Arquivo da tag: Igreja Católica

Comentando A Declaração Do Padre Marcelo Rossi

Nesta segunda-feira, dia 20, o padre popstar Marcelo Rossi, em entrevista ao Portal Terra, fez uma polêmica afirmação sobre política, que rendeu calorosas discussões nas redes sociais.

marcelo rossi

Padre Marcelo Rossi

Ao comentar o atual cenário político do país, o sacerdote deu sua opinião a respeito da associação que algumas pessoas fazem entre suas crenças religiosas e o exercício da política:

“Eu sou totalmente contra, seja padre ou pastor. Está errado. Ou você é um líder religioso, ou você é um líder político. Pode colocar minhas palavras: ‘Nunca vote em nenhuma pessoa religiosa’. A Igreja Católica viveu isso, a união de Estado, política e religião. Foi a pior fase. Pode ver que a Igreja Católica é a única que não tem candidato. Ela pode até dizer que gosta, mas nunca indica. Eu tenho medo. A pior coisa é fanático. Fuja dessas pessoas, que são as mais perigosas e as que se corrompem mais facilmente”

Descrentes e religiosos que defendem a laicidade do Estado não demoraram em aplaudir o que o padre falou:

declaraçoes1

E é claro que alguns religiosos mais exaltados decidiram fazer o contrário, criticando ostensivamente o que foi dito:

declaracoes2

Sendo eu ateu, assim que li essa notícia na internet, minha primeira reação foi parecida com a das primeiras pessoas acima, concordando plenamente com o padre.

Porém, conforme eu parei para pensar melhor no que ele havia falado, me dei conta de que uma parte de seu discurso pode estar equivocada.

Primeiro, vamos deixar claro uma coisa. O padre Marcelo está enganado ao afirmar que a Igreja Catolica é a única que não tem candidato político. Não vou nem entrar no mérito do chefe de sua igreja ser também o governante do seu próprio Estado, já que isso não me parece estar diretamente relacionado ao que estava sendo afirmado. Porém, mesmo em referência somente às eleiçoes de nosso país, é notável que já houve casos de padres que foram eleitos para cargos políticos, como eu havia apontado antes. E, segundo o UOL, nessas últimas eleições mesmo, 23 párocos católicos disputavam o pleito.

Mas tudo bem, não vou afirmar que o padre mentiu nesse caso. Ele poderia simplesmente não ter conhecimento dos casos acima, ou talvez estivesse se referindo somente a um apoio oficial da Igreja, o que eu não saberia dizer se há ou não, já que não conheço os bastidores do Vaticano. Desconsideremos esse equívoco e nos concentremos em outra parte do que foi afirmado: “Nunca vote em uma pessoa religiosa”.

Depois que eu refleti melhor a respeito do que foi dito, percebi o quanto essa declaração soa discriminatória para com uma parcela da população brasileira. O padre está basicamente defendendo que uma parte da população (os religiosos) não deve poder gozar plenamente de seus direitos políticos, não devendo nunca serem eleitos. Se você não consegue perceber a gravidade do que foi dito, experimente fazer o seguinte: utilize qualquer outra parcela da população na mesma frase para ver se você concordaria com ela. “Nunca vote em um negro”. “Nunca vote em um homossexual”. “Nunca vote em um policial”. “Nunca vote em um ateu!“…

Eu até  entendi o sentido da afirmação do padre. Sua intenção era defender a laicidade, a separação entre o Estado e a religião, e a referência que ele faz à atuação da Igreja na Idade Média é indicativa disso. E eu concordo com o espírito do que ele quis dizer. No entanto, eu diria que a atitude que ele parece julgar necessária para que essa laicidade seja atingida não é a mais acertada.

O problema não está em uma pessoa religiosa, ou mesmo em um líder religioso atingir o poder político. O problema está nessa pessoa não saber separar suas crenças religiosas de seu mandato e deixá-las interferir em sua governança. Sendo assim, eu não veria problema nenhum no fato de um religioso, seja um padre, um pastor, um imame, um babalorixá ou qualquer outro, ascender a um cargo político, desde que ele não tomasse nenhuma decisão ou não propusesse nenhuma lei discriminatória, com base única e exclusivamente em seus preceitos religiosos.

Talvez uma melhor forma de se afirmar o que era pretendido seria dizer: “muito cuidado ao votar em uma pessoa religiosa, para que ele não deixe sua religião interferir negativamente em sua atuação política”, ou algo nesse sentido. Talvez até tenha sido exatamente isso o que o padre quis dizer… Imagino que ao dar uma entrevista ao vivo algumas palavras não exprimam exatamente o que se estava passando em sua mente. Mas é justamente por isso que uma pessoa pública tem que redobrar o cuidado com o que diz.

Em um país onde a democracia fosse melhor aplicada, essa advertência de nunca se votar em um religioso provavelmente seria vista com estranheza e talvez fosse até desnecessária. Eu não imagino, por exemplo, alguém na Suécia, um país onde os governantes são tratados como cidadãos comuns e como modelos a serem seguidos pela comunidade,  precisando alertar os eleitores a nunca votarem em um líder religioso. Mesmo que um deles alcançasse o poder, os próprios eleitores provavelmente não deixariam que medidas anti-democráticas e interesseiras fossem tomadas por esses políticos.

No entanto, é claro que isso também depende muito do povo do país. E no Brasil, onde os candidatos ostentam seus cargos religiosos como trunfo para conseguir votos, onde líderes religiosos pedem votos no púlpito em troca de dinheiro e onde milhares de eleitores seguem o modo de pensar da cidadã abaixo, eu duvido muito que esse discernimento político esteja próximo de ser alcançado:

maluca

Vendo coisas como essa, eu chego a cogitar que no caso do Brasil talvez seja melhor mesmo uma proibição absoluta de se votar em candidatos religiosos…

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

DIA DA HERESIA – Dízimo

dia-da-heresia

Bem vindos a mais um DIA DA HERESIA. Este é um espaço utilizado para se falar tudo que for relevante a respeito de um tema controverso específico que envolva a religião, apresentando minha opinião como ateu. O dia da Heresia ocorre todo penúltimo domingo de cada mês.

E o tema desse mês será:

A OFERTA DO DÍZIMO

Minha intenção ao criar este blog não era utilizá-lo para me comunicar exclusivamente com ateus ou agnósticos. Ele é, antes de tudo, uma ferramenta da qual eu me valho para tornar públicos meus pensamentos a respeito de alguns aspectos envolvendo religiosidade e crenças e que, geralmente são do interesse de descrentes, mas ocasionalmente também podem ser de religiosos.

Por isso, o Dia da Heresia desse mês será a respeito de um assunto que provavelmente interessará mais a quem segue alguma religião e sobre o qual eu vou escrever e opinar predominantemente da posição de um observador curioso: a oferta do dízimo.

dizimo

Um costume presente em todas as religiões.

A oferta de dinheiro por parte dos fiéis parece ser a principal fonte monetária da maioria das congregações religiosas, independente de sua orientação. Embora a necessidade dessas ofertas para a manutenção das instituições varie de uma pra outra, é provável que as doações advindas de seus seguidores sejam de suma importância para todas elas, sejam templos espíritas, mórmons, candomblecistas, umbandistas, islâmicos etc.

Porém, como nós vivemos em um país onde pelo menos 87% da população segue religiões de origem judaico-cristã (segundo o último censo do IBGE)  e como – graças ao histórico dessas congregações e do próprio dízimo – a ênfase dada à necessidade de ofertas me parece muito mais acentuada nestas orientações religiosas, meus comentários serão majoritariamente a respeito delas.

O pedido do dízimo nessas congregações é um processo que se utiliza predominantemente de três sentimentos distintos, que podem ser estimulados em separado ou em combinação: o amedrontamento, a culpa e a ambição. Mas antes de falarmos desses métodos, vamos conhecer um pouco a respeito da história do dízimo.

O termo dízimo vem do latim “decimus” e significa a décima parte de algo. Inicialmente ele não se referia à oferta de dinheiro, e sim à doação de um décimo da produção agrícola. A primeira menção bíblica feita ao dízimo ocorre em Gn 14:20, quando Abrão se encontra com o rei/sacerdote Melquisedeque depois de conduzir uma campanha militar a fim de resgatar seu sobrinho Ló, e divide com o religioso uma parte de seus espólios de guerra:

E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo. E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra; E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.

Gênesis 14:18-20

A lei mosaica institui o dízimo de modo mais preciso a partir dos livros de Levíticos, Números e Deuteronômio, estabelecendo para ele vários propósitos diferentes. O sistema de dízimos era organizado em um ciclo de três anos, devendo uma parte ser oferecida a Jeová em holocausto, outra parte consumida pelo próprio fiel em locais e períodos específicos, como forma de lembrar o temor a Deus, e outra parte era dedicada à assistência social aos menos favorecidos: viúvas, órfãos, estrangeiros e membros da tribo dos levitas.

Os levitas eram descendentes da tribo de Levi que trabalhavam  como funcionários nos templos, e, por isso, não tinham direito a patrimônio territorial (Nm 18:21). O dízimo era, então, sua única fonte de sustento, e, portanto, não era opcional, sendo compulsório aos seguidores da Torah, funcionando, assim, como uma espécie de taxa exigida do povo de Israel.

Porém, a exemplo dos tempos modernos, parece que já naquela época alguns representantes da classe clerical não demonstravam muito boa vontade em renunciar tão desapegadamente a bens materiais. Alguns sacerdotes que controlavam a distribuição do dízimo, percebendo uma boa oportunidade de aumentar seu patrimônio pessoal, deixavam de repassar as ofertas destinadas originariamente aos levitas e aos necessitados e a oferecer em sacrifício somente os bens de menor valor, como animais coxos ou doentes, mantendo para si os recursos mais valorosos.

Percebendo a adoção desse comportamento lesivo para a sociedade, as autoridades hebraicas passaram a se utilizar de uma tática já velha conhecida dos religiosos para manter as coisas em ordem: instilar o medo. O profeta Malaquias, que foi um contemporâneo de outros profetas hebraicos importantes como Esdras e Neemias, escreveu então um texto condenando as atitudes desses sacerdotes mesquinhos, dizendo que depreciar o dízimo era como roubar do próprio Deus e ameaçando-nos com maldições, como receber fezes no rosto (!) e coisas do gênero:

Agora, ó sacerdotes, este mandamento é para vós. Se não ouvirdes e se não propuserdes, no vosso coração, dar honra ao meu nome, diz o Senhor dos Exércitos, enviarei a maldição contra vós, e amaldiçoarei as vossas bênçãos; e também já as tenho amaldiçoado, porque não aplicais a isso o coração. Eis que reprovarei a vossa semente, e espalharei esterco sobre os vossos rostos, o esterco das vossas festas solenes; e para junto deste sereis levados.

Malaquias 2:1-3

A despeito de as advertências cropológicas de Malaquias estarem se referindo somente a um comportamento específico de um grupo social específico, vivendo em uma época específica e em um contexto religioso específico, é claro que isso não impede que líderes religiosos atuais utilizem essas passagens para convencer os outros de que na verdade a oferta do dízimo se refere a dinheiro e é devida por todos que queiram ficar bem nas graças de Deus.

Por isso, foi em boa parte graças a esse texto que se tornou possível a aplicação da primeira tática para o convencimento de que o pagamento do dízimo é uma obrigação de todo bom fiel: o amedrontamento. Utilizando-se de uma interpretação particular desse livro de Malaquias e de algumas outras passagens que podem ou não ter a ver com a oferta do dízimo, alguns líderes religiosos fazem os fiéis acreditarem que se não oferecerem parte de seus ganhos para o templo, estarão desagradando ao próprio Deus, que de alguma forma os amaldiçoará por isso.

Esse método do amedrontamento para se conseguir o dízimo é atualmente mais observado nas congregações cristãs chamadas neopentecostais, embora ele não seja totalmente ignorado por outras, como nos demonstra o site da Pastoral do Dízimo:

“Diz Javé: “Vocês perguntam: Em que te enganamos? No dízimo e na contribuição. Vocês estão ameaçados de maldição, e mesmo assim estão me enganando, vocês e a nação inteira! Tragam o dízimo completo para o cofre do Templo, para que haja alimento em meu Templo.”

Porém, a maior parte das outras doutrinas cristãs, entre as quais a católica, preferem, hoje em dia, se utilizar do segundo método de convencimento para a oferta do dízimo: a culpa. Essa estratégia funciona de dois modos: ou se equipara a oferta do dízimo a uma forma de se redimir pelos pecados cometidos ou como meio de demonstrar gratidão pela graça divina.

Como, obviamente, todo ser humano comete erros e, à luz da religião, alguns desses erros podem ser vistos como transgressões diretas a mandamentos divinos, as igrejas sabem que não existe um ser humano que possa ser considerado livre de pecados no mundo. Afirma-se, então, que o dízimo é uma forma de se compensar aos olhos de Deus essas transgressões.

Já pelo prisma da gratidão, utiliza-se esse método, por sua vez, buscando afirmar que todo sucesso conquistado por um fiel nesta vida é alcançado somente por permissão divina. Portanto, uma parte dos ganhos é automaticamente devida a Deus como forma de retribuição por Sua graça.

Assim, os fiéis que não contribuírem passam a se sentir culpados por não estarem demonstrando ou seu  arrependimento ou seu agradecimento perante Deus.

A tática da culpa conta basicamente com a consciência pesada dos fiéis por se saberem pecadores.

A tática da culpa conta basicamente com a consciência pesada dos fiéis.

E, por fim, temos o terceiro método utilizado para se arrecadar o dízimo, que é a ambição.

Embora o termo “ambição” tenha claramente adquirido uma conotação negativa em nossa sociedade, eu o utilizo aqui apenas na acepção de se conquistar melhorias na vida. Nesse sentido, podemos dizer que todo ser humano é ambicioso em algum nível. Por mais humilde e conformada que uma pessoa seja, ao surgir uma oportunidade de se conquistar algo que melhorará de alguma maneira sua vida, ninguém em sã consciência deixa que ela passe em branco.

A oferta do dízimo, nesse caso, é apresentada como uma espécie de acordo feito com a entidade divina, onde você dá uma parte de seus ganhos, sob a promessa de conseguir a graça de Deus futuramente. A Igreja Católica utiliza essa tática de maneira sutil, dando a entender em alguns textos e sermões que quem contribui com o dízimo receberá bençãos divinas em sua vida.

dizimo2

Porém, mais uma vez podemos ver essa tática sendo utilizada com muito mais ênfase pelos movimentos neopentecostais. A epítome dessa estratégia pode ser observada na famigerada teologia da prosperidade, uma doutrina que defende que o contrato feito entre os homens e Deus através da oferta de doações será recompensado com a prosperidade no futuro, seja ela na forma de dinheiro, saúde ou felicidade.

Depois de identificar a utilização de todos esses métodos de convencimento para a doação do dízimo, a que conclusão podemos chegar a respeito desse tipo de oferta? Que o dízimo é uma coisa nefasta, perniciosa, que deveria ser proibida?

Bom, não exatamente. Pelo menos essa não é essa a posição que eu defendo em relação ao dízimo, pelo menos não de maneira tão draconiana.

Qualquer instituição organizada por pessoas que tenham um objetivo em comum precisa de dinheiro para se sustentar. Isso é válido tanto para os templos religiosos quanto para qualquer outro tipo de sociedade: clubes de futebol, sindicatos, fã-clubes, ONGs etc. Nenhuma delas se mantém apenas pela boa vontade de seus integrantes. Contas precisam ser pagas, funcionários têm que receber salários, tributos são cobrados pelo governo, imóveis demandam aluguéis. O dinheiro para pagar todas essas coisas tem que sair de algum lugar, e geralmente é dos próprios integrantes da instituição. Assim, ao meu ver, já que nossa legislação dá atualmente às igrejas o mesmo direito que as outras entidades têm de serem constituídas livremente, tem que dar também o direito de cobrar contribuições de seus fiéis como qualquer outra instituição.

socioflamengo

As contribuições ofertadas aos clubes de futebol mostram como não só as ideologias religiosas podem ser alvo de ofertas patrimoniais.

Porém, embora suas finalidades sejam semelhantes, a natureza do dízimo é bem diferente da natureza das contribuições voluntárias oferecidas a outras instituições.

Quando colaboramos monetariamente com um clube, uma associação, ou qualquer outro tipo de organização, fazemos isso porque analisamos os objetivos daquela entidade criticamente e concordamos com as propostas por ela oferecidas. O dinheiro ou os bens doados serviriam então para ajudar a manter ou expandir as ações e/ou ideologias defendidas pela instituição.

Em certa medida isso até ocorre com as religiões também. Os fiéis que contribuem com o dízimo acreditam, entre outras coisas, que estão ajudando a espalhar as palavras originárias da entidade divina na qual acreditam a pessoas ignorantes a seu respeito, o que, sob a ótica deles, é uma ação solidária.

No entanto, há um outro motivo que leva os crentes a ofertarem o dízimo e que não pode ser reproduzido por nenhuma outra instituição que não se utilize de fundamentos religiosos: a crença de que aquilo é uma ordem divina e contribui de alguma forma para a salvação da alma do contribuinte.

A grande maioria dos dizimistas têm a visão de que suas ofertas destinam-se a ajudar na execução da obra de Deus, isso quando não acreditam estar doando o dinheiro diretamente a Ele. E é interessante notar como os líderes religiosos fazem questão de enfatizar que as ofertas feitas pelos fiéis em seus templos destinam-se não ao templo ou aos líderes religiosos, como de fato elas são, mas à entidade divina na qual eles creem ou à realização de sua obra, embora não se preocupem em detalhar como exatamente esses valores são transferidos para a conta bancária divina ou a finalidade dada a eles.

Quando, por exemplo, o pastor Silas Malafaia aparece no programa da Marília Gabriela em posse de sua declaração do imposto de renda para demonstrar que a doação dos fiéis não vai para sua conta, trata-se obviamente de um engodo por parte do pastor. É óbvio que as ofertas não vão para sua conta pessoal, vão para a conta da instituição religiosa sob seu poder. E a partir daí ele, como dirigente da instituição, pode fazer o que quiser com o dinheiro. Se o nobre líder religioso tivesse mesmo a intenção de mostrar como a oferta dos fiéis é utilizada na prática para a realização da obra de Deus, teria apresentado não o seu imposto de renda, mas o da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, junto com os livro-caixas demonstrando a aplicação dos valores recebidos. O que obviamente ele nunca faria.

Além disso, muitos líderes religiosos conseguem convencer fiéis que já passam por imensas dificuldades financeiras a doarem uma parte de sua renda para a igreja, sob a promessa de que no futuro receberão aquilo de volta multiplicado e nunca mais passarão por apertos econômicos, a despeito de essa privação fazer com que suas dificuldades fiquem ainda maiores a cada dia que passa sem que essa vaga promessa se cumpra.

Somando-se tudo isso à doutrinação infantil incutida em algumas crianças por líderes religiosos que as obrigam a imaginar desde pequenas que até mesmo seus brinquedos devem ser doados para o templo, torna-se muito tênue a linha que separa a doação consciente e voluntariosa do dízimo da coação moral. Não acredito que seria exagero considerar que em alguns casos a cobrança do dízimo equivale à extorsão. De fato, até a justiça já reconheceu a ilegalidade de algumas dessas doações, obrigando a IURD a devolver uma oferta de R$ 74 mil feita por uma de suas então seguidoras.

É interessante notar também que, enquanto os fiéis se esforçam tanto para manter a doação de uma parcela de seu dinheiro suado, muitas entidades religiosas, assim como seus líderes, conseguem dispor de uma quantia de dinheiro cada vez mais volumosa. Tivemos uma demonstração esdrúxula do esbanjamento que o dízimo permite aos líderes religiosos em um culto promovido na Universal do Reino de Deus, em que um dos pastores resolveu entrar com seu carro importado no templo, a fim de demonstrar o que seus seguidores poderiam alcançar se permanecessem fiéis nas ofertas para a igreja.

Permaneça dando o dízimo e um dia você poderá ter seu próprio carro importado para entrar no templo.

“Continue dando o dízimo e um dia você também poderá  entrar de carro importado no templo”.

Também não é novidade para ninguém a lista elaborada pela revista Forbes no ano passado relacionando os cinco pastores mais ricos do país, onde o último colocado dispõe de um capital de R$ 65 milhões. Nesse exato momento, a Igreja Universal do Reino de Deus está investindo a singela quantia de R$ 685 milhões na construção de uma réplica do tempo de Salomão em São Paulo. E a Igreja Católica não fica atrás, sendo dona de seu próprio Estado, dispondo de milhares de imóveis ao redor do mundo inteiro e de uma quantia de dinheiro incalculável.

A Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo, que também deve ter custado alguns milhões de dólares para a Igreja Católica

A Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em SP. O segundo maior templo católico do mundo, que também deve ter custado alguns milhões de reais para a Igreja Católica

Enquanto isso, os seguidores dessas e de algumas outras orientações religiosas seguem doando dinheiro para elas, imaginando que desta maneira estão contribuindo para fazer do mundo um lugar melhor. Eu particularmente acho que se eles querem usar uma parcela de seu salário para a prática do bem, o fariam de maneira mais eficiente se financiassem diretamente alguma boa ação, por exemplo, doando o dinheiro para um orfanato, um hospital, um asilo etc. Quem quer realmente praticar boas ações não precisa de um intermediário para isso, ainda mais quando esse intermediário se trata de uma instituição que já dispõe de milhões de reais em caixa e tem o poder de exercer enorme influência política no país.

Nesse ponto, algumas pessoas poderiam dizer que, como o dinheiro doado é dos fiéis, eles têm a liberdade de fazer o que quiserem com o valor. Se querem doar para a igreja de sua escolha, é problema deles.

Entretanto, em casos de coação moral ou psicólogica, o problema não está na parte que doa o dinheiro e sim na parte que o recebe, que o faz de má-fé (com o perdão do trocadilho). E é isso que torna essa transação ilícita. Pelo mesmo motivo, um sequestrador que recebe o dinheiro de um resgate não se torna proprietário dessa verba, ainda que a vítima do crime tenha querido dar o dinheiro para ele. A questão maior nesses dois casos não é se a pessoa que está dando o dinheiro quer fazê-lo ou não, já que quem sofre coação moral tem sua vontade suprimida, e sim se a pessoa que recebe o dinheiro o faz de boa-fé, o que certamente não ocorre em muitos casos de oferecimento do dízimo. Para se analisar então se as ofertas feitas pelos fiéis são válidas ou não, não se deve analisar simplesmente se eles querem fazê-la, e sim de que maneira exatamente esse pedido é feito por seu líder religioso.

De qualquer modo, há um equívoco ainda mais evidente em qualquer doutrina que pregue que a doação do dízimo é essencial para se alcançar alguma prosperidade ou felicidade. Se essa afirmação fosse verdade, qualquer pessoa que não colaborasse monetariamente com alguma instituição religiosa jamais poderia ser considerada próspera, seja lá em que sentido os líderes religiosos queiram empregar essa palavra, o que evidentemente não é verdade. Existem aos milhões pessoas que não só não colaboram com nenhuma igreja, como também não seguem nenhuma religião, e vivem felizes, saudáveis e satisfeitas.

De fato, creio que eu mesmo seria um ótimo exemplo disso. Sou feliz, tenho um ótimo emprego, uma família formidável e bem estruturada, não considero que tenho nenhum problema muito sério e me considero uma pessoa boa. Não sou rico, mas nenhuma das minhas necessidades básicas deixam de ser atendidas por falta de dinheiro e, de vez em quando e com algum esforço, ainda posso me conceder alguns caprichos. E eu não só não colaboro com nenhum templo, como não sigo religião nenhuma e nem acredito na existência de entidades divinas há pelo menos uns dez anos.

Portanto, se contra todas as probabilidades, realmente existisse um Deus e ele tivesse alguma exigência cósmica misteriosa para distribuir a prosperidade entre os seres humanos, eu diria que a maneira como eu vivo, ignorando as religiões e buscando fazer o bem sempre que possível, deve estar bastante de acordo com essas exigências.

Deixe um comentário

Arquivado em DIA DA HERESIA

Milagres existem?

Uma das argumentações que eu mais ouço de religiosos quando estes ficam sabendo a respeito do meu ateísmo é que eu não creio em Deus porque eu nunca testemunhei as maravilhas que ele é capaz de realizar. E não raramente, segue-se a isso um longo detalhamento de milagres realizados pela entidade divina em questão na congregação que a pessoa frequenta.

A crença em milagres é provavelmente tão antiga quanto a própria religião. A grande maioria das pessoas que seguem um sistema religioso organizado afirma sem a mínima sombra de dúvidas que milagres existem e alguns dirão inclusive que já testemunharam ou até mesmo já foram beneficiados por algum.

Por definição, milagres são acontecimentos extraordinários que desafiam as leis da natureza. Para a maior parte dos religiosos eles são atribuídos à onipotência divina e geralmente têm propósitos específicos, como recompensar alguém por seu excesso de fé ou desafiar a falta dela em algum descrente.

Acredito que a ocorrência que se atribua mais comumente a milagres seja a cura de doenças. Não é difícil conhecer alguém que sofria de algum mal e, depois de comparecer a algumas sessões do culto de sua escolha, repentinamente se viu livre da moléstia. Mas eles também podem ser atribuídos a outros acontecimentos, desde os mais inócuos, como estátuas que choram ou imagens santas aparecendo em lugares inesperados aos mais extraordinários, como membros amputados sendo restaurados ou mortos ressuscitando.

Milagre!

Milagre!

Mas o que a ciência tem a dizer a respeito de milagres?

Para os cientistas, até hoje nenhum milagre foi comprovado. Quando submetidos ao escrutínio das investigações científicas, todos os fenômenos que se consideravam milagrosos acabavam possuindo explicações naturais, algumas até simples. E por mais que os religiosos insistam no contrário, o fato é que acreditar que se está observando um milagre não faz com que eles realmente existam.

Normalmente a atribuição de miraculoso a algum fenômeno que não se compreende por completo decorre de três situações complementares e progressivas: a falta de conhecimento, o otimismo exagerado e o engano fraudulento.

O primeiro degrau para a crença em milagres, a falta de conhecimento, deve ser o mais comum motivo para se acreditar neles e acaba sendo indiretamente responsável pelos outros dois. É isso que faz com que o ser humano atribua ao sobrenatural tudo aquilo que ele ainda não detém conhecimento para explicar de maneira racional.

Exemplos desse tipo de comportamento podem ser observados desde o início da civilização humana, em praticamente todos os povos. Os nórdicos atribuíam a ocorrência de relâmpagos e trovões ao deus Thor, quando este percorria os céus em uma carruagem puxada por dois bodes. Já os gregos acreditavam que os trovões vinham de Zeus, o deus controlador dos céus. E certas tribos indígenas brasileiras afirmavam que os raios e relâmpagos eram manifestações do deus Tupã, que representava o sopro de vida.

Anos mais tarde, quando descobriu-se que os relâmpagos eram apenas uma descarga elétrica produzida entre duas nuvens ou áreas eletricamente carregadas e que eles podiam inclusive ser reproduzidos em menor escala, as explicações sobrenaturais para este fenômeno tornaram-se desnecessárias e foram descartadas. No entanto, antes de se adquirir este conhecimento, creditava-se o evento a ações realizadas diretamente pelas divindades, o que, no fim das contas, relegava-os à mesma categoria dos milagres.

Milagre?

Milagre?

O segundo passo, o otimismo exagerado, também decorre da falta de conhecimento, mas adiciona-se à situação um outro componente relevante: o firme desejo de se acreditar em uma intermediação divina proposital. Aqui, não só se acredita na atuação da divindade em algum caso, mas também que ela age em prol de determinada pessoa ou causa. Deus não apenas contorna as leis naturais por um momento, como ele o faz porque se pediu com fé suficiente que ele fizesse isso. É uma espécie de autoengano.

Esse tipo de pensamento não é estritamente necessário para se promover uma crença religiosa. Mas é fácil perceber porque ele é incentivado pela maioria das religiões que disputam fieis. Afinal, para que serve um Deus bom e poderoso se na hora da dificuldade ele não puder fazer efetivamente nada em seu benefício?

Nesse ponto é curioso perceber como praticamente todas as religiões majoritárias do mundo afirmam que milagres são executados em favor de seus fiéis, embora possuam crenças incompatíveis umas com as outras. Essa afirmação é importante para fazer com que os seguidores de determinada congregação se sintam especiais, imaginando terem escolhido a crença correta.

E isso leva ao passo número três para a crença em milagres: a fraudulência.

Percebendo como a crença na intervenção divina faz com que o arrebanhamento de fiéis aumente, e aproveitando a propensão das pessoas a se autoenganarem quando se deparam com situações aparentemente inexplicáveis, muitos líderes religiosos encenam situações “milagrosas” em suas congregações. Alguns chegam até ao cúmulo de contratar atores ou empregar truques e ilusões em seus cultos para simular milagres acontecendo ao vivo.

Recentemente tivemos um claro exemplo disso com a pastora Elizabete Batista, da Igreja Graça de Cristo, que gravou um vídeo onde ela supostamente retira milagrosamente um tumor do rosto da cantora Baby do Brasil:

É claro que a retirada do tumor está longe de ser um verdadeiro milagre, não passando de um ardil feito para enganar os presentes ao culto. Os detalhes de como o truque é elaborado já foram até revelados pelo Pastor Adélio em seu canal do Youtube.

Exemplos como este estão longe de serem casos isolados e também não são exclusivos dos evangélicos. Há pouco mais de uma semana o papa João Paulo  II foi canonizado no Vaticano por supostamente ter realizado dois milagres, curando uma mulher costa riquenha de um aneurisma cerebral e uma freira francesa do mal de Parkinson.

O comitê de médicos contratados pelo Vaticano para investigar os casos não conseguiu explicá-los plenamente e pronto, eles foram considerados como milagres pela Igreja Católica. O que me deixa curioso para saber o porquê de o próprio Santo Padre não ter se curado da doença que o afligia, já que ele próprio sofria do mal que supostamente ajudou a curar na irmã francesa e que ocasionamente o levou à morte, o Parkinson.

E também me causa estranheza o fato de alguém  ser capaz de interceder pela cura de doenças tão severas em outras pessoas mas ter precisado se internar diversas vezes na famosa Policlínica Gemelli, o hospital dos papas, para tratar de problemas de saúde como um fêmur quebrado e uma gripe.

Curas supostamente milagrosas como as do Papa deveriam ser vistas com mais ceticismo por qualquer pessoa que possuísse um mínimo de bom senso. O fato de alguns casos médicos não conseguirem ser explicados com exatidão pelos profissionais de saúde não deveria levar imediatamente à conclusão de que se trata de uma intervenção divina, de alguma distorção das regras da natureza.

Primeiro porque a medicina não é uma ciência exata. Nem sempre 1 + 1 será igual a 2 quando se trata de diagnósticos, tratamentos e curas de doenças. Assim como alguns doentes parecem melhorar do nada, muitos também pioram do nada. Certamente também existem milhares de fiéis doentes que rezam pela intercessão divina, do papa, da Igreja ou de algum santo e que, mesmo apresentando alguma melhora aparente em determinado momento, acabam aparecendo mortos horas ou dias depois. E, no entanto, ninguém parece creditar essas mudanças também supostamente inexplicáveis a milagres ou à vontade divina. Curiosamente, milagres só acontecem quando os resultados finais podem ser considerados positivos. Nunca vi ninguém falando: “Nossa, ele estava se recuperando e os médicos garantiram que ele ficaria bem, mas ele morreu repentinamente, só pode ser um milagre!”, ou algo do gênero.

E segundo, porque a ciência não detém conhecimento acerca de tudo, nem na medicina, nem em nenhuma outra área. Como o comediante Dara O´Briain já disse uma vez, se a ciência soubesse de tudo, ela seria desnecessária. O objetivo da ciência é adquirir conhecimento constantemente,  portanto, ainda existem – e talvez sempre irão existir – coisas que a investigação científica não tem como explicar plenamente. O que não significa que elas sejam necessariamente sobrenaturais, como o exemplo dos relâmpagos já deveria nos ter ensinado.

A despeito disso, milhares de fiéis pelo país e pelo mundo frequentam cultos onde os líderes supostamente realizam milagres a fim de provar sua afinidade com a entidade divina sobre as quais professam. E isso acaba se transformando em mais uma ferramenta de poder nas mãos de líderes religiosos inescrupulosos, que se utilizam do deslumbramento causado para manter e explorar seus fiéis sem questionamentos.

Um caso extremo demonstrando isso ocorreu na Índia há dois anos. Em uma igreja católica na cidade de Mumbai, surgiram fios d´água que escorriam de um crucifixo com a figura de Cristo. As autoridades religiosas locais prontamente classificaram o evento como milagroso e um grande número de fiéis se dirigiram em romaria para a igreja a fim de testemunhar o fenômeno.

No entanto, um indiano menos impressionável achou a situação muito suspeita e compareceu ao local para investigar o ocorrido. Sanal Edamaruku, presidente da Associação Racionalista Indiana, não tardou a perceber o que realmente ocorria. A água que escorria do crucifixo tratava-se na verdade apenas de uma infiltração vinda de um encanamento rompido.

Sanal Edamaruku, presidente da Associação Racionalista Indiana

Sanal Edamaruku, presidente da Associação Racionalista Indiana

Sanal e sua associação já desmascararam mais de 300 charlatões na Índia que afirmavam ter realizado ou testemunhado milagres. Obviamente isso não deixou os líderes religiosos locais muito satisfeitos. E sendo a Índia um país onde a religiosidade anda de mãos dadas com a política, isso o levou a se complicar com as autoridades locais. Sanal foi processado por blasfêmia e, para evitar que fosse preso até a ocorrência do julgamento (pelo visto presunção de inocência e liberdade de expressão são conceitos inexistentes na Índia), ele teve que se exilar na Finlândia. E isso tudo só porque ele demonstrou racionalmente que pessoas estavam sendo iludidas por líderes religiosos oportunistas.

Por mais esdrúxula que essa notícia possa parecer, eu não poderia afirmar com total certeza que situações como essa jamais ocorreriam em nosso país. Seguindo a tendência contrária de quase todos os países desenvolvidos, o Brasil está fazendo com que a relação entre o Estado e a religião fique cada vez mais estreita e com que os líderes religiosos consigam cada vez mais privilégios, sob a desculpa de se conservar o livre exercício de crença e o “respeito à religião”. Os episódios em que pastores ameaçaram com processos a Rede Globo por exibir um beijo entre dois homens na novela e o canal Porta dos Fundos por fazer uma esquete humorística sobre o natal  são sintomáticos desses novos tempos.

Ao continuarmos nesse ritmo, não demorará muito para que seja instituída uma “lei da blasfêmia” semelhante à indiana para impedir que se possa manifestar qualquer opinião ou pensamento que desafiem as afirmações de líderes religiosos. Em breve correremos o risco de sermos presos ao questionarmos se aquela hérnia do tamanho de uma melancia que foi retirada de um fiel ou se aquela alergia que foi curada em outro foram realmente milagres divinos ou resultado da perícia de profissionais que passaram anos estudando medicina, aliada a uma pitada de sorte.

É claro que a religião pode ter um efeito positivo na saúde das pessoas, em especial quando provoca o efeito placebo, situação que merecerá um post específico em breve. Mas a verdade é que tudo que foi considerado milagre até hoje – inclusive as curas atribuídas ao divino – tem uma explicação racional. Mesmo que essa explicação ainda não seja conhecida.

Porém, parece que, longe de esperar que a verdade os liberte, os religiosos preferem que ela seja convenientemente ignorada ou distorcida. Os líderes religiosos que conseguem estufar ainda mais seus bolsos graças à crença inquestionável em milagres agradecem.

E eu, por minha vez, não posso deixar de fazer outra coisa que não concordar em gênero, número e grau com meu querido Mario Quintana:

DOS MILAGRES

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,

Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo

Nem mudar água pura em vinho tinto

O milagre é acreditarem nisso tudo!

6 Comentários

Arquivado em Uncategorized

Papa Pede Perdão por Padres Pedófilos

Desculpem a aliteração no título do post, mas não encontrei outra maneira de divulgar esta notícia um tanto quanto inesperada vinda dos lados do Vaticano: hoje, o papa Francisco pediu perdão à sua congregação pelos padres católicos que cometeram pedofilia.

Segundo a rádio do Vaticano, em um discurso a membros de um grupo francês de defesa a direitos infantis, o International Catholic Child Bureau (ICCB), o Sumo Pontífice desculpou-se pelo mal praticado por alguns membros do sacerdócio:

– “Eu me sinto compelido a assumir todo o mal que alguns sacerdotes, muito poucos em número, obviamente, não em comparação com o número de todos os sacerdotes, e pedir pessoalmente perdão pelos danos que eles fizeram às crianças abusadas sexualmente.”

Parece que o Papa Francisco está mesmo disposto a mudar a imagem da Igreja Católica neste novo milênio. Acho que é a primeira vez que um líder do catolicismo fala em termos tão claros a respeito da pedofilia cometida por seus sacerdotes nos seios de sua igreja. Nem mesmo João Paulo II – tido como um dos papas mais populares e progressistas dos últimos tempos – chegou a cutucar esse vespeiro durante seu papado.

O Papa em discurso no Vaticano - Alessandra Tarantino / AP

O Papa em discurso no Vaticano – Alessandra Tarantino / AP

Mas qual é a verdadeira relevância desta notícia para as pessoas que já foram vítimas de pedofilia nas carreiras da Igreja Romana e sofrem traumas sexuais até hoje por conta disso?  E o que o Papa pretende fazer na prática para que essa situação não se repita mais?

O simples ato de pedir desculpas após ter cometido um erro não apaga os malefícios causados pelo que se fez. Felizmente, eu nunca passei pela situação de ter sofrido algum abuso sexual e espero que nem eu ou qualquer conhecido meu tenha que passar por isso um dia, mas imagino que uma vítima desse tipo de delito não se contentaria em ouvir de seu algoz que ele “sente muito”, e acredito que nenhum ser humano consideraria justo deixar de aplicar punições adequadas a um pedófilo, simplesmente porque seu chefe reconhece o mal que ele causa.

De acordo com o líder religioso, aparentemente a igreja irá apoiar a aplicação de penas mais severas aos sacerdotes que insistirem em continuar cometendo atos sórdidos como este:

– “A Igreja está consciente dos danos, foram danos pessoais, morais, realizados por homens da Igreja. Não queremos dar um passo atrás para lidar com este problema e as sanções que devem ser impostas. Pelo contrário, acho que devemos ser ainda mais fortes! Não se deve brincar com a vida das crianças.”

Talvez fosse também uma boa hora de a Igreja Católica fazer uma auto análise e tentar entender o porquê de uma parcela aparentemente tão desproporcional de seus funcionários incorrerem nessa  lastimável conduta. Será que a castidade forçada tem alguma influência nisso? Ou a posição retrógrada da igreja quanto aos assuntos sexuais? Ou a posição de poder concedida ao clero pelo Vaticano e endossada por seus fiéis? As hipóteses abundam, resta saber se o Papa está realmente preocupado em analisá-las e cortar o mal pela raiz, ou se essa é apenas mais uma excelente jogada de relações públicas para a Santa Sé.

Afinal, acabar com o problema na sua fonte seria muito mais eficiente do que simplesmente se acostumar a lidar com suas consequências. Identificar e eliminar a origem desse desvio comportamental me parece ser a melhor forma de resolver esse problema, para todos os envolvidos. Presumo que fazer com que nenhum padre, bispo ou cardeal pense em abusar de crianças inocentes novamente seja muito melhor do que precisar puni-los por terem feito isso e ainda ter que tratar psicologicamente da vítima depois do ocorrido.

Só o tempo irá dizer como a igreja de Francisco pretende transformar essas palavras em atos eficazes. Mas pelo menos a mudança na postura do líder católico, colocando-se à disposição para discutir o problema ao invés de escondê-lo como se não existisse (como tantos outros já fizeram) já é um bom sinal.

Afinal, como se costuma dizer, para resolver um problema, primeiro é necessário admitir que esse problema existe.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Ateus podem alcançar a salvação… NOT!

Ateus de todo o mundo, suas preocupações acabaram. Eu sei que vocês perdem o sono pensando que vão para o inferno por não acreditarem em Deus, mas agora podem dormir tranquilos.

O papa Francisco, na homilia da missa matinal que ele faz diariamente em sua residência, afirmou que qualquer pessoa que pratique o bem pode ser redimida por Jesus. Até os ateus!

– O senhor redimiu a nós todos, todo o mundo, com o sangue de Cristo: todos nós, não só os católicos. Todo mundo! ‘Pai, os ateus?’ Até os ateus. Todo mundo! […] Apenas pratiquem o bem, e encontraremos um lugar comum. Nós todos temos o dever de praticar o bem.

Puxa, que interessante. Parece que, apesar do que eu acreditava, a Igreja Católica está realmente deixando de ser tão retrógrada e reconhecendo que as ações de uma pessoa são mais importantes que suas crenças… quem sabe agora ela pode começar a pensar em implementar outras mudanças e… ei, mas… espere… o que é isso?

papa

– Os ateus continuam indo para o inferno se não aceitarem Jesus Cristo como Senhor e Salvador – disse o chefe da TV católica Salt & Light, do Canadá, Thomas Rosica – [O papa] não tinha intenção de provocar um debate teológico sobre a natureza da salvação.

RÁÁ! Pegadinha do Vaticano!

Ah, ok. Agora sim parece o Vaticano que eu conheço.

Agora falando sério, ainda que a declaração do papa tenha causado uma certa discussão na cúpula da Santa Sé, nós ateus devemos nos interessar pelo que o papa ou sua igreja pensam a respeito de nós? Afinal, que diferença faz para um ateu se uma divindade na qual ele não acredita o fornece um perdão também inexistente? E por que diabos nós precisaríamos de perdão, para começo de conversa?

É difícil decifrar o que se passa na mente dos líderes do catolicismo. Eu posso levantar algumas hipóteses do porquê de o papa ter feito uma declaração como essa, mas dificilmente vou obter a confirmação se estou certo ou não. Pode ser que ele tenha percebido que o catolicismo está perdendo seguidores, tanto para as religiões evangélicas quanto para o próprio ateísmo, e achou que essa seria uma boa maneira de frear o êxodo de seus fiéis. Ou ele quer demonstrar que a Igreja Católica está disposta a sofrer modificações para se adaptar ao novo milênio. Ou o papa só estava querendo ser legal mesmo e demonstrar que não acredita que as pessoas que não seguem seus dogmas sejam pessoas inerentemente más. Enfim, as hipóteses abundam.

E é claro que em análise mais profunda do que foi dito, pode-se chegar à conclusão que a religião católica é inútil. Se basta fazer boas ações para se alcançar a salvação, para que serve a Igreja, o papa e todos os seus dogmas? Talvez tenha sido por perceber esse detalhe que os outros líderes da Igreja já se apressaram em dizer que não era bem assim, não foi isso que o sumo pontífice quis dizer. O que é curioso, considerando-se que, segundo a própria Igreja, o papa é infalível

De qualquer maneira, eu acho que a declaração do papa, apesar de “desmentida” logo em seguida, é de alguma importância para a comunidade ateísta. Primeiro porque é uma admissão aos próprios católicos que eles não são especiais, assim não deveriam esperar nenhuma vantagem sobre outras pessoas simplesmente por serem católicos. Segundo, porque representa um respeito, uma consideração direcionados às pessoas de outras crenças, ou nesse caso, sem crença nenhuma, vindos da maior autoridade católica. Terceiro, e talvez o mais importante, porque demonstra que o reconhecimento social alcançado pelos ateus no mundo pode estar finalmente melhorando.

É inimaginável pensar que algum papa falaria nesses termos há umas décadas. Posso estar errado, mas creio que essa é a primeira vez que o líder de uma religião com tanto poder e seguidores se refere aos descrentes sem ser em termos pejorativos. Normalmente as referências aos ateus são feitas somente para condenar a falta de fé.

Mudanças positivas como essa são sempre bem vindas. No mundo ideal esse seria um indício de que o Vaticano poderia rever sua posição a respeito de outros temas espinhosos como união homossexual, aborto, celibato etc, porém meu otimismo também não é tão exacerbado assim.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Marinha pagará R$ 7.400,00 para padre e pastor

Notícia vista no portal Yahoo (clique na figura para ler a notícia completa):

capelao marinha

A presença dos capelães nas forças armadas não é nenhuma novidade. Há anos são abertos concursos para que padres e pastores tornem-se oficiais e prestem assistência religiosa nas organizações militares.

Ano passado mesmo, houve um concurso para capelães na Aeronáutica. Considerando-se os salários divulgados nas notícias, parece que eles tiveram um bom aumento de 2012 para esse ano, mas fora isso, a reportagem não nos apresenta nenhum fato que já não fosse sabido.

O que parece ter mudado nos últimos anos é a orientação religiosa dos capelães. Nos concursos anteriores só se abriam vagas para padres. A exclusividade da Igreja Católica era tamanha, que há até um acordo diplomático criado entre o Brasil e a Santa Sé em 1989 que permite assimilar os capelães militares às dioceses da cúria romana.

Guerra e religião, caminhando juntas.

Guerra e religião, caminhando juntas.

Porém, a mudança demográfica e a ascensão dos evangélicos obrigou as forças armadas a modificarem suas estruturas para abrigar também capelães pastores.

Mas, o quão aceitável é a permanência dessa figura em nossas forças armadas? A existência de um militar pago pelo governo para ministrar sua religião suscita muitos questionamentos. Isso não feriria a separação entre o Estado e a Igreja? Por que essas duas denominações religiosas têm preferência sobre as outras? A presença do capelão é realmente imprescindível?

Esse é um tema complexo de se discutir. Eu sou contra a existência dos capelães, mas há ateus que são a favor. Eu acho que fere a laicidade do Estado, mas há ateus que pensam o contrário. Vou expor as minhas razões para pensar assim, e quem quiser, sinta-se à vontade para concordar ou discordar.

Para começar, lembremos que a assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva é um direito assegurado pela nossa Constituição:

Art. 5° – […]

VII – é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;

As leis que regulam essa assistência religiosa, podem ser vistas aqui, e há ainda uma lei específica que regula os capelães militares, a lei 6.923/81, que é anterior à Constituição, mas continua em vigor.

Esta última lei define quem poderá ser escolhido para ser capelão militar:

Art. 4° – o Serviço de Assistência Religiosa será constituído de Capelães Militares, selecionados entre sacerdotes, ministros religiosos ou pastores, pertencentes a qualquer religião que não atente contra a disciplina, a moral e as leis em vigor.

Então, teoricamente, líderes de qualquer orientação religiosa poderiam ser nomeados como capelães, atendendo assim aos fiéis de qualquer crença. Mas é claro que na prática não é isso o que acontece. Não há como o Estado escolher um capelão de cada designação religiosa existente, ainda mais em um país multicultural como o Brasil, alocá-los em cada organização militar, distribuindo-nos de acordo com a religião específica de cada soldado e pagar um soldo desse porte a todo esse pessoal. É simplesmente uma logística impossível.

Então o que se faz é aplicar o princípio da razoabilidade administrativa. Contratam-se ministros das religiões mais numerosas do país e faz-se a distribuição de maneira que se satisfaça ao maior número de fiéis dentro do limite do possível. E como os católicos e evangélicos já representam cerca de 87% dos brasileiros, o lógico é que se chamem basicamente ministros dessas duas orientações religiosas.

Assim, o cenário normal é que você acabe tendo organizações militares em que há somente um capelão para todo o efetivo. E ele normalmente é um padre ou um pastor. Em meus tempos de caserna eu até já ouvi falar de capelães de outras religiões, mas eles são mais raros que filhote de pombo.

Isso deve ser ótimo se você é católico ou evangélico (e der a sorte de ficar lotado em um quartel que tenha o ministro da sua religião, não da outra) . Mas se você for espírita, umbandista, judeu, hinduísta, xintoísta ou seguir qualquer outra das milhares de religiões existentes, a presença do capelão não vai fazer diferença nenhuma para você.

Isso, por si só já seria de certa maneira discriminatório. Porém, somente na mesma medida em que é discriminatório não haver o mesmo número de policiais em diferente localidades urbanas, ou haver mais hospitais em determinadas regiões da cidade ou algumas escolas serem abarrotadas de alunos enquanto outras são modelos. A administração pública não tem como agradar a todos, então faz o que é possível fazer. Não é o ideal, mas é justificável.

Porém, nos exemplos citados no parágrafo anterior, a intervenção estatal é  não só desejável como necessária. Quem deve fornecer segurança, educação e saúde da melhor maneira possível é o Estado. Já a assistência religiosa, não é obrigação  direta do poder estatal.

“Mas não é a própria Constituição que determina que a assistência religiosa deve ser provida?”, você me perguntaria. Bem, a Constituição assegura a prestação da assistência religiosa, mas não determina que o Estado é quem deverá custear os ministros religiosos das religiões que achar relevantes. Para mim essa instrução constitucional seria mais em um sentido passivo, para evitar que o Estado impedisse alguém de professar a religião que escolhesse. Nesse mesmo sentido, a Constituição garante o direito de propriedade,  mas não se vê o Estado sair por aí distribuindo bens.

Ao meu ver, uma maneira de assegurar essa assistência religiosa prevista na Constituição seria permitir que os próprios militares formassem comunidades religiosas dentro do quartel, ou as procurassem nas cidades em que estivessem localizados. Talvez até fornecer um local dentro do quartel de natureza ecumênica, que pudesse atender a pessoas de qualquer religião que desejassem organizar reuniões nesse sentido. Mas pagar para uma pessoa de uma religião específica ficar responsável por toda a religiosidade do local me parece exagerado e desnecessário.

Outro aspecto que me intriga é o porquê dos militares terem essa necessidade de assistência religiosa, quando as outras classes trabalhadoras governamentais não desfrutam da mesma benesse. Não se fala em médicos capelães ou professores capelães, só para citar profissões da tanta ou mais importância e estresses. A desculpa de que as organizações militares são locais de internação pode ser aceitável, porém os militares que trabalham nesse local não estão presos ao quartel. Eles têm vida fora dos muros da organização militar, e saem aos fins de semana. Poderiam muito bem frequentar a instituição religiosa de sua preferência em seu tempo livre. E se ele não tem tempo livre, o Estado deveria criar esse tempo livre para essa finalidade. Aí sim, seria o Estado agindo ativamente para garantir a assistência religiosa, e de maneira razoável.

Até porque, mesmo seguindo a mesma orientação religiosa que a sua, pode ser que o líder religioso escolhido pelo Estado não o agrade. Não é raro encontrarmos pessoas religiosas que se queixam dos clérigos responsáveis pelos templos que frequentam, dizendo que preferiam o anterior, ou o de outro horário.

Imaginar que um capelão escolhido ao acaso será a escolha mais adequada para todos os militares presentes em uma OM e pagar a ele um soldo desse porte é, em minha opinião, um grande equívoco.

E um grande equívoco pago com o dinheiro público.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Habemus Papam…. e daí?

Em seguida à surpreendente renúncia do papa Bento XVI, seu sucessor já foi eleito anteontem, no segundo dia de conclave. Jorge Mario Bergoglio, cardeal de Buenos Aires tornou-se o Papa Francisco I, o primeiro sul-americano eleito para o cargo de Sumo Pontífice.

E o que isso significa para um ateu?

Bem, a princípio… nada. Pelo menos diretamente não faz diferença nenhuma para mim quem é o novo Papa, já que atualmente a Igreja Católica e suas decisões têm uma importância quase nula em meu modo de pensar e agir.

Porém, ninguém é uma ilha. Embora eu pessoalmente não ligue para os ditames do Vaticano, moro em um país cuja população é composta por 64% de católicos.  Viver em sociedade significa que eu dependo tanto dos católicos quanto eles dependem de mim. E se a visão deles será influenciada pelo novo papa, posso afirmar que essa escolha terá alguma relevância em minha vida, se não direta, pelo menos indiretamente.

Então, que mudanças será que o novo papa trará para sua igreja? Finalmente ele vai começar uma renovação nos modos de pensar e agir de sua congregação? Qual será sua posição em relação a temas espinhosos para a Santa Sé, como casamento gay, aborto, métodos contraceptivos, eutanásia, celibato, pedofilia, pesquisas com células tronco, ordenação de mulheres etc? Será que ele ajudará a comunidade católica a dar um passo além do pensamento medieval que permeia sua religião?

Infelizmente parece que não poderemos esperar muitas mudanças em relação a quaisquer desses temas. De acordo com o repórter John L. Allen Jr. do National Catholic Reporter, o papa Francisco tem um posição extremamente conservadora quanto aos assuntos mais delicados da doutrina católica:

“Bergoglio é visto como um ortodoxo ferrenho em questões de moral sexual, firmemente contra o aborto, o casamento homossexual e contracepção. Em 2010 ele afirmou que a adoção gay é uma forma de discriminação contra as crianças, ganhando uma reprimenda pública da presidente da Argentina Cristina Fernández de Kirchner.”

Renovando a Igreja Católica para o novo Milênio! Só que ao contrário...

Renovando a Igreja Católica para o novo Milênio! Só que ao contrário…

John Allen, se refere à carta aberta publicada no periódico L`Osservatore Romano, o “jornal do papa”, e direcionada às irmãs carmelitas de cada um dos quatro monastérios na Argentina, onde o então cardeal Jorge Mario, escreveu a respeito de uma proposta de lei apresentada em seu país e que poderia trazer “sérios danos à família”, condenando-a duramente. Em suas próprias palavras:

“Nas próximas semanas o povo argentino irá enfrentar uma situação cujo resultado pode causar sérios danos à família… Em jogo estão a identidade e a sobrevivência da família: pai, mãe e filho. Em jogo estão as vidas de muitas crianças que sofrerão com o preconceito, e serão privadas de um desenvolvimento humano dado por um pai, uma mãe e desejado por Deus. Em jogo está a total rejeição das leis de Deus, gravadas em nossos corações… Não sejamos inocentes: essa não é uma simples disputa política, mas uma tentativa de destruir os planos de Deus. Não é só uma proposta (um mero instrumento) mas uma `jogada´ do pai da mentira, que busca confundir e enganar os filhos de Deus.”

Ao ler estas palavras, uma imaginação fértil seria insuficiente para se imaginar do que o cardeal Jorge falava. Afinal, o que essa proposta de lei intencionava? Obrigar os pais com filhos a se divorciarem? Forçar famílias que se amam a viverem separadas? Matar o primogênito de cada família que não seguisse a religião considerada correta?

Não, simplesmente permitir que casais homossexuais formalizassem sua união civil e pudessem adotar filhos. Sim, para o atual líder da Igreja Católica, um casal gay tirar uma criança abandonada do orfanato e dar um lar, amor e carinho a ela é  equivalente a uma operação secreta comandada pelo Satanás.

Ele só parece ter se esquecido de um pequeno detalhe em sua carta: a situação que ele descreveu englobaria também famílias cujos pais são separados, solteiros ou em que um dos genitores é falecido, que é inclusive meu caso. Minha mãe faleceu quando eu era bem pequeno, então acho que, segundo a lógica do atual papa, eu fui privado do desenvolvimento humano desejado por Deus. Bom, mas se fazia parte dos planos dele, então tudo bem, não é, fazer o quê?

Felizmente o parlamento argentino, que, se comparado ao brasileiro, pelo menos nesse ponto parece ser bem menos submisso aos interesses da cúria romana, ignorou os apelos do cardeal e o casamento e adoção gays foram aprovados naquele mesmo ano. E eu não sei quanto a vocês, mas eu ainda não ouvi falar do surgimento do Anticristo em solos argentinos até o momento.

Em relação ao aborto também não parece que haverá uma mudança muito profunda na mentalidade papal. Em setembro de 2007, ocorreu na Argentina um caso de estupro que causou grande comoção internacional. Uma mulher com deficiência mental foi estuprada e engravidou do malfeitor. Sua família pretendia realizar o aborto da criança e recebeu, inclusive, o apoio do Ministro da Saúde. A opinião do cardeal à respeito?

“…na Argentina nós já instituímos a pena de morte. Uma criança concebida através do estupro de uma deficiente mental pode ser condenada à morte… Nós deveríamos nos dedicar à “coerência eucarística”, ou seja, devemos ter consciência que as pessoas não podem receber a sagrada comunhão e ao mesmo tempo agir ou falar contar os mandamentos, em particular quando o aborto, a eutanásia e outros crimes sérios contra a vida e a família são facilitados.”

A última frase foi publicada na versão final de um texto chamado de “documento de Aparecida“, apresentado no momento pelo cardeal e que representava o pensamento de vários bispos latino-americanos a respeito da situação da igreja em seus países.

Tendo por base as declarações do agora papa nessas ocasiões, eu tenho a impressão que sua posição quanto aos outros assuntos polêmicos sobre os quais a Igreja insiste em estabelecer regras também não seria muito diferente das posições anteriores ao seu papado. Eu ficaria muito surpreso se houvesse alguma drástica mudança na direção da Igreja Católica nos próximos anos.

Devemos nos conformar então. Os dogmas, idéias e normas que influenciam atualmente mais de 120 milhões de brasileiros, nosso governo e nossa cultura de maneira geral provavelmente não serão muito diferentes do que foram nas últimas décadas… ou séculos, dependendo de qual deles esteja sendo referido. Eles não farão diferença para quem não acredita em Deus, mas pode ter certeza que farão diferença para quem vai fazer as leis que você terá que seguir nos próximos anos.

Por outro lado, se o Vaticano realmente continuar insistindo em defender uma mentalidade da Idade Média em pleno século XXI ele mesmo estará selando seu destino de tornar-se irrelevante. Quanto mais autoritária e desconectada  da realidade a igreja católica insistir em ser, mais fiéis farão questão de não se alinharem a seu rebanho.

Como eu já disse anteriormente, é provável que a igreja católica em breve não precise de nenhum antagonista, ela mesma está fazendo um belo trabalho em se tornar a responsável por seu declínio.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized