A Igreja Ateísta – The Sunday Assembly

Sabem como eu vivo dizendo que – ao contrário do que alguns religiosos afirmam – o ateísmo não é e nunca será uma nova religião?

Pois é… No entanto, ano passado, em Londres, ocorreu a inauguração de um estabelecimento que aparentemente contradizia essa minha afirmação: a Sunday Assembly. Uma entidade com o objetivo de  unir pessoas em congregação, em especial os ateus, e que rapidamente passou a ser designada como a “Igreja Ateísta”.

Símbolo da Sunday Assembly, a "Igreja Ateísta"

Símbolo da Sunday Assembly, a “Igreja Ateísta”

Pronto. Bastou essa notícia começar a circular para que alguns religiosos gritassem “xeque-mate!” e se declarassem vencedores do debate a respeito de o ateísmo ser ou não uma nova religião.

Mas, como bom cético que eu espero que seja, acho que, antes de chegarmos a qualquer conclusão, nossas premissas têm que ser bem analisadas. Sendo assim, nos perguntemos: o fato de existir um estabelecimento que alguns chamam de Igreja Ateísta realmente faz com que o ateísmo possa ser chamado de religião?

Para analisar esse questionamento, primeiro temos que estabelecer o significado de alguns conceitos, como o de religião e igreja.

Religião é, segundo a maioria dos dicionários, um sistema de cultos ou de crenças, relacionado de alguma forma a entidades divinas, à espiritualidade ou à sobrenaturalidade. Já uma igreja, por sua vez, seria a congregação de fiéis de determinada religião ou o local onde eles se reúnem, geralmente com o objetivo de louvar à entidade suprema na qual acreditam ou para praticar ritos decorrentes de seus preceitos religiosos.

Seria então o objetivo da Sunday Assembly promover alguma coisa parecida com isso? Com ateus sendo intimados a seguirem determinadas lideranças estabelecedoras de dogmas inquestionáveis, realizando proselitismo em favor do ateísmo e achincalhando as crenças religiosas alheias?

Certamente não.

Pra começar, os fundadores da congregação Sunday Assembly nem de longe poderiam ser considerados líderes religiosos. Eles são dois comediantes ingleses, conhecidos por fazerem shows de stand-up comedy, Sanderson Jones e Pippa Evans.

Sanderson Jones e Pippa Evans, fundadores da Sunday Assembly

Sanderson Jones e Pippa Evans, fundadores da Sunday Assembly

Segundo eles, o objetivo da Sunday Assembly é “celebrar a vida”. O lema da congregação é: “Viver melhor, ajudar frequentemente e questionar mais”. De acordo com os fundadores, sua intenção inicial era criar um local que aproveitasse o que as religiões oferecem de melhor, mas sem a parte religiosa.

“Achamos que seria um desperdício não aproveitar as coisas boas da religião, como o senso de comunidade, só por conta de uma discordância teológica.”

No site da instituição, eles dizem o que se pode esperar de uma das reuniões localizadas no local:

“Só de estar conosco você já deve se sentir energizado, vitalizado, reparado, revigorado e recarregado. Não importa qual é o tema da Assembleia, ela irá aliviar suas preocupações, provocar simpatia e injetar um toque de transcedência no seu cotidiano.

Mas a vida pode ser dura… e é. Às vezes coisas ruins acontecem com pessoas boas, temos momentos de fraqueza ou a vida simplesmente não é justa. Nós queremos que a Sunday Assembly seja um lar de amor e compaixão, onde, não importa qual a sua situação, você seja bem-vindo, aceito e amado.”

Os encontros realizados no local lembram shows de comédia e não são exclusivos para ateus. Pessoas de qualquer orientação religiosa podem participar. A intenção principal é divertir e informar. Ao invés de hinos e louvores, a plateia vibra ao som de músicos como Stevie Wonder e da banda Queen. No primeiro evento, realizado ano passado, houve uma leitura de um trecho do livro Alice no País das Maravilhas e uma palestra feita pelo físico de partículas Dr. Harry Cliff, explicando as origens da teoria da antimatéria.

A audiência em um dos encontros realizados. Realmente me parece muiito mais animado que qualquer culto religiosos do qual eu já tenha participado.

A plateia em um dos encontros realizados. Realmente, me parece muito mais animado que qualquer culto religioso do qual eu já tenha participado.

Mas também há momentos mais sérios. Em um determinado momento, Jones pediu que os participantes curvassem a cabeça em contemplação e falou sobre a morte de sua mãe e como esse evento influenciou em sua própria jornada espiritual e em sua determinação de aproveitar cada segundo da vida.

Então, resumidamente, a Igreja Ateísta é isso. Um local de encontro para pessoas que querem se divertir, fazer novas amizades, ouvir música boa, aprender coisas novas e contemplar sobre a vida. Acho muito difícil alguém, seja religioso ou não, encontrar bons motivos para se opor a uma congregação com esses objetivos.

É claro que se pode contestar o fato de isso ser realmente uma igreja. Eu, particularmente, acho que não, e o próprio Jones admite que a denominação “Igreja Ateísta” foi dada com objetivos meramente marketeiros:

“A frase ‘Igreja Ateísta’ é algo que usamos quando começamos [os encontros]. Parecia uma frase boa e curta para explicar o que éramos (e definitivamente nos ajudou a conseguir atenção da mídia, o que foi vital para tirar a Sunday Assembly do papel). No entanto, nós não focamos no ateísmo, e sim na celebração da vida.”

Pode-se argumentar que essas reuniões na verdade são mais parecidas com shows, peças teatrais, palestras, ou com qualquer outra coisa, e que chamá-las de Igreja é simplesmente uma deturpação dessa nomenclatura. Mas aí nós estaríamos  inutilmente discutindo semântica.

Independente do nome que se dê a essas reuniões, elas me parecem muito interessantes e divertidas e eu certamente compareceria a uma se tivesse chance.

E é claro que nada disso significa que o ateísmo é uma religião. Construir um templo com o mero objetivo de promover o ateísmo me parece um imenso desperdício de dinheiro. E definitivamente não parece ser o que acontece nesses encontros.

Longe de querer transformar o ateísmo em um novo sistema religioso, a Igreja Ateísta (ou seja lá como você queira chamá-la) só parece atestar uma coisa: assim como os religiosos, muitos ateus também gostam de se reunir e de aproveitar uma chance de celebrar a vida.

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Levy Fidelix E A Homofobia

No último domingo, dia 28, foi veiculado na televisão mais um debate entre os candidatos à presidência da república, promovido pela Rede Record. Você pode assistir ao debate completo clicando aqui:

Porém, um dos segmentos que acabou chamando maior atenção foi quando o candidato do PRTB, Levy Fidelix, respondeu a uma das questões da candidata do PSOL, Luciana Genro. A candidata perguntou a Levy o que ele pretende fazer em relação à violência contra os homossexuais e por que os candidatos que insistem em falar tanto da preservação da família relutam  em reconhecer a união homoafetiva como uma entidade familiar. A resposta do candidato já entrou para os anais da política brasileira como uma das piores coisas que um candidato poderia falar em rede nacional:

“- Aparelho excretor não reproduz. Como é que pode, um pai de família, um avô, ficar aqui escorado porque tem medo de perder voto? Prefiro não ter esses votos, mas ser um pai, um avô que tem vergonha na cara, que instrua seu filho, que instrua seu neto. Vamos acabar com essa historinha. Eu vi agora o santo padre, o papa, expurgar – fez muito bem – do Vaticano, um pedófilo. Está certo! Nós tratamos a vida toda com a religiosidade para que nossos filhos possam encontrar realmente um bom caminho familiar! […] Você já imaginou? O Brasil tem 200 milhões de habitantes, daqui a pouquinho vai reduzir pra 100. Vai pra avenida Paulista, anda lá e vê. É feio o negócio, né? Então, gente, vamos ter coragem, nós somos maioria, vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los. Não tenha medo de dizer que sou pai, uma mãe, vovô, e o mais importante, é que esses que têm esses problemas realmente sejam atendidos no plano psicológico e afetivo, mas bem longe da gente, bem longe mesmo, porque aqui não dá.”

Depois desse desvario verborrágico, choveram críticas direcionadas ao candidato. Ativistas LGBT marcaram um beijaço na Av. Paulista em protesto contra suas declarações, a OAB pediu a cassação da candidatura de Levy, alegando o uso de discurso de ódio e o deputado federal Jean Wyllys planeja entrar com uma ação contra o candidato.

Fazer uma análise aprofundada do que Levy falou se torna até difícil, pois foram tantos equívocos juntos que fica complicado saber por onde começar…

Bom, em primeiro lugar, acho que devemos definir o básico: determinar se ele tem ou não o direito de se expressar da maneira como se expressou.

O artigo 5° da nossa Constituição, que elenca os direitos fundamentais dos cidadãos desse país, determina, em seu inciso IV que:

IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.

Graças a esse inciso, muitos cristãos conservadores e/ou homofóbicos se apressaram em dizer que ao fazer sua afirmação, o candidato estava apenas exercendo seu direito constitucional de liberdade de expressão.

No entanto, esse mesmo artigo, logo no inciso seguinte, também determina os limites dessa liberdade, ao decretar que:

V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem.

Ou seja, o direito de liberdade de expressão é realmente dado a todos os cidadãos, porém, a própria Constituição reconhece que devemos usá-lo conscientemente, nos responsabilizando por qualquer dano que nossas manifestações possam causar a terceiros. Afinal, assim como qualquer outro direito que possuímos, esse não é absoluto, e só pode ser exercido até o ponto onde não fira o direito de outras pessoas, um entendimento mais do que confirmado por nosso Poder Judiciário, como, por exemplo, na recente decisão judicial que determinou que o Youtube retirasse do ar um dos vídeos do canal Porta dos Fundos que citava o nome do candidato a governador do Rio, Anthony Garotinho porque, segundo a juíza:

“[…] a liberdade de manifestação do pensamento e a livre expressão de manifestação artística não são direitos absolutos, “devendo ser limitados a fim de que não ocorram abusos e ofensas a outros direitos fundamentais”.”

É justamente por isso que, apesar de podermos ter a opinião que quisermos, temos que tomar cuidado com a maneira, o local e o contexto em que expressamos essas opiniões.

Essa dinâmica se torna mais óbvia ao fazermos o seguinte experimento mental: imaginar o candidato Levy se referindo a qualquer outra minoria social com essa mesma animosidade.

Pensem no que aconteceria se, ao invés de falar dos homossexuais, ele afirmasse, por exemplo, que os brancos tinham que enfrentar a minoria de negros no país. Ou que os nordestinos deveriam ser tratados psicologicamente, mas bem longe dele. Ou equiparasse todos os indígenas a pedófilos. Haveria grandes chances de ele já sair do debate algemado, uma coisa que provavelmente só não aconteceu devido ao fato de o crime de homofobia não ter sido ainda totalmente regulado, de o candidato ter se referido a uma minoria que ainda é discriminada por boa parte da população (talvez a maioria) e também por ele ter baseado seu ponto de vista em fundamentos religiosos, o que é sempre um trunfo na hora de se livrar de declarações discriminatórias.

Então, já me parece mais do que óbvio que uma declaração dessa natureza merecia ser repudiada pelo simples fato de possuir o potencial de amplificar o ódio a um grupo social minoritário. Mas, indo além, vamos analisar com mais cuidado o conteúdo do diálogo para ver se pelo menos o ódio demonstrado pelo candidato seria justificável no contexto do debate político.

A candidata Luciana o questionou a respeito de um problema de ordem pública: a violência e a discriminação sofridas por uma minoria dentre os cidadãos do país. Se o candidato tem a mínima pretensão de um dia chegar à presidência do Brasil, esse seria um dos problemas concretos com os quais ele teria que lidar, independente de sua opinião pessoal sobre os envolvidos. Mas ao invés de responder à pergunta, ele preferiu tergiversar e levar o assunto para um caminho totalmente diverso do questionado, apresentando sua repulsiva opinião, que não deveria ter relevância nenhuma no tema.

Um presidente não tem que, por exemplo, gostar de idosos para gerir bem os recursos da Previdência Social, ou sentir um apreço pessoal por crianças para investir em creches e escolas elementares. Nesse mesmo sentido, como chefe de governo ele não teria que gostar ou deixar de gostar de gays para combater a discriminação a essa minoria, o papel dele seria o de garantir os direitos civis de cidadãos que fazem parte do povo e que ainda não possuem os mesmo direitos que todos os outros. E era algo nessa linha que responderia qualquer candidato que não deixasse suas crenças e opiniões pessoais se sobreporem às suas pretensas obrigações. Se ele não consegue separar suas convicções particulares de seus deveres públicos, fico apreensivo em pensar como seria sua atuação na presidência em outros setores.

Além disso, que compulsão esquisita é essa com a reprodução dos cidadãos e com a quantidade de habitantes do Brasil? No cenário atual, onde a superpopulação e a escassez de recursos são uma preocupação para a maioria dos governantes e cientistas, o candidato realmente acha que o fato de menos filhos serem gerados deveria mesmo ser uma prioridade com a qual lidar? Talvez essa forma de pensar faça sentido para alguém que segue inquestionavelmente a um livro sagrado que determina que devemos simplesmente “multiplicar-nos e encher a terra”, mas muitos ambientalistas e cientistas políticos veriam o declínio da população brasileira de 200 para 100 milhões de habitantes no mínimo, se não como uma coisa boa, pelo menos como uma coisa a ser posta nos últimos lugares da lista de problemas a serem tratados – embora isso obviamente não fosse acontecer caso se legalizasse o casamento homoafetivo, já que um acontecimento não tem nenhuma relação direta com o outro.

Mas é claro que nenhum desse argumentos importam para quem poderia tirar proveito dessas declarações. Alguns fundamentalistas religiosos não demoraram a demonstrar seu apoio à visão de mundo homofóbica do candidato Levy. Bastou o debate terminar para que o onipresente e sempre sábio pastor Silas Malafaia deixasse sua preciosa opinião a respeito do ocorrido em seu twitter:

silas_malafaia_-_levy_fidelix

Sim, é óbvio que aparelho excretor não reproduz. E daí? Alguém por acaso estava afirmando o contrário?  E qual é a relevância disso na discussão? Diferentemente dos religiosos fundamentalistas, acho que os outros candidatos estavam menos preocupados com a capacidade dos homossexuais gerarem filhos do que com a desigualdade de direitos desse grupo. E se somente comportamentos que são capazes de gerar filhos fossem aceitos nos casamentos, nenhum casal, hétero ou não, deveria se beijar, se masturbar, fazer sexo anal, ou, pensando a fundo, consumar qualquer outro ato íntimo que não tivesse o estrito objetivo da procriação.

Aliás, como eu já observei anteriormente, se quem não tivesse o potencial de gerar bebês não pudesse se casar, teríamos também que impedir o casamento entre idosos, pessoas estéreis, assexuados ou quem simplesmente não quer ter filhos, sejam homossexuais ou não.

Mas o pior dessa história não foi ver líderes religiosos apoiando o candidato como se ele tivesse proferido uma impressionante revelação divina. Eles ganham muito dinheiro e mantém o poder sobre seu rebanho ao apoia-lo, então isso já era esperado. Talvez  em seu íntimo eles nem concordem com o que o Levy afirmou, mas apoiá-lo enfaticamente faz parte do jogo negocial da religião comercial.

A pior parte mesmo foi perceber como o povo brasileiro (talvez a maior parte dele) reagiu a essas afirmações. Em sites que noticiavam a declaração dada por Levy, os comentários dividiam-se basicamente entre o repúdio enojado e a concordância plena, mas com uma clara vantagem numérica desses últimos.

comentários

Comentários como esses demonstram como a repulsa ao que foge do tradicional já está entranhada em nossa cultura e o quanto a discriminação a quem pensa ou age de maneira diferente parece ser vista como uma coisa normal, ainda que essas ações ou pensamentos não afetem ou digam respeito a ninguém além de quem os pratica.

É bem provável que Levy tivesse consciência disso e que tenha tomado uma atitude desvairada como essa propositalmente, adotando uma espécie de estratégia kamikaze arriscada para conquistar alguns votinhos de última hora de conservadores bitolados. E ao que parece, essa burlesca possibilidade pode realmente ocorrer.

Acho que a velha máxima de que cada povo tem os governantes que merece nunca me pareceu tão bem ilustrada.

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DIA DA HERESIA – Religião e Política

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Bem vindos a mais um DIA DA HERESIA. Este é um espaço utilizado para se falar tudo que for relevante a respeito de um tema controverso específico que envolva a religião, apresentando minha opinião como ateu.

E o tema desse mês será:

RELIGIÃO E POLÍTICA

O mês de outubro está chegando e, como em todo ano par, isso significa uma coisa: as eleições se aproximam!

Eleições no Brasil são sempre parecidas. Um monte de políticos de sorrisos amarelos fazem campanha na televisão, jingles idiotas são criados e retumbados pelas ruas em carros de som barulhentos, as vias públicas são poluídas com toneladas de santinhos e panfletos, cavaletes nas calçadas atrapalham o ir e vir das pessoas, outdoors são erguidos em lugares improváveis, artistas tentam alavancar suas carreiras em showmícios tumultuosos e empresas investem milhões nas campanhas políticas visando conseguir favores dos eleitos após a eleição.

Tudo isso, claro, para que o povo, bem instruído como é, possa exercer plenamente seu direito democrático de escolher racional e conscientemente seus representantes, em uma votação a qual você não tem a liberdade de deixar de comparecer.  E, no final das contas, são eleitos sempre os mesmos políticos ou seus indicados, e nada muda no país. (E eu, que sou “convidado” a ser mesário em todas as eleições, sinto os valores democráticos correndo com toda força em minhas veias a cada dois anos, quando tenho que sair da minha cama às 6 da manhã de um domingo.)

Porém, as últimas eleições têm apresentado um lado que há algumas décadas não parecia ser tão pronunciado em nosso país. A participação maciça de religiosos no processo eleitoral.

Não que a religião não influenciasse na política antes. Afinal, desde que o homem se organizou em sociedade, essas duas instituições estão intimamente ligadas. Em praticamente todas as comunidades antigas os líderes religiosos dividiam o poder com os políticos, isso quando não o exerciam diretamente. E democracias mais maduras que a brasileira dispõem até hoje de partidos com orientações religiosas, como o Cristão-Democrata francês e o União Social-Cristã alemão.

No Brasil, particularmente, a Igreja Católica foi, durante décadas,  uma das principais forças políticas a influenciar nossas eleições. Candidatos que apoiassem projetos contrários aos interesses da Santa Sé frequentemente eram derrotados nas urnas. Porém, essa influência exercida pela Igreja nunca foi direta.

O código de direito canônico, que são as leis editadas pelo Vaticano e que pautam o comportamento de seus sacerdotes, condena a candidatura de padres e bispos a cargos políticos, estipulando no parágrafo 2º de seu artigo 287 que eles:

[…] Não tomem parte activa em partidos políticos ou na direcção de associações sindicais, a não ser que, a juízo da autoridade eclesiástica competente, o exija a defesa dos direitos da Igreja ou a promoção do bem comum.

Como se pode perceber, essa não chega a ser rigorosamente uma proibição. Já houve casos de esclesiásticos da Igreja Católica sendo eleitos para cargos políticos. Porém essa norma da Santa Sé faz com que eles sejam raras exceções. A influência exercida pela Igreja na política sempre foi feita de maneira mais indireta, através do doutrinamento de seus milhões de fiéis.

Assim, se um candidato surgisse defendendo uma idéia que contrariasse a doutrina católica, como por exemplo, a descriminalização do aborto, ele era automaticamente visto com maus olhos por um imenso número de eleitores influenciados pelos dogmas da Igreja e acabava não sendo eleito. O que, em certa medida, tem reflexos até hoje, bastando notar a mentalidade conservadora do eleitor brasileiro médio.

Esse conservadorismo parecia tendente a diminuir com o tempo, principalmente por conta da queda do poder e do número de fiéis da Igreja Católica no país. Porém, ironicamente a situação se agravou, pois em resposta à diminuição de seguidores católicos, uma nova força religiosa vem se erguendo em nosso país: os evangélicos.

Se os católicos possuem uma liderança centralizada, que pode ditar regras a serem seguidas por todos, como a que rejeita a participação política direta, o mesmo não pode ser dito dos evangélicos. Cada denominação evangélica tem suas próprias normas internas, e nenhuma delas parece muito acanhada em eleger seus líderes e sacerdotes para cargos políticos.

Pelo contrário. Para essas orientações religiosas, o fato de um candidato ostentar a sua função eclesiástica é um trunfo que pode render mais votos, motivo pelo qual o número de candidatos estampando cargos como “bispo” e “pastor” à frente de seus nomes aumentou quase em 50% em relação às eleições de 2010, segundo uma reportagem da revista Época.

O exemplo mais notório disso já pode ser percebido entre os candidatos ao maior cargo do poder executivo, o de presidente da República. Um dos  postulantes a ocupar o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos é um pastor, que faz questão de evidenciar seu cargo clerical em seu material de campanha.

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Se há algumas décadas os evangélicos eram um grupo com pouca capacidade de influenciar os rumos de Brasília, o aumento de igrejas pentecostais e neo-pentecostais fez com que esse cenário mudasse. Uma outra reportagem da revista Época, feita no início desse mês, mostra como o voto dos evangélicos se tornou um poderosa arma nas últimas eleições, sendo decisivo na escolha de alguns candidatos.

Não é difícil perceber que agradar esse público passou a ser uma prioridade para qualquer político que queira possuir alguma chance de ser eleito. Agora todos os candidatos a qualquer cargo ficam pisando em ovos ao tratarem de temas que podem causar atrito com os evangélicos, como a descriminalização de drogas ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Um exemplo de como essa mudança no panorama religioso afeta o discurso político pode ser percebido em um posicionamento da presidente Dilma. Em outubro de 2007, quando ainda era ministra-chefe da Casa Civil, ela deu a seguinte declaração a respeito da legalização do aborto, segundo essa reportagem do jornal O Globo:

“Olha, eu acho que tem que haver a descriminalização do aborto. Hoje, no Brasil, isso é um absurdo que não haja a descriminalização.”

Em outubro de 2010, quando se candidatou ao cargo de presidente, ao perceber que seu posicionamento poderia custar o voto de eleitores conservadores, entre os quais os evangélicos, ela já passou a adotar um tom mais precavido em sua abordagem a respeito do assunto, afirmando uma coisa que, curiosamente, ia em total contradição ao que ela havia afirmado antes:

“Sou pessoalmente contra o aborto e defendo a manutenção da legislação atual sobre o assunto. Eleita presidente da República, não tomarei a iniciativa de propor alterações de pontos que tratem da legislação do aborto e de outros temas concernentes à família e à livre expressão de qualquer religião do país.”

E agora que está concorrendo à reeleição, a ordem de seu comitê de campanha é de evitar a todo custo a menção a temas espinhosos para os religiosos, com o declarado objetivo de conquistar o eleitorado evangélico. Uma estratégia que parece estar sendo seguida com afinco, quando notamos que, entre administrar um país e coordenar sua candidatura, a chefe de governo ainda conseguiu reservar um espaço em sua agenda para comparecer à inauguração do maior templo da maior congregação evangélica do país.

Sua adversária direta na luta pela presidência, Marina Silva, é, por sua vez, uma fiel da congregação evangélica Assembleia de Deus, e não esconde seu alinhamento à doutrina religiosa deste grupo, ao se posicionar pessoalmente contra a pesquisa com células-tronco e contra a descriminalização do aborto.

Se a candidatura de Dilma já dá sinais de sofrer certa influência exercida pelas tendências doutrinárias evangélicas, a de Marina a torna escancarada.

Ao lançar o programa de governo do seu partido para essas eleições, Marina – possivelmente contrariando suas convicções pessoais – defendia o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da criminalização da homofobia. Uma postura que, obviamente, deixou as lideranças religiosas evangélicas desgostosas.

Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, apontado como um dos pastores mais ricos do país, não deixou barato. Em seu twitter,  o líder religioso disparou uma série de declarações criticando o programa do partido e cobrando de Marina explicações a respeito de seu posicionamento:

Twitter malafaia

Bastou isso para que, no dia seguinte ao anúncio, o partido emitisse uma nota se retratando e informando que houve uma “falha processual na editoração” do programa e que, na verdade, eles não apoiavam a proposta de legalizar o casamento igualitário no Brasil.

Se um simples tweet do líder de uma congregação evangélica já é o suficiente para fazer com que uma candidata a presidente volte atrás e passe a afirmar quase o oposto do que vinha afirmando antes, imagine o que eles não poderiam fazer se essa candidata já estivesse no poder.

Já o terceiro candidato à presidência com maior número de intenções de voto segundo as pesquisas, Aécio Neves, é o que parece ser o mais neutro dos três em relação aos temas controversos para os religiosos. Ele diz não se opor ao casamento gay, que isso já é parte de nossa realidade e é uma pauta do passado. Ele acha que a legislação atual sobre aborto atende as demandas do Brasil e disse que não as modificaria. E afirma não ser a favor da descriminalização da maconha, mas defende um debate público sobre o assunto. Como se pode ver, ele parece estar se esforçando para ficar completamente em cima do muro em relação a todos esses assuntos espinhosos e não se comprometer. O que talvez explique porque ele está em terceiro lugar, enquanto as outras duas estão disparando à sua frente, com a conquista dos religiosos e conservadores…

No poder legislativo, a influência religiosa também só parece estar aumentando. A bancada evangélica, frente parlamentar composta por líderes e fieis dessas congregações religiosas que, apesar de pertencerem a partidos diferentes, se articulam para que seus votos sempre atendam a seus interesses teológicos, já seria o terceiro maior partido político da Câmara se contituísse uma só legenda, um cenário que, aliás, pode vir a se tornar verdadeiro em breve, com a possível fundação de um partido político evangélico.

Integrantes da bancada evangélica realizando um culto durante uma sessão da Câmara.

Integrantes da bancada evangélica realizando um culto durante uma sessão da Câmara.

Caso as eleições acompanhem a tendência demográfica dos evangélicos, é possível que por volta de  2040, os parlamentares evangélicos já se tornem maioria no Congresso.

Nesse ponto, devemos parar e nos perguntar: essa influência excessiva de um grupo religioso específico na política nacional seria necessariamente uma coisa ruim? E se seria, por que, exatamente?

Afinal, nós vivemos em uma democracia. Teoricamente, nossos governantes são os representates do povo, e escolhidos por este. Então, se a maioria dos nossos políticos um dia chegar a ser composta por líderes ou seguidores de determinada orientação religiosa não seria porque a maioria da população, em um processo democrático os elegeu? Eles não estariam, no fundo, representando o interesse da maior parte da nação, inclusive em sua crença religiosa?

Bom, a meu ver, esse cenário ilustra com perfeição um dos principais problemas do sistema democrático moderno: o governo das maiorias sobre as minorias. Praticamente todos os sistemas atuais de escolha de representantes políticos se baseiam somente no número absoluto de votos da população. E isso faz com que, invariavelmente, as camadas da população com um número menor de pessoas acabem com um poder político menor que os outros, um fato que se aplica não somente em relação à religião, mas a qualquer posição minoritária: etnias, posições filosóficas, orientação sexual, origem geográfica etc. Qualquer grupo desses que possua o menor número de pessoas automaticamente possuirá também menor representação política.

Essa falha no sistema democrático também é a causadora do circo no qual se tornou a política brasileira atual, com a execução das fanfarronagens descritas no primeiro parágrafo desse artigo. Como o número de votos recebidos é o fator mais importante para ser eleito, os políticos sabem que o método mais eficiente de alcançar o poder é se utilizar de métodos que façam com que eles fiquem em evidência para as massas votantes. Todo político quer virar um meme nessa época do ano. Daí vem os carros barulhentos, os jingles grudentos etc. E já sendo a religião naturalmente um meme, um sistema de propagação de ideias e de doutrinação de mentes, não foi difícil para eles perceberem como ela também poderia ser utilizada para o arrebanhamento de mais votos.

Isso é facilmente notável quando percebemos que nessa época de eleições diversos líderes religiosos surgem apoiando candidatos políticos de seu interesse, a exemplo do próprio pastor Silas Malafaia, que há meses aparece em cartazes e propagandas apadrinhando os candidatos Sóstenes Cavalcante para a Câmara dos Deputados e Samuel Malafaia – que curiosamente é seu próprio irmão – para a Assémbleia Legislativa do Rio.

Malafaia apoiando seus candidatos, sem nenhum interesse pessoal, obviamente.

Malafaia apoiando seus candidatos, sem nenhum interesse pessoal, obviamente.

É claro que esses apoios não são dados pelos pastores por eles acharem que esses candidatos são os mais indicados a liderar o povo ou porque eles realmente acreditam que eles possuem as melhores propostas legislativas para o país. Esses apoios são devidos primeiro porque esses candidatos possuem (ou fingem possuir, o que na prática dá na mesma) a mesma orientação religiosa do pastor, e segundo, porque ele sabe que ao ajudar esses candidatos a serem eleitos, uma vez que eles estejam no poder, podem ajudar a aprovar leis que ajudariam a legitimar e fortalecer o domínio dos religiosos sobre seus fieis.

Exemplos de como esses políticos passam a legislar em causa própria após as eleições não faltam entre as propostas da bancada evangélica. Em 1999, foi proposta na Câmara a PEC-99, que visava dar às igrejas o poder de contestar a constitucionalidade de leis diretamente ao Supremo Tribunal Federal, de autoria do deputado João Campos,  pastor da Assembleia de Deus e líder da bancada evangélica que, diga-se de passagem, foi também o autor do famigerado projeto da cura gay. Em 2009, outro membro da bancada evangélica apresentou um projeto que favoreceria diretamente as igrejas evangélicas: o PLC-160/2009, chamado de Lei Geral das Religiões, que daria a essas congregações vantagens fiscais já desfrutadas pela Igreja Católica. O autor dessa vez foi o deputado George Hilton, pastor da Universal do Reino de Deus, que foi expulso em 2005 do seu antigo partido, o PFL, ao ser detido transportando dinheiro da Igreja Universal em um jatinho particular.

Esses são apenas alguns exemplos, mas tramitações legislativas como essas, onde os parlamentares religiosos buscam retribuir os que apoiaram suas candidaturas ou favorecer suas próprias congregações religiosas existem às dúzias. Fica claro que a preocupação com o futuro do país ou até mesmo dos seus fieis nas igrejas fica, no mínimo, em segundo plano na mente desses políticos. O mais importante é garantir meios de perpetuar a influência que eles possuem sobre a sociedade e de somar ainda mais zeros às suas já polpudas contas bancárias.

E nem mesmo as irregularidades cometidas por esses políticos parecem ser capaz de indicar aos seus eleitores que eles talvez não sejam  a melhor opção a se colocar no plenário. A doutrina a que eles são submetidos é tão forte que, mesmo após a revelação de escândalos e crimes, eles continuam imaginando que por eles estarem no altar de uma igreja ou no púlpito de um culto, eles são representates de uma divindade, que o que eles estão realizando é a vontade divina então, obviamente, são também os melhores candidatos a serem eleitos. Ao que parece, uma boa parte dos religiosos continua levando a sério a filosofia de que “crente vota em crente”.

Crente vota em Crente! Não, espera...

Crente vota em Crente! Não, espera…

É espantoso, por exemplo, constatar como, mesmo após o envolvimento de 23 parlamentares da bancada evangélica no escândalo de desvio de dinheiro público que ficou conhecido como a Máfia dos Sanguessugas, em 2006, ou com seus parlamentares sendo considerados os mais ausentes e processados do país, a fé do eleitorado evangélico em seus líderes não parece ter diminuído nem um pouco, já que um número cada vez maior de pastores e bispos são eleitos para ocupar as cadeiras de nosso Parlamento.

Alguns líderes religiosos mais caras de pau chegam a abandonar completamente os pudores em relação à laicidade do Estado (sem falar da ética e do bom senso) e procuram candidatos interessados em comprar os votos dos fieis de sua congregação, institucionalizando, então, o voto de púlpito, uma nova leitura dos antigos votos de cabresto.

Em um país que se diz laico e cuja Constituição prega a separação entre a Igreja e o Estado, essa tendência é preocupante. Se hoje alguns políticos cristãos já veem com normalidade o fato de a Bíblia ser priorizada frente às leis, imagino como esses políticos se comportariam caso se tornassem a maioria dos membros do parlamento. Talvez seja exagero dizer que o Brasil está caminhando para se tornar uma teocracia moderna, a exemplo do Sudão e do Irã. Mas essa é uma aterradora possibilidade que não pode ser descartada.

Na melhor das hipóteses, eu diria que, caso a ascenção dos evangélicos e de sua influência política continuem no ritmo em que se encontram atualmente, o Brasil em breve será no mínimo parecido com Israel – que hoje é considerada por muito teóricos políticos como uma etnocracia liberal – onde o povo teoricamente exerce o poder democraticamente, mas uma classe social majoritária tem notáveis privilégios sobre as minorias.

E qual seria o caminho para se evitar isso?

Bom, eu consigo vislumbrar duas maneiras óbvias de se evitar que o evangelismo político divida efetivamente o país. A primeira seria uma revolução, violenta ou pacífica, que impediria os líderes religiosos de exercerem o poder político diretamente. Se você estivesse no rol de fundadores, diretores, administradores, dirigentes ou líderes de cultos em uma igreja, não poderia se candidatar a nenhum cargo político, institucionalizando no país inteiro uma regra parecida com a que o Vaticano aplica aos seus clérigos. Como qualquer solução radical, essa implicaria em notáveis consequências negativas. Por exemplo, se essa proibição fosse aplicada somente a evangélicos ou a qualquer outra denominação específica, estaríamos legalizando a discriminação a um setor da sociedade, que perderia seu sufrágio, retrocedendo na liberdade democrática que a sociedade levou tanto tempo para alcançar. E se, por outro lado, essa medida fosse estendida a líderes de todas as religiões, as minorias religiosas, que já não possuem muita representação política, perderiam de vez a possibilidade de elegerem representantes que defendessem seus interesses diretamente.

A outra maneira de se evitar isso seria investirmos maciçamente em educação e cultura, para que as futuras gerações que irão exercer seu direito de voto o façam de maneira consciente, elegendo candidatos que defendam racionalmente propostas que tragam benefícios ao povo, sem discriminações ou benefícios, e não somente por eles pertencerem a determinada congregação religiosa.

Porém essa segunda opção é uma medida que, infelizmente, depende dos políticos que já estão no poder para ser posta em prática, e que, obviamente, não iriam tomar nenhuma atitude que fizesse com que esse poder diminuísse ao longo do tempo. Quanto mais ignorante eles mantiverem a população, melhor será para políticos que queiram se aproveitar do sistema vigente para atingir interesses próprios.

Por isso mesmo, eu receio que nosso país já tenha entrado em um círculo vicioso do qual talvez não haja saída. A cada eleição que se aproxima eu vejo mais e mais pessoas alienadas politicamente e mais candidatos se aproveitando disso, e não somente através da religião, mas por qualquer outro meio que eles possam utilizar para manter o status quo da miséria e do poder. E não vejo nenhum sinal de melhoria no horizonte.

Sinceramente, temo pelo futuro desse país.

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Novo Projeto – Palavra do Ateu

Senhoras e senhores, como eu havia prometido depois que voltei das férias, trago novidades.

Estou iniciando uma novo projeto no Youtube, que será realizado em paralelo a esse blog. Um programa chamado “Palavra do Ateu”, em que eu abordarei temas concernentes ao ateísmo e à religião.

Embora a temática dos vídeos seja parecida com o conteúdo desse blog, a maneira de abordá-la será um pouco diferente. Como a natureza da mídia impressa não é igual à da filmada, embora alguns assuntos se repitam aqui e no canal do Youtube, provavelmente o enfoque dado a eles será diferente. Por escrito eu posso, por exemplo, me aprofundar em um ponto específico de um problema, enquanto em vídeo eu tenho que ser mais dinâmico. Porém em uma gravação eu posso utilizar animações e a interatividade com o público pode ser maior.

Provavelmente de vez em quando eu terei que repetir em vídeo algo que eu porventura já tenha dito aqui, acho que isso será inevitável. Mas enfim, como eu disse é um projeto, pode ser que ele dê frutos ou não. Pelo menos agora vocês já podem, além de ler minhas palavras mal escritas aqui, ver a minha cara feia e ouvir minha voz de taquara rachada. O primeiro vídeo, uma introdução, já foi publicado, e vocês podem assisti-lo abaixo. Mais alguns serão publicados em breve.

Eu adoraria ouvir a opinião de vocês sobre o projeto. Sintam-se à vontade para sugerir quais temas devem ser abordados futuramente e dar conselhos do que pode ser melhorado. Se vocês quiserem apoiar o projeto, classificá-lo positivamente no Youtube ou inscrever-se no canal já será de imensa ajuda. Grato.

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O Eterno Conflito Entre Israel E Palestina

Em meu último post eu narrei o contato que tive com a cultura islâmica na Bósnia e Herzegovina durante minhas férias. As coisas que eu vi e ouvi por lá me fizeram chegar à conclusão de que, ao contrário do que alguns afirmam, é possível sim uma pessoa seguir o islamismo e conseguir viver em paz com pessoas de outros credos.

Infelizmente, enquanto eu estava no leste Europeu, teve início mais um conflito entre Israel e a Palestina, na Faixa de Gaza. Eu me vi então em um cenário curioso, pois estava testemunhando duas situações antagônicas. Onde eu estava, havia seguidores de diferentes religiões, entre os quais uma maioria de islâmicos, conseguindo conviver bem uns com os outros – se não em harmonia total, pelo menos em uma relativa paz.

Enquanto isso, a apenas alguns milhares de quilômetros a sudeste, israelenses e palestinos se explodiam em nome de Jeová e Alah. Até eu finalizar esse artigo, o número de mortos já passava dos dois milhares e o custo estimado de reconstrução de Gaza estava acima dos 6 bilhões de dólares.

A região que é palco dos conflitos entre as duas nações.

A região que é palco dos conflitos entre as duas nações.

Diante desse contrassenso, eu resolvi falar um pouco e também tentar entender a respeito desse aparentemente eterno conflito na região da Palestina.

A primeira pergunta que se pode fazer ao ler as notícias vindas daquele canto do planeta seria: afinal, por que essa gente se mata tanto? A resposta normalmente dada a esse questionamento é tão simples que pode até parecer ridícula a um observador externo: os dois grupos estão dispostos a matar e a morrer pela região em disputa por acharem que ela é sagrada.

É claro que essa é a versão simplista da história. Ao se analisar a situação mais profundamente podemos chegar a outras conclusões. Mas tentar entender essa conflito é  uma tarefa não muito fácil, já que os grupos envolvidos ocupam aquela área literalmente há séculos.

Os judeus, que formam o Estado de Israel, supostamente circulam por ali desde os tempos de seu patriarca bíblico mais antigo, Abraão, que teria vivido em alguma época entre os séculos XXI e XVIII AEC. Embora alguns historiadores e estudiosos defendam com bons argumentos a hipótese de Abraão nunca ter existido e se tratar somente de mais uma figura mística da história hebraica, isso não importa para os israelenses atuais. O que importa é que eles acreditam que Jeová teria prometido dar aos descendentes de Abraão o controle sobre aquelas terras algum dia, por isso o mandou se dirigir àquela religião, onde ele então deu origem ao restante da nação de Israel.

A partida de Abraão para Canaã, na visão de Molnár József.

A partida de Abraão para Canaã, na visão de Molnár József.

Porém, apesar das promessas do Todo Poderoso, os judeus não permaneceram efetivamente no controle da região por muito tempo. Ao longo dos séculos a área passou por diversos domínios, tendo sido invadida e ocupada pelos assírios, babilônios, persas, macedônios e romanos. Esses últimos inclusive foram os que renomearam a região como Palestina, já que ela era até então conhecida pelos judeus como Canaã.

No ano de 70 EC, após uma revolta que durou quatro anos, os romanos destruíram o templo dos judeus e, supostamente, os expulsaram da região. A partir de então o povo judaico passou a viver em êxodo, ao redor daquela área. (Muitos historiadores argumentam que os judeus não foram realmente exilados, só perderam o poder político, o que parece ser corroborado pelas evidências históricas).

Passado algum tempo, ocorreu o surgimento do Islã, no século 7, e a Palestina passou então a ser ocupada pelos muçulmanos. O Império Otomano permaneceu no domínio da região até o início do século XX. Isso só veio a mudar após a Primeira Guerra mundial.

Durante o conflito mundial, os otomanos apoiavam os alemães. Com a derrota do Império Alemão e a vitória dos Aliados na guerra, o Império Otomano se dissolveu e a administração da região ficou nas mãos do Reino Unido, por conta de um mandato concedido pela Liga das Nações.

Nessa mesma época começou a surgir entre os judeus exilados um movimento chamado sionismo. Os sionistas defendiam a volta do povo judeu à Terra Prometida – Israel – e a criação de um Estado nacional judaico independente e soberano para esse povo.

No entanto, apesar do fim do Império Otomano com a guerra, o povo muçulmano ainda se encontrava na região, e também a considerava um local santo, pois em 638 EC, após a conquista da região pelo califado islâmico, a cidade  de Jerusalém, capital da Palestina, passou a ser considerada a terceira localidade mais sagrada para o Islã, atrás apenas de Meca e Medina.

Após a Segunda Guerra Mundial, os terrores causados ao judeus no holocausto fizeram com que a pressão para o estabelecimento de um estado Judeu aumentasse. Vendo a batata quente que tinha nas mãos, o Reino Unido decidiu passar o problema para a recém-criada ONU. Em 1947 a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou um plano de partilha da Palestina, que recomendava a criação de um Estado Árabe e um Estado Judeu independentes, enquanto Jerusalém teria um regime especial, ficando sob controle internacional, a cargo da ONU, um plano que supostamente agradaria aos dois lados.

Porém, na prática não agradou. Esse plano foi aceito pelos israelenses, mas não pelos palestinos, que o viam como uma perda de seu território, e, por isso, nunca foi oficialmente implantado.

Cansados de esperar que a ONU solucionasse o dilema, em 14 de maio de 1948 os judeus decidiram se declarar independentes e fundaram o Estado de Israel. No dia seguinte o país solicitou a adesão à ONU, um status que alcançou um ano depois, com 83% dos membros das Nações Unidas reconhecendo sua independência e soberania.

Os palestinos obviamente não ficaram nem um pouco satisfeitos com a situação e isso propiciou o surgimento de alguns grupos islâmicos radicais que se opunham à ocupação israelense em territórios que eles consideravam como pertencentes à Palestina, como a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e as Colinas de Golã, e é por isso que essas regiões vivem em constantes conflitos. Um desses grupos radicais é o Hamas, que foi o responsável pelos ataques ocorridos no último mês.

Integrantes do Hamas tomando o escritório do presidente palestino em 2007.

Integrantes do Hamas tomando o escritório do presidente palestino em 2007.

O Hamas não é o único grupo que luta pela independência da Palestina. Desde a criação de Israel em 1948, já houve dezenas de conflitos e milhares de mortes entre muçulmanos e israelenses naquela área. Israel já guerreou literalmente contra todos os países islâmicos adjacentes à região: Egito, Jordânia, Iraque, Síria e Líbano. Porém, como o país conta com o apoio militar dos EUA, do Reino Unido e de alguns membros da ONU, Israel conseguiu repelir com eficiência todos os ataques sofridos até hoje e alcançou vitórias nas principais campanhas militares que manejou.

Críticos de um lado acusam o outro de se utilizar de táticas terroristas para alcançar seus objetivos. Mas para qualquer observador imparcial, é óbvio que ambos os lados são perpetradores de terrorismo, usando da violência contra inocentes.

Algumas pessoas têm receio de classificar Israel como um Estado terrorista, mas a verdade é que a única diferença entre eles e os palestinos é que esses útimos dispõem de muito menos recursos, por isso suas táticas têm que ser mais improvisadas e não-convencionais. Enquanto eles se utilizam de homens-bomba e sequestradores para atacar seus adversários, os israelenses podem se dar ao luxo de usar helicópteros, bombardeiros e mísseis teleguiados. Mas os dois lados buscam impor terror em seus ataques, e os resultados acabam sendo sempre os mesmos: civis que não têm nada a ver com o conflito político-religioso dos países e até mesmo crianças acabam sendo mortos.

Uma criança palestina investiga os escombros do que era sua casa, na faixa de Gaza.

Uma criança palestina investiga os escombros do que era sua casa, na faixa de Gaza.

Algumas tentativas de paz já foram arranjadas. Acordos foram assinados em certas ocasiões e cessar-fogos são postos em prática de vez em quando. Porém, é só uma questão de tempo até que alguém apareça ignorando os acordos e os confrontos voltem a acontecer na região. A animosidade entre os dois lados parece ser uma equação impossível de se solucionar.

Esse sentimento entre os dois grupos religiosos, tamanho ódio por outras pessoas que aparentemente não fazem nada além de possuir uma crença diferente da sua, não surge do nada. Ele é fruto de uma sociedade que fomenta tais sentimentos. Palestinos e israelenses são doutrinados desde crianças a verem o outro lado como inimigo, como algo menos que seres humanos, como uma coisa a ser eliminada. E se há algo que as religiões entendem bem é que se você orienta uma criança a ver o mundo de determinada maneira, as chances de essa forma de ver o mundo permanecer até a idade adulta é altíssima.

É justamente por isso que os conflitos por lá não parecem muito próximos de um término. Graças a essa doutrinação, nenhum dos dois povos que vivem na região parece aceitar a mera existência do outro no mesmo local. A maioria dos palestinos gostaria que o Estado de Israel fosse extinto e seus cidadãos expulsos da região. E a maioria dos israelenses defende a ideia de que os palestinos tenham que ser confinados a guetos, onde viveriam uma vida à margem da sociedade, o que não deixaria de ser uma forma velada de os expulsarem de seu meio de convívio.

É uma situação difícil de ser compreendida por nós brasileiros, pois nós (ainda) não temos nada parecido com isso em nossa vivência. Por mais que as pessoas aqui discordem do ponto de vista de uma outra em relação à religião, dificilmente você vai encontrar alguém defendendo a ideia de que os que seguem ou deixam de seguir determinada religião deveriam ser expulsos do país, ou pior ainda, sumariamente assassinados. Acho que a única coisa que poderíamos considerar como paralelo dessa situação em nosso país seria a maneira como a mídia e a opinião pública tratam os usuários de drogas, os traficantes e bandidos de uma maneira geral: como problemas à parte da sociedade, uma ameaça a ser eliminada de nosso meio através da força militar, e não como frutos dessa própria sociedade, tendo origem em políticas de educação e segurança equivocadas e apoiadas pelo próprio povo.

Crianças palestinas, sendo ensinadas desde pequenas a pegar em armas para lutar com os "inimigos" israelenses.

Crianças palestinas, sendo ensinadas desde pequenas a pegar em armas para lutar contra os “inimigos” israelenses.

E assim como nessa situação de declaração de “guerra ao inimigo” do Brasil ou de qualquer outro conflito pelo mundo, o caso Israel x Palestina também possui um grupo social que obtém vantagens com essa situação e que a fomenta, estimulando a doutrinação religiosa extremista e essa visão de luta do “bem contra o mal”. São os líderes por trás desses conflitos e que, obviamente, não vão pessoalmente a campo pegar em uma arma e lutar contra os supostos inimigos.

Os políticos e generais israelenses ficam sentados atrás de mesas, confortavelmente controlando seus subordinados e se aproveitando do doutrinamento imposto a eles para manter seus status na sociedade. É sintomática a maneira como, após os conflitos, as terras tomadas dos palestinos são geralmente distribuídas a uma parte da elite rural israelense, via de regra ligada ao governo.

O Comando Maior de Israel,na difícil tarefa de lutar contra os inimigos palestinos.

O Estado-Maior de Israel na árdua tarefa de lutar contra os malvados palestinos.

Por sua vez, o líder do Hamas, Khaled Mashal, é quem controla as doações  feitas pelos islâmicos ao grupo, vindas de todos os países do mundo, e é acusado pela imprensa israelense de ter desviado mais de 5 bilhões de doláres para o próprio bolso. Na semana passada, enquanto seus conterrâneos eram explodidos em mais uma das sangrentas batalhas na região, Khaled estava dando uma entrevista para uma emissora de TV em um hotel de luxo na cidade de Doha, no Qatar, onde vive em exílio.

Khales Meshal, o líder do Hamas, na difícil vida de luta contra os malvados israelenses.

Khaled Mashal, o líder do Hamas, na difícil vida de luta contra os malvados israelenses.

Para esses homens e mulheres, provavelmente pouco importa a religião das pessoas que estão se matando e morrendo nas ruas. Para eles não faria nenhuma diferença se da noite pro dia os israelenses todos virassem budistas e os palestinos se convertessem ao espiritismo, desde que eles continuassem se matando e dando lucro e poder a quem realmente decide a continuidade dos conflitos na região.

Mas apesar de isso ser fácil de ser avaliado por uma pessoa como eu, vendo do lado de fora, para os envolvidos no conflito não deve ser tão simples assim ter essa objetividade. O doutrinamento ao ódio é um círculo vicioso que, uma vez iniciado, tende a se manter indefinidamente. Deve ser difícil para um israelense ou um palestino não verem o outro como inimigo, quando eles sabem que os parentes e amigos da pessoa que está do outro lado do campo de batalha foram os responsáveis pela morte de seus próprios parentes e amigos. As mortes e crueldades que se seguem passam a ser justificadas pelas mortes e crueldades que vieram antes, em um ciclo pérpetuo.

Por isso quando alguém me pergunta se eu vejo alguma esperança de paz para aquela região, eu tenho que me esforçar muito para não dizer simplesmente “Não!“.

Há até esperança de que um dia essa guerra na Palestina acabe, mas será somente sob duas condições: ou se investirá maciçamente nas gerações vindouras, que ainda não foram contaminadas pelas ideologias de aversão aos que são diferentes, o que dependerá quase totalmente das lideranças que estão no poder e que não parecem nem um pouco interessadas em fazer esse investimento, ou os dois grupos continuarão se matando indefinidamente até que não sobre mais ninguém, ou do outro lado do campo de batalha, ou dos dois lados.

Infelizmente a história das guerras religiosas nos demonstra qual dessas situações é muito mais provável…

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Explorando novas culturas

Como os leitores mais atentos devem ter percebido, mês passado eu estava de férias. E uma das melhores coisas a respeito das férias é a possibilidade de se viajar, conhecer novos lugares e entrar em contato com novas culturas. Isso é ainda mais intensificado quando viajamos para outros países e visitamos lugares mais afastados de onde vivemos.

Nessas férias eu tive a oportunidade de visitar três países que apresentam uma realidade muito diferente da brasileira: a Eslovênia, a Croácia e a Bósnia e Herzegovina. Conheci muitas coisas novas e entrei em contato com culturas muito diferentes do que vemos aqui no Brasil.

É fascinante perceber, por exemplo, como os povos dos Bálcãs parecem dar muito mais importância à descendência étnica do que ao nacionalismo, o que é o padrão aqui no ocidente. Para eles, os ancestrais dizem muito mais sobre você do que o país onde você nasceu. Um tipo de pensamento que – assim como o nacionalismo – quando levado ao extremo pode levar a conflitos, como pudemos perceber nas guerras da Bósnia e do Kosovo.

No entanto, um outro aspecto que eu não pude deixar de observar (e que, afinal, é o que concerne a esse blog) é a religiosidade desses povos.

A Eslovênia e a Croácia são países de maioria católica, de modo que o cenário religioso por lá não era muito diferente do que podemos ver na Europa ocidental e até mesmo no Brasil. Há muitas igrejas e catedrais usando e abusando de adornos luxuosos e evidenciando onde foi parar todo o ouro e prata extraídos das colônias na época da exploração do novo mundo.

Cada igreja e catedral na Europa parece ter mais ouro e prata do que todo o estado de Minas Gerais

A Bósnia, por sua vez, me proporcionou um choque cultural muito maior, já que se trata de um país de maioria muçulmana. Eu nunca havia visitado um país onde o islamismo era a religião dominante, e devo dizer que a experiência foi muito interessante, me permitindo conhecer um pouco mais sobre essa religião e seus fiéis.

Fiquei hospedado em duas cidades, Mostar e Sarajevo. A primeira coisa que se nota de diferente é a paisagem urbana. Não há uma igreja a cada quarteirão, como no mundo ocidental. Estas são substituídas por mesquitas, com suas cúpulas e minaretes despontando no horizonte.

Ao invés de torres de igrejas, minaretes despontam no cenário.

Depois, ao andar nas ruas da cidade, outra coisa que causa estranheza a um ocidental é a quantidade de mulheres usando vestes tradicionais islâmicas que cobrem o rosto todo (niqab) ou os cabelos (hidjab), algo que, para quem está acostumado com os biquínis mínimos usados nas praias do Rio de Janeiro, parece pertencer a outro mundo.

Mulheres usando o hidjab em Sarajevo

Mulheres usando o hidjab em Sarajevo

Outra coisa que se pode notar é que a imagem pintada pela mídia ocidental (principalmente a estadunidense) a respeito do islamismo e sua relação com o terrorismo é baseada em estereótipos e preconceitos que não parecem se justificar frente à realidade.

É inegável que existem muçulmanos que se utilizam da religião para propagar o terror e que desejam a morte dos “infiéis”, mas pelo que eu pude observar, eles são uma minoria e provavelmente se concentram em áreas específicas do mundo islâmico. Embora eu continue achando que a doutrina islâmica apresenta pontos arcaicos e irracionais com os quais eu nunca concordaria, os muçulmanos com os quais eu tive contato me pareceram ser bem tolerantes, mesmo quando ficavam sabendo que eu não professava religião nenhuma.

É claro que a situação geo-política da Bósnia é completamente diferente dos países onde a Charia é imposta. Porém, os islâmicos bósnios me provaram algo do qual eu já suspeitava: que é possível sim uma pessoa seguir o islamismo e viver em harmonia com outras crenças sem maiores problemas, ao contrário do que os filmes, séries e noticiários que vemos diariamente nos querem fazer acreditar.

Eu mesmo pude conversar com diversos muçulmanos que condenavam atitudes de violência e de intolerância frente a pessoas de outros credos. Além disso, tive a oportunidade de entrar em várias mesquitas para conhecê-las e até de presenciar ao vivo um culto islâmico, chamado de salá, que são as orações diárias que os muçulmanos devem fazer em público.

Abaixo, segue a gravação que eu consegui fazer de um desses cultos (desculpem a baixa qualidade das imagens, foi o que deu pra fazer com a minha câmera). Antes de cada salá, há um anúncio entoado do alto dos minaretes avisando que chegou a hora das preces, chamado de adhan. O responsável por esse anúncio é chamado de muezim (ou almuadem). No vídeo se pode ver o momento em que o muezim de uma das mesquitas que eu visitei, a Careva Džamija (Mesquita do Imperador), em Sarajevo, realiza o adhan, convocando seus companheiros para a última prece do dia, às 17 hs.

Depois disso, os fiéis se encaminham para a mesquita, onde farão as rezas para Alah. As mulheres e os homens devem ficar em locais separados na mesquita. Enquanto os homens ficam à frente, as mulheres têm que se posicionar atrás deles. Segundo a doutrina islâmica, isso é para evitar que os homens se distraiam com as mulheres, tirando o pensamento de Alah enquanto estão rezando (embora eu continue achando puro sexismo).

Abaixo, podemos ver os homens realizando o salá das 17 hs.

O salá consiste na recitação de um conjunto de versículos do Alcorão, num ciclo de posições (em pé, curvado, de joelhos, prostrado e sentado) a que se chama de racka (genuflexão). O número de rackas varia de acordo com o período da oração. Se você já acha o culto católico cansativo com todo aquele levanta-senta-ajoelha, acredite, você não ia querer ser muçulmano.

Depois do culto, bati um papo com o muezim dessa mesquita, um senhor muito simpático chamado Salim, que explicou alguns dos preceitos do islamismo (ele que esclareceu o porquê de as mulheres terem que ficar atrás dos homens). Salim ficou muito feliz em saber que éramos brasileiros, e fez questão de enfatizar que o islamismo era (pelo menos na concepção dele) uma religião que pregava a paz e que ele condenava todas as mortes causadas por outros muçulmanos. Segundo o muezim, aos olhos de Alah, um homem que mata outro homem, seja ele quem for, está agindo como se matasse a humanidade inteira. E ele também não parecia ver nenhum problema com a minha ausência de religião, embora eu tenha ficado com a nítida impressão de que ele gostaria muito que eu entoasse a frase “Allahu akbar” (Alah é grande) antes de sair da mesquita.

Eu e o muezim Salim na Mesquita do Imperador, depois do culto.

Ainda tive a oportunidade de ganhar uma edição do Alcorão em árabe, que segundo os muçulmanos, é a única língua na qual a revelação feita por Alah a Maomé pode ser compreendida em sua totalidade. O que, aliás,  me parece muito conveniente para uma religião que se espalhou originalmente por países de língua árabe. De qualquer maneira, o livro em sua língua original é muito bonito, possuindo uma estética singular e já se encontra ornamentando minha estante.

O Alcorão, na única língua em que ele pode ser compreendido, segundo os islâmicos. É uma pena que o criador do universo não seja poliglota…

A Bósnia e a Croácia possuem ainda um número considerável de cristãos ortodoxos, que são maioria no país vizinho, a Sérvia. Assim, ainda tive a chance de visitar também algumas igrejas ortodoxas, uma coisa que é praticamente impossível de se encontrar no Brasil. E se você acha que as igrejas católicas romanas já possuem um ar meio opulento ou opressor que busca separar o fiel dos ritos da Igreja, acredite quando eu digo que isso é elevado à nona potência nas igrejas católicas ortodoxas.

Primeiro que as missas ainda são rezadas em latim. O padre fica de costas para os fiéis, entoando uns cânticos que ninguém deve compreender, e em algumas partes do culto o pároco entra em uma portinha que fica no altar (que obviamente também é banhado a ouro) e os fiéis não podem nem mesmo vê-lo, só ouvindo o que ele continua a entoar. Infelizmente não me autorizaram a gravar o culto ortodoxo, mas eu pude tirar algumas fotos de uma das igrejas.

O altar de uma igreja ortodoxa, banhado em ouro, dentro do qual o padre celebra parte da missa.

Essas igrejas normalmente são ornamentadas com diversas imagens medievais de santos e patriarcas da igreja (também banhadas em ouro), que são um pouco intimidantes a quem não está acostumado com elas.

Exemplo do tipo de imagens expostas nas igrejas ortodoxas.

E eu ainda encontrei tempo para visitar uma cidade de peregrinação católica, no meio da Bósnia muçulmana: Međugorje. Segundo os católicos, nessa cidade, em 1981, a Santíssima Virgem Maria fez uma aparição para cinco adolescentes e uma criança, dizendo que era a “Rainha da Paz”. É claro que a Igreja Católica se encarregou de promover a história e a cidade acabou se tornando um pólo de romaria católica no meio de um país de maioria islâmica, com uma quantidade de lojinhas vendendo imagens de Maria e de santos capaz de causar inveja ao município de Aparecida.

Santinhos e imagens de Maria surpreendentemente sendo vendidos no meio de um país de maioria muçulmana.

O Santuário de Nossa Senhora de Međugorje.

No fim das contas, além do merecido descanso que a viagem proporcionou, eu a pude utilizar para adquirir novos conhecimentos acerca da religiosidade, para entrar em contato com novas pessoas e crenças que eu mal conhecia e para acabar com alguns preconceitos que podem permear nossa visão de mundo.

Agora, com as baterias recarregadas, estou pronto para dar continuidade aos trabalhos do blog. Até o próximo post!

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Aviso aos Navegantes – De Volta À Ativa!

Caros leitores, depois de um mês de merecida folga, estou de volta.

Fiquei esse tempo todo praticamente sem nenhum acesso à internet. Deixem então eu me inteirar a respeito de algumas das novidades do mundo religioso ocorridas enquanto estive fora…

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É… Pelo visto o mundo religioso não sofreu nenhuma mudança atterradora nos últimos 30 dias.

Em breve postarei novos artigos e pretendo também apresentar algumas novidades inovadoras no blog no decorrer do ano. Nos vemos.

 

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