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Comentando A Declaração Do Padre Marcelo Rossi

Nesta segunda-feira, dia 20, o padre popstar Marcelo Rossi, em entrevista ao Portal Terra, fez uma polêmica afirmação sobre política, que rendeu calorosas discussões nas redes sociais.

marcelo rossi

Padre Marcelo Rossi

Ao comentar o atual cenário político do país, o sacerdote deu sua opinião a respeito da associação que algumas pessoas fazem entre suas crenças religiosas e o exercício da política:

“Eu sou totalmente contra, seja padre ou pastor. Está errado. Ou você é um líder religioso, ou você é um líder político. Pode colocar minhas palavras: ‘Nunca vote em nenhuma pessoa religiosa’. A Igreja Católica viveu isso, a união de Estado, política e religião. Foi a pior fase. Pode ver que a Igreja Católica é a única que não tem candidato. Ela pode até dizer que gosta, mas nunca indica. Eu tenho medo. A pior coisa é fanático. Fuja dessas pessoas, que são as mais perigosas e as que se corrompem mais facilmente”

Descrentes e religiosos que defendem a laicidade do Estado não demoraram em aplaudir o que o padre falou:

declaraçoes1

E é claro que alguns religiosos mais exaltados decidiram fazer o contrário, criticando ostensivamente o que foi dito:

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Sendo eu ateu, assim que li essa notícia na internet, minha primeira reação foi parecida com a das primeiras pessoas acima, concordando plenamente com o padre.

Porém, conforme eu parei para pensar melhor no que ele havia falado, me dei conta de que uma parte de seu discurso pode estar equivocada.

Primeiro, vamos deixar claro uma coisa. O padre Marcelo está enganado ao afirmar que a Igreja Catolica é a única que não tem candidato político. Não vou nem entrar no mérito do chefe de sua igreja ser também o governante do seu próprio Estado, já que isso não me parece estar diretamente relacionado ao que estava sendo afirmado. Porém, mesmo em referência somente às eleiçoes de nosso país, é notável que já houve casos de padres que foram eleitos para cargos políticos, como eu havia apontado antes. E, segundo o UOL, nessas últimas eleições mesmo, 23 párocos católicos disputavam o pleito.

Mas tudo bem, não vou afirmar que o padre mentiu nesse caso. Ele poderia simplesmente não ter conhecimento dos casos acima, ou talvez estivesse se referindo somente a um apoio oficial da Igreja, o que eu não saberia dizer se há ou não, já que não conheço os bastidores do Vaticano. Desconsideremos esse equívoco e nos concentremos em outra parte do que foi afirmado: “Nunca vote em uma pessoa religiosa”.

Depois que eu refleti melhor a respeito do que foi dito, percebi o quanto essa declaração soa discriminatória para com uma parcela da população brasileira. O padre está basicamente defendendo que uma parte da população (os religiosos) não deve poder gozar plenamente de seus direitos políticos, não devendo nunca serem eleitos. Se você não consegue perceber a gravidade do que foi dito, experimente fazer o seguinte: utilize qualquer outra parcela da população na mesma frase para ver se você concordaria com ela. “Nunca vote em um negro”. “Nunca vote em um homossexual”. “Nunca vote em um policial”. “Nunca vote em um ateu!“…

Eu até  entendi o sentido da afirmação do padre. Sua intenção era defender a laicidade, a separação entre o Estado e a religião, e a referência que ele faz à atuação da Igreja na Idade Média é indicativa disso. E eu concordo com o espírito do que ele quis dizer. No entanto, eu diria que a atitude que ele parece julgar necessária para que essa laicidade seja atingida não é a mais acertada.

O problema não está em uma pessoa religiosa, ou mesmo em um líder religioso atingir o poder político. O problema está nessa pessoa não saber separar suas crenças religiosas de seu mandato e deixá-las interferir em sua governança. Sendo assim, eu não veria problema nenhum no fato de um religioso, seja um padre, um pastor, um imame, um babalorixá ou qualquer outro, ascender a um cargo político, desde que ele não tomasse nenhuma decisão ou não propusesse nenhuma lei discriminatória, com base única e exclusivamente em seus preceitos religiosos.

Talvez uma melhor forma de se afirmar o que era pretendido seria dizer: “muito cuidado ao votar em uma pessoa religiosa, para que ele não deixe sua religião interferir negativamente em sua atuação política”, ou algo nesse sentido. Talvez até tenha sido exatamente isso o que o padre quis dizer… Imagino que ao dar uma entrevista ao vivo algumas palavras não exprimam exatamente o que se estava passando em sua mente. Mas é justamente por isso que uma pessoa pública tem que redobrar o cuidado com o que diz.

Em um país onde a democracia fosse melhor aplicada, essa advertência de nunca se votar em um religioso provavelmente seria vista com estranheza e talvez fosse até desnecessária. Eu não imagino, por exemplo, alguém na Suécia, um país onde os governantes são tratados como cidadãos comuns e como modelos a serem seguidos pela comunidade,  precisando alertar os eleitores a nunca votarem em um líder religioso. Mesmo que um deles alcançasse o poder, os próprios eleitores provavelmente não deixariam que medidas anti-democráticas e interesseiras fossem tomadas por esses políticos.

No entanto, é claro que isso também depende muito do povo do país. E no Brasil, onde os candidatos ostentam seus cargos religiosos como trunfo para conseguir votos, onde líderes religiosos pedem votos no púlpito em troca de dinheiro e onde milhares de eleitores seguem o modo de pensar da cidadã abaixo, eu duvido muito que esse discernimento político esteja próximo de ser alcançado:

maluca

Vendo coisas como essa, eu chego a cogitar que no caso do Brasil talvez seja melhor mesmo uma proibição absoluta de se votar em candidatos religiosos…

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Levy Fidelix E A Homofobia

No último domingo, dia 28, foi veiculado na televisão mais um debate entre os candidatos à presidência da república, promovido pela Rede Record. Você pode assistir ao debate completo clicando aqui:

Porém, um dos segmentos que acabou chamando maior atenção foi quando o candidato do PRTB, Levy Fidelix, respondeu a uma das questões da candidata do PSOL, Luciana Genro. A candidata perguntou a Levy o que ele pretende fazer em relação à violência contra os homossexuais e por que os candidatos que insistem em falar tanto da preservação da família relutam  em reconhecer a união homoafetiva como uma entidade familiar. A resposta do candidato já entrou para os anais da política brasileira como uma das piores coisas que um candidato poderia falar em rede nacional:

“- Aparelho excretor não reproduz. Como é que pode, um pai de família, um avô, ficar aqui escorado porque tem medo de perder voto? Prefiro não ter esses votos, mas ser um pai, um avô que tem vergonha na cara, que instrua seu filho, que instrua seu neto. Vamos acabar com essa historinha. Eu vi agora o santo padre, o papa, expurgar – fez muito bem – do Vaticano, um pedófilo. Está certo! Nós tratamos a vida toda com a religiosidade para que nossos filhos possam encontrar realmente um bom caminho familiar! […] Você já imaginou? O Brasil tem 200 milhões de habitantes, daqui a pouquinho vai reduzir pra 100. Vai pra avenida Paulista, anda lá e vê. É feio o negócio, né? Então, gente, vamos ter coragem, nós somos maioria, vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los. Não tenha medo de dizer que sou pai, uma mãe, vovô, e o mais importante, é que esses que têm esses problemas realmente sejam atendidos no plano psicológico e afetivo, mas bem longe da gente, bem longe mesmo, porque aqui não dá.”

Depois desse desvario verborrágico, choveram críticas direcionadas ao candidato. Ativistas LGBT marcaram um beijaço na Av. Paulista em protesto contra suas declarações, a OAB pediu a cassação da candidatura de Levy, alegando o uso de discurso de ódio e o deputado federal Jean Wyllys planeja entrar com uma ação contra o candidato.

Fazer uma análise aprofundada do que Levy falou se torna até difícil, pois foram tantos equívocos juntos que fica complicado saber por onde começar…

Bom, em primeiro lugar, acho que devemos definir o básico: determinar se ele tem ou não o direito de se expressar da maneira como se expressou.

O artigo 5° da nossa Constituição, que elenca os direitos fundamentais dos cidadãos desse país, determina, em seu inciso IV que:

IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.

Graças a esse inciso, muitos cristãos conservadores e/ou homofóbicos se apressaram em dizer que ao fazer sua afirmação, o candidato estava apenas exercendo seu direito constitucional de liberdade de expressão.

No entanto, esse mesmo artigo, logo no inciso seguinte, também determina os limites dessa liberdade, ao decretar que:

V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem.

Ou seja, o direito de liberdade de expressão é realmente dado a todos os cidadãos, porém, a própria Constituição reconhece que devemos usá-lo conscientemente, nos responsabilizando por qualquer dano que nossas manifestações possam causar a terceiros. Afinal, assim como qualquer outro direito que possuímos, esse não é absoluto, e só pode ser exercido até o ponto onde não fira o direito de outras pessoas, um entendimento mais do que confirmado por nosso Poder Judiciário, como, por exemplo, na recente decisão judicial que determinou que o Youtube retirasse do ar um dos vídeos do canal Porta dos Fundos que citava o nome do candidato a governador do Rio, Anthony Garotinho porque, segundo a juíza:

“[…] a liberdade de manifestação do pensamento e a livre expressão de manifestação artística não são direitos absolutos, “devendo ser limitados a fim de que não ocorram abusos e ofensas a outros direitos fundamentais”.”

É justamente por isso que, apesar de podermos ter a opinião que quisermos, temos que tomar cuidado com a maneira, o local e o contexto em que expressamos essas opiniões.

Essa dinâmica se torna mais óbvia ao fazermos o seguinte experimento mental: imaginar o candidato Levy se referindo a qualquer outra minoria social com essa mesma animosidade.

Pensem no que aconteceria se, ao invés de falar dos homossexuais, ele afirmasse, por exemplo, que os brancos tinham que enfrentar a minoria de negros no país. Ou que os nordestinos deveriam ser tratados psicologicamente, mas bem longe dele. Ou equiparasse todos os indígenas a pedófilos. Haveria grandes chances de ele já sair do debate algemado, uma coisa que provavelmente só não aconteceu devido ao fato de o crime de homofobia não ter sido ainda totalmente regulado, de o candidato ter se referido a uma minoria que ainda é discriminada por boa parte da população (talvez a maioria) e também por ele ter baseado seu ponto de vista em fundamentos religiosos, o que é sempre um trunfo na hora de se livrar de declarações discriminatórias.

Então, já me parece mais do que óbvio que uma declaração dessa natureza merecia ser repudiada pelo simples fato de possuir o potencial de amplificar o ódio a um grupo social minoritário. Mas, indo além, vamos analisar com mais cuidado o conteúdo do diálogo para ver se pelo menos o ódio demonstrado pelo candidato seria justificável no contexto do debate político.

A candidata Luciana o questionou a respeito de um problema de ordem pública: a violência e a discriminação sofridas por uma minoria dentre os cidadãos do país. Se o candidato tem a mínima pretensão de um dia chegar à presidência do Brasil, esse seria um dos problemas concretos com os quais ele teria que lidar, independente de sua opinião pessoal sobre os envolvidos. Mas ao invés de responder à pergunta, ele preferiu tergiversar e levar o assunto para um caminho totalmente diverso do questionado, apresentando sua repulsiva opinião, que não deveria ter relevância nenhuma no tema.

Um presidente não tem que, por exemplo, gostar de idosos para gerir bem os recursos da Previdência Social, ou sentir um apreço pessoal por crianças para investir em creches e escolas elementares. Nesse mesmo sentido, como chefe de governo ele não teria que gostar ou deixar de gostar de gays para combater a discriminação a essa minoria, o papel dele seria o de garantir os direitos civis de cidadãos que fazem parte do povo e que ainda não possuem os mesmo direitos que todos os outros. E era algo nessa linha que responderia qualquer candidato que não deixasse suas crenças e opiniões pessoais se sobreporem às suas pretensas obrigações. Se ele não consegue separar suas convicções particulares de seus deveres públicos, fico apreensivo em pensar como seria sua atuação na presidência em outros setores.

Além disso, que compulsão esquisita é essa com a reprodução dos cidadãos e com a quantidade de habitantes do Brasil? No cenário atual, onde a superpopulação e a escassez de recursos são uma preocupação para a maioria dos governantes e cientistas, o candidato realmente acha que o fato de menos filhos serem gerados deveria mesmo ser uma prioridade com a qual lidar? Talvez essa forma de pensar faça sentido para alguém que segue inquestionavelmente a um livro sagrado que determina que devemos simplesmente “multiplicar-nos e encher a terra”, mas muitos ambientalistas e cientistas políticos veriam o declínio da população brasileira de 200 para 100 milhões de habitantes no mínimo, se não como uma coisa boa, pelo menos como uma coisa a ser posta nos últimos lugares da lista de problemas a serem tratados – embora isso obviamente não fosse acontecer caso se legalizasse o casamento homoafetivo, já que um acontecimento não tem nenhuma relação direta com o outro.

Mas é claro que nenhum desse argumentos importam para quem poderia tirar proveito dessas declarações. Alguns fundamentalistas religiosos não demoraram a demonstrar seu apoio à visão de mundo homofóbica do candidato Levy. Bastou o debate terminar para que o onipresente e sempre sábio pastor Silas Malafaia deixasse sua preciosa opinião a respeito do ocorrido em seu twitter:

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Sim, é óbvio que aparelho excretor não reproduz. E daí? Alguém por acaso estava afirmando o contrário?  E qual é a relevância disso na discussão? Diferentemente dos religiosos fundamentalistas, acho que os outros candidatos estavam menos preocupados com a capacidade dos homossexuais gerarem filhos do que com a desigualdade de direitos desse grupo. E se somente comportamentos que são capazes de gerar filhos fossem aceitos nos casamentos, nenhum casal, hétero ou não, deveria se beijar, se masturbar, fazer sexo anal, ou, pensando a fundo, consumar qualquer outro ato íntimo que não tivesse o estrito objetivo da procriação.

Aliás, como eu já observei anteriormente, se quem não tivesse o potencial de gerar bebês não pudesse se casar, teríamos também que impedir o casamento entre idosos, pessoas estéreis, assexuados ou quem simplesmente não quer ter filhos, sejam homossexuais ou não.

Mas o pior dessa história não foi ver líderes religiosos apoiando o candidato como se ele tivesse proferido uma impressionante revelação divina. Eles ganham muito dinheiro e mantém o poder sobre seu rebanho ao apoia-lo, então isso já era esperado. Talvez  em seu íntimo eles nem concordem com o que o Levy afirmou, mas apoiá-lo enfaticamente faz parte do jogo negocial da religião comercial.

A pior parte mesmo foi perceber como o povo brasileiro (talvez a maior parte dele) reagiu a essas afirmações. Em sites que noticiavam a declaração dada por Levy, os comentários dividiam-se basicamente entre o repúdio enojado e a concordância plena, mas com uma clara vantagem numérica desses últimos.

comentários

Comentários como esses demonstram como a repulsa ao que foge do tradicional já está entranhada em nossa cultura e o quanto a discriminação a quem pensa ou age de maneira diferente parece ser vista como uma coisa normal, ainda que essas ações ou pensamentos não afetem ou digam respeito a ninguém além de quem os pratica.

É bem provável que Levy tivesse consciência disso e que tenha tomado uma atitude desvairada como essa propositalmente, adotando uma espécie de estratégia kamikaze arriscada para conquistar alguns votinhos de última hora de conservadores bitolados. E ao que parece, essa burlesca possibilidade pode realmente ocorrer.

Acho que a velha máxima de que cada povo tem os governantes que merece nunca me pareceu tão bem ilustrada.

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DIA DA HERESIA – Religião e Política

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Bem vindos a mais um DIA DA HERESIA. Este é um espaço utilizado para se falar tudo que for relevante a respeito de um tema controverso específico que envolva a religião, apresentando minha opinião como ateu.

E o tema desse mês será:

RELIGIÃO E POLÍTICA

O mês de outubro está chegando e, como em todo ano par, isso significa uma coisa: as eleições se aproximam!

Eleições no Brasil são sempre parecidas. Um monte de políticos de sorrisos amarelos fazem campanha na televisão, jingles idiotas são criados e retumbados pelas ruas em carros de som barulhentos, as vias públicas são poluídas com toneladas de santinhos e panfletos, cavaletes nas calçadas atrapalham o ir e vir das pessoas, outdoors são erguidos em lugares improváveis, artistas tentam alavancar suas carreiras em showmícios tumultuosos e empresas investem milhões nas campanhas políticas visando conseguir favores dos eleitos após a eleição.

Tudo isso, claro, para que o povo, bem instruído como é, possa exercer plenamente seu direito democrático de escolher racional e conscientemente seus representantes, em uma votação a qual você não tem a liberdade de deixar de comparecer.  E, no final das contas, são eleitos sempre os mesmos políticos ou seus indicados, e nada muda no país. (E eu, que sou “convidado” a ser mesário em todas as eleições, sinto os valores democráticos correndo com toda força em minhas veias a cada dois anos, quando tenho que sair da minha cama às 6 da manhã de um domingo.)

Porém, as últimas eleições têm apresentado um lado que há algumas décadas não parecia ser tão pronunciado em nosso país. A participação maciça de religiosos no processo eleitoral.

Não que a religião não influenciasse na política antes. Afinal, desde que o homem se organizou em sociedade, essas duas instituições estão intimamente ligadas. Em praticamente todas as comunidades antigas os líderes religiosos dividiam o poder com os políticos, isso quando não o exerciam diretamente. E democracias mais maduras que a brasileira dispõem até hoje de partidos com orientações religiosas, como o Cristão-Democrata francês e o União Social-Cristã alemão.

No Brasil, particularmente, a Igreja Católica foi, durante décadas,  uma das principais forças políticas a influenciar nossas eleições. Candidatos que apoiassem projetos contrários aos interesses da Santa Sé frequentemente eram derrotados nas urnas. Porém, essa influência exercida pela Igreja nunca foi direta.

O código de direito canônico, que são as leis editadas pelo Vaticano e que pautam o comportamento de seus sacerdotes, condena a candidatura de padres e bispos a cargos políticos, estipulando no parágrafo 2º de seu artigo 287 que eles:

[…] Não tomem parte activa em partidos políticos ou na direcção de associações sindicais, a não ser que, a juízo da autoridade eclesiástica competente, o exija a defesa dos direitos da Igreja ou a promoção do bem comum.

Como se pode perceber, essa não chega a ser rigorosamente uma proibição. Já houve casos de esclesiásticos da Igreja Católica sendo eleitos para cargos políticos. Porém essa norma da Santa Sé faz com que eles sejam raras exceções. A influência exercida pela Igreja na política sempre foi feita de maneira mais indireta, através do doutrinamento de seus milhões de fiéis.

Assim, se um candidato surgisse defendendo uma idéia que contrariasse a doutrina católica, como por exemplo, a descriminalização do aborto, ele era automaticamente visto com maus olhos por um imenso número de eleitores influenciados pelos dogmas da Igreja e acabava não sendo eleito. O que, em certa medida, tem reflexos até hoje, bastando notar a mentalidade conservadora do eleitor brasileiro médio.

Esse conservadorismo parecia tendente a diminuir com o tempo, principalmente por conta da queda do poder e do número de fiéis da Igreja Católica no país. Porém, ironicamente a situação se agravou, pois em resposta à diminuição de seguidores católicos, uma nova força religiosa vem se erguendo em nosso país: os evangélicos.

Se os católicos possuem uma liderança centralizada, que pode ditar regras a serem seguidas por todos, como a que rejeita a participação política direta, o mesmo não pode ser dito dos evangélicos. Cada denominação evangélica tem suas próprias normas internas, e nenhuma delas parece muito acanhada em eleger seus líderes e sacerdotes para cargos políticos.

Pelo contrário. Para essas orientações religiosas, o fato de um candidato ostentar a sua função eclesiástica é um trunfo que pode render mais votos, motivo pelo qual o número de candidatos estampando cargos como “bispo” e “pastor” à frente de seus nomes aumentou quase em 50% em relação às eleições de 2010, segundo uma reportagem da revista Época.

O exemplo mais notório disso já pode ser percebido entre os candidatos ao maior cargo do poder executivo, o de presidente da República. Um dos  postulantes a ocupar o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos é um pastor, que faz questão de evidenciar seu cargo clerical em seu material de campanha.

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Se há algumas décadas os evangélicos eram um grupo com pouca capacidade de influenciar os rumos de Brasília, o aumento de igrejas pentecostais e neo-pentecostais fez com que esse cenário mudasse. Uma outra reportagem da revista Época, feita no início desse mês, mostra como o voto dos evangélicos se tornou um poderosa arma nas últimas eleições, sendo decisivo na escolha de alguns candidatos.

Não é difícil perceber que agradar esse público passou a ser uma prioridade para qualquer político que queira possuir alguma chance de ser eleito. Agora todos os candidatos a qualquer cargo ficam pisando em ovos ao tratarem de temas que podem causar atrito com os evangélicos, como a descriminalização de drogas ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Um exemplo de como essa mudança no panorama religioso afeta o discurso político pode ser percebido em um posicionamento da presidente Dilma. Em outubro de 2007, quando ainda era ministra-chefe da Casa Civil, ela deu a seguinte declaração a respeito da legalização do aborto, segundo essa reportagem do jornal O Globo:

“Olha, eu acho que tem que haver a descriminalização do aborto. Hoje, no Brasil, isso é um absurdo que não haja a descriminalização.”

Em outubro de 2010, quando se candidatou ao cargo de presidente, ao perceber que seu posicionamento poderia custar o voto de eleitores conservadores, entre os quais os evangélicos, ela já passou a adotar um tom mais precavido em sua abordagem a respeito do assunto, afirmando uma coisa que, curiosamente, ia em total contradição ao que ela havia afirmado antes:

“Sou pessoalmente contra o aborto e defendo a manutenção da legislação atual sobre o assunto. Eleita presidente da República, não tomarei a iniciativa de propor alterações de pontos que tratem da legislação do aborto e de outros temas concernentes à família e à livre expressão de qualquer religião do país.”

E agora que está concorrendo à reeleição, a ordem de seu comitê de campanha é de evitar a todo custo a menção a temas espinhosos para os religiosos, com o declarado objetivo de conquistar o eleitorado evangélico. Uma estratégia que parece estar sendo seguida com afinco, quando notamos que, entre administrar um país e coordenar sua candidatura, a chefe de governo ainda conseguiu reservar um espaço em sua agenda para comparecer à inauguração do maior templo da maior congregação evangélica do país.

Sua adversária direta na luta pela presidência, Marina Silva, é, por sua vez, uma fiel da congregação evangélica Assembleia de Deus, e não esconde seu alinhamento à doutrina religiosa deste grupo, ao se posicionar pessoalmente contra a pesquisa com células-tronco e contra a descriminalização do aborto.

Se a candidatura de Dilma já dá sinais de sofrer certa influência exercida pelas tendências doutrinárias evangélicas, a de Marina a torna escancarada.

Ao lançar o programa de governo do seu partido para essas eleições, Marina – possivelmente contrariando suas convicções pessoais – defendia o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da criminalização da homofobia. Uma postura que, obviamente, deixou as lideranças religiosas evangélicas desgostosas.

Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, apontado como um dos pastores mais ricos do país, não deixou barato. Em seu twitter,  o líder religioso disparou uma série de declarações criticando o programa do partido e cobrando de Marina explicações a respeito de seu posicionamento:

Twitter malafaia

Bastou isso para que, no dia seguinte ao anúncio, o partido emitisse uma nota se retratando e informando que houve uma “falha processual na editoração” do programa e que, na verdade, eles não apoiavam a proposta de legalizar o casamento igualitário no Brasil.

Se um simples tweet do líder de uma congregação evangélica já é o suficiente para fazer com que uma candidata a presidente volte atrás e passe a afirmar quase o oposto do que vinha afirmando antes, imagine o que eles não poderiam fazer se essa candidata já estivesse no poder.

Já o terceiro candidato à presidência com maior número de intenções de voto segundo as pesquisas, Aécio Neves, é o que parece ser o mais neutro dos três em relação aos temas controversos para os religiosos. Ele diz não se opor ao casamento gay, que isso já é parte de nossa realidade e é uma pauta do passado. Ele acha que a legislação atual sobre aborto atende as demandas do Brasil e disse que não as modificaria. E afirma não ser a favor da descriminalização da maconha, mas defende um debate público sobre o assunto. Como se pode ver, ele parece estar se esforçando para ficar completamente em cima do muro em relação a todos esses assuntos espinhosos e não se comprometer. O que talvez explique porque ele está em terceiro lugar, enquanto as outras duas estão disparando à sua frente, com a conquista dos religiosos e conservadores…

No poder legislativo, a influência religiosa também só parece estar aumentando. A bancada evangélica, frente parlamentar composta por líderes e fieis dessas congregações religiosas que, apesar de pertencerem a partidos diferentes, se articulam para que seus votos sempre atendam a seus interesses teológicos, já seria o terceiro maior partido político da Câmara se contituísse uma só legenda, um cenário que, aliás, pode vir a se tornar verdadeiro em breve, com a possível fundação de um partido político evangélico.

Integrantes da bancada evangélica realizando um culto durante uma sessão da Câmara.

Integrantes da bancada evangélica realizando um culto durante uma sessão da Câmara.

Caso as eleições acompanhem a tendência demográfica dos evangélicos, é possível que por volta de  2040, os parlamentares evangélicos já se tornem maioria no Congresso.

Nesse ponto, devemos parar e nos perguntar: essa influência excessiva de um grupo religioso específico na política nacional seria necessariamente uma coisa ruim? E se seria, por que, exatamente?

Afinal, nós vivemos em uma democracia. Teoricamente, nossos governantes são os representates do povo, e escolhidos por este. Então, se a maioria dos nossos políticos um dia chegar a ser composta por líderes ou seguidores de determinada orientação religiosa não seria porque a maioria da população, em um processo democrático os elegeu? Eles não estariam, no fundo, representando o interesse da maior parte da nação, inclusive em sua crença religiosa?

Bom, a meu ver, esse cenário ilustra com perfeição um dos principais problemas do sistema democrático moderno: o governo das maiorias sobre as minorias. Praticamente todos os sistemas atuais de escolha de representantes políticos se baseiam somente no número absoluto de votos da população. E isso faz com que, invariavelmente, as camadas da população com um número menor de pessoas acabem com um poder político menor que os outros, um fato que se aplica não somente em relação à religião, mas a qualquer posição minoritária: etnias, posições filosóficas, orientação sexual, origem geográfica etc. Qualquer grupo desses que possua o menor número de pessoas automaticamente possuirá também menor representação política.

Essa falha no sistema democrático também é a causadora do circo no qual se tornou a política brasileira atual, com a execução das fanfarronagens descritas no primeiro parágrafo desse artigo. Como o número de votos recebidos é o fator mais importante para ser eleito, os políticos sabem que o método mais eficiente de alcançar o poder é se utilizar de métodos que façam com que eles fiquem em evidência para as massas votantes. Todo político quer virar um meme nessa época do ano. Daí vem os carros barulhentos, os jingles grudentos etc. E já sendo a religião naturalmente um meme, um sistema de propagação de ideias e de doutrinação de mentes, não foi difícil para eles perceberem como ela também poderia ser utilizada para o arrebanhamento de mais votos.

Isso é facilmente notável quando percebemos que nessa época de eleições diversos líderes religiosos surgem apoiando candidatos políticos de seu interesse, a exemplo do próprio pastor Silas Malafaia, que há meses aparece em cartazes e propagandas apadrinhando os candidatos Sóstenes Cavalcante para a Câmara dos Deputados e Samuel Malafaia – que curiosamente é seu próprio irmão – para a Assémbleia Legislativa do Rio.

Malafaia apoiando seus candidatos, sem nenhum interesse pessoal, obviamente.

Malafaia apoiando seus candidatos, sem nenhum interesse pessoal, obviamente.

É claro que esses apoios não são dados pelos pastores por eles acharem que esses candidatos são os mais indicados a liderar o povo ou porque eles realmente acreditam que eles possuem as melhores propostas legislativas para o país. Esses apoios são devidos primeiro porque esses candidatos possuem (ou fingem possuir, o que na prática dá na mesma) a mesma orientação religiosa do pastor, e segundo, porque ele sabe que ao ajudar esses candidatos a serem eleitos, uma vez que eles estejam no poder, podem ajudar a aprovar leis que ajudariam a legitimar e fortalecer o domínio dos religiosos sobre seus fieis.

Exemplos de como esses políticos passam a legislar em causa própria após as eleições não faltam entre as propostas da bancada evangélica. Em 1999, foi proposta na Câmara a PEC-99, que visava dar às igrejas o poder de contestar a constitucionalidade de leis diretamente ao Supremo Tribunal Federal, de autoria do deputado João Campos,  pastor da Assembleia de Deus e líder da bancada evangélica que, diga-se de passagem, foi também o autor do famigerado projeto da cura gay. Em 2009, outro membro da bancada evangélica apresentou um projeto que favoreceria diretamente as igrejas evangélicas: o PLC-160/2009, chamado de Lei Geral das Religiões, que daria a essas congregações vantagens fiscais já desfrutadas pela Igreja Católica. O autor dessa vez foi o deputado George Hilton, pastor da Universal do Reino de Deus, que foi expulso em 2005 do seu antigo partido, o PFL, ao ser detido transportando dinheiro da Igreja Universal em um jatinho particular.

Esses são apenas alguns exemplos, mas tramitações legislativas como essas, onde os parlamentares religiosos buscam retribuir os que apoiaram suas candidaturas ou favorecer suas próprias congregações religiosas existem às dúzias. Fica claro que a preocupação com o futuro do país ou até mesmo dos seus fieis nas igrejas fica, no mínimo, em segundo plano na mente desses políticos. O mais importante é garantir meios de perpetuar a influência que eles possuem sobre a sociedade e de somar ainda mais zeros às suas já polpudas contas bancárias.

E nem mesmo as irregularidades cometidas por esses políticos parecem ser capaz de indicar aos seus eleitores que eles talvez não sejam  a melhor opção a se colocar no plenário. A doutrina a que eles são submetidos é tão forte que, mesmo após a revelação de escândalos e crimes, eles continuam imaginando que por eles estarem no altar de uma igreja ou no púlpito de um culto, eles são representates de uma divindade, que o que eles estão realizando é a vontade divina então, obviamente, são também os melhores candidatos a serem eleitos. Ao que parece, uma boa parte dos religiosos continua levando a sério a filosofia de que “crente vota em crente”.

Crente vota em Crente! Não, espera...

Crente vota em Crente! Não, espera…

É espantoso, por exemplo, constatar como, mesmo após o envolvimento de 23 parlamentares da bancada evangélica no escândalo de desvio de dinheiro público que ficou conhecido como a Máfia dos Sanguessugas, em 2006, ou com seus parlamentares sendo considerados os mais ausentes e processados do país, a fé do eleitorado evangélico em seus líderes não parece ter diminuído nem um pouco, já que um número cada vez maior de pastores e bispos são eleitos para ocupar as cadeiras de nosso Parlamento.

Alguns líderes religiosos mais caras de pau chegam a abandonar completamente os pudores em relação à laicidade do Estado (sem falar da ética e do bom senso) e procuram candidatos interessados em comprar os votos dos fieis de sua congregação, institucionalizando, então, o voto de púlpito, uma nova leitura dos antigos votos de cabresto.

Em um país que se diz laico e cuja Constituição prega a separação entre a Igreja e o Estado, essa tendência é preocupante. Se hoje alguns políticos cristãos já veem com normalidade o fato de a Bíblia ser priorizada frente às leis, imagino como esses políticos se comportariam caso se tornassem a maioria dos membros do parlamento. Talvez seja exagero dizer que o Brasil está caminhando para se tornar uma teocracia moderna, a exemplo do Sudão e do Irã. Mas essa é uma aterradora possibilidade que não pode ser descartada.

Na melhor das hipóteses, eu diria que, caso a ascenção dos evangélicos e de sua influência política continuem no ritmo em que se encontram atualmente, o Brasil em breve será no mínimo parecido com Israel – que hoje é considerada por muito teóricos políticos como uma etnocracia liberal – onde o povo teoricamente exerce o poder democraticamente, mas uma classe social majoritária tem notáveis privilégios sobre as minorias.

E qual seria o caminho para se evitar isso?

Bom, eu consigo vislumbrar duas maneiras óbvias de se evitar que o evangelismo político divida efetivamente o país. A primeira seria uma revolução, violenta ou pacífica, que impediria os líderes religiosos de exercerem o poder político diretamente. Se você estivesse no rol de fundadores, diretores, administradores, dirigentes ou líderes de cultos em uma igreja, não poderia se candidatar a nenhum cargo político, institucionalizando no país inteiro uma regra parecida com a que o Vaticano aplica aos seus clérigos. Como qualquer solução radical, essa implicaria em notáveis consequências negativas. Por exemplo, se essa proibição fosse aplicada somente a evangélicos ou a qualquer outra denominação específica, estaríamos legalizando a discriminação a um setor da sociedade, que perderia seu sufrágio, retrocedendo na liberdade democrática que a sociedade levou tanto tempo para alcançar. E se, por outro lado, essa medida fosse estendida a líderes de todas as religiões, as minorias religiosas, que já não possuem muita representação política, perderiam de vez a possibilidade de elegerem representantes que defendessem seus interesses diretamente.

A outra maneira de se evitar isso seria investirmos maciçamente em educação e cultura, para que as futuras gerações que irão exercer seu direito de voto o façam de maneira consciente, elegendo candidatos que defendam racionalmente propostas que tragam benefícios ao povo, sem discriminações ou benefícios, e não somente por eles pertencerem a determinada congregação religiosa.

Porém essa segunda opção é uma medida que, infelizmente, depende dos políticos que já estão no poder para ser posta em prática, e que, obviamente, não iriam tomar nenhuma atitude que fizesse com que esse poder diminuísse ao longo do tempo. Quanto mais ignorante eles mantiverem a população, melhor será para políticos que queiram se aproveitar do sistema vigente para atingir interesses próprios.

Por isso mesmo, eu receio que nosso país já tenha entrado em um círculo vicioso do qual talvez não haja saída. A cada eleição que se aproxima eu vejo mais e mais pessoas alienadas politicamente e mais candidatos se aproveitando disso, e não somente através da religião, mas por qualquer outro meio que eles possam utilizar para manter o status quo da miséria e do poder. E não vejo nenhum sinal de melhoria no horizonte.

Sinceramente, temo pelo futuro desse país.

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Arquivado em DIA DA HERESIA