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O Papa É Pop, Parte 2 – Análise Religiosa

Depois da primeira parte da análise da vinda do papa ao Brasil para a realização da Jornada Mundial da Juventude, na qual examinei o impacto econômico da JMJ, partirei agora para um outro tipo de análise: a religiosa.

Nela, eu irei examinar as relações internas da igreja católica – ou seja, entre seus líderes e fiéis – e como isso levou à decisão de realizar esse evento no Brasil.

Para que essa avaliação possa ser feita, primeiramente temos que conhecer um pouco da história da JMJ. O próprio site do evento nos ajuda nessa tarefa, fornecendo uma boa sinopse de todas as jornadas ocorridas desde sua criação.

A Jornada Mundial da Juventude teve sua primeira edição realizada em 1986, em Roma. Desde então ela é realizada em um intervalo de 2 ou 3 anos, em cidades de diferentes países. Até hoje, a única cidade que recebeu o evento duas vezes foi a própria Roma. Ela já passou por Buenos Aires, (Argentina), Santiago de Compostela (Espanha), Czestochowa (Polônia), Denver (EUA), Manila (Filipinas), Paris (França), Toronto (Canadá), Colônia (Alemanha), Sydney (Austrália) e Madri (Espanha).

A jornada foi uma idealização do papa João Paulo II, inspirada em grandes encontros que o finado papa promovia com jovens católicos em Roma. João Paulo II a definiu como um encontro de amor, sonhado por Deus e abraçado pelos jovens.

João Paulo II na primeira Jornada Mundial da Juventude, em 1986

João Paulo II na primeira Jornada Mundial da Juventude, em 1986

Como o próprio nome do evento já deixa claro, seu foco é o público adolescente e juvenil. A intenção é levar a doutrina católica ao máximo de jovens possíveis, como a própria organização do evento enfatiza em seu site:

A JMJ tem como objetivo principal dar a conhecer a todos os jovens do mundo a mensagem de Cristo, mas é verdade também que, através deles, o ‘rosto’ jovem de Cristo se mostra ao mundo.

Não há nada de novidade nessa postura. Doutrinar as pessoas desde jovens nos ensinamentos da Igreja Católica não é exatamente uma estratégia recente.

Rituais como o batismo infantil, o catecismo, a primeira comunhão e a crisma são colocados em prática pelo Vaticano há séculos, e também têm como principal objetivo fazer com que as crianças cresçam vendo os ensinamentos católicos como verdades indiscutíveis e os líderes da Igreja como autoridades incontestáveis na interpretação da vontade divina.

E é claro que essa estratégia não é seguida somente pelos católicos. Praticamente todas as religiões incentivam os pais a iniciarem suas crianças na doutrina que eles seguem, as levando a templos e cultos desde a mais tenra infância, quando elas nem têm condições de entender direito o que lhes está sendo passado como incontroverso, como o bom pastor Feliciano nos exemplifica.

Então, se a doutrinação infantil tradicional sempre foi uma coisa presente na cartilha da Igreja Católica, o que a pode ter levado a decidir promover repentinamente esse evento internacional de proporções épicas com tanta ênfase no público jovem?

Ao que parece, o que aconteceu foi simplesmente uma saída maciça de fiéis da religião católica nos países onde o evento vem sendo organizado.

A queda no número de seguidores do catolicismo não é nenhuma novidade. Desde o século passado o número de fiéis da Santa Sé no mundo inteiro vem diminuindo. Segundo uma pesquisa do PEW research center, em 1910 os católicos perfaziam 17% da população mundial, proporção que até 2010 caiu para 16% (apesar de a quantidade absoluta de católicos ter aumentado, ela não acompanhou o aumento da população mundial total). Pode parecer pouco, mas 1% de 7 bilhões de pessoas são 70 milhões de fiéis a menos para a Igreja, o que representa a população da Argentina e do Canadá somadas.

E embora essa queda percentual tenha sido relativamente pequena, o mais importante no entanto foi a mudança na distribuição geográfica da população católica.

Em 1910, aproximadamente 90% dos católicos viviam na Europa ou na América Latina. Cem anos depois, esse percentual baixou para 63%.

Pode-se perceber que, ao longo do século, o catolicismo se tornou uma religião muito mais globalizada. As únicas regiões que permaneceram praticamente inalteradas foram o Oriente Médio e a África Saariana, devido ao avanço do Islamismo.

Note-se ainda que o aumento da proporção de católicos nas Américas em relação ao resto do mundo não significa que o número de fiéis nestas regiões tenha aumentado. Essa porcentagem só foi ampliada porque o número de fiéis europeus vem sofrendo uma vertiginosa queda ao longo das décadas. Vejamos como anda a situação do catolicismo em alguns países que receberam a JMJ.

Na Itália e na Polônia, os dois países proporcionalmente mais católicos da Europa, é difícil precisar o quanto o catolicismo está em declínio, pois o censo desses dois países toma por base os dados fornecidos pela Igreja Católica, que considera como católicos todos os que foram batizados na religião, ainda que eles não a pratiquem mais. Assim, 87,8% dos italianos e 91% dos poloneses são considerados como católicos – um número proporcional ao de décadas anteriores. No entanto, de acordo com pesquisas conduzidas nos dois países, apenas 36,8% dos italianos e 52% dos poloneses se consideram como praticantes, frequentando a missa pelo menos uma vez  por semana. Se levarmos em consideração somente os católicos entre 18 e 24 anos, esse número cai para 44% na Polônia.

Na Espanha e na Alemanha, os números são muito mais acessíveis e eloquentes. Segundo o PEW, o percentual de católicos no país catalão caiu de 99,9% em 1910 para 75,2% em 2010.  E entre os que se consideram católicos atualmente, quase 60% afirmam não ir à Igreja nunca ou quase nunca. Na Alemanha, pesquisas do Instituto FOWID demonstram que o número de fiéis do catolicismo no país caiu gradualmente de 44,6% para 29,0% entre 1970 e 2011.

E na França a situação é ainda mais periclitante para a Santa Sé. Na nação que deu origem ao Estado Laico com a Revolução Francesa, até mesmo o número de batismos está diminuindo, apesar de o número de nascimentos vir aumentando ao longo dos anos.

Se na Europa a situação do catolicismo não é nada animadora, nas Américas ela se mostra somente um pouco melhor.

Nos Estados Unidos a quantidade de seguidores da Igreja Católica caiu muito pouco, permanecendo praticamente estável. Passou de 26,2% em 1990 para 25,1% em 2008, quando foi feito o último censo religioso. Porém, o catolicismo nunca foi a religião majoritária no país, já que os EUA possuem a característica histórica de terem sido formados por imigrantes europeus que seguiam o protestantismo, em especial os britânicos. Porém o que chama a atenção é a idade dos católicos. A mesma pesquisa aponta que 78% dos seguidores da religião no país têm mais de 30 anos, o que indica que os filhos de católicos seguem uma tendência de não abraçar a religião dos pais. Assim, o número de fiéis do catolicismo tem uma propensão a diminuir ainda mais no futuro, conforme seus integrantes mais idosos forem falecendo.

No Canadá o cenário é um pouco diferente. Os católicos sempre representaram a maioria dos religiosos. Porém a quantidade de seguidores da Igreja Católica também vem apresentando uma tendência de queda nas últimas décadas.  Em 1961 eles representavam 46,7% da população. Segundo o censo de 2011, esse número caiu para 38,7%. E a média de idade da população católica também é alta, de 37,8 anos, um pouco acima da média de idade de 37,3 anos da população total do país, o que indica que a adesão dos jovens também está em baixa.

Estimativas oficiais da Argentina são mais difíceis de se conseguir, pois há uma proibição legal de se incluir a religião no formulário do censo. A separação entre o Estado e a religião é muito mais debilitada no país de nossos vizinhos sul-americanos. Embora a Corte Suprema tenha decidido que o catolicismo não possui o status de religião oficial do país, a constituição argentina determina que o governo ofereça suporte econômico à Igreja Católica, e os bispos católicos recebem um salário do Governo Federal equivalente a 80% da remuneração de um juiz. Assim, o número de católicos no país, alegado pela igreja (88% da população), pode estar longe de representar a realidade, referindo-se mais aos batizados, a exemplo da Itália e da Polônia. Estudos independentes demonstram que o número de pessoas que se consideram adeptas do catolicismo flutua entre 69% e 78%, e o número de pessoas que frequentam os cultos católicos com regularidade é de somente 23%.

E finalmente, chegamos ao Brasil.

Em terras tupiniquins o catolicismo também anda mal das pernas nas últimas décadas. Os católicos, que representavam 92% da população em 1970, tiveram uma acentuada queda, caindo para 65% em 2010, segundo dados do censo. E essa parcela de católicos também está mais concentrada entre as pessoas de meia idade e idosos. Os jovens de uma maneira geral estão se afastando do catolicismo em nosso país. Isso sem levar em conta os que se consideram católicos mas não praticam a religião, apenas nasceram em famílias que também se consideram pertencentes ao catolicismo, ou simplesmente foram batizados nele.

E, depois dessa enxurrada de dados e números, podemos começar a tirar algumas conclusões a respeito da realização da JMJ.

Para facilitar a visualização, deixe-me reproduzir aqui um infográfico publicado pelo jornal O Globo, que mostra as variações na população católica no mundo, durante um período de 40 anos (para vê-lo com maiores detalhes, acesse a matéria completa clicando aqui). Os países com círculos vermelhos representam os lugares onde a população católica encolheu, e os azuis, onde ela aumentou.

Evolução Catolicismo

Agora, façamos uma pequena comparação com os locais onde a Jornada Mundial da Juventude foi realizada ao longo de sua existência:

Locais de Realização da JMJ ao longo dos anos.

É fácil perceber um padrão, não?

Ao se analisar os mapas, pode-se concluir que a Jornada mundial da Juventude pode até ser eventualmente utilizada como um instrumento para a expansão da fé católica ao redor do mundo, com a conquista de novos fiéis, como provavelmente o foi na Austrália e no Canadá. Mas ela demonstra fundamentalmente um visível esforço da Igreja Católica na manutenção de seus fiéis em países nos quais eles estão abandonando a religião, ou, no mínimo, dando menos importância a pôr os ensinamentos católicos teóricos em prática.

A próxima JMJ já está programada para acontecer na Cracóvia, novamente na Polônia, em 2015. Nada mais natural, considerando-se que, conforme os dados apresentados, a Europa é o local com maior abandono de fiéis; um verdadeiro êxodo católico. A possibilidade de canonização de João Paulo II em sua terra natal virá bem a calhar para uma tentativa de retenção desses exilados. E eu não me surpreenderia se a próxima jornada viesse a ser realizada no México ou na Colômbia.

Afinal, a Igreja Católica sabe da importância de se cativar o público jovem e de mantê-lo em sua congregação desde cedo. Uma pessoa que não cresça ouvindo repetidamente dos adultos que a cercam que histórias como homens sendo engolidos por peixes e virgens dando a luz são verdades absolutas, no mínimo as acharia muito inverossímeis se fosse confrontada com elas após adquirir um mínimo de bom senso com a idade. Ou haveria ainda o risco de ela achar que outras histórias inverossímeis são verdadeiras e acabar dedicando seu tempo e dinheiro a outras instituições religiosas.

E esse temor da Igreja é plenamente justificável, pois é exatamente o que vem ocorrendo atualmente. Essa evasão de jovens fiéis da Igreja Católica se deve a diversos motivos distintos, mas dois deles são bem fáceis de se identificar: a expansão das religiões protestantes/pentecostais e do ateísmo/agnosticismo.

Hillsong Church, uma megaigreja pentecostal em Sydney, Austrália

Hillsong Church, uma mega-igreja pentecostal em Sydney, Austrália, onde a JMJ ocorreu em 2008. Notem a idade dos fiéis presentes.

Esses dois motivos são bem distinguíveis na questão geográfica. O aumento do ateísmo e do agnosticismo é mais contundente na Europa, enquanto os protestantes e pentecostais se alastram como fogo pela América Latina.

De acordo com o Eurobarometer, atualmente 18% dos europeus não acreditam em uma espécie de divindade. Dos 10 países com maior percentual de ateus no mundo, 7 ficam na Europa.

Enquanto isso, no Brasil, o número de pessoas sem religião também teve um aumento, embora bem menos expressivo. Passou de menos de 1% em 1970 para cerca de 8% da população em 2010. Como eu já havia dito em um post anterior, é difícil precisar o quanto esse aumento no número de pessoas sem religião implica no aumento de ateus e agnósticos (atualmente cerca de 0,39% da população), já que essas informações específicas só foram recolhidas pelo IBGE em 2010. O que é indiscutível, no entanto, é o aumento vertiginoso dos evangélicos.

O número de seguidores das igrejas evangélicas no país sofreu um boom nas últimas décadas, passando de 6% da população em 1980, para 22,2% em 2010. E segundo o professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, José Eustáquio Diniz Alves, em um estudo realizado por sua equipe, por volta do ano de 2040 eles devem ultrapassar os católicos como a maioria religiosa no país.

Então, é inegável o fato de que esses dois fatores estão influenciando diretamente na diminuição de católicos no país. Mas por que exatamente as pessoas estão deixando a igreja católica em favor dessas duas posições? E o que ela vem fazendo para tentar reverter essa situação?

É fácil entender porque o ateísmo e o agnosticismo são atraentes para a juventude moderna. Estamos vivendo na era da informação. Com o advento da internet – cuja abertura ao público se deu em meados dos anos 80, coincidentemente à mesma época da criação da JMJ – fica muito mais difícil fazer com que as pessoas acreditem incontestavelmente em histórias fantásticas, já que elas podem confirmar a veracidade de qualquer coisa com um simples clique do mouse.

Então quando a Bíblia afirma que as plantas foram criadas antes do Sol, ou que todas as milhões de  espécies de animais cabem em uma arca de 450 pés de comprimento, ou qualquer outra coisa duvidável como essas, é fácil acessar as informações que demonstram que isso seria impossível, e o porquê. Uma leitura completa da Bíblia associada a um computador com acesso à internet tem uma capacidade de afastar as pessoas da religião muito maior do que a de qualquer ateu militante. E os jovens de hoje em dia já nascem conectados, com seus tablets, smartphones e notebooks em mãos.

E para os que, mesmo com todas essas informações disponíveis, sentem a necessidade de continuarem engajados em uma religião, existem os evangélicos.

Também é fácil perceber porque o evangelismo tem atraído tantos fiéis jovens da igreja católica. A proximidade mais acentuada da igreja evangélica com sua comunidade faz com que as pessoas religiosas acabem se identificando mais com essa religião  do que com o catolicismo.

A Igreja Católica, como instituição, sempre foi um pouco afastada de seus fiéis, buscando manter-se superior ao povo que a segue. Ela se intitula a “Igreja estabelecida por Deus para salvar todos os homens”. Seu líder se encontra em outro continente, é “dono” de seu próprio Estado, senta em um trono, cria suas próprias leis e exerce poder sobre as divisões da igreja no mundo todo. Seus sacerdotes se vestem de maneira que os diferencia dos fiéis, não só nas cerimônias, como em todo o restante do tempo, aprendem latim, vivem sob um celibato forçado e passam anos em cursos de teologia. E o próprio culto semanal católico é arcaico, baseado em tradições que se perpetuam há séculos, com um discurso monótono e uma quantidade de movimentos de ajoelhar-sentar-ficar-em-pé que pode ser considerada exagerada por qualquer um que não frequente uma academia.

Enquanto isso, os pastores evangélicos, em sua maioria, são pessoas normais, advindas da própria comunidade em que professam, que simplesmente nasceram com o dom da oratória e praticam a leitura da Bíblia. Eles não seguem uma liderança centralizada e se vestem com um terno, uma roupa que qualquer pessoa normal usaria no cotidiano. Falam no linguajar de seu público e promovem um culto mais animado e motivador, com bastante gritaria e músicas agitadas. Podem se casar, constituir família e, por vezes, exercem outra profissão, o que ajuda ainda mais na identificação com os fiéis.

Com qual desses líderes é mais fácil se identificar? Ou, qual dessas roupas você usaria para sair à rua?

Com qual desses líderes é mais fácil se identificar? Ou ainda: Qual dessas roupas você usaria para sair à rua?

Além disso as igrejas evangélicas possuem até mesmo maior proximidade física de seus seguidores. Enquanto os templos católicos se localizam em pontos específicos de uma cidade, obrigando os seus fiéis a se deslocarem a eles, em cada esquina praticamente há uma igreja evangélica, ainda que de diferentes denominações. Isso porque, enquanto a Igreja Católica exige uma arquitetura específica para a edificação de seus templos, qualquer garagem com cadeiras dobráveis e uma mesa pode abrigar uma igreja evangélica, ainda mais com a facilidade jurídica de se abrir uma igreja no Brasil.

Isso é ainda mais válido em comunidades carentes. Nos chamados aglomerados subnormais (favelas, grotas, invasões, comunidades, palafitas etc), onde a carência – em todos os sentidos da palavra – é enorme e, portanto, a busca pela religião mais presente, raramente se avista uma igreja católica. No entanto, os evangélicos estão sempre lá. Passeie em qualquer comunidade do Rio de Janeiro e o que mais se verá são bailes funk e igrejas evangélicas. Se buscarmos os dados de crescimento das comunidades carentes, tenho certeza que acharíamos uma correlação com o crescimento dos fiéis evangélicos.

Nessa imagem deve haver uns 10 templos evangélicos, 30 bailes funk e 0 igrejas catolicas

Só nessa fração de comunidade deve haver uns 15 cultos evangélicos, 30 bailes funk e nenhuma igreja católica.

É muito mais fácil cativar um seguidor quando ele consegue se ver refletido na figura de seu líder religioso, obtendo conselhos baseados em uma vivência parecida e podendo tratá-lo como um semelhante, não apenas como um emanador de ordens a serem seguidas (embora, obviamente, essa parte também não deixe de ser exercida pelos evangélicos).

Percebendo isso, a Igreja Católica começou um processo de mudanças em sua postura. A chamada Renovação Carismática, teve início na década de 60 nos EUA, mas veio para o Brasil em meados dos anos 70, acompanhando o início da expansão evangélica. Esse movimento buscava impor uma renovação às práticas tradicionais do catolicismo, dando uma maior ênfase à influência do Espírito Santo e admitindo formas mais arrojadas de se adorar ao senhor. Foi graças à Renovação que surgiram músicas católicas de louvor, danças gospel e padres cantores popstars como Marcelo Rossi e Fábio de Melo.

"Os animaizinhos subiram de 2 em 2...". Se você não ouviu isso, você não teve infância.

“Os animaizinhos subiram de 2 em 2…”. Se você nunca ouviu isso, você não teve infância.

Essa mudança de postura é uma das estratégias da Igreja para tentar recuperar essa “juventude perdida”.

Uma outra tática à qual eles parecem estar dando ênfase recentemente é promover a aproximação entre o líder da igreja e seus fiéis.

O papa João Paulo II já era uma pessoa simpática e receptiva. Ele foi um dos que mais incentivou a melhora da relação entre a Igreja Católica e outras religiões, e esteve presente em praticamente todos os países do mundo. Essas atitudes conciliadoras o tornaram um dos papas mais queridos da História, mesmo por quem não seguia a religião católica.

Ao eleger o Papa Bento XVI, a Santa Sé parecia estar dando um passo atrás nessa estratégia. Joseph Ratzinger, de origem alemã era muito mais pragmático, rígido e menos dado à diplomacia que seu antecessor. Alguns o achavam até antipático. Somando-se a isso um obscuro envolvimento com o nazismo em seu passado, e acusações de acobertamento de pedófilos na Igreja, sua figura se tornou muito menos atraente à juventude que a do falecido papa João Paulo. Não sei se isso chegou a ter alguma contribuição para a breve duração de seu papado, mas eu definitivamente consideraria essa uma possibilidade. Pode não ter sido a causa principal, mas acredito que pelo menos alguma influência em sua saída essa fato pode ter exercido.

Porém, ao eleger o Papa Francisco para o cargo de sumo pontífice, a Igreja deu um grande impulso em sua pretensão de ser vista pelos jovens como uma igreja renovada para o novo milênio. Uma das maiores reclamações dos que não seguiam a religião católica era de que o papa se encontrava em uma posição ostentadora, vivendo na riqueza e no conforto, enquanto exigia a prática da caridade a seus fiéis.

Mas agora o Santo Padre à frente dos católicos é um franciscano simpático, que dá beijos em crianças desconhecidas na rua e abdica de certos luxos desfrutados por seus antecessores. Já escreveram até um livro que o entitula o “Papa dos Humildes”.

O papa distribuiu mais beijos que a Hebe Camargo

O papa distribuindo mais beijos que a Hebe Camargo

Mas será que todas essas mudanças de posturas e estratégias de marketing serão o suficiente para que a Igreja Católica retome o crescimento de sua congregação no novo milênio?

Tenho minhas dúvidas se elas terão algum efeito prático na arregimentação de novos fiéis entre a juventude atual. A Igreja está mais moderna, mais conectada com os jovens. Padres e bispos agora possuem Twitter e Facebook. A Jornada da Juventude foi transmitida ao vivo, via satélite, para o mundo inteiro. Os meios de comunicação usados na transmissão da palavra de deus definitivamente mudaram. Mas a mensagem parece continuar sendo a mesma.

As posições polêmicas defendidas pela Igreja não sofreram nenhuma alteração significante nos últimos anos. Pergunte a qualquer bispo ou padre o posicionamento correto em relação ao aborto, método contraceptivo, eutanásia, pesquisas com célula tronco ou casamento gay, e a resposta provavelmente será a mesma que um fiel da Idade Média receberia.

Mesmo que o papa Francisco tenha defendido em recentes discursos que ateus podem ser salvos se exercerem boas ações e que não se pode julgar os gays, essa me parece ser mais a opinião pessoal dele do que um possível aceno para a alteração de  qualquer doutrina em sua igreja, como o arcebispo do Rio já esclareceu. O Papa é uma pessoa, a Igreja é uma instituição. Instituições não têm opiniões, têm regimentos. Estatutos. Dogmas.

Então as crianças e adolescentes que olham para o papa Francisco e (como eu) o consideram uma pessoa bacana, continuarão indo para o catecismo e para a crisma para aprender coisas como “a homossexualidade é injusta“. E quando crescerem, muitas continuarão a se questionar se determinadas posições devem realmente ser aceitas sem contestações.

Então a despeito da bela festa que foi a JMJ, da quantidade colossal de pessoas presentes no evento, e do lucro que ela deve ter gerado para os cofres da Igreja, não acredito que isso irá efetivamente fazer com que a saída de fiéis do catolicismo estanque.

Afinal, se um livro é díficil de ser lido, de nada adianta mudar sua capa se o conteúdo continua igual.

Atualização: veja aqui a parte 3 do post – Análise social da JMJ.

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O Papa É Pop, Parte 1 – Balanço Econômico da JMJ

Humberto Gessinger pode se sentir orgulhoso. Sua afirmação de que o papa é pop feita há mais de 20 anos nunca se mostrou tão atual, e foi plenamente justificada semana passada.

Em sua atribulada passagem pelo Brasil em celebração à Jornada Mundial da Juventude, o papa Francisco reuniu mais de 3 milhões de católicos, vindos de todas as partes do mundo, que se espremeram, enfrentaram filas, passaram frio e fome na Cidade Maravilhosa, para, muitas vezes, ter apenas um vislumbre do Sumo Pontífice.

Mas ser pop também tem seu lado negativo. Felizmente dessa vez ele não veio na forma de alguém dando tiros à queima-roupa, somente representado por grupos de manifestantes que decidiram se reunir para protestar contra a Igreja Católica, contra a vinda do Papa e contra diversas outras pautas que podiam ou não ter alguma relação com o líder da Igreja Católica.

Manifestantes "peitando" a vinda do papa

Manifestante “peitando” a vinda do papa ao Brasil

E agora, passada a euforia da visita papal, podemos fazer um balanço da JMJ. Ela foi uma coisa positiva ou negativa para o país, para os fiéis e para a Vaticano? E para os ateus, será que teve alguma relevância? Que lições podemos tirar dessa grande romaria católica?

Essa análise será dividida em três pontos principais: O econômico, o religioso e o social, para que não fique muito grande e cansativa.

Análise econômica:

Para começar, deixe-me confessar que minha opinião a respeito da vinda do papa ao país estava bem dividida quanto a suas consequências econômicas. Por um lado eu achava que a chegada maciça de turistas ao país aqueceria o comércio e geraria um alto retorno financeiro com a compra de produtos e serviços e arrecadação de impostos. Por outro lado, isso acontece em qualquer grande evento turístico, então eu não via o porquê de o Estado despender dinheiro público para promover essa pregação em específico.

Assim que se começou a falar da vinda do papa ao Brasil, começaram a surgir especulações sobre o quanto seria gasto pelo Estado para que a JMJ fosse realizada. Nas redes sociais e em entrevistas a veículos da mídia, os fiéis justificavam os gastos, dizendo que a maioria da população é católica, logo seria um gasto feito em prol do próprio povo, ou que o papa não é só um líder religioso, é também um chefe de Estado, e como tal, tem que ser protegido quando vier visitar o país.

Bom, a separação entre o Estado e a religião existe por um motivo. Não se pode utilizar dinheiro público para subvencionar uma religião em específico, justamente para não se correr o risco de suprimir as crenças minoritárias. A perseguição a pessoas que não seguem o islamismo em países que adotam a Charia é um claro exemplo de como o apoio estatal a uma religião majoritária pode fomentar a intolerância religiosa.

Então afirmar que o patrocínio do Estado à peregrinação de uma religião majoritária é obrigação do poder público, apenas porque a maior parte da população a segue, não tem como deixar de soar como uma afronta à laicidade estatal a meu ver. Ainda mais em se tratando de uma peregrinação feita em prol de uma instituição que tem um patrimônio estimado no mínimo superior a 800 milhões de dólares, logo, não me parece ter a mínima necessidade de apoio financeiro para realizar o que quer que seja.

Há quem diga que a Jornada na verdade não foi paga com dinheiro público, que foi patrocinada com dinheiro da própria igreja e dos fiéis, e que na verdade o Estado só teve gastos com a organização e controle dos peregrinos, como teria em qualquer manifestação ou passeata, como tem, por exemplo, na parada gay.

Para se verificar a veracidade desses argumentos, é preciso recorrer-se aos números. Somente com uma fria análise matemática pode-se afirmar se o Estado utilizou razoavelmente a verba pública no evento ou não.

Pois bem, segundo informações da mídia, o gasto governamental com a JMJ passou dos 100 milhões de reais. Ou seja, independente do argumento de que o evento seria todo custeado com as inscrições dos peregrinos, ou verba da igreja, esse foi efetivamente o gasto do Estado com a jornada.

Para verificar se esse é um número factível a ser gasto em um evento desses, façamos uma comparação com eventos semelhantes. Usarei a parada gay realizada em SP em 2008, pois a quantidade de participantes dos dois eventos foi mais ou menos parecida.

Note-se que eu não estou julgando ou comparando a finalidade de nenhum dos eventos, os estou utilizando apenas por terem uma certa equivalência matemática quanto ao número de participantes, tornando mais justificável a comparação de gastos do governo com a organização e segurança, que, segundo alguns fiéis, foi só com o que o Estado gastou na JMJ.

À parada gay daquele ano compareceram 3,4 milhões de participantes, um público até um pouco maior que o da missa final realizada pelo papa na JMJ. Porém, surpreendentemente, o gasto público naquela ocasião foi de 1,07 milhão de reais. Quase 100 vezes menos que o gasto na Jornada Mundial! Para se ter uma melhor noção da diferença de gastos entre um evento e outro, deixe-me esboçar um pequeno gráfico:

Mesmo multiplicando-se os gastos da parada gay por sete (uma vez que a estada do papa em terras brasileiras durou sete dias, enquanto a parada foi feita em um dia só), e atualizando-se o valor pela inflação do período e correção monetária, a diferença de gastos públicos entre um evento e outro ainda é abissal. Os gastos na parada gay ficariam em  R$ 9.831.308,49, se o evento fosse feito hoje e tivesse a mesma duração da Jornada, segundo a atualização feita no site Cálculo Exato, o que ainda é um custo mais de dez vezes menor que o da JMJ.

Para justificar essa diferença, poderia-se usar a alegação de que se trata de um chefe de Estado, logo o gasto com segurança tem que ser maior que o de uma simples parada gay.

Bom, esse argumento me parece inválido por dois motivos distintos.

Primeiro, o papa é realmente um chefe de estado, mas o motivo de sua vinda para o Brasil não foi para tratar de temas do interesse do Estado. O Vaticano não estava discutindo acordos ou tratados com o Brasil e nenhuma negociação foi feita enquanto Sua Santidade permaneceu aqui. Nosso próprio chefe de Estado mal esteve em contato com o papa, basicamente só o encontrou para dar as boas vindas.

O encontro de chefes de Estado mais breve da História

O encontro de chefes de Estado mais breve da História

Assim, fica mais do que óbvio que o chefe do estado do Vaticano não estava no país como chefe do estado do Vaticano, e sim como líder da Igreja Católica. Seu objetivo aqui era simplesmente promover sua religião. E se um chefe de estado vem ao Brasil por motivos que não interessam (ou não deveriam interessar) ao Estado, como, por exemplo, uma jornada mundial que promova sua religião, já se coloca em dúvida a obrigatoriedade de se garantir sua segurança com tanta ênfase. Se o presidente José Mujica ou o Ahmadinejad viessem passar uma semana de férias no Brasil, será que eles disporiam do mesmo aparato de segurança?

Mas é claro que nenhum governante quer que um chefe de Estado morra ou sofra algum atentado em seu território, então, independente do motivo de sua vinda, ainda que somente por questões diplomáticas, algum esquema de segurança será sempre implementado. Ainda mais tratando-se do líder da maior religião do país. Como disse o Capitão Nascimento, político nenhum quer ver o papa baleado na sua cidade.

Mas aí chegamos ao segundo motivo para esse argumento ser incorreto. Os gastos com a segurança de chefes de Estado não chegam nem perto do que foi gasto nessa jornada. É difícil encontrar números exatos, pois estes dados são sigilosos, mas estima-se que a visita do presidente Barack Obama ao Brasil em 2011 tenha custado diretamente aos cofres públicos mais de um milhão de reais. Some-se a isso o que foi gasto indiretamente, com, por exemplo, o deslocamento de tropas policiais e do exército, e não acho que uma estimativa de um total de dois milhões de reais esteja longe da realidade. Digamos que seja de três milhões, para dar uma boa margem de erro.

Ora, o presidente Obama ficou no Brasil por apenas dois dias, não os sete do papa. Multipliquemos esse valor então por quatro, dando assim um dia a mais de lambuja para um chefe de Estado que queira fazer uma visita como a do Sumo Pontífice. O total a que chegaríamos, com valores já atualizados, seria a um gasto de R$ 13.489.516,38 para que um chefe de Estado passeie com toda a segurança no país durante esse período.

Porém, além desse valor normalmente ser dividido com o Estado que traz o seu representante, a vinda de um chefe de Estado normalmente implica em acordos econômicos que podem trazer benefícios que justificam com folga os gastos feitos, garantindo o retorno de milhares de vezes o valor aplicado. Na própria visita do Obama, o Brasil assinou dez acordos comerciais com os EUA que podem trazer milhões de reais ao país. Isso nunca seria feito com o Vaticano, afinal o único produto do qual o Vaticano dispõe para negociar é a religião.

Analisando os valores aqui apresentados, podemos concluir que um evento que durasse sete dias, com um público de 3,4 milhões de pessoas presentes todos os dias (o que a JMJ não teve), e que exigisse um aparato de segurança adequado à proteção de um chefe de Estado, demandaria um custo de, arredondando para cima, aproximadamente  24 milhões de reais, ou seja, mais de quatro vezes menos o que foi gasto na JMJ. E ainda que meus cálculos estejam imprecisos, ou minhas especulações inexatas, ainda são muitos milhões de diferença para margem de manobra.

Então tudo bem, com isso chegamos à conclusão de que os gastos do Governo com o evento foram exagerados e fora de proporção, ficando mais do que claro que o Estado, no final das contas estava pagando para promover uma orientação religiosa, o que contraria nossa própria Constituição. Mas será que isso quer dizer que a realização da Jornada foi um mau negócio?

Afinal, segundo alguns fiéis, houve um imenso retorno financeiro com a jornada. Assim, ela não teria sido simplesmente um dispêndio para o Estado, seria mais um investimento, já que os gastos dos peregrinos farão com que esse valor acabe retornando para o governo, como afirma Rafael Rodrigues, do site Apologistas Católicos.

A única maneira de o Estado reaver o valor que foi supostamente “investido” na Jornada seria com a arrecadação de impostos. Quando um turista vem aqui e se hospeda em um hotel, come em um restaurante, visita um ponto turístico, gasta dinheiro em lojas etc, o governo está arrecadando uma parte daquele valor que ele gasta em tributos, justificando o investimento estatal na promoção do turismo.

Porém, com a JMJ essa lógica não funciona.

Vamos novamente aos números para que eu demonstre a diferença entre uma situação e outra.

Segundo os dados da prefeitura do Rio e do Comitê Organizador Local da JMJ, dois milhões de peregrinos estiveram na cidade do Rio durante a Jornada e a estimativa do total desembolsado pelos visitantes foi de 1,2 bilhão de reais, o que dá uma média de pouco menos de R$ 86,00 por visitante a cada dia.

Parece um número ótimo. Mas é quase um terço do que turistas normais gastam. De acordo com o Ministério do Turismo, a média de gastos per capita diária de um turista na cidade do Rio de Janeiro em 2011 foi de US$ 103,03, ou cerca de R$235,00.

Gasto médio de um turista no Rio de Janeiro

Gasto médio de um turista no Rio de Janeiro

Se dois milhões de turistas desembarcam no Rio na alta temporada e passam a semana gastando a quantia que os peregrinos gastaram, o comércio local pode considerar que houve um período fraco de turismo. E eu fiz essa média de gastos dos peregrinos levando em conta o total de gastos, no qual entraram também os gastos dos fiéis que já estavam no país. Talvez a média por peregrinos estrangeiros tenha sido ainda menor.

Mas, tudo bem, estamos no meio de julho, logo na baixa temporada do turismo. Essa quantidade de estrangeiros nunca seria vista por aqui nessa época. No entanto, quem veio para o Rio não foram turistas. Foram peregrinos. O objetivo primordial deles não era conhecer a cidade, ficar em bons hotéis, comprar souvenirs ou visitar pontos turísticos. Era participar das atividades religiosas programadas para a jornada, com seus grupos de compatriotas, gastando o mínimo de dinheiro possível.

Segundo os dados no site do COL, menos de 7% dos peregrinos ficaram hospedados em hotéis. A grande maioria ficou hospedada nas casas de voluntários, de amigos ou nos alojamentos fornecidos pela própria igreja. Pelo visto, a rede hoteleira do Rio se beneficiou muito pouco com a JMJ.

Os restaurantes também não devem ter tido um aumento muito expressivo em sua demanda. Os fiéis que se hospedaram na casa de voluntários faziam uma parte de suas refeições em casa. Uma amiga da família recebeu três francesas em casa, e elas tomavam café da manhã e almoçavam e/ou jantavam lá durante todos os dias da jornada. As refeições na rua resumiam-se mais a lanches. Não sei se a maioria dos peregrinos adotou esse procedimento, mas é de se imaginar que sim. A própria igreja forneceu pacotes de inscrição para a Jornada que já incluíam alojamento e alimentação:

pacotes JMJ

Quanto à arrecadação de impostos em produtos adquiridos pelos peregrinos, cabe aqui uma observação à parte.

A maior parte dos lanches, comidas e lembranças adquiridos na rua pelos peregrinos eram vendidos por camelôs ou por comerciantes não registrados. Assim, não houve nenhuma arrecadação direta com impostos em sua venda.

E os produtos vendidos pela igreja, como camisetas, livros, DVDs etc, têm uma particularidade ainda mais interessante. O artigo 150 da nossa Constituição:

Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: […]
VI – instituir impostos sobre: […]
b) templos de qualquer culto; […]
§ 4º – As vedações expressas no inciso VI, alíneas “b” e “c”, compreendem somente o patrimônio, a renda e os serviços, relacionados com as finalidades essenciais das entidades nelas mencionadas.

Ou seja, tudo que foi gasto diretamente com a Igreja ou suas fundações, está imune da arrecadação de impostos. Afinal, a igreja estava praticando sua finalidade essencial: a divulgação de sua religião. Deixe-me inserir um outro gráfico aqui, para que fique mais claro:

Não sei qual fração desses gastos divulgados de 1,2 bilhão de reais se refere à arrecadação que foi feita pela igreja. Afinal, se um peregrino gastou comprando, por exemplo, uma camiseta na loja oficial da JMJ, isso deve ter sido computado nesse total. Mas o governo mesmo não está arrecadando nada com isso, somente a igreja.

Se o próprio valor arrecadado com a inscrição dos peregrinos estiver incluído nesse total, uma vez que o número de inscritos divulgados foi de 355 mil peregrinos e considerando-se o valor mínimo da inscrição (R$ 106,00), pelo menos R$ 37 milhões desses R$ 1,2 bilhão já estaria indo direto para os cofres do vaticano, sem escala nenhuma na economia brasileira. Sabe-se lá quanto mais desse valor foi arrecadado diretamente pela Igreja.

Isso sem mencionar que a Jornada ainda ensejou na decretação de dois feriados municipais, o que também traz elevados prejuízos para a economia local, pois, embora alguns setores lucrem mais com as folgas, a maior parte do comércio e da indústria deixa de produzir.

Então, se me perguntarem se foi um mau negócio… depende. Para a Igreja Católica me parece ter sido um ótimo negócio. Mesmo com os gastos que ela certamente teve com a Jornada, com essa ajudinha do nosso governo, tenho certeza que ela faturou milhões e ainda conseguiu uma divulgação global de sua religião e de seu líder carismático, de uma maneira que nenhuma agência de marketing conseguiria.

Agora, para o meu país, eu diria que não foi um investimento tão bom assim. Pode até ser que a arrecadação tenha trazido algum lucro. Eu realmente não acredito que ela tenha dado prejuízo. No mínimo, acho que a arrecadação com os peregrinos equilibrou o que foi gasto, deixando o balanço econômico no 0 x 0.

Porém, se a intenção fosse simplesmente lucrar, havia maneiras muito mais eficientes de se fazer isso. Com um orçamento de R$ 100.000.000,00 em mãos, qualquer secretaria de Turismo é capaz de elaborar campanhas ou eventos que trariam um lucro muito mais robusto a qualquer cidade, como festivais de cinema, exibições de arte, concertos de música, entre tantas outras coisas.

Mas é claro que o objetivo do governo não era simplesmente promover o progresso econômico. Era deixar a maioria do seu eleitorado feliz. Objetivo esse que acredito que tenha sido plenamente alcançado.

Agora cabe a nós concluirmos se isso é uma coisa positiva ou negativa.

*Atualizado pelo autor em 03/08/2013:

O leitor “naoconcordo” trouxe dados que demonstram de forma mais apurada o quanto a rede hoteleira e os restaurantes faturaram durante a JMJ. A rede hoteleira teve ocupação de 78% e o faturamento de bares e restaurantes da zona sul dobrou durante o evento.

E é claro que esses aumentos já eram previstos. Na própria notícia acima é informado que a ocupação de 70% da rede hoteleira já era esperado, a surpresa ficou por conta dos oito pontos percentuais a mais. Afinal, como eu disse acima, apenas 7% dos peregrinos ficaram em hotéis. Mas 7% de 2 milhões são 140.000 pessoas a mais procurando hotéis no Rio. E o aumento do consumo em bares e restaurantes também é meio óbvio com 2 milhões de pessoas a mais na cidade (embora seja informado que na Barra e na Zona Oeste o faturamento tenha ficado abaixo do esperado).

Como eu disse acima, eu não estou discutindo se a JMJ trouxe lucro para o comércio ou não. Isso é evidente, nem precisaria ser apurado. O que está sendo questionado é se o que o Estado gastou com o evento é condizente com o que ele receberá em retorno.

A grande questão no final das contas é: qual era o objetivo do Governo ao injetar tanto dinheiro na promoção da Jornada? Era somente fomentar o comércio e a indústria hoteleira local? Porque se fosse o caso, haveria maneiras muito mais eficientes de se aplicar esse orçamento vultuoso que foi gasto, conseguindo-se os mesmos benefícios econômicos com menos custos, ou usando o mesmo valor gasto para se conseguir um lucro ainda maior.

Afinal, não seria necessário gastar 100 milhões de reais para se realizar um evento que trouxesse 140 mil pessoas à cidade para se hospedar em hotéis. Ou que dobrasse o consumo em restaurantes durante uma semana. E sem a necessidade de se decretar feriados na cidade ou sem desperdiçar recursos públicos em uma área que acabou não sendo utilizada e levou prejuízos a diversos outros comerciantes.

Ou o objetivo era só ajudar a promover uma religião? Porque isso por si só já seria inconstitucional. Ou era simplesmente promover o pão e circo, deixando a maioria do eleitorado feliz? Aí seria uma atitude meramente eleitoreira, sem objetivos de longo prazo e que não justificaria gastos tão vultuosos.

Mas isso tudo não quer dizer que eu tenha sido contra a realização do evento. Se eu fosse governante e a decisão coubesse a mim, eu acho que eu também ajudaria a organizar a JMJ. Como ajudaria a organizar a peregrinação de qualquer religião que se dispusesse a vir ao Brasil. Se judeus, muçulmanos ou evangélicos decidissem fazer uma jornada mundial no Brasil eu os acolheria. Só não concordo com o volume de gastos feito para isso. Eu buscaria gastar o mínimo possível com esses eventos, buscando fazer somente o mínimo que se espera que o Estado faça, deixando o resto com a iniciativa privada. O que não parece ter sido aplicado nesse caso.

Atualização: veja aqui a parte 2 – Análise Religiosa da JMJ

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