acabou encontrando com peregrinos da JMJ que iam em direção a um evento que ocorreria no palco instalado na praia de Copacabana, e alguns participantes invadiram o espaço reservado para os fiéis católicos no evento.

Em dado momento, um pequeno exercício performático foi executado por um casal de “artistas” praticamente nus, onde imagens sacras foram destruídas e enfiadas em locais recônditos da anatomia humana. O grand finale se deu quando a “artista” executou uma colonoscopia no rapaz, utilizando um crucifixo como instrumento cirúrgico. As imagens são bem gráficas, portanto cuidado ao visualizar as fotos mostradas abaixo.

Marcha das Vadias na avenida

Marcha das Vadias na avenida

Manifestantes quebrando imagens sacras

Manifestantes quebrando imagens sacras na marcha das vadias

Manifestante fazendo com que a imagem sacra desejasse ser quebrada

Manifestante fazendo com que a imagem sacra desejasse ser quebrada

E... bom... isso aí.

E… bom… isso aí.

E, por fim, tivemos os ateus, que organizaram algo que eles chamaram de desbatismo.  Realizado pela ATEA de forma simultânea em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro, o desbatismo foi baseado em eventos similares realizados por organizações ateístas em outros países e tinha a finalidade simbólica de “desfazer” o batismo a que as pessoas foram submetidas enquanto ainda eram crianças.

O primeiro passo do sarcástico ritual era ouvir alguma palavras em latim de mentirinha (um dos textos tinha até um “Expecto Patronum” do Harry Potter). Depois os desbatizados passavam por secadores de cabelos “para fazer evaporar do corpo as últimas moléculas de água do batismo involuntário, com os ventos do secularismo”. E em seguida o desbatizado assinava um livro de presença e recebia um diploma de “desbatismo”.

Daniel Sottomaior, presidente da ATEA, realizando o desbatismo em um dos manifestantes

Daniel Sottomaior, presidente da ATEA, realizando o desbatismo em um dos manifestantes

Diploma de desbatismo emitido após a cerimônia

Diploma de desbatismo emitido após a cerimônia

Segundo Daniel Sottomaior, o objetivo da ATEA com o desbatismo era protestar contra o uso de recursos públicos no apoio a uma religião.

Com o desbatismo, afirmamos que ninguém tem direito de nos impingir uma religião: nem a nós, pessoalmente, nem ao dinheiro dos nossos impostos, nem ao Estado brasileiro. Afinal de contas, o uso de dinheiro público em eventos católicos nos torna, todos, católicos à força.

É curioso também perceber que o objetivo simbólico da ATEA com o desbatismo era desfazer o que foi imposto pela religião durante a infância, enquanto a JMJ objetivava justamente o contrário, conquistar mais jovens para as fileiras do catolicismo.

Então, ao analisarmos as ações tomadas por cada um desses grupos, nos perguntemos: eles teriam chances de alcançar o objetivo de divulgar suas ideias e fazer as pessoas refletirem sobre seus pontos de vista?

A estratégia de chamar a atenção a qualquer custo pode funcionar muito bem para algumas denominações religiosas que têm como objetivo principal auferir o lucro, mas quando se realiza uma manifestação em que se espera algum apoio popular, ela pode custar caro. Ao fazer algo que o senso comum reprovaria, dá-se munição para que as pessoas contrárias à sua posição a ataquem, quem fosse indiferente à sua causa passe a ficar contra ela e alguns que fossem a favor passem a desaprovar suas ações.

E em minha opinião, nos casos apresentados, parece que, felizmente, o único grupo que poderia atingir seu objetivo com eficiência era a ATEA. E afirmo isso com a consciência tranquila, sem correr o risco de deixar meu ateísmo minar minha imparcialidade, pois já tomei conhecimento de várias manifestações ateístas que eu reprovaria com veemência, como ateus pichando igrejas ou queimando Bíblias.

Como eu disse, eu não estou discutindo aqui se as pessoas têm o direito de protestar como protestaram, ou se a revolta causada por suas atitudes é legítima ou não, estou analisando seus atos somente como estratégia de marketing para a divulgação de suas ideias e convencimento.

Os ativistas gays e as vadias conseguiram não só despertar a ira dos católicos presentes na Jornada (o que provavelmente já era esperado por eles), mas também de uma parte da sociedade que não era necessariamente católica e que talvez nem concordasse com a realização da Jornada a princípio. Até mesmo o pastor Malafaia criticou o beijaço, afirmando que os manifestantes “não respeitavam os valores e princípios de ninguém”.

Em comparação às outras, a manifestação orquestrada pela ATEA me pareceu ter sido bem mais amena. Não foi intencionalmente ofensiva a ninguém, não violou nenhum direito, seus participantes estavam presentes por livre e espontânea vontade e ela se propunha a dar um motivo lógico para sua encenação.

Agora, ter o potencial de atingir os resultados esperados pela ATEA é uma coisa. Se eles realmente foram atingidos já é outra. Algumas pessoas – inclusive alguns ateus – criticaram a ação, acusando-a de ter sido desnecessária, ou rasa e infantil.

Bom, se alguém acha que a manifestação da ATEA não deveria ser feita simplesmente por se discordar do que estava sendo dito, isso é simplesmente censura. O fato de não se concordar com um posicionamento ou achar desnecessária sua divulgação não significa que não se possa expô-lo.

Quanto a qualificá-la dessa ou daquela maneira, é uma questão de opinião. Eu particularmente, não tomaria parte nessa manifestação, pois meu perfil é mais de debates e redação de artigos, como se pode perceber pelos exageradamente extensos posts que eu ocasionalmente redijo aqui.

No entanto, achei interessante a forma que eles escolheram para divulgar o que pensavam, utilizando de bom humor – o que eu julgo fundamental ao se fazer críticas – e sem incomodar ninguém.  Aliás, o paralelo feito com o batismo é interessante até mesmo para quem achou o “desbatismo” uma bobeira parar e pensar se o ritual original no qual ele se baseou também deve ser levado tão a sério. Afinal, se “secar a água do batismo involuntário com o vento do secularismo” soa como uma bobagem, por que jogar água sobre a cabeça de um bebê para que ele se livre de supostos pecados e possa alcançar a salvação não seria também? Nesse sentido, perceba que até um ritual zombeteiro como esse pode fazer pensar, comprovando meu argumento.

Agora, se alguém continua discordando da maneira como a manifestação foi feita, deixo meu apelo: aqueles que acreditam que podem pensar em maneiras mais eficientes de se efetuar um protesto e demonstrar indignação contra alguma situação, podem ficar à vontade para se fazerem úteis oferecendo suas opiniões à ATEA e , mais importante, apresentando novas ideias sobre como se portar em futuras situações análogas.

Afinal, é para isso que serve uma associação como a ATEA, congregar cabeças pensantes e se beneficiar da pluralidade de pensamentos. E sugerir uma solução é sempre mais benéfico do que simplesmente apresentar o problema. Mas também costuma ser mais difícil.

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O Papa É Pop, Parte 2 – Análise Religiosa

Depois da primeira parte da análise da vinda do papa ao Brasil para a realização da Jornada Mundial da Juventude, na qual examinei o impacto econômico da JMJ, partirei agora para um outro tipo de análise: a religiosa.

Nela, eu irei examinar as relações internas da igreja católica – ou seja, entre seus líderes e fiéis – e como isso levou à decisão de realizar esse evento no Brasil.

Para que essa avaliação possa ser feita, primeiramente temos que conhecer um pouco da história da JMJ. O próprio site do evento nos ajuda nessa tarefa, fornecendo uma boa sinopse de todas as jornadas ocorridas desde sua criação.

A Jornada Mundial da Juventude teve sua primeira edição realizada em 1986, em Roma. Desde então ela é realizada em um intervalo de 2 ou 3 anos, em cidades de diferentes países. Até hoje, a única cidade que recebeu o evento duas vezes foi a própria Roma. Ela já passou por Buenos Aires, (Argentina), Santiago de Compostela (Espanha), Czestochowa (Polônia), Denver (EUA), Manila (Filipinas), Paris (França), Toronto (Canadá), Colônia (Alemanha), Sydney (Austrália) e Madri (Espanha).

A jornada foi uma idealização do papa João Paulo II, inspirada em grandes encontros que o finado papa promovia com jovens católicos em Roma. João Paulo II a definiu como um encontro de amor, sonhado por Deus e abraçado pelos jovens.

João Paulo II na primeira Jornada Mundial da Juventude, em 1986

João Paulo II na primeira Jornada Mundial da Juventude, em 1986

Como o próprio nome do evento já deixa claro, seu foco é o público adolescente e juvenil. A intenção é levar a doutrina católica ao máximo de jovens possíveis, como a própria organização do evento enfatiza em seu site:

A JMJ tem como objetivo principal dar a conhecer a todos os jovens do mundo a mensagem de Cristo, mas é verdade também que, através deles, o ‘rosto’ jovem de Cristo se mostra ao mundo.

Não há nada de novidade nessa postura. Doutrinar as pessoas desde jovens nos ensinamentos da Igreja Católica não é exatamente uma estratégia recente.

Rituais como o batismo infantil, o catecismo, a primeira comunhão e a crisma são colocados em prática pelo Vaticano há séculos, e também têm como principal objetivo fazer com que as crianças cresçam vendo os ensinamentos católicos como verdades indiscutíveis e os líderes da Igreja como autoridades incontestáveis na interpretação da vontade divina.

E é claro que essa estratégia não é seguida somente pelos católicos. Praticamente todas as religiões incentivam os pais a iniciarem suas crianças na doutrina que eles seguem, as levando a templos e cultos desde a mais tenra infância, quando elas nem têm condições de entender direito o que lhes está sendo passado como incontroverso, como o bom pastor Feliciano nos exemplifica.

Então, se a doutrinação infantil tradicional sempre foi uma coisa presente na cartilha da Igreja Católica, o que a pode ter levado a decidir promover repentinamente esse evento internacional de proporções épicas com tanta ênfase no público jovem?

Ao que parece, o que aconteceu foi simplesmente uma saída maciça de fiéis da religião católica nos países onde o evento vem sendo organizado.

A queda no número de seguidores do catolicismo não é nenhuma novidade. Desde o século passado o número de fiéis da Santa Sé no mundo inteiro vem diminuindo. Segundo uma pesquisa do PEW research center, em 1910 os católicos perfaziam 17% da população mundial, proporção que até 2010 caiu para 16% (apesar de a quantidade absoluta de católicos ter aumentado, ela não acompanhou o aumento da população mundial total). Pode parecer pouco, mas 1% de 7 bilhões de pessoas são 70 milhões de fiéis a menos para a Igreja, o que representa a população da Argentina e do Canadá somadas.

E embora essa queda percentual tenha sido relativamente pequena, o mais importante no entanto foi a mudança na distribuição geográfica da população católica.

Em 1910, aproximadamente 90% dos católicos viviam na Europa ou na América Latina. Cem anos depois, esse percentual baixou para 63%.

Pode-se perceber que, ao longo do século, o catolicismo se tornou uma religião muito mais globalizada. As únicas regiões que permaneceram praticamente inalteradas foram o Oriente Médio e a África Saariana, devido ao avanço do Islamismo.

Note-se ainda que o aumento da proporção de católicos nas Américas em relação ao resto do mundo não significa que o número de fiéis nestas regiões tenha aumentado. Essa porcentagem só foi ampliada porque o número de fiéis europeus vem sofrendo uma vertiginosa queda ao longo das décadas. Vejamos como anda a situação do catolicismo em alguns países que receberam a JMJ.

Na Itália e na Polônia, os dois países proporcionalmente mais católicos da Europa, é difícil precisar o quanto o catolicismo está em declínio, pois o censo desses dois países toma por base os dados fornecidos pela Igreja Católica, que considera como católicos todos os que foram batizados na religião, ainda que eles não a pratiquem mais. Assim, 87,8% dos italianos e 91% dos poloneses são considerados como católicos – um número proporcional ao de décadas anteriores. No entanto, de acordo com pesquisas conduzidas nos dois países, apenas 36,8% dos italianos e 52% dos poloneses se consideram como praticantes, frequentando a missa pelo menos uma vez  por semana. Se levarmos em consideração somente os católicos entre 18 e 24 anos, esse número cai para 44% na Polônia.

Na Espanha e na Alemanha, os números são muito mais acessíveis e eloquentes. Segundo o PEW, o percentual de católicos no país catalão caiu de 99,9% em 1910 para 75,2% em 2010.  E entre os que se consideram católicos atualmente, quase 60% afirmam não ir à Igreja nunca ou quase nunca. Na Alemanha, pesquisas do Instituto FOWID demonstram que o número de fiéis do catolicismo no país caiu gradualmente de 44,6% para 29,0% entre 1970 e 2011.

E na França a situação é ainda mais periclitante para a Santa Sé. Na nação que deu origem ao Estado Laico com a Revolução Francesa, até mesmo o número de batismos está diminuindo, apesar de o número de nascimentos vir aumentando ao longo dos anos.

Se na Europa a situação do catolicismo não é nada animadora, nas Américas ela se mostra somente um pouco melhor.

Nos Estados Unidos a quantidade de seguidores da Igreja Católica caiu muito pouco, permanecendo praticamente estável. Passou de 26,2% em 1990 para 25,1% em 2008, quando foi feito o último censo religioso. Porém, o catolicismo nunca foi a religião majoritária no país, já que os EUA possuem a característica histórica de terem sido formados por imigrantes europeus que seguiam o protestantismo, em especial os britânicos. Porém o que chama a atenção é a idade dos católicos. A mesma pesquisa aponta que 78% dos seguidores da religião no país têm mais de 30 anos, o que indica que os filhos de católicos seguem uma tendência de não abraçar a religião dos pais. Assim, o número de fiéis do catolicismo tem uma propensão a diminuir ainda mais no futuro, conforme seus integrantes mais idosos forem falecendo.

No Canadá o cenário é um pouco diferente. Os católicos sempre representaram a maioria dos religiosos. Porém a quantidade de seguidores da Igreja Católica também vem apresentando uma tendência de queda nas últimas décadas.  Em 1961 eles representavam 46,7% da população. Segundo o censo de 2011, esse número caiu para 38,7%. E a média de idade da população católica também é alta, de 37,8 anos, um pouco acima da média de idade de 37,3 anos da população total do país, o que indica que a adesão dos jovens também está em baixa.

Estimativas oficiais da Argentina são mais difíceis de se conseguir, pois há uma proibição legal de se incluir a religião no formulário do censo. A separação entre o Estado e a religião é muito mais debilitada no país de nossos vizinhos sul-americanos. Embora a Corte Suprema tenha decidido que o catolicismo não possui o status de religião oficial do país, a constituição argentina determina que o governo ofereça suporte econômico à Igreja Católica, e os bispos católicos recebem um salário do Governo Federal equivalente a 80% da remuneração de um juiz. Assim, o número de católicos no país, alegado pela igreja (88% da população), pode estar longe de representar a realidade, referindo-se mais aos batizados, a exemplo da Itália e da Polônia. Estudos independentes demonstram que o número de pessoas que se consideram adeptas do catolicismo flutua entre 69% e 78%, e o número de pessoas que frequentam os cultos católicos com regularidade é de somente 23%.

E finalmente, chegamos ao Brasil.

Em terras tupiniquins o catolicismo também anda mal das pernas nas últimas décadas. Os católicos, que representavam 92% da população em 1970, tiveram uma acentuada queda, caindo para 65% em 2010, segundo dados do censo. E essa parcela de católicos também está mais concentrada entre as pessoas de meia idade e idosos. Os jovens de uma maneira geral estão se afastando do catolicismo em nosso país. Isso sem levar em conta os que se consideram católicos mas não praticam a religião, apenas nasceram em famílias que também se consideram pertencentes ao catolicismo, ou simplesmente foram batizados nele.

E, depois dessa enxurrada de dados e números, podemos começar a tirar algumas conclusões a respeito da realização da JMJ.

Para facilitar a visualização, deixe-me reproduzir aqui um infográfico publicado pelo jornal O Globo, que mostra as variações na população católica no mundo, durante um período de 40 anos (para vê-lo com maiores detalhes, acesse a matéria completa clicando aqui). Os países com círculos vermelhos representam os lugares onde a população católica encolheu, e os azuis, onde ela aumentou.

Evolução Catolicismo

Agora, façamos uma pequena comparação com os locais onde a Jornada Mundial da Juventude foi realizada ao longo de sua existência:

Locais de Realização da JMJ ao longo dos anos.

É fácil perceber um padrão, não?

Ao se analisar os mapas, pode-se concluir que a Jornada mundial da Juventude pode até ser eventualmente utilizada como um instrumento para a expansão da fé católica ao redor do mundo, com a conquista de novos fiéis, como provavelmente o foi na Austrália e no Canadá. Mas ela demonstra fundamentalmente um visível esforço da Igreja Católica na manutenção de seus fiéis em países nos quais eles estão abandonando a religião, ou, no mínimo, dando menos importância a pôr os ensinamentos católicos teóricos em prática.

A próxima JMJ já está programada para acontecer na Cracóvia, novamente na Polônia, em 2015. Nada mais natural, considerando-se que, conforme os dados apresentados, a Europa é o local com maior abandono de fiéis; um verdadeiro êxodo católico. A possibilidade de canonização de João Paulo II em sua terra natal virá bem a calhar para uma tentativa de retenção desses exilados. E eu não me surpreenderia se a próxima jornada viesse a ser realizada no México ou na Colômbia.

Afinal, a Igreja Católica sabe da importância de se cativar o público jovem e de mantê-lo em sua congregação desde cedo. Uma pessoa que não cresça ouvindo repetidamente dos adultos que a cercam que histórias como homens sendo engolidos por peixes e virgens dando a luz são verdades absolutas, no mínimo as acharia muito inverossímeis se fosse confrontada com elas após adquirir um mínimo de bom senso com a idade. Ou haveria ainda o risco de ela achar que outras histórias inverossímeis são verdadeiras e acabar dedicando seu tempo e dinheiro a outras instituições religiosas.

E esse temor da Igreja é plenamente justificável, pois é exatamente o que vem ocorrendo atualmente. Essa evasão de jovens fiéis da Igreja Católica se deve a diversos motivos distintos, mas dois deles são bem fáceis de se identificar: a expansão das religiões protestantes/pentecostais e do ateísmo/agnosticismo.

Hillsong Church, uma megaigreja pentecostal em Sydney, Austrália

Hillsong Church, uma mega-igreja pentecostal em Sydney, Austrália, onde a JMJ ocorreu em 2008. Notem a idade dos fiéis presentes.

Esses dois motivos são bem distinguíveis na questão geográfica. O aumento do ateísmo e do agnosticismo é mais contundente na Europa, enquanto os protestantes e pentecostais se alastram como fogo pela América Latina.

De acordo com o Eurobarometer, atualmente 18% dos europeus não acreditam em uma espécie de divindade. Dos 10 países com maior percentual de ateus no mundo, 7 ficam na Europa.

Enquanto isso, no Brasil, o número de pessoas sem religião também teve um aumento, embora bem menos expressivo. Passou de menos de 1% em 1970 para cerca de 8% da população em 2010. Como eu já havia dito em um post anterior, é difícil precisar o quanto esse aumento no número de pessoas sem religião implica no aumento de ateus e agnósticos (atualmente cerca de 0,39% da população), já que essas informações específicas só foram recolhidas pelo IBGE em 2010. O que é indiscutível, no entanto, é o aumento vertiginoso dos evangélicos.

O número de seguidores das igrejas evangélicas no país sofreu um boom nas últimas décadas, passando de 6% da população em 1980, para 22,2% em 2010. E segundo o professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, José Eustáquio Diniz Alves, em um estudo realizado por sua equipe, por volta do ano de 2040 eles devem ultrapassar os católicos como a maioria religiosa no país.

Então, é inegável o fato de que esses dois fatores estão influenciando diretamente na diminuição de católicos no país. Mas por que exatamente as pessoas estão deixando a igreja católica em favor dessas duas posições? E o que ela vem fazendo para tentar reverter essa situação?

É fácil entender porque o ateísmo e o agnosticismo são atraentes para a juventude moderna. Estamos vivendo na era da informação. Com o advento da internet – cuja abertura ao público se deu em meados dos anos 80, coincidentemente à mesma época da criação da JMJ – fica muito mais difícil fazer com que as pessoas acreditem incontestavelmente em histórias fantásticas, já que elas podem confirmar a veracidade de qualquer coisa com um simples clique do mouse.

Então quando a Bíblia afirma que as plantas foram criadas antes do Sol, ou que todas as milhões de  espécies de animais cabem em uma arca de 450 pés de comprimento, ou qualquer outra coisa duvidável como essas, é fácil acessar as informações que demonstram que isso seria impossível, e o porquê. Uma leitura completa da Bíblia associada a um computador com acesso à internet tem uma capacidade de afastar as pessoas da religião muito maior do que a de qualquer ateu militante. E os jovens de hoje em dia já nascem conectados, com seus tablets, smartphones e notebooks em mãos.

E para os que, mesmo com todas essas informações disponíveis, sentem a necessidade de continuarem engajados em uma religião, existem os evangélicos.

Também é fácil perceber porque o evangelismo tem atraído tantos fiéis jovens da igreja católica. A proximidade mais acentuada da igreja evangélica com sua comunidade faz com que as pessoas religiosas acabem se identificando mais com essa religião  do que com o catolicismo.

A Igreja Católica, como instituição, sempre foi um pouco afastada de seus fiéis, buscando manter-se superior ao povo que a segue. Ela se intitula a “Igreja estabelecida por Deus para salvar todos os homens”. Seu líder se encontra em outro continente, é “dono” de seu próprio Estado, senta em um trono, cria suas próprias leis e exerce poder sobre as divisões da igreja no mundo todo. Seus sacerdotes se vestem de maneira que os diferencia dos fiéis, não só nas cerimônias, como em todo o restante do tempo, aprendem latim, vivem sob um celibato forçado e passam anos em cursos de teologia. E o próprio culto semanal católico é arcaico, baseado em tradições que se perpetuam há séculos, com um discurso monótono e uma quantidade de movimentos de ajoelhar-sentar-ficar-em-pé que pode ser considerada exagerada por qualquer um que não frequente uma academia.

Enquanto isso, os pastores evangélicos, em sua maioria, são pessoas normais, advindas da própria comunidade em que professam, que simplesmente nasceram com o dom da oratória e praticam a leitura da Bíblia. Eles não seguem uma liderança centralizada e se vestem com um terno, uma roupa que qualquer pessoa normal usaria no cotidiano. Falam no linguajar de seu público e promovem um culto mais animado e motivador, com bastante gritaria e músicas agitadas. Podem se casar, constituir família e, por vezes, exercem outra profissão, o que ajuda ainda mais na identificação com os fiéis.

Com qual desses líderes é mais fácil se identificar? Ou, qual dessas roupas você usaria para sair à rua?

Com qual desses líderes é mais fácil se identificar? Ou ainda: Qual dessas roupas você usaria para sair à rua?

Além disso as igrejas evangélicas possuem até mesmo maior proximidade física de seus seguidores. Enquanto os templos católicos se localizam em pontos específicos de uma cidade, obrigando os seus fiéis a se deslocarem a eles, em cada esquina praticamente há uma igreja evangélica, ainda que de diferentes denominações. Isso porque, enquanto a Igreja Católica exige uma arquitetura específica para a edificação de seus templos, qualquer garagem com cadeiras dobráveis e uma mesa pode abrigar uma igreja evangélica, ainda mais com a facilidade jurídica de se abrir uma igreja no Brasil.

Isso é ainda mais válido em comunidades carentes. Nos chamados aglomerados subnormais (favelas, grotas, invasões, comunidades, palafitas etc), onde a carência – em todos os sentidos da palavra – é enorme e, portanto, a busca pela religião mais presente, raramente se avista uma igreja católica. No entanto, os evangélicos estão sempre lá. Passeie em qualquer comunidade do Rio de Janeiro e o que mais se verá são bailes funk e igrejas evangélicas. Se buscarmos os dados de crescimento das comunidades carentes, tenho certeza que acharíamos uma correlação com o crescimento dos fiéis evangélicos.

Nessa imagem deve haver uns 10 templos evangélicos, 30 bailes funk e 0 igrejas catolicas

Só nessa fração de comunidade deve haver uns 15 cultos evangélicos, 30 bailes funk e nenhuma igreja católica.

É muito mais fácil cativar um seguidor quando ele consegue se ver refletido na figura de seu líder religioso, obtendo conselhos baseados em uma vivência parecida e podendo tratá-lo como um semelhante, não apenas como um emanador de ordens a serem seguidas (embora, obviamente, essa parte também não deixe de ser exercida pelos evangélicos).

Percebendo isso, a Igreja Católica começou um processo de mudanças em sua postura. A chamada Renovação Carismática, teve início na década de 60 nos EUA, mas veio para o Brasil em meados dos anos 70, acompanhando o início da expansão evangélica. Esse movimento buscava impor uma renovação às práticas tradicionais do catolicismo, dando uma maior ênfase à influência do Espírito Santo e admitindo formas mais arrojadas de se adorar ao senhor. Foi graças à Renovação que surgiram músicas católicas de louvor, danças gospel e padres cantores popstars como Marcelo Rossi e Fábio de Melo.

"Os animaizinhos subiram de 2 em 2...". Se você não ouviu isso, você não teve infância.

“Os animaizinhos subiram de 2 em 2…”. Se você nunca ouviu isso, você não teve infância.

Essa mudança de postura é uma das estratégias da Igreja para tentar recuperar essa “juventude perdida”.

Uma outra tática à qual eles parecem estar dando ênfase recentemente é promover a aproximação entre o líder da igreja e seus fiéis.

O papa João Paulo II já era uma pessoa simpática e receptiva. Ele foi um dos que mais incentivou a melhora da relação entre a Igreja Católica e outras religiões, e esteve presente em praticamente todos os países do mundo. Essas atitudes conciliadoras o tornaram um dos papas mais queridos da História, mesmo por quem não seguia a religião católica.

Ao eleger o Papa Bento XVI, a Santa Sé parecia estar dando um passo atrás nessa estratégia. Joseph Ratzinger, de origem alemã era muito mais pragmático, rígido e menos dado à diplomacia que seu antecessor. Alguns o achavam até antipático. Somando-se a isso um obscuro envolvimento com o nazismo em seu passado, e acusações de acobertamento de pedófilos na Igreja, sua figura se tornou muito menos atraente à juventude que a do falecido papa João Paulo. Não sei se isso chegou a ter alguma contribuição para a breve duração de seu papado, mas eu definitivamente consideraria essa uma possibilidade. Pode não ter sido a causa principal, mas acredito que pelo menos alguma influência em sua saída essa fato pode ter exercido.

Porém, ao eleger o Papa Francisco para o cargo de sumo pontífice, a Igreja deu um grande impulso em sua pretensão de ser vista pelos jovens como uma igreja renovada para o novo milênio. Uma das maiores reclamações dos que não seguiam a religião católica era de que o papa se encontrava em uma posição ostentadora, vivendo na riqueza e no conforto, enquanto exigia a prática da caridade a seus fiéis.

Mas agora o Santo Padre à frente dos católicos é um franciscano simpático, que dá beijos em crianças desconhecidas na rua e abdica de certos luxos desfrutados por seus antecessores. Já escreveram até um livro que o entitula o “Papa dos Humildes”.

O papa distribuiu mais beijos que a Hebe Camargo

O papa distribuindo mais beijos que a Hebe Camargo

Mas será que todas essas mudanças de posturas e estratégias de marketing serão o suficiente para que a Igreja Católica retome o crescimento de sua congregação no novo milênio?

Tenho minhas dúvidas se elas terão algum efeito prático na arregimentação de novos fiéis entre a juventude atual. A Igreja está mais moderna, mais conectada com os jovens. Padres e bispos agora possuem Twitter e Facebook. A Jornada da Juventude foi transmitida ao vivo, via satélite, para o mundo inteiro. Os meios de comunicação usados na transmissão da palavra de deus definitivamente mudaram. Mas a mensagem parece continuar sendo a mesma.

As posições polêmicas defendidas pela Igreja não sofreram nenhuma alteração significante nos últimos anos. Pergunte a qualquer bispo ou padre o posicionamento correto em relação ao aborto, método contraceptivo, eutanásia, pesquisas com célula tronco ou casamento gay, e a resposta provavelmente será a mesma que um fiel da Idade Média receberia.

Mesmo que o papa Francisco tenha defendido em recentes discursos que ateus podem ser salvos se exercerem boas ações e que não se pode julgar os gays, essa me parece ser mais a opinião pessoal dele do que um possível aceno para a alteração de  qualquer doutrina em sua igreja, como o arcebispo do Rio já esclareceu. O Papa é uma pessoa, a Igreja é uma instituição. Instituições não têm opiniões, têm regimentos. Estatutos. Dogmas.

Então as crianças e adolescentes que olham para o papa Francisco e (como eu) o consideram uma pessoa bacana, continuarão indo para o catecismo e para a crisma para aprender coisas como “a homossexualidade é injusta“. E quando crescerem, muitas continuarão a se questionar se determinadas posições devem realmente ser aceitas sem contestações.

Então a despeito da bela festa que foi a JMJ, da quantidade colossal de pessoas presentes no evento, e do lucro que ela deve ter gerado para os cofres da Igreja, não acredito que isso irá efetivamente fazer com que a saída de fiéis do catolicismo estanque.

Afinal, se um livro é díficil de ser lido, de nada adianta mudar sua capa se o conteúdo continua igual.

Atualização: veja aqui a parte 3 do post – Análise social da JMJ.

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O Papa É Pop, Parte 1 – Balanço Econômico da JMJ

Humberto Gessinger pode se sentir orgulhoso. Sua afirmação de que o papa é pop feita há mais de 20 anos nunca se mostrou tão atual, e foi plenamente justificada semana passada.

Em sua atribulada passagem pelo Brasil em celebração à Jornada Mundial da Juventude, o papa Francisco reuniu mais de 3 milhões de católicos, vindos de todas as partes do mundo, que se espremeram, enfrentaram filas, passaram frio e fome na Cidade Maravilhosa, para, muitas vezes, ter apenas um vislumbre do Sumo Pontífice.

Mas ser pop também tem seu lado negativo. Felizmente dessa vez ele não veio na forma de alguém dando tiros à queima-roupa, somente representado por grupos de manifestantes que decidiram se reunir para protestar contra a Igreja Católica, contra a vinda do Papa e contra diversas outras pautas que podiam ou não ter alguma relação com o líder da Igreja Católica.

Manifestantes "peitando" a vinda do papa

Manifestante “peitando” a vinda do papa ao Brasil

E agora, passada a euforia da visita papal, podemos fazer um balanço da JMJ. Ela foi uma coisa positiva ou negativa para o país, para os fiéis e para a Vaticano? E para os ateus, será que teve alguma relevância? Que lições podemos tirar dessa grande romaria católica?

Essa análise será dividida em três pontos principais: O econômico, o religioso e o social, para que não fique muito grande e cansativa.

Análise econômica:

Para começar, deixe-me confessar que minha opinião a respeito da vinda do papa ao país estava bem dividida quanto a suas consequências econômicas. Por um lado eu achava que a chegada maciça de turistas ao país aqueceria o comércio e geraria um alto retorno financeiro com a compra de produtos e serviços e arrecadação de impostos. Por outro lado, isso acontece em qualquer grande evento turístico, então eu não via o porquê de o Estado despender dinheiro público para promover essa pregação em específico.

Assim que se começou a falar da vinda do papa ao Brasil, começaram a surgir especulações sobre o quanto seria gasto pelo Estado para que a JMJ fosse realizada. Nas redes sociais e em entrevistas a veículos da mídia, os fiéis justificavam os gastos, dizendo que a maioria da população é católica, logo seria um gasto feito em prol do próprio povo, ou que o papa não é só um líder religioso, é também um chefe de Estado, e como tal, tem que ser protegido quando vier visitar o país.

Bom, a separação entre o Estado e a religião existe por um motivo. Não se pode utilizar dinheiro público para subvencionar uma religião em específico, justamente para não se correr o risco de suprimir as crenças minoritárias. A perseguição a pessoas que não seguem o islamismo em países que adotam a Charia é um claro exemplo de como o apoio estatal a uma religião majoritária pode fomentar a intolerância religiosa.

Então afirmar que o patrocínio do Estado à peregrinação de uma religião majoritária é obrigação do poder público, apenas porque a maior parte da população a segue, não tem como deixar de soar como uma afronta à laicidade estatal a meu ver. Ainda mais em se tratando de uma peregrinação feita em prol de uma instituição que tem um patrimônio estimado no mínimo superior a 800 milhões de dólares, logo, não me parece ter a mínima necessidade de apoio financeiro para realizar o que quer que seja.

Há quem diga que a Jornada na verdade não foi paga com dinheiro público, que foi patrocinada com dinheiro da própria igreja e dos fiéis, e que na verdade o Estado só teve gastos com a organização e controle dos peregrinos, como teria em qualquer manifestação ou passeata, como tem, por exemplo, na parada gay.

Para se verificar a veracidade desses argumentos, é preciso recorrer-se aos números. Somente com uma fria análise matemática pode-se afirmar se o Estado utilizou razoavelmente a verba pública no evento ou não.

Pois bem, segundo informações da mídia, o gasto governamental com a JMJ passou dos 100 milhões de reais. Ou seja, independente do argumento de que o evento seria todo custeado com as inscrições dos peregrinos, ou verba da igreja, esse foi efetivamente o gasto do Estado com a jornada.

Para verificar se esse é um número factível a ser gasto em um evento desses, façamos uma comparação com eventos semelhantes. Usarei a parada gay realizada em SP em 2008, pois a quantidade de participantes dos dois eventos foi mais ou menos parecida.

Note-se que eu não estou julgando ou comparando a finalidade de nenhum dos eventos, os estou utilizando apenas por terem uma certa equivalência matemática quanto ao número de participantes, tornando mais justificável a comparação de gastos do governo com a organização e segurança, que, segundo alguns fiéis, foi só com o que o Estado gastou na JMJ.

À parada gay daquele ano compareceram 3,4 milhões de participantes, um público até um pouco maior que o da missa final realizada pelo papa na JMJ. Porém, surpreendentemente, o gasto público naquela ocasião foi de 1,07 milhão de reais. Quase 100 vezes menos que o gasto na Jornada Mundial! Para se ter uma melhor noção da diferença de gastos entre um evento e outro, deixe-me esboçar um pequeno gráfico:

Mesmo multiplicando-se os gastos da parada gay por sete (uma vez que a estada do papa em terras brasileiras durou sete dias, enquanto a parada foi feita em um dia só), e atualizando-se o valor pela inflação do período e correção monetária, a diferença de gastos públicos entre um evento e outro ainda é abissal. Os gastos na parada gay ficariam em  R$ 9.831.308,49, se o evento fosse feito hoje e tivesse a mesma duração da Jornada, segundo a atualização feita no site Cálculo Exato, o que ainda é um custo mais de dez vezes menor que o da JMJ.

Para justificar essa diferença, poderia-se usar a alegação de que se trata de um chefe de Estado, logo o gasto com segurança tem que ser maior que o de uma simples parada gay.

Bom, esse argumento me parece inválido por dois motivos distintos.

Primeiro, o papa é realmente um chefe de estado, mas o motivo de sua vinda para o Brasil não foi para tratar de temas do interesse do Estado. O Vaticano não estava discutindo acordos ou tratados com o Brasil e nenhuma negociação foi feita enquanto Sua Santidade permaneceu aqui. Nosso próprio chefe de Estado mal esteve em contato com o papa, basicamente só o encontrou para dar as boas vindas.

O encontro de chefes de Estado mais breve da História

O encontro de chefes de Estado mais breve da História

Assim, fica mais do que óbvio que o chefe do estado do Vaticano não estava no país como chefe do estado do Vaticano, e sim como líder da Igreja Católica. Seu objetivo aqui era simplesmente promover sua religião. E se um chefe de estado vem ao Brasil por motivos que não interessam (ou não deveriam interessar) ao Estado, como, por exemplo, uma jornada mundial que promova sua religião, já se coloca em dúvida a obrigatoriedade de se garantir sua segurança com tanta ênfase. Se o presidente José Mujica ou o Ahmadinejad viessem passar uma semana de férias no Brasil, será que eles disporiam do mesmo aparato de segurança?

Mas é claro que nenhum governante quer que um chefe de Estado morra ou sofra algum atentado em seu território, então, independente do motivo de sua vinda, ainda que somente por questões diplomáticas, algum esquema de segurança será sempre implementado. Ainda mais tratando-se do líder da maior religião do país. Como disse o Capitão Nascimento, político nenhum quer ver o papa baleado na sua cidade.

Mas aí chegamos ao segundo motivo para esse argumento ser incorreto. Os gastos com a segurança de chefes de Estado não chegam nem perto do que foi gasto nessa jornada. É difícil encontrar números exatos, pois estes dados são sigilosos, mas estima-se que a visita do presidente Barack Obama ao Brasil em 2011 tenha custado diretamente aos cofres públicos mais de um milhão de reais. Some-se a isso o que foi gasto indiretamente, com, por exemplo, o deslocamento de tropas policiais e do exército, e não acho que uma estimativa de um total de dois milhões de reais esteja longe da realidade. Digamos que seja de três milhões, para dar uma boa margem de erro.

Ora, o presidente Obama ficou no Brasil por apenas dois dias, não os sete do papa. Multipliquemos esse valor então por quatro, dando assim um dia a mais de lambuja para um chefe de Estado que queira fazer uma visita como a do Sumo Pontífice. O total a que chegaríamos, com valores já atualizados, seria a um gasto de R$ 13.489.516,38 para que um chefe de Estado passeie com toda a segurança no país durante esse período.

Porém, além desse valor normalmente ser dividido com o Estado que traz o seu representante, a vinda de um chefe de Estado normalmente implica em acordos econômicos que podem trazer benefícios que justificam com folga os gastos feitos, garantindo o retorno de milhares de vezes o valor aplicado. Na própria visita do Obama, o Brasil assinou dez acordos comerciais com os EUA que podem trazer milhões de reais ao país. Isso nunca seria feito com o Vaticano, afinal o único produto do qual o Vaticano dispõe para negociar é a religião.

Analisando os valores aqui apresentados, podemos concluir que um evento que durasse sete dias, com um público de 3,4 milhões de pessoas presentes todos os dias (o que a JMJ não teve), e que exigisse um aparato de segurança adequado à proteção de um chefe de Estado, demandaria um custo de, arredondando para cima, aproximadamente  24 milhões de reais, ou seja, mais de quatro vezes menos o que foi gasto na JMJ. E ainda que meus cálculos estejam imprecisos, ou minhas especulações inexatas, ainda são muitos milhões de diferença para margem de manobra.

Então tudo bem, com isso chegamos à conclusão de que os gastos do Governo com o evento foram exagerados e fora de proporção, ficando mais do que claro que o Estado, no final das contas estava pagando para promover uma orientação religiosa, o que contraria nossa própria Constituição. Mas será que isso quer dizer que a realização da Jornada foi um mau negócio?

Afinal, segundo alguns fiéis, houve um imenso retorno financeiro com a jornada. Assim, ela não teria sido simplesmente um dispêndio para o Estado, seria mais um investimento, já que os gastos dos peregrinos farão com que esse valor acabe retornando para o governo, como afirma Rafael Rodrigues, do site Apologistas Católicos.

A única maneira de o Estado reaver o valor que foi supostamente “investido” na Jornada seria com a arrecadação de impostos. Quando um turista vem aqui e se hospeda em um hotel, come em um restaurante, visita um ponto turístico, gasta dinheiro em lojas etc, o governo está arrecadando uma parte daquele valor que ele gasta em tributos, justificando o investimento estatal na promoção do turismo.

Porém, com a JMJ essa lógica não funciona.

Vamos novamente aos números para que eu demonstre a diferença entre uma situação e outra.

Segundo os dados da prefeitura do Rio e do Comitê Organizador Local da JMJ, dois milhões de peregrinos estiveram na cidade do Rio durante a Jornada e a estimativa do total desembolsado pelos visitantes foi de 1,2 bilhão de reais, o que dá uma média de pouco menos de R$ 86,00 por visitante a cada dia.

Parece um número ótimo. Mas é quase um terço do que turistas normais gastam. De acordo com o Ministério do Turismo, a média de gastos per capita diária de um turista na cidade do Rio de Janeiro em 2011 foi de US$ 103,03, ou cerca de R$235,00.

Gasto médio de um turista no Rio de Janeiro

Gasto médio de um turista no Rio de Janeiro

Se dois milhões de turistas desembarcam no Rio na alta temporada e passam a semana gastando a quantia que os peregrinos gastaram, o comércio local pode considerar que houve um período fraco de turismo. E eu fiz essa média de gastos dos peregrinos levando em conta o total de gastos, no qual entraram também os gastos dos fiéis que já estavam no país. Talvez a média por peregrinos estrangeiros tenha sido ainda menor.

Mas, tudo bem, estamos no meio de julho, logo na baixa temporada do turismo. Essa quantidade de estrangeiros nunca seria vista por aqui nessa época. No entanto, quem veio para o Rio não foram turistas. Foram peregrinos. O objetivo primordial deles não era conhecer a cidade, ficar em bons hotéis, comprar souvenirs ou visitar pontos turísticos. Era participar das atividades religiosas programadas para a jornada, com seus grupos de compatriotas, gastando o mínimo de dinheiro possível.

Segundo os dados no site do COL, menos de 7% dos peregrinos ficaram hospedados em hotéis. A grande maioria ficou hospedada nas casas de voluntários, de amigos ou nos alojamentos fornecidos pela própria igreja. Pelo visto, a rede hoteleira do Rio se beneficiou muito pouco com a JMJ.

Os restaurantes também não devem ter tido um aumento muito expressivo em sua demanda. Os fiéis que se hospedaram na casa de voluntários faziam uma parte de suas refeições em casa. Uma amiga da família recebeu três francesas em casa, e elas tomavam café da manhã e almoçavam e/ou jantavam lá durante todos os dias da jornada. As refeições na rua resumiam-se mais a lanches. Não sei se a maioria dos peregrinos adotou esse procedimento, mas é de se imaginar que sim. A própria igreja forneceu pacotes de inscrição para a Jornada que já incluíam alojamento e alimentação:

pacotes JMJ

Quanto à arrecadação de impostos em produtos adquiridos pelos peregrinos, cabe aqui uma observação à parte.

A maior parte dos lanches, comidas e lembranças adquiridos na rua pelos peregrinos eram vendidos por camelôs ou por comerciantes não registrados. Assim, não houve nenhuma arrecadação direta com impostos em sua venda.

E os produtos vendidos pela igreja, como camisetas, livros, DVDs etc, têm uma particularidade ainda mais interessante. O artigo 150 da nossa Constituição:

Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: […]
VI – instituir impostos sobre: […]
b) templos de qualquer culto; […]
§ 4º – As vedações expressas no inciso VI, alíneas “b” e “c”, compreendem somente o patrimônio, a renda e os serviços, relacionados com as finalidades essenciais das entidades nelas mencionadas.

Ou seja, tudo que foi gasto diretamente com a Igreja ou suas fundações, está imune da arrecadação de impostos. Afinal, a igreja estava praticando sua finalidade essencial: a divulgação de sua religião. Deixe-me inserir um outro gráfico aqui, para que fique mais claro:

Não sei qual fração desses gastos divulgados de 1,2 bilhão de reais se refere à arrecadação que foi feita pela igreja. Afinal, se um peregrino gastou comprando, por exemplo, uma camiseta na loja oficial da JMJ, isso deve ter sido computado nesse total. Mas o governo mesmo não está arrecadando nada com isso, somente a igreja.

Se o próprio valor arrecadado com a inscrição dos peregrinos estiver incluído nesse total, uma vez que o número de inscritos divulgados foi de 355 mil peregrinos e considerando-se o valor mínimo da inscrição (R$ 106,00), pelo menos R$ 37 milhões desses R$ 1,2 bilhão já estaria indo direto para os cofres do vaticano, sem escala nenhuma na economia brasileira. Sabe-se lá quanto mais desse valor foi arrecadado diretamente pela Igreja.

Isso sem mencionar que a Jornada ainda ensejou na decretação de dois feriados municipais, o que também traz elevados prejuízos para a economia local, pois, embora alguns setores lucrem mais com as folgas, a maior parte do comércio e da indústria deixa de produzir.

Então, se me perguntarem se foi um mau negócio… depende. Para a Igreja Católica me parece ter sido um ótimo negócio. Mesmo com os gastos que ela certamente teve com a Jornada, com essa ajudinha do nosso governo, tenho certeza que ela faturou milhões e ainda conseguiu uma divulgação global de sua religião e de seu líder carismático, de uma maneira que nenhuma agência de marketing conseguiria.

Agora, para o meu país, eu diria que não foi um investimento tão bom assim. Pode até ser que a arrecadação tenha trazido algum lucro. Eu realmente não acredito que ela tenha dado prejuízo. No mínimo, acho que a arrecadação com os peregrinos equilibrou o que foi gasto, deixando o balanço econômico no 0 x 0.

Porém, se a intenção fosse simplesmente lucrar, havia maneiras muito mais eficientes de se fazer isso. Com um orçamento de R$ 100.000.000,00 em mãos, qualquer secretaria de Turismo é capaz de elaborar campanhas ou eventos que trariam um lucro muito mais robusto a qualquer cidade, como festivais de cinema, exibições de arte, concertos de música, entre tantas outras coisas.

Mas é claro que o objetivo do governo não era simplesmente promover o progresso econômico. Era deixar a maioria do seu eleitorado feliz. Objetivo esse que acredito que tenha sido plenamente alcançado.

Agora cabe a nós concluirmos se isso é uma coisa positiva ou negativa.

*Atualizado pelo autor em 03/08/2013:

O leitor “naoconcordo” trouxe dados que demonstram de forma mais apurada o quanto a rede hoteleira e os restaurantes faturaram durante a JMJ. A rede hoteleira teve ocupação de 78% e o faturamento de bares e restaurantes da zona sul dobrou durante o evento.

E é claro que esses aumentos já eram previstos. Na própria notícia acima é informado que a ocupação de 70% da rede hoteleira já era esperado, a surpresa ficou por conta dos oito pontos percentuais a mais. Afinal, como eu disse acima, apenas 7% dos peregrinos ficaram em hotéis. Mas 7% de 2 milhões são 140.000 pessoas a mais procurando hotéis no Rio. E o aumento do consumo em bares e restaurantes também é meio óbvio com 2 milhões de pessoas a mais na cidade (embora seja informado que na Barra e na Zona Oeste o faturamento tenha ficado abaixo do esperado).

Como eu disse acima, eu não estou discutindo se a JMJ trouxe lucro para o comércio ou não. Isso é evidente, nem precisaria ser apurado. O que está sendo questionado é se o que o Estado gastou com o evento é condizente com o que ele receberá em retorno.

A grande questão no final das contas é: qual era o objetivo do Governo ao injetar tanto dinheiro na promoção da Jornada? Era somente fomentar o comércio e a indústria hoteleira local? Porque se fosse o caso, haveria maneiras muito mais eficientes de se aplicar esse orçamento vultuoso que foi gasto, conseguindo-se os mesmos benefícios econômicos com menos custos, ou usando o mesmo valor gasto para se conseguir um lucro ainda maior.

Afinal, não seria necessário gastar 100 milhões de reais para se realizar um evento que trouxesse 140 mil pessoas à cidade para se hospedar em hotéis. Ou que dobrasse o consumo em restaurantes durante uma semana. E sem a necessidade de se decretar feriados na cidade ou sem desperdiçar recursos públicos em uma área que acabou não sendo utilizada e levou prejuízos a diversos outros comerciantes.

Ou o objetivo era só ajudar a promover uma religião? Porque isso por si só já seria inconstitucional. Ou era simplesmente promover o pão e circo, deixando a maioria do eleitorado feliz? Aí seria uma atitude meramente eleitoreira, sem objetivos de longo prazo e que não justificaria gastos tão vultuosos.

Mas isso tudo não quer dizer que eu tenha sido contra a realização do evento. Se eu fosse governante e a decisão coubesse a mim, eu acho que eu também ajudaria a organizar a JMJ. Como ajudaria a organizar a peregrinação de qualquer religião que se dispusesse a vir ao Brasil. Se judeus, muçulmanos ou evangélicos decidissem fazer uma jornada mundial no Brasil eu os acolheria. Só não concordo com o volume de gastos feito para isso. Eu buscaria gastar o mínimo possível com esses eventos, buscando fazer somente o mínimo que se espera que o Estado faça, deixando o resto com a iniciativa privada. O que não parece ter sido aplicado nesse caso.

Atualização: veja aqui a parte 2 – Análise Religiosa da JMJ

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Marinha pagará R$ 7.400,00 para padre e pastor

Notícia vista no portal Yahoo (clique na figura para ler a notícia completa):

capelao marinha

A presença dos capelães nas forças armadas não é nenhuma novidade. Há anos são abertos concursos para que padres e pastores tornem-se oficiais e prestem assistência religiosa nas organizações militares.

Ano passado mesmo, houve um concurso para capelães na Aeronáutica. Considerando-se os salários divulgados nas notícias, parece que eles tiveram um bom aumento de 2012 para esse ano, mas fora isso, a reportagem não nos apresenta nenhum fato que já não fosse sabido.

O que parece ter mudado nos últimos anos é a orientação religiosa dos capelães. Nos concursos anteriores só se abriam vagas para padres. A exclusividade da Igreja Católica era tamanha, que há até um acordo diplomático criado entre o Brasil e a Santa Sé em 1989 que permite assimilar os capelães militares às dioceses da cúria romana.

Guerra e religião, caminhando juntas.

Guerra e religião, caminhando juntas.

Porém, a mudança demográfica e a ascensão dos evangélicos obrigou as forças armadas a modificarem suas estruturas para abrigar também capelães pastores.

Mas, o quão aceitável é a permanência dessa figura em nossas forças armadas? A existência de um militar pago pelo governo para ministrar sua religião suscita muitos questionamentos. Isso não feriria a separação entre o Estado e a Igreja? Por que essas duas denominações religiosas têm preferência sobre as outras? A presença do capelão é realmente imprescindível?

Esse é um tema complexo de se discutir. Eu sou contra a existência dos capelães, mas há ateus que são a favor. Eu acho que fere a laicidade do Estado, mas há ateus que pensam o contrário. Vou expor as minhas razões para pensar assim, e quem quiser, sinta-se à vontade para concordar ou discordar.

Para começar, lembremos que a assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva é um direito assegurado pela nossa Constituição:

Art. 5° – […]

VII – é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;

As leis que regulam essa assistência religiosa, podem ser vistas aqui, e há ainda uma lei específica que regula os capelães militares, a lei 6.923/81, que é anterior à Constituição, mas continua em vigor.

Esta última lei define quem poderá ser escolhido para ser capelão militar:

Art. 4° – o Serviço de Assistência Religiosa será constituído de Capelães Militares, selecionados entre sacerdotes, ministros religiosos ou pastores, pertencentes a qualquer religião que não atente contra a disciplina, a moral e as leis em vigor.

Então, teoricamente, líderes de qualquer orientação religiosa poderiam ser nomeados como capelães, atendendo assim aos fiéis de qualquer crença. Mas é claro que na prática não é isso o que acontece. Não há como o Estado escolher um capelão de cada designação religiosa existente, ainda mais em um país multicultural como o Brasil, alocá-los em cada organização militar, distribuindo-nos de acordo com a religião específica de cada soldado e pagar um soldo desse porte a todo esse pessoal. É simplesmente uma logística impossível.

Então o que se faz é aplicar o princípio da razoabilidade administrativa. Contratam-se ministros das religiões mais numerosas do país e faz-se a distribuição de maneira que se satisfaça ao maior número de fiéis dentro do limite do possível. E como os católicos e evangélicos já representam cerca de 87% dos brasileiros, o lógico é que se chamem basicamente ministros dessas duas orientações religiosas.

Assim, o cenário normal é que você acabe tendo organizações militares em que há somente um capelão para todo o efetivo. E ele normalmente é um padre ou um pastor. Em meus tempos de caserna eu até já ouvi falar de capelães de outras religiões, mas eles são mais raros que filhote de pombo.

Isso deve ser ótimo se você é católico ou evangélico (e der a sorte de ficar lotado em um quartel que tenha o ministro da sua religião, não da outra) . Mas se você for espírita, umbandista, judeu, hinduísta, xintoísta ou seguir qualquer outra das milhares de religiões existentes, a presença do capelão não vai fazer diferença nenhuma para você.

Isso, por si só já seria de certa maneira discriminatório. Porém, somente na mesma medida em que é discriminatório não haver o mesmo número de policiais em diferente localidades urbanas, ou haver mais hospitais em determinadas regiões da cidade ou algumas escolas serem abarrotadas de alunos enquanto outras são modelos. A administração pública não tem como agradar a todos, então faz o que é possível fazer. Não é o ideal, mas é justificável.

Porém, nos exemplos citados no parágrafo anterior, a intervenção estatal é  não só desejável como necessária. Quem deve fornecer segurança, educação e saúde da melhor maneira possível é o Estado. Já a assistência religiosa, não é obrigação  direta do poder estatal.

“Mas não é a própria Constituição que determina que a assistência religiosa deve ser provida?”, você me perguntaria. Bem, a Constituição assegura a prestação da assistência religiosa, mas não determina que o Estado é quem deverá custear os ministros religiosos das religiões que achar relevantes. Para mim essa instrução constitucional seria mais em um sentido passivo, para evitar que o Estado impedisse alguém de professar a religião que escolhesse. Nesse mesmo sentido, a Constituição garante o direito de propriedade,  mas não se vê o Estado sair por aí distribuindo bens.

Ao meu ver, uma maneira de assegurar essa assistência religiosa prevista na Constituição seria permitir que os próprios militares formassem comunidades religiosas dentro do quartel, ou as procurassem nas cidades em que estivessem localizados. Talvez até fornecer um local dentro do quartel de natureza ecumênica, que pudesse atender a pessoas de qualquer religião que desejassem organizar reuniões nesse sentido. Mas pagar para uma pessoa de uma religião específica ficar responsável por toda a religiosidade do local me parece exagerado e desnecessário.

Outro aspecto que me intriga é o porquê dos militares terem essa necessidade de assistência religiosa, quando as outras classes trabalhadoras governamentais não desfrutam da mesma benesse. Não se fala em médicos capelães ou professores capelães, só para citar profissões da tanta ou mais importância e estresses. A desculpa de que as organizações militares são locais de internação pode ser aceitável, porém os militares que trabalham nesse local não estão presos ao quartel. Eles têm vida fora dos muros da organização militar, e saem aos fins de semana. Poderiam muito bem frequentar a instituição religiosa de sua preferência em seu tempo livre. E se ele não tem tempo livre, o Estado deveria criar esse tempo livre para essa finalidade. Aí sim, seria o Estado agindo ativamente para garantir a assistência religiosa, e de maneira razoável.

Até porque, mesmo seguindo a mesma orientação religiosa que a sua, pode ser que o líder religioso escolhido pelo Estado não o agrade. Não é raro encontrarmos pessoas religiosas que se queixam dos clérigos responsáveis pelos templos que frequentam, dizendo que preferiam o anterior, ou o de outro horário.

Imaginar que um capelão escolhido ao acaso será a escolha mais adequada para todos os militares presentes em uma OM e pagar a ele um soldo desse porte é, em minha opinião, um grande equívoco.

E um grande equívoco pago com o dinheiro público.

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Você conhece o novo presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara?

A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados acaba de receber um novo presidente, eleito esta semana, em sessão fechada: o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP).

Mas você sabe quem é o deputado Marco Feliciano?

É natural supor que para presidir uma comissão que lida com questões tão relevantes – toda matéria jurídica hoje em dia parece passar pelos direitos humanos – a pessoa eleita deva ser um exemplo de ética e moral, um parâmetro a ser seguido.

Mas, ok, todos sabemos que uma criatura com essas características no parlamento brasileiro é praticamente mítica. Então, sendo mais realista, esperaríamos pelo menos alguém que não fosse envolvido em questões controvertidas e que não demonstrasse publicamente idéias repugnantes.

Mas, depois de vermos eleitos Renan Calheiros, um político que acumula denúncias de corrupção, como presidente do Senado e o Tiririca como presidente da comissão de Educação e Cultura (nada contra o Tiririca mas, até ele tomar posse na câmara, havia dúvidas a respeito de sua alfabetização. E é uma comissão de educação e cultura!), receber uma notícia como essa já deveria fazer acionar nosso alarme interno.

Então, vamos pesquisar um pouco sobre quem é o deputado Marco Feliciano…

O deputado Marco, eleito deputado federal por  SP em 2010 com 211.855 votos, aparentemente exerce seu primeiro cargo político. A maioria dos políticos de carreira começam em funções locais e vão “subindo” até chegarem ao Congresso, com exceção daqueles que contam com alguma popularidade, o que garante votos suficientes para serem eleitos direto para o parlamento. Vejamos então qual era a profissão de origem do deputado… E quem diria, ele é pastor. Fundou o Ministério Templo do Avivamento, após “o Senhor visitá-lo de maneira sobrenatural” em 1996.

Político e pastor. Tem como ser mais confiável?

Político e pastor. Tem como ser mais confiável?

Até aí, tudo bem. Religiosos na política é o que não falta. A princípio seria só mais um representante dos evangélicos no Congresso. Porém, pesquisando um pouco mais sobre os ensinamentos professados pelo pastor, podemos perceber que ele tem uma visão de mundo bem, digamos, peculiar. Em seu blog e por seu twitter ele costuma difundir pensamentos que se não demonstrassem uma personalidade conscientemente ignorante e preconceituosa, poderiam passar muito bem por loucura (não descarto que seja ambos):

twitter2

twitter3

Tudo que eu consegui pensar depois de ler esses tweets foi: mas que m…?

Os sentimentos dos homoafetivos são podres e levam ao ódio, ao crime e à rejeição? Os africanos são descendentes diretos de Canaã, e cometeram o 1° ato de homossexualismo da história e por isso eles são amaldiçoados com o paganismo, ocultismo miséria e doenças? É sério isso? Esse é o nosso presidente da Comissão de Direitos Humanos? Se qualquer outra pessoa dissesse uma coisa remotamente parecida com isso na rua seria encaminhada à delegacia mais próxima, ou, na melhor das hipóteses, ao manicômio, onde seria entupida de remédios controlados.

Mas, ignoremos esse episódio, pode ter sido uma coisa pontual, o deputado/pastor pode ter tido sua conta no twitter hackeada, ou acordado com uma febre tórrida e não sabia ao certo o que estava escrevendo… Vamos assistir a um vídeo dele ministrando em sua igreja. O modo como ele trata seus fiéis certamente nos dará uma melhor visão de sua pessoa…

“É a última vez que eu falo. Samuel de Souza doou o cartão, mas não doou a senha. Aí não vale. Depois vai pedir o milagre para Deus e Deus não vai dar. E vai falar que Deus é ruim”

“Tem mais (dinheiro) aqui na frente? Glória a Jesus! Deixa eu ver o sobrenome dele? Feliz de Souza (risos). Mais um (cheque). Amém, amém. Tem gente que diz: ‘Pastor, pastor, R$ 1.000 eu não aguento’. Traga R$ 500. Você só não pode é perder a benção. Quem crê dá um jeito.”

Não, sério…  Em um único vídeo ele conseguiu:

  • Afirmar que quem está com a conta no vermelho é porque não deu dinheiro à igreja e comprou coisas pra si;
  • Condicionar a feitura de um milagre à doação do dízimo;
  • Pegar R$ 1.000,00 de um cadeirante;
  • Reclamar que o fiel deixou o cartão do banco com ele e não deixou a senha;
  • Pegar dinheiro de uma criança!

Por favor pastor! Esse deve ser o dinheiro da merenda dela cara! E ele ainda incentiva os pais a ensinarem os filhos a fazerem o mesmo. E o pior é que terão pais que vão fazer isso! Não é possível que isso tudo seja visto como normal pelas pessoas presentes no culto. Como elas podem achar que uma pessoa dessa é realmente porta voz de alguma entidade divina? Como uma quantidade tão grande de pessoas se deixa iludir tão facilmente? E ESSE É O NOSSO PRESIDENTE DA COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS?

Não, calma, deixa eu ler as últimas notícias dele para ver se pelo menos na atividade legislativa ele está fazendo alguma coisa que preste…

manchete

Ok, já deu né. Além de racista, homofóbico e mercenário, o pastor também é 171.

E é claro, a eleição do pastor já está recebendo o apoio de outros líderes religiosos. Do Silas Malafaia inclusive, que fez questão de afirmar que o Brasil é um país laico, mas não laicista, mas não se refreia em apoiar o deputado e dizer que os protestos contra a escolha é “um joguinho político de ativismo gay“. Pelo visto para Malafaia o Estado não pode ser laicista, mas se virasse uma teocracia moderna não haveria problema.

Mas, como tudo que é ruim pode piorar, há uma questão ainda mais grave nessa nomeação. A Comissão de Direitos Humanos da Câmara é também a Comissão de Minorias! Ou seja, o deputado que acredita que os africanos são amaldiçoados e que os homossexuais têm sentimentos podres vai presidir a comissão que representa os afro-descendentes e homossexuais brasileiros! Eu espero que a câmara nem considere os ateus como uma minoria, pois eu tenho medo de qual seria a opinião do deputado a respeito dos descrentes.

Obrigado Congresso, por mais este tapa na cara da sociedade. Aguardo avidamente a nomeação de Fernandinho Beira-Mar para a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado.

PS: Se assim como eu, você achou essa nomeação um descabimento, entre em contato com a Câmara dos Deputados e registre o seu descontentamento. Pode  parecer um esforço inútil, mas se muitas pessoas se manifestarem contra, eles podem perceber que correm risco de perder votos e, como isso é tudo o que importa para políticos, há a chance de fazerem alguma coisa.

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