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Leitura Recomendada – Uma História de Deus

A leitura recomendada de hoje é de um livro que trata a respeito de história religiosa: Uma História de Deus – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo : Uma Busca de 4000 Anos.

Uma História de Deus

UMA HISTÓRIA DE DEUS (Edição de Bolso)

Neste livro a autora tenta estabelecer o desenvolvimento histórico e cultural das três principais religiões monoteístas ocidentais: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Nesse sentido, o título da obra pode ser enganoso. Não se trata, obviamente da “história de Deus”. Trata-se da história da ideia que os povos ocidentais têm a respeito de Deus, o que é claramente diferente (as crenças dos povos orientais são mencionadas ocasionalmente, porém sem aprofundamentos). Mas é claro que eu entendo o propósito propagandista dos títulos de livros. Admito que uma edição com o nome “Uma História da ideia ocidental de Deus” provavelmente teria menos apelo comercial…

A autora, Karen Armstrong é uma ex-freira. Ela se ordenou na Society of the Holy Child Jesus em 1965. Porém, abandonou o convento quatro anos depois, quando percebeu que não havia nascido com vocação para a vida monástica. A partir de então ela passou a se dedicar ao estudo sobre as religiões, chegando a roteirizar e apresentar um programa de televisão sobre a vida de São Paulo para o Channel Four.

Para alcançar o objetivo proposto pelo livro, nos primeiros capítulos ela investiga o surgimento das religiões abraâmicas desde suas origens no Oriente Próximo. Os dois primeiros capítulos são basicamente aulas de história mostrando como o monoteísmo judaico evoluiu do politeísmo dos povos da região, como os babilônicos e os cananeus, até chegar à ideia de um deus único, por volta de 600 AEC. A partir daí ela passa a enumerar os diversos pensadores que expandiram e modificaram as ideias a respeito desse deus únitário.

A leitura certamente será muito mais aproveitável para quem já possui certa familiaridade com as doutrinas ou com as histórias dessas religiões ou para quem já tenha estudado religião comparativa em algum momento da vida. Em determinados trechos a autora lança tantas informações, tantos nomes e tantos estrangeirismos que qualquer um que já não possua alguma informação a respeito das religiões estudadas pode se sentir  sobrecarregado com a quantidade de dados fornecidos. E o fato de os capítulos não possuírem subdivisões pode aumentar ainda mais essa confusão. Talvez uma melhor organização favorecesse o repasse de informações, tornando o livro mais acessível para um público leigo.

Um outro problema é a visão pessoal que a autora imprime às análises que faz sobre as crenças, que teoricamente deveriam ser objetivas. Ela obviamente vê a fé como uma coisa boa e necessária, e parece tentar apresentar justificativas para todos os atos tomados com base na religião. Mesmo os que seriam claramente considerados abomináveis sob uma ótica moderna. Além disso ela tenta demonstrar que existe uma espécie de sincretismo entre todas as crenças, querendo nos fazer acreditar que todas as crenças religiosas no fundo afirmam a mesma coisa. O que obviamente é um devaneio. Basta notar as dissidências entre religiões que supostamente adoram o mesmo deus, pra perceber que algumas discordâncias entre elas são irreconciliáveis. Essa parcialidade da autora fica ainda mais notável nos últimos capítulos, quando ela praticamente faz uma espécie de proselitismo pessoal, parecendo defender que a crença correta em Deus é justamente a crença que ela professa.

Mesmo com esses defeitos, esta é uma boa leitura para qualquer um que queira entender melhor a evolução da ideia de Deus em nossa sociedade. Muitos livros apresentam dados e fatos históricos, mas poucos se preocupam em esmiuçar as ideias por trás deles. Se você conseguir separar as opiniões pessoais da autora das informações objetivas, ele será útil até mesmo para entender o cenário religioso atual.

I.S.B.N.: 978-85359115-8-9

Título original: A HISTORY OF GOD

Autora: Karen Armstrong

Editora: Companhia das Letras – 24/01/2008

Origem: EUA

N° de páginas: 560

Dimensões: 18,0 x 12,5 x 2,5 cm (Edição de bolso)

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O Eterno Conflito Entre Israel E Palestina

Em meu último post eu narrei o contato que tive com a cultura islâmica na Bósnia e Herzegovina durante minhas férias. As coisas que eu vi e ouvi por lá me fizeram chegar à conclusão de que, ao contrário do que alguns afirmam, é possível sim uma pessoa seguir o islamismo e conseguir viver em paz com pessoas de outros credos.

Infelizmente, enquanto eu estava no leste Europeu, teve início mais um conflito entre Israel e a Palestina, na Faixa de Gaza. Eu me vi então em um cenário curioso, pois estava testemunhando duas situações antagônicas. Onde eu estava, havia seguidores de diferentes religiões, entre os quais uma maioria de islâmicos, conseguindo conviver bem uns com os outros – se não em harmonia total, pelo menos em uma relativa paz.

Enquanto isso, a apenas alguns milhares de quilômetros a sudeste, israelenses e palestinos se explodiam em nome de Jeová e Alah. Até eu finalizar esse artigo, o número de mortos já passava dos dois milhares e o custo estimado de reconstrução de Gaza estava acima dos 6 bilhões de dólares.

A região que é palco dos conflitos entre as duas nações.

A região que é palco dos conflitos entre as duas nações.

Diante desse contrassenso, eu resolvi falar um pouco e também tentar entender a respeito desse aparentemente eterno conflito na região da Palestina.

A primeira pergunta que se pode fazer ao ler as notícias vindas daquele canto do planeta seria: afinal, por que essa gente se mata tanto? A resposta normalmente dada a esse questionamento é tão simples que pode até parecer ridícula a um observador externo: os dois grupos estão dispostos a matar e a morrer pela região em disputa por acharem que ela é sagrada.

É claro que essa é a versão simplista da história. Ao se analisar a situação mais profundamente podemos chegar a outras conclusões. Mas tentar entender essa conflito é  uma tarefa não muito fácil, já que os grupos envolvidos ocupam aquela área literalmente há séculos.

Os judeus, que formam o Estado de Israel, supostamente circulam por ali desde os tempos de seu patriarca bíblico mais antigo, Abraão, que teria vivido em alguma época entre os séculos XXI e XVIII AEC. Embora alguns historiadores e estudiosos defendam com bons argumentos a hipótese de Abraão nunca ter existido e se tratar somente de mais uma figura mística da história hebraica, isso não importa para os israelenses atuais. O que importa é que eles acreditam que Jeová teria prometido dar aos descendentes de Abraão o controle sobre aquelas terras algum dia, por isso o mandou se dirigir àquela religião, onde ele então deu origem ao restante da nação de Israel.

A partida de Abraão para Canaã, na visão de Molnár József.

A partida de Abraão para Canaã, na visão de Molnár József.

Porém, apesar das promessas do Todo Poderoso, os judeus não permaneceram efetivamente no controle da região por muito tempo. Ao longo dos séculos a área passou por diversos domínios, tendo sido invadida e ocupada pelos assírios, babilônios, persas, macedônios e romanos. Esses últimos inclusive foram os que renomearam a região como Palestina, já que ela era até então conhecida pelos judeus como Canaã.

No ano de 70 EC, após uma revolta que durou quatro anos, os romanos destruíram o templo dos judeus e, supostamente, os expulsaram da região. A partir de então o povo judaico passou a viver em êxodo, ao redor daquela área. (Muitos historiadores argumentam que os judeus não foram realmente exilados, só perderam o poder político, o que parece ser corroborado pelas evidências históricas).

Passado algum tempo, ocorreu o surgimento do Islã, no século 7, e a Palestina passou então a ser ocupada pelos muçulmanos. O Império Otomano permaneceu no domínio da região até o início do século XX. Isso só veio a mudar após a Primeira Guerra mundial.

Durante o conflito mundial, os otomanos apoiavam os alemães. Com a derrota do Império Alemão e a vitória dos Aliados na guerra, o Império Otomano se dissolveu e a administração da região ficou nas mãos do Reino Unido, por conta de um mandato concedido pela Liga das Nações.

Nessa mesma época começou a surgir entre os judeus exilados um movimento chamado sionismo. Os sionistas defendiam a volta do povo judeu à Terra Prometida – Israel – e a criação de um Estado nacional judaico independente e soberano para esse povo.

No entanto, apesar do fim do Império Otomano com a guerra, o povo muçulmano ainda se encontrava na região, e também a considerava um local santo, pois em 638 EC, após a conquista da região pelo califado islâmico, a cidade  de Jerusalém, capital da Palestina, passou a ser considerada a terceira localidade mais sagrada para o Islã, atrás apenas de Meca e Medina.

Após a Segunda Guerra Mundial, os terrores causados ao judeus no holocausto fizeram com que a pressão para o estabelecimento de um estado Judeu aumentasse. Vendo a batata quente que tinha nas mãos, o Reino Unido decidiu passar o problema para a recém-criada ONU. Em 1947 a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou um plano de partilha da Palestina, que recomendava a criação de um Estado Árabe e um Estado Judeu independentes, enquanto Jerusalém teria um regime especial, ficando sob controle internacional, a cargo da ONU, um plano que supostamente agradaria aos dois lados.

Porém, na prática não agradou. Esse plano foi aceito pelos israelenses, mas não pelos palestinos, que o viam como uma perda de seu território, e, por isso, nunca foi oficialmente implantado.

Cansados de esperar que a ONU solucionasse o dilema, em 14 de maio de 1948 os judeus decidiram se declarar independentes e fundaram o Estado de Israel. No dia seguinte o país solicitou a adesão à ONU, um status que alcançou um ano depois, com 83% dos membros das Nações Unidas reconhecendo sua independência e soberania.

Os palestinos obviamente não ficaram nem um pouco satisfeitos com a situação e isso propiciou o surgimento de alguns grupos islâmicos radicais que se opunham à ocupação israelense em territórios que eles consideravam como pertencentes à Palestina, como a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e as Colinas de Golã, e é por isso que essas regiões vivem em constantes conflitos. Um desses grupos radicais é o Hamas, que foi o responsável pelos ataques ocorridos no último mês.

Integrantes do Hamas tomando o escritório do presidente palestino em 2007.

Integrantes do Hamas tomando o escritório do presidente palestino em 2007.

O Hamas não é o único grupo que luta pela independência da Palestina. Desde a criação de Israel em 1948, já houve dezenas de conflitos e milhares de mortes entre muçulmanos e israelenses naquela área. Israel já guerreou literalmente contra todos os países islâmicos adjacentes à região: Egito, Jordânia, Iraque, Síria e Líbano. Porém, como o país conta com o apoio militar dos EUA, do Reino Unido e de alguns membros da ONU, Israel conseguiu repelir com eficiência todos os ataques sofridos até hoje e alcançou vitórias nas principais campanhas militares que manejou.

Críticos de um lado acusam o outro de se utilizar de táticas terroristas para alcançar seus objetivos. Mas para qualquer observador imparcial, é óbvio que ambos os lados são perpetradores de terrorismo, usando da violência contra inocentes.

Algumas pessoas têm receio de classificar Israel como um Estado terrorista, mas a verdade é que a única diferença entre eles e os palestinos é que esses útimos dispõem de muito menos recursos, por isso suas táticas têm que ser mais improvisadas e não-convencionais. Enquanto eles se utilizam de homens-bomba e sequestradores para atacar seus adversários, os israelenses podem se dar ao luxo de usar helicópteros, bombardeiros e mísseis teleguiados. Mas os dois lados buscam impor terror em seus ataques, e os resultados acabam sendo sempre os mesmos: civis que não têm nada a ver com o conflito político-religioso dos países e até mesmo crianças acabam sendo mortos.

Uma criança palestina investiga os escombros do que era sua casa, na faixa de Gaza.

Uma criança palestina investiga os escombros do que era sua casa, na faixa de Gaza.

Algumas tentativas de paz já foram arranjadas. Acordos foram assinados em certas ocasiões e cessar-fogos são postos em prática de vez em quando. Porém, é só uma questão de tempo até que alguém apareça ignorando os acordos e os confrontos voltem a acontecer na região. A animosidade entre os dois lados parece ser uma equação impossível de se solucionar.

Esse sentimento entre os dois grupos religiosos, tamanho ódio por outras pessoas que aparentemente não fazem nada além de possuir uma crença diferente da sua, não surge do nada. Ele é fruto de uma sociedade que fomenta tais sentimentos. Palestinos e israelenses são doutrinados desde crianças a verem o outro lado como inimigo, como algo menos que seres humanos, como uma coisa a ser eliminada. E se há algo que as religiões entendem bem é que se você orienta uma criança a ver o mundo de determinada maneira, as chances de essa forma de ver o mundo permanecer até a idade adulta é altíssima.

É justamente por isso que os conflitos por lá não parecem muito próximos de um término. Graças a essa doutrinação, nenhum dos dois povos que vivem na região parece aceitar a mera existência do outro no mesmo local. A maioria dos palestinos gostaria que o Estado de Israel fosse extinto e seus cidadãos expulsos da região. E a maioria dos israelenses defende a ideia de que os palestinos tenham que ser confinados a guetos, onde viveriam uma vida à margem da sociedade, o que não deixaria de ser uma forma velada de os expulsarem de seu meio de convívio.

É uma situação difícil de ser compreendida por nós brasileiros, pois nós (ainda) não temos nada parecido com isso em nossa vivência. Por mais que as pessoas aqui discordem do ponto de vista de uma outra em relação à religião, dificilmente você vai encontrar alguém defendendo a ideia de que os que seguem ou deixam de seguir determinada religião deveriam ser expulsos do país, ou pior ainda, sumariamente assassinados. Acho que a única coisa que poderíamos considerar como paralelo dessa situação em nosso país seria a maneira como a mídia e a opinião pública tratam os usuários de drogas, os traficantes e bandidos de uma maneira geral: como problemas à parte da sociedade, uma ameaça a ser eliminada de nosso meio através da força militar, e não como frutos dessa própria sociedade, tendo origem em políticas de educação e segurança equivocadas e apoiadas pelo próprio povo.

Crianças palestinas, sendo ensinadas desde pequenas a pegar em armas para lutar com os "inimigos" israelenses.

Crianças palestinas, sendo ensinadas desde pequenas a pegar em armas para lutar contra os “inimigos” israelenses.

E assim como nessa situação de declaração de “guerra ao inimigo” do Brasil ou de qualquer outro conflito pelo mundo, o caso Israel x Palestina também possui um grupo social que obtém vantagens com essa situação e que a fomenta, estimulando a doutrinação religiosa extremista e essa visão de luta do “bem contra o mal”. São os líderes por trás desses conflitos e que, obviamente, não vão pessoalmente a campo pegar em uma arma e lutar contra os supostos inimigos.

Os políticos e generais israelenses ficam sentados atrás de mesas, confortavelmente controlando seus subordinados e se aproveitando do doutrinamento imposto a eles para manter seus status na sociedade. É sintomática a maneira como, após os conflitos, as terras tomadas dos palestinos são geralmente distribuídas a uma parte da elite rural israelense, via de regra ligada ao governo.

O Comando Maior de Israel,na difícil tarefa de lutar contra os inimigos palestinos.

O Estado-Maior de Israel na árdua tarefa de lutar contra os malvados palestinos.

Por sua vez, o líder do Hamas, Khaled Mashal, é quem controla as doações  feitas pelos islâmicos ao grupo, vindas de todos os países do mundo, e é acusado pela imprensa israelense de ter desviado mais de 5 bilhões de doláres para o próprio bolso. Na semana passada, enquanto seus conterrâneos eram explodidos em mais uma das sangrentas batalhas na região, Khaled estava dando uma entrevista para uma emissora de TV em um hotel de luxo na cidade de Doha, no Qatar, onde vive em exílio.

Khales Meshal, o líder do Hamas, na difícil vida de luta contra os malvados israelenses.

Khaled Mashal, o líder do Hamas, na difícil vida de luta contra os malvados israelenses.

Para esses homens e mulheres, provavelmente pouco importa a religião das pessoas que estão se matando e morrendo nas ruas. Para eles não faria nenhuma diferença se da noite pro dia os israelenses todos virassem budistas e os palestinos se convertessem ao espiritismo, desde que eles continuassem se matando e dando lucro e poder a quem realmente decide a continuidade dos conflitos na região.

Mas apesar de isso ser fácil de ser avaliado por uma pessoa como eu, vendo do lado de fora, para os envolvidos no conflito não deve ser tão simples assim ter essa objetividade. O doutrinamento ao ódio é um círculo vicioso que, uma vez iniciado, tende a se manter indefinidamente. Deve ser difícil para um israelense ou um palestino não verem o outro como inimigo, quando eles sabem que os parentes e amigos da pessoa que está do outro lado do campo de batalha foram os responsáveis pela morte de seus próprios parentes e amigos. As mortes e crueldades que se seguem passam a ser justificadas pelas mortes e crueldades que vieram antes, em um ciclo pérpetuo.

Por isso quando alguém me pergunta se eu vejo alguma esperança de paz para aquela região, eu tenho que me esforçar muito para não dizer simplesmente “Não!“.

Há até esperança de que um dia essa guerra na Palestina acabe, mas será somente sob duas condições: ou se investirá maciçamente nas gerações vindouras, que ainda não foram contaminadas pelas ideologias de aversão aos que são diferentes, o que dependerá quase totalmente das lideranças que estão no poder e que não parecem nem um pouco interessadas em fazer esse investimento, ou os dois grupos continuarão se matando indefinidamente até que não sobre mais ninguém, ou do outro lado do campo de batalha, ou dos dois lados.

Infelizmente a história das guerras religiosas nos demonstra qual dessas situações é muito mais provável…

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Explorando novas culturas

Como os leitores mais atentos devem ter percebido, mês passado eu estava de férias. E uma das melhores coisas a respeito das férias é a possibilidade de se viajar, conhecer novos lugares e entrar em contato com novas culturas. Isso é ainda mais intensificado quando viajamos para outros países e visitamos lugares mais afastados de onde vivemos.

Nessas férias eu tive a oportunidade de visitar três países que apresentam uma realidade muito diferente da brasileira: a Eslovênia, a Croácia e a Bósnia e Herzegovina. Conheci muitas coisas novas e entrei em contato com culturas muito diferentes do que vemos aqui no Brasil.

É fascinante perceber, por exemplo, como os povos dos Bálcãs parecem dar muito mais importância à descendência étnica do que ao nacionalismo, o que é o padrão aqui no ocidente. Para eles, os ancestrais dizem muito mais sobre você do que o país onde você nasceu. Um tipo de pensamento que – assim como o nacionalismo – quando levado ao extremo pode levar a conflitos, como pudemos perceber nas guerras da Bósnia e do Kosovo.

No entanto, um outro aspecto que eu não pude deixar de observar (e que, afinal, é o que concerne a esse blog) é a religiosidade desses povos.

A Eslovênia e a Croácia são países de maioria católica, de modo que o cenário religioso por lá não era muito diferente do que podemos ver na Europa ocidental e até mesmo no Brasil. Há muitas igrejas e catedrais usando e abusando de adornos luxuosos e evidenciando onde foi parar todo o ouro e prata extraídos das colônias na época da exploração do novo mundo.

Cada igreja e catedral na Europa parece ter mais ouro e prata do que todo o estado de Minas Gerais

A Bósnia, por sua vez, me proporcionou um choque cultural muito maior, já que se trata de um país de maioria muçulmana. Eu nunca havia visitado um país onde o islamismo era a religião dominante, e devo dizer que a experiência foi muito interessante, me permitindo conhecer um pouco mais sobre essa religião e seus fiéis.

Fiquei hospedado em duas cidades, Mostar e Sarajevo. A primeira coisa que se nota de diferente é a paisagem urbana. Não há uma igreja a cada quarteirão, como no mundo ocidental. Estas são substituídas por mesquitas, com suas cúpulas e minaretes despontando no horizonte.

Ao invés de torres de igrejas, minaretes despontam no cenário.

Depois, ao andar nas ruas da cidade, outra coisa que causa estranheza a um ocidental é a quantidade de mulheres usando vestes tradicionais islâmicas que cobrem o rosto todo (niqab) ou os cabelos (hidjab), algo que, para quem está acostumado com os biquínis mínimos usados nas praias do Rio de Janeiro, parece pertencer a outro mundo.

Mulheres usando o hidjab em Sarajevo

Mulheres usando o hidjab em Sarajevo

Outra coisa que se pode notar é que a imagem pintada pela mídia ocidental (principalmente a estadunidense) a respeito do islamismo e sua relação com o terrorismo é baseada em estereótipos e preconceitos que não parecem se justificar frente à realidade.

É inegável que existem muçulmanos que se utilizam da religião para propagar o terror e que desejam a morte dos “infiéis”, mas pelo que eu pude observar, eles são uma minoria e provavelmente se concentram em áreas específicas do mundo islâmico. Embora eu continue achando que a doutrina islâmica apresenta pontos arcaicos e irracionais com os quais eu nunca concordaria, os muçulmanos com os quais eu tive contato me pareceram ser bem tolerantes, mesmo quando ficavam sabendo que eu não professava religião nenhuma.

É claro que a situação geo-política da Bósnia é completamente diferente dos países onde a Charia é imposta. Porém, os islâmicos bósnios me provaram algo do qual eu já suspeitava: que é possível sim uma pessoa seguir o islamismo e viver em harmonia com outras crenças sem maiores problemas, ao contrário do que os filmes, séries e noticiários que vemos diariamente nos querem fazer acreditar.

Eu mesmo pude conversar com diversos muçulmanos que condenavam atitudes de violência e de intolerância frente a pessoas de outros credos. Além disso, tive a oportunidade de entrar em várias mesquitas para conhecê-las e até de presenciar ao vivo um culto islâmico, chamado de salá, que são as orações diárias que os muçulmanos devem fazer em público.

Abaixo, segue a gravação que eu consegui fazer de um desses cultos (desculpem a baixa qualidade das imagens, foi o que deu pra fazer com a minha câmera). Antes de cada salá, há um anúncio entoado do alto dos minaretes avisando que chegou a hora das preces, chamado de adhan. O responsável por esse anúncio é chamado de muezim (ou almuadem). No vídeo se pode ver o momento em que o muezim de uma das mesquitas que eu visitei, a Careva Džamija (Mesquita do Imperador), em Sarajevo, realiza o adhan, convocando seus companheiros para a última prece do dia, às 17 hs.

Depois disso, os fiéis se encaminham para a mesquita, onde farão as rezas para Alah. As mulheres e os homens devem ficar em locais separados na mesquita. Enquanto os homens ficam à frente, as mulheres têm que se posicionar atrás deles. Segundo a doutrina islâmica, isso é para evitar que os homens se distraiam com as mulheres, tirando o pensamento de Alah enquanto estão rezando (embora eu continue achando puro sexismo).

Abaixo, podemos ver os homens realizando o salá das 17 hs.

O salá consiste na recitação de um conjunto de versículos do Alcorão, num ciclo de posições (em pé, curvado, de joelhos, prostrado e sentado) a que se chama de racka (genuflexão). O número de rackas varia de acordo com o período da oração. Se você já acha o culto católico cansativo com todo aquele levanta-senta-ajoelha, acredite, você não ia querer ser muçulmano.

Depois do culto, bati um papo com o muezim dessa mesquita, um senhor muito simpático chamado Salim, que explicou alguns dos preceitos do islamismo (ele que esclareceu o porquê de as mulheres terem que ficar atrás dos homens). Salim ficou muito feliz em saber que éramos brasileiros, e fez questão de enfatizar que o islamismo era (pelo menos na concepção dele) uma religião que pregava a paz e que ele condenava todas as mortes causadas por outros muçulmanos. Segundo o muezim, aos olhos de Alah, um homem que mata outro homem, seja ele quem for, está agindo como se matasse a humanidade inteira. E ele também não parecia ver nenhum problema com a minha ausência de religião, embora eu tenha ficado com a nítida impressão de que ele gostaria muito que eu entoasse a frase “Allahu akbar” (Alah é grande) antes de sair da mesquita.

Eu e o muezim Salim na Mesquita do Imperador, depois do culto.

Ainda tive a oportunidade de ganhar uma edição do Alcorão em árabe, que segundo os muçulmanos, é a única língua na qual a revelação feita por Alah a Maomé pode ser compreendida em sua totalidade. O que, aliás,  me parece muito conveniente para uma religião que se espalhou originalmente por países de língua árabe. De qualquer maneira, o livro em sua língua original é muito bonito, possuindo uma estética singular e já se encontra ornamentando minha estante.

O Alcorão, na única língua em que ele pode ser compreendido, segundo os islâmicos. É uma pena que o criador do universo não seja poliglota…

A Bósnia e a Croácia possuem ainda um número considerável de cristãos ortodoxos, que são maioria no país vizinho, a Sérvia. Assim, ainda tive a chance de visitar também algumas igrejas ortodoxas, uma coisa que é praticamente impossível de se encontrar no Brasil. E se você acha que as igrejas católicas romanas já possuem um ar meio opulento ou opressor que busca separar o fiel dos ritos da Igreja, acredite quando eu digo que isso é elevado à nona potência nas igrejas católicas ortodoxas.

Primeiro que as missas ainda são rezadas em latim. O padre fica de costas para os fiéis, entoando uns cânticos que ninguém deve compreender, e em algumas partes do culto o pároco entra em uma portinha que fica no altar (que obviamente também é banhado a ouro) e os fiéis não podem nem mesmo vê-lo, só ouvindo o que ele continua a entoar. Infelizmente não me autorizaram a gravar o culto ortodoxo, mas eu pude tirar algumas fotos de uma das igrejas.

O altar de uma igreja ortodoxa, banhado em ouro, dentro do qual o padre celebra parte da missa.

Essas igrejas normalmente são ornamentadas com diversas imagens medievais de santos e patriarcas da igreja (também banhadas em ouro), que são um pouco intimidantes a quem não está acostumado com elas.

Exemplo do tipo de imagens expostas nas igrejas ortodoxas.

E eu ainda encontrei tempo para visitar uma cidade de peregrinação católica, no meio da Bósnia muçulmana: Međugorje. Segundo os católicos, nessa cidade, em 1981, a Santíssima Virgem Maria fez uma aparição para cinco adolescentes e uma criança, dizendo que era a “Rainha da Paz”. É claro que a Igreja Católica se encarregou de promover a história e a cidade acabou se tornando um pólo de romaria católica no meio de um país de maioria islâmica, com uma quantidade de lojinhas vendendo imagens de Maria e de santos capaz de causar inveja ao município de Aparecida.

Santinhos e imagens de Maria surpreendentemente sendo vendidos no meio de um país de maioria muçulmana.

O Santuário de Nossa Senhora de Međugorje.

No fim das contas, além do merecido descanso que a viagem proporcionou, eu a pude utilizar para adquirir novos conhecimentos acerca da religiosidade, para entrar em contato com novas pessoas e crenças que eu mal conhecia e para acabar com alguns preconceitos que podem permear nossa visão de mundo.

Agora, com as baterias recarregadas, estou pronto para dar continuidade aos trabalhos do blog. Até o próximo post!

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