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Leitura Recomendada – Uma História de Deus

A leitura recomendada de hoje é de um livro que trata a respeito de história religiosa: Uma História de Deus – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo : Uma Busca de 4000 Anos.

Uma História de Deus

UMA HISTÓRIA DE DEUS (Edição de Bolso)

Neste livro a autora tenta estabelecer o desenvolvimento histórico e cultural das três principais religiões monoteístas ocidentais: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Nesse sentido, o título da obra pode ser enganoso. Não se trata, obviamente da “história de Deus”. Trata-se da história da ideia que os povos ocidentais têm a respeito de Deus, o que é claramente diferente (as crenças dos povos orientais são mencionadas ocasionalmente, porém sem aprofundamentos). Mas é claro que eu entendo o propósito propagandista dos títulos de livros. Admito que uma edição com o nome “Uma História da ideia ocidental de Deus” provavelmente teria menos apelo comercial…

A autora, Karen Armstrong é uma ex-freira. Ela se ordenou na Society of the Holy Child Jesus em 1965. Porém, abandonou o convento quatro anos depois, quando percebeu que não havia nascido com vocação para a vida monástica. A partir de então ela passou a se dedicar ao estudo sobre as religiões, chegando a roteirizar e apresentar um programa de televisão sobre a vida de São Paulo para o Channel Four.

Para alcançar o objetivo proposto pelo livro, nos primeiros capítulos ela investiga o surgimento das religiões abraâmicas desde suas origens no Oriente Próximo. Os dois primeiros capítulos são basicamente aulas de história mostrando como o monoteísmo judaico evoluiu do politeísmo dos povos da região, como os babilônicos e os cananeus, até chegar à ideia de um deus único, por volta de 600 AEC. A partir daí ela passa a enumerar os diversos pensadores que expandiram e modificaram as ideias a respeito desse deus únitário.

A leitura certamente será muito mais aproveitável para quem já possui certa familiaridade com as doutrinas ou com as histórias dessas religiões ou para quem já tenha estudado religião comparativa em algum momento da vida. Em determinados trechos a autora lança tantas informações, tantos nomes e tantos estrangeirismos que qualquer um que já não possua alguma informação a respeito das religiões estudadas pode se sentir  sobrecarregado com a quantidade de dados fornecidos. E o fato de os capítulos não possuírem subdivisões pode aumentar ainda mais essa confusão. Talvez uma melhor organização favorecesse o repasse de informações, tornando o livro mais acessível para um público leigo.

Um outro problema é a visão pessoal que a autora imprime às análises que faz sobre as crenças, que teoricamente deveriam ser objetivas. Ela obviamente vê a fé como uma coisa boa e necessária, e parece tentar apresentar justificativas para todos os atos tomados com base na religião. Mesmo os que seriam claramente considerados abomináveis sob uma ótica moderna. Além disso ela tenta demonstrar que existe uma espécie de sincretismo entre todas as crenças, querendo nos fazer acreditar que todas as crenças religiosas no fundo afirmam a mesma coisa. O que obviamente é um devaneio. Basta notar as dissidências entre religiões que supostamente adoram o mesmo deus, pra perceber que algumas discordâncias entre elas são irreconciliáveis. Essa parcialidade da autora fica ainda mais notável nos últimos capítulos, quando ela praticamente faz uma espécie de proselitismo pessoal, parecendo defender que a crença correta em Deus é justamente a crença que ela professa.

Mesmo com esses defeitos, esta é uma boa leitura para qualquer um que queira entender melhor a evolução da ideia de Deus em nossa sociedade. Muitos livros apresentam dados e fatos históricos, mas poucos se preocupam em esmiuçar as ideias por trás deles. Se você conseguir separar as opiniões pessoais da autora das informações objetivas, ele será útil até mesmo para entender o cenário religioso atual.

I.S.B.N.: 978-85359115-8-9

Título original: A HISTORY OF GOD

Autora: Karen Armstrong

Editora: Companhia das Letras – 24/01/2008

Origem: EUA

N° de páginas: 560

Dimensões: 18,0 x 12,5 x 2,5 cm (Edição de bolso)

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Leitura Recomendada – O Maior Espetáculo da Terra

A leitura recomendada de hoje é sobre um livro que trata a respeito de biologia evolutiva: O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA – As evidências da evolução.

O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA

O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA

Escrito pelo Dr. Richard Dawkins, um velho conhecido de ateus e agnósticos, o livro se propõe a apresentar a leitores leigos as evidências que fundamentam a Teoria da Evolução, proposta por Charles Darwin no ano de 1859 em seu livro A Origem das Espécies.

Dawkins é professor de zoologia na Universidade de Oxford, Inglaterra, e tornou-se mundialmente conhecido (e odiado por religiosos) após seu livro Deus, um delírio tornar-se um best-seller. Naquela obra, o biólogo questionava a ideia da existência de divindades, apresentando argumentos lógicos que contradiziam praticamente todas as crenças religiosas.

Não por acaso, após ser catapultado ao estrelato com seu livro, Dawkins, junto aos seus colegas escritores Daniel Dennett, Sam Harris e Christopher Hitchens, outros mordazes críticos da religião e da fé, passaram a ser considerados pela mídia conservadora estadunidense como os “quatro cavaleiros do Apocalipse”, alcunha cuja atribuição não parece ter incomodado a nenhum deles.

Se por um lado essa fama fez Dawkins tornar-se uma celebridade entre os céticos e descrentes mundo afora, ela também teve o efeito colateral de afastar religiosos moderados ou curiosos que ocasionalmente buscassem mais informações ou opiniões a respeito de suas crenças. Muitas pessoas que poderiam se aproveitar de algumas conclusões por ele apresentadas, deixam de ler suas obras por julgarem que o fervor de suas críticas à religião o torna de alguma maneira um fanático parecido com os religiosos que condena – o que, contraditoriamente, só poderia ser afirmado depois de se ter explorado suas obras.

O que é uma pena, pois essa repulsa automática a qualquer posicionamento anti-religioso faz com que essas pessoas acabem deixando de aproveitar também o que Dawkins oferece de melhor: o ensino apaixonado a respeito daquilo que é sua especialidade, a biologia evolutiva.

Em “O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA”, o autor praticamente não menciona nada a respeito de crenças religiosas ou entidades divinas. Ele reserva apenas uma parte do primeiro capítulo para tratar desse tópico, e, mesmo assim, somente para demonstrar como o lobby religioso promovido por algumas entidades pode atrapalhar o ensino da ciência biológica, pressionando o governo e as organizações de ensino a tratarem a evolução somente como uma hipótese entre outras possíveis e advogando que ela deveria ser ensinada junto a outras supostas teorias controvertidas, mais notadamente o criacionismo. A essas pessoas ele zombeteiramente dá a alcunha de “negadores da história”.

Dawkins confirma as consequências que esse tipo de influência pode causar, e a necessidade de um livro como esse, apresentando uma pesquisa feita pelo instituto Gallup onde se demonstrou que mais de 40% da população dos EUA não acredita que o ser humano tenha evoluído de outras espécies de animais e acha que surgimos na Terra há menos de 10 mil anos. Um dado realmente alarmante em um país que é supostamente o mais tecnologicamente avançado do mundo. Mas, à exceção dessa breve menção, nem de longe essa obra poderia ser descrita especificamente como um ataque à religião ou à fé, como “Deus, um delírio” notável e propositalmente o foi.

Depois de discutir rapidamente a respeito dos “negadores da história”, ele faz ainda uma necessária digressão para explicar a diferença entre o termo “teoria” quando aplicado a casos como a Teoria da Evolução e ao ser utilizado corriqueiramente.

Apesar de este ser o oitavo livro escrito pelo biólogo tendo como tema a teoria evolutiva, em nenhuma das obras anteriores o objetivo era essencialmente apresentar as evidências que levaram os cientistas a afirmarem com enorme convicção o fato de a evolução ser a única explicação plausível para a variedade de espécies existentes no planeta, e sim focando em um ou outro ponto específico da teoria.

A partir do capítulo seguinte, então, ele passa a apresentar ao leitor todos os dados concernentes à evolução já catalogados e avaliados por cientistas de diversas áreas, desde a proposição da teoria na segunda metade do século XIX até os dias atuais.

Embora o autor eventualmente se utilize de diversos termos técnicos que seriam inescrutáveis a um leitor leigo, como “reservatório gênico”, “decaimento radioativo” e “nervo laríngeo recorrente”, sua forma de escrever, com uma prosa envolvente, aliada aos exemplos esclarecedores apresentados, tornam muito mais fácil para um leitor eventual entender as pesquisas e as linhas de raciocínio utilizadas para  se chegar às conclusões apresentadas. Dawkins chega até a se utilizar de uma seção no meio do livro com 32 páginas em cores para ilustrar algumas situações discutidas no texto principal com belas imagens da natureza.

O livro conta com belas páginas a cores em seu núcleo.

Ao final da leitura, depois de devidamente instruídos a respeito de tópicos como seleção natural, micro e macroevolução e evolução convergente, qualquer leitor deverá ter melhor compreensão de como a evolução realmente funciona e deixado de lado dúvidas recorrentes nesse campo como, “se o homem evoluiu do macaco, por que ainda existem macacos?”.

Segundo uma afirmação do autor na contracapa, o objetivo do livro era fazer com que nenhum leitor imparcial o feche ainda com alguma dúvida de que a evolução seja um fato. E esse objetivo parece ter sido plenamente alcançado. E, dessa vez, sem dar muita importância para o que a religião acha do assunto.

I.S.B.N.: 978-8-5359157-2-3

Título original: THE GREATEST SHOW ON EARTH

Autor: Richard Dawkins

Editora: Companhia das Letras – 27/11/2009

Origem: EUA

N° de páginas: 472

Dimensões: 23,0 x 16,0 x 2,4 cm

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Leitura Recomendada – A Bíblia Sagrada – Parte 3

Continuação dos posts anteriores. Veja as partes precedentes aqui: parte 1 e parte 2.

A RELIGIÃO NOVA DO IMPERADOR

No post anterior, paramos a história da Bíblia em um momento em que o cristianismo estava em expansão pelo mundo. No século IV, um acontecimento fez com que essa expansão tomasse uma velocidade nunca antes alcançada. Um imperador de Roma, Constantino, converteu-se à nova religião.

Estátua representando o Imperador Constantino

Estátua representando o Imperador Constantino

Embora algumas pessoas especulem que Constantino somente utilizou o cristianismo como fator de unificação em uma Roma multirracial e multirreligiosa, é provavel que ele já simpatizasse com a religião mesmo antes de alcançar o poder. Sua mãe era cristã e o nome de sua irmã, Anastácia, vinha do grego e significava “ressurreição”. Depois de uma vitória sobre seu adversário Maxêncio em 312 d.C., Constantino se tornou imperador da parte ocidental do Império Romano e um ano depois já começou a modificar a política religiosa de Roma de modo a favorecer os cristãos. Estes passaram a ser livres para seguir a religião que quisessem, não sendo mais obrigados a seguir as religiões oficiais do Império e as igrejas confiscadas pelos imperadores anteriores foram devolvidas.

Em 324 d.C., após mais uma vitória militar, Constantino  se tornou imperador de todas as terras do Império Romano e seguiu implantando sua religião. E isso fez com que a Bíblia fosse profundamente modificada. A pressão de Constantino levou os mais influentes bispos cristãos a se reunirem no Concílio de Nicéia em 325 d.C. e ali surgiu o cânone do cristianismo. Nesse concílio foi decidida a lista oficial de livros que seriam considerados inspirados por Deus e passariam, então, a compor a Bíblia.

Essa escolha teve bases teológicas, mas uma boa parte dela também foi tomada com as consequências políticas em mente. Um grupo de cristãos queria afirmar seu poder e autoridade sobre os outros. E o grupo que saiu vencedor dessa disputa foi o de cristãos apostólicos, que foram os que escolheram os evangelhos atuais para representar a biografia de Cristo.

Com essa escolha, alguns evangelhos que eram seguidos por outros grupos de cristãos como os docetas, ebionistas e outras seitas foram excluídos do cânone bíblico. Esses textos excluídos ganharam o nome de “apócrifos”, que em grego significa “o que foi ocultado”. A maioria desses textos se perdeu, já que a Igreja não tinha interesse em mantê-los para a posteridade. Mas graças a recentes descobertas arqueológicas, alguns deles vieram à tona.

OS TEXTOS APÓCRIFOS

Depois da morte de Jesus, muitos seguidores do cristianismo passaram a escrever sobre a vida do nazareno. Assim como ocorria nos evangelhos oficiais, a maior parte dos autores dessas histórias não tinha conhecido Jesus ou seus seguidores pessoalmente e escreviam para corroborar suas próprias concepções religiosas, de acordo com o que mais lhes convia.

Assim, antes da escolha dos evangelhos oficiais pelo Concílio de Nicéia, havia vários outros circulantes na região. Os quatro principais evangelhos apócrifos são: o protoevangelho de Tiago, o evangelho da infância de Tomé, o Evangelho de Tomé e o evangelho de Judas.

Textos apócrifos encontrados em Nag Hammadi, Egito

Textos apócrifos encontrados em Nag Hammadi, Egito

Embora não sejam considerados oficialmente como parte da Bíblia esses evangelhos são fontes de algumas tradições consagradas pelos cristãos. Os nomes dos pais de Maria (Joaquim e Ana), por exemplo, só aparecem nos textos apócrifos. Boa parte de seu conteúdo, no entanto, apresenta uma enorme divergência doutrinária para com o restante dos ensinamentos cristãos atuais, e foi justamente por isso que ficaram de fora da Bíblia oficial. Tomé, por exemplo, retrata Jesus mais como um guru místico, espalhando ensinamentos misteriosos do que como um Messias divino.

O texto apócrifo mais polêmico no entanto, é um que foi encontrado no Oriente Médio em 1886. Escrito por uma certa “Maria”, que muitos acreditam ser Maria Madalena, o texto é bem feminista, atribuindo à tal Maria uma posição de destaque tão importante quanto a de Pedro e dos outros apóstolos. Esse texto deu origem a várias teorias da conspiração que afirmam que Madalena na verdade era casada com Jesus, e que eles chegaram a ter filhos juntos.

Embora alguns escritores como Dan Brown tenham utilizado essas ideias para arrecadar milhões de dólares com best-sellers, a verdade é que a relação entre Cristo e Madalena não é deixada clara em nenhum dos evangelhos apócrifos. Assim como nos originais, esses textos parecem ter sido escritos muito depois dos eventos que narram, por grupos cristãos que tinham seus próprios interesses teológicos e políticos. Assim, Maria Madalena poderia estar sendo usada somente como porta-voz de alguns críticos das lideranças religiosas da época.

A BÍBLIA LATINA DE ROMA

Após a conversão do imperador Constantino, o eixo do cristianismo se deslocou do Oriente Médio para Roma. Porém, a língua oficial do Imperio Romano era o latim, não o grego ou hebraico, línguas utilizadas pela maioria dos autores bíblicos. Então, para completar a romanização do cristianismo, faltava um passo. Traduzir a palavra de Deus para o latim.

A missão coube ao teólogo Heusebius Hyeronimus, conhecido hoje em dia como São Jerônimo. Como ele foi incubido de traduzir o Antigo e o Novo Testamentos, ainda teve que aprender hebraico, e, por isso, o trabalho de tradução levou 17 anos para ser finalizado. Mas seus esforços renderam frutos, dando origem à Vulgata, a Bíblia latina, que até hoje é o texto bíblico oficial utilizado pela Igreja Católica.

A Vulgata era tão influente que até os erros de tradução cometidos por São Jerônimo eram relevados. Em uma passagem do Êxodo que descreve o semblante do profeta Moisés, por exemplo, São Jerônimo escreveu em latim “cornuta esse facies sua”, que significa “sua face tinha chifres”. Na verdade São Jêronimo confundiu a palavra hebraica “karan”, que pode significar tanto “chifre” quanto “raio de luz”. A septuaginta apresenta a frase correta: o profeta tinha o rosto iluminado, não chifrudo. Apesar disso, a Vulgata era tão respeitada que artistas como Michelangelo levavam passagens como essa a sério, a ponto de, séculos depois, o escultor renascentista ter esculpido uma estátua representando o profeta Moisés com chifres, que o Vaticano mantém exposta até hoje, na igreja de San Pietro in Vincoli.

Moisés de Michelangelo e seus chifres bíblicos

Moisés de Michelangelo e seus chifres bíblicos

A vulgata reinou absoluta durante séculos. Até a idade média não havia outra tradução do texto bíblico e, assim, basicamente só o clero – que era alfabetizado em latim – tinha acesso direto à palavra divina. Até que uma invenção revolucionária mais uma vez mudou a relação da humanidade com os textos sagrados cristãos. A imprensa.

A BÍBLIA NA LINHA DE PRODUÇÃO

Até Gutenberg inventar o tipo mecânico móvel para imprensão, em 1455, a Bíblia era disseminada somente através de cópias feitas à mão. Porém, diferentemente dos textos que deram origem ao livro sagrado, essa tarefa de copiar foi centralizada pela Igreja, ficando a cargo dos monges copistas. Esses monges raramente saíam dos mosteiros e passavam a vida copiando e catalogando os manuscritos bíblicos. A ideia da Igreja era manter o controle do conteúdo da Bíblia, evitando que erros e divergências surgissem nos textos sagrados, como costumava ocorrer com os papiros bíblicos originais.

Mas, ainda assim, o fator humano no processo fazia com que erros ocasionais e propositais acabassem surgindo nos textos. Em alguns trechos, por exemplo, palavras que podiam significar “pederasta”, “masturbador” ou “estuprador”, acabavam virando simplesmente “homossexual”. Cada copiador escolhia a palavra que achava mais conveniente à ocasião.

Porém tudo isso mudou com a invenção de Gutenberg, que permitia produzir várias cópias de uma obra em série e cujo primeiro trabalho de imprensão foi justamente o de um exemplar da Bíblia. A partir de então ninguém mais dependia dos monges copistas para disseminar as palavras divinas. O foco então passou a ser outro: traduções.

Um dos modelos de prensa móvel, invenção de Gutenberg

Um dos modelos de prensa móvel, invenção de Gutenberg

Uma das três cópias restantes das Bíblias impressas por Gutenberg, em exibição na Biblioteca do Congresso, Washington, EUA.

No ano de 1522 o pastor Martinho Lutero usou a imprensa para divulgar em massa sua tradução da Bíblia feita diretamente do hebraico e do grego para o alemão. Foi a primeira conversão do texto sagrado para uma língua moderna. Em seguida, o britânico Willian Tyndale traduziu os textos bíblicos originais para o inglês. Essas versões serviram de combustível para a reforma protestante. Como não precisavam mais do intermédio da Igreja para publicar suas versões da Bíblia, os tradutores passaram a moldar as palavras sagradas a seu próprio entendimento. Tyndale, por exemplo, traduzia a palavra grega “ecclesia” como “congregação”, em vez de “igreja”, como afronta ao Vaticano. Desnecessário dizer que depois disso Tyndale foi queimado vivo sob a acusação de heresia.

Seguindo as ideias dos reformistas protestantes, no início do século XVII surgiu uma versão da Bíblia em espanhol, conhecida como Reina-Valera, traduzida diretamente do hebraico, aramaico e grego para o castelhano. Essa tradução foi usada como base para a primeira versão em português da Bíblia, feita por João Ferreira de Almeida e publicada em 1743. Hoje, no entanto, a tradução considerada oficial pela Igreja é a da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, publicada em 2001 e feita com base na Nova Vulgata, que por sua vez é uma atualização da Vulgata de São Jerônimo, feita por recomendação da Santa Sé em 1965 após o Concílio Vaticano II.

Então, ao folhear a Bíblia, independente de se acreditar estar lendo a palavra de Deus ou não, de uma coisa se pode ter certeza: diretamente de Deus essa palavra não veio. Na verdade ela já percorreu um longo caminho até chegar às nossas mãos, em nossa língua moderna:

Se você tem uma Bíblia em português em mãos, foi – no mínimo – esse caminho que ela percorreu até chegar aí.

Hoje em dia, milhares de versões diferentes da Biblia já foram lançadas, em todas as línguas imagináveis. Aparentemente há até uma versão em klingon e a tradução para a língua élfica quenya já está sendo providenciada.

Depois de tantos séculos de versões, contra-versões, censuras, acréscimos e traduções, fica difícil – se não impossível – dizer que alguém tem atualmente uma versão correta da Bíblia em mãos. Afinal, se alguém imagina que Deus realmente legou suas palavras à humanidade, como decidir qual versão dessas palavras exprime exatamente o que Ele quis dizer?

A verdade é que hoje a Bíblia é utilizada muito mais como instrumento de controle econômico, social e político do que como base teológica. Atualmente, qualquer grupo pode interpretá-la com o propósito que achar mais conveniente, moldando as supostas palavras divinas a seu próprio interesse.

E esta é a verdadeira importância de se conhecer profundamente a Bíblia, tanto em seu conteúdo quanto em sua história, seja o leitor crente ou descrente. Quando pessoas mal intencionadas começam a escolher passagens bíblicas específicas, ignorando outras inadequadas, ou a distorcer palavras que outras pessoas acreditam ser oriundas de uma entidade divina, passam a ser imbuídas de muito poder. E poder sem controle nunca se mostrou uma coisa benéfica para a humanidade.

E mesmo que não se faça parte de nenhum sistema religioso organizado, esse poder acaba influenciando em sua vida. Em pleno século 21 há, por exemplo, líderes religiosos que renegam a Teoria da Evolução, por contradizer o que uma tribo do deserto que não sabia nem o que era uma bactéria escreveu há mais de 2.000 anos. Há quem use a Bíblia para justificar o preconceito contra homossexuais e ateus, esquecendo que esse mesmo livro era usado para justificar o preconceito contra os canhotos na Idade Média. E um grande número de religiosos se utiliza dos textos bíblicos para conseguir lucros exorbitantes ao custo da miséria de outras pessoas, ainda que a própria Bíblia pregue o desapego a bens materiais em algumas passagens.

A meu ver, longe de mostrar à humanidade um vislumbre do pensamento divino, a Bíblia parece expor muito mais os reflexos da própria mente humana ao longo de sua existência. Para o lado bom e para o ruim.

I.S.B.N.: 978-85-349-0228-1 (Versão consultada para estes posts)

Título: Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Autor: Vários

Editora: Paulus – 15/04/1990

Origem: Brasil

N° de páginas: 1584

Dimensões: 19 x 13,7 x 4 cm

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Leitura Recomendada – A Bíblia Sagrada – Parte 2

Continuação do post anterior. Veja a primeira parte aqui.

A VINDA E A VIDA DO MESSIAS

Paramos a história da Bíblia em um ponto que viria a trazer fundamentais mudanças não só para as escrituras, mas para a própria humanidade. A vinda de Jesus Cristo ao mundo.

As escrituras sagradas hebraicas que circulavam por Canaã já previam a chegada de um Messias que iria governar o mundo e devolver a paz aos homens. Para os cristãos atuais, esse Messias foi o próprio Jesus Cristo, o filho de Deus, gerado pelo Espírito Santo.

A comunidade judaica, porém, não reconhece Jesus como o Messias prometido, e continua aguardando sua vinda. Por isso os judeus não admitem o novo testamento como parte das escrituras sagradas, já que ele foi escrito com base nos ensinamentos de Cristo. Para eles, os textos sagrados se resumem ao Antigo Testamento e ponto. Aliás, para os judeus nem faz sentido o uso desses termos – Antigo e Novo Testamento – já que em seus textos sagrados, que eles chamam de Tanakh, só há o conteúdo do primeiro.

Para os cristãos, no entanto, a chegada do Messias ao mundo é uma narrativa universalmente conhecida. Pare qualquer adepto do cristianismo na rua e pergunte a ele como foi o nascimento de Jesus e você provavelmente vai ouvir essa história: no dia 25 de dezembro do ano um, uma estrela brilhante surgiu no céu e guiou os três reis magos a um presépio em Belém, onde Maria, uma virgem fecundada pelo próprio Espírito Santo, deu à luz um menino, na manjedoura, entre os bichinhos do presépio. Então, cada um dos três reis magos entregou um presente a Jesus. Depois a sagrada família teve que fugir para o deserto porque o rei Herodes mandou matar todas as crianças com menos de dois anos, com medo de perder o trono para o futuro rei dos judeus.

Como o imaginário popular imagina o nascimento de Jesus

Como o imaginário popular imagina o nascimento de Jesus

É uma bonita história. Pena que esse relato tão conhecido não tenha ocorrido exatamente desta maneira segundo o próprio livro sagrado dos cristãos.

Na verdade, se utilizarmos somente a Bíblia como fonte, fica muito difícil dizer como teria ocorrido exatamente o nascimento de Cristo. Em mais um exemplo das contradições existentes nos textos bíblicos, os evangelistas relatam o fato de maneira distinta. Marcos e João nem chegam a falar do nascimento de Jesus, somente de sua vida adulta. E os relatos de Lucas e Mateus apresentam divergências entre si, alguma irreconciliáveis.

A visita dos famosos três reis magos, por exemplo, não é mencionada nos evangelhos. Mateus relata a visita de magos (sem mencionar o número deles) e Lucas fala simplesmente que pastores no campo vão venerar a criança após receberem a notícia de um ser angelical. O massacre de crianças inocentes narrado por Lucas e supostamente comandado por Herodes após o nascimento de Jesus não só não é encontrado em Mateus, como em nenhum outro evangelho e nem mesmo em qualquer outra fonte histórica da época.

Muitas outras diferenças podem ser encontradas entre uma narrativa e outra. Lucas menciona uma visita de anjos à Maria e à sua vizinha Isabel que não está em Mateus. Mateus relata a fuga para o Egito, a Santa Família desviando da Judeia no retorno a Nazaré, tudo isso ausente em Lucas. Lucas tem o nascimento de João Batista, o censo de César, a viagem a Belém, a manjedoura e a estalagem, os pastores, a circuncisão, a apresentação no templo e o retorno para casa imediatamente depois – tudo isso ausente em Mateus.

Poderia-se argumentar que na verdade cada evangelista está contando uma parte da história. E de fato, a narrativa que se ouve todo mês de dezembro ao se comemorar o natal parece ser uma fusão desses dois evangelhos, com a combinação de detalhes de um e de outro, de modo a criar uma história mais ou menos harmoniosa. Mas o problema é que, ao se fazer isso, se está na verdade criando um terceiro relato dos acontecimentos, que difere dos dois originais, e ignorando os detalhes que não podem ser conciliados entre os dois, como, por exemplo, quem era o governador local, que segundo Mateus era Herodes, e segundo Lucas, Quirino.

Além dessas diferenças, alguns detalhes hoje aceitos como fatos pela maioria dos cristãos nem mesmo são citados na Bíblia. A data de nascimento de Jesus, por exemplo, não é expressamente anunciada em local nenhum. Estudiosos das escrituras apontam que o mais provável é que Jesus tenha nascido próximo ao mês de abril. No entanto, há um motivo para se comemorar o natal no dia 25 de dezembro, do qual eu tratarei futuramente. Até mesmo o ano em que Jesus nasceu não é fácil de ser determinado, graças aos diferentes sistemas de marcação de datas utilizados após o fato, mas é quase certo que, apesar de o nosso calendário atual se basear em seu nascimento, o próprio Cristo tenha nascido entre os anos 6 e 4 antes de Cristo.

Muitas outras partes do novo testamento apresentam o mesmo problema. Ao serem comparadas lado a lado, diversas passagens que deveriam ser iguais ou pelo menos compatíveis entre si, apresentam discrepâncias. A genealogia de Jesus, seu batismo, milagres realizados, a duração de seu ministério, detalhes de sua morte: todos esses fatos e vários outros apresentam versões diferentes, algumas delas diretamente contraditórias, ao longo de todo o novo testamento.

E esse fato é facilmente explicado. Jesus, a exemplo de outros grandes pensadores, como Sócrates e Buda, não deixou registrado por escrito nenhum de seus feitos e ensinamentos. Aliás, alguns historiadores argumentam que isso seria até impossível, pois afirmam que Jesus provavelmente era analfabeto (assim como 90% dos habitantes da região à época). E é bem provável que seus seguidores, quase todos de origem e profissões humildes, a maioria pescadores, também o fossem. A propria Bíblia deixa claro que pelo menos Pedro e João eram iletrados (Atos 4, 13). Especula-se que Mateus, por ter sido cobrador de impostos para o Império Romano, fosse o único dos apóstolos alfabetizado em aramaico, mas mesmo assim, isso dependeria de sua posição hierárquica na administração imperial.

E de qualquer maneira, isso nem é tão relevante, já que todos os textos existentes no Novo Testamento foram escritos décadas ou séculos após Jesus e seus apóstolos terem passado pelo mundo. Inclusive os evangelhos. Apesar de cada um deles receber o nome de um apóstolo, é provável que nenhum dos textos tenha sido efetivamente escrito pelo seguidor que o batiza. O que nos leva a uma interessante pergunta…

QUEM ESCREVEU O NOVO TESTAMENTO?

Nos primórdios de seu surgimento, o cristianismo já era perseguido. O Império Romano, que dominava quase todo o Oriente Médio, considerava os cristãos subversivos por não cultuarem os seus deuses oficiais. Foi nesse clima de perseguição que os primeiros cristãos começaram a colocar no papel as histórias a respeito de Jesus Cristo, que até então eram passadas entre os adeptos da nova religião apenas através da tradição oral.

Por conta dessa atmosfera hostil, dificilmente as pessoas que escreviam a respeito dos ensinamentos de Jesus se arriscavam a serem identificadas assinando sua obra. Os evangelhos, por exemplo, foram todos escritos anonimamente. Os nomes de seus autores foram adicionados depois (“o evangelho segundo Mateus”), provavelmente por dois motivos: para evitar a perseguição aos seus verdadeiros autores e, principalmente, para assegurar aos leitores que as histórias ali contadas eram verdadeiras, tendo sido passadas às futuras gerações por testemunhas oculares dos fatos. No entanto, através da análise dos textos evangélicos originais é possível deduzir algumas coisas a respeito de seus reais escritores.

Em primeiro lugar, há um consenso entre os estudiosos da Bíblia de que quase a totalidade dos textos dos evangelhos originais foram escritos em grego, não em aramaico, como o antigo testamento. A maior parte dos seguidores do cristianismo à essa época não falava grego, eram falantes de aramaico, iliterados e de classe baixa. É bem provável também que os autores originais vivessem fora da Palestina, ou que pelo menos não tivessem muito familiaridade com a região, devido às incongruências geográficas e à ignorância a respeito dos costumes judeus existentes nos textos.

p52 - Um dos poucos pedaços dos evangelhos originais (nesse caso, João), escrito em grego

p52 – Um dos poucos pedaços dos evangelhos originais (nesse caso, João) ainda existentes, escrito em grego antigo

O fato de terem sido escritos por pessoas provavelmente bem instruídas e falantes de grego, de terem estilos diferentes entre si e de que os autores dos textos raramente identificam a si próprios faz com que seja improvável que a maioria dos livros do novo testamento tenha sido escrita por quem se afirma que foi. A maior parte dos estudiosos da bíblia hesita em rotular os textos bíblicos do novo testamento como fraudes – alguns preferem até o eufemismo “pseudoepigráfico”. Mas isso é uma questão de semântica. Sob qualquer ponto de vista é isso que eles são: fraudes. Um grande número de livros dos primórdios do Novo Testamento foram escritos por autores que alegavam falsamente serem apóstolos para enganar os leitores e fazê-los aceitar suas obras e os pontos de vista que defendiam.

Mas então, quem eram, afinal de contas, esses autores?

A verdade é que ninguém tem como saber exatamente quem escreveu o novo testamento. Dos 27 livros que o compõem, somente 8 deles podem ser atribuídos com certo grau de segurança aos autores que se supõem tê-los escritos. Nos primeiros séculos da era cristã o cristianismo estava se espalhando pela Europa, conquistando adeptos no Império Romano. Então é provável que os autores das histórias a respeito de Jesus e de seus discípulos tenham sido cidadãos do Império Romano, pertencentes à uma classe  social relativamente alta e que tinham interesse em converter seus compatriotas à nova religião que eles mesmos haviam acolhido.

O problema é que naquela época os livros não eram redigidos como são hoje em dia. Eles não eram reunidos em um único tomo, organizados, numerados, e encadernados. Na verdade eles não passavam de um amontoado de papiros avulsos, então uma mesma história poderia ter dezenas ou centenas de autores, que depois era unificada como uma colcha de retalhos. Quando muito, os textos da época eram enrolados em forma de pergaminho. Nesse caso então, se você quisesse saber o que seu Deus diz a respeito de algo ou consultar um pedaço específico das escrituras sagradas, tinha que desenrolar um pesado pergaminho até encontrar a passagem desejada. Imagine-se hoje em dia tendo que desenrolar um rolo de papel sempre que quisesse consultar uma parte de um texto…

O máximo de organização literária que você encontraria à época.

O máximo de organização literária que você encontraria à época.

Estas particularidades influenciaram diretamente no conteúdo do texto bíblico. Para manter a circulação das histórias a respeito de Jesus, a despeito dos extravios e deteriorações dos textos, os evangelhos eram continuamente copiados e recopiados por membros da igreja. Só que, como isso era feito manualmente por várias gerações de copiadores, diversas alterações acabavam sendo introduzidas nos textos originais, às vezes por descuidos, às vezes por erros de traduções e às vezes propositalmente, para se apoiar o posicionamento de quem transcrevia as cópias .

Um exemplo disso é a passagem em que Jesus salva a mulher adúltera do apedrejamento (João 8, 3-11).  Segundo especialistas, esse trecho foi inserido no evangelho de João por volta do século 3, por algum escriba. Isso porque o cristianismo estava divergindo do judaísmo e o apedrejamento de adúlteras era uma das leis judaicas presentes no Pentateuco. Assim, podia se passar a ideia de que, a partir de então, os ensinamentos de Cristo haviam superado até mesmo as leis judaicas.

Por volta do século 4, os textos sagrados começaram a tomar a forma de códice, um conjunto de folhas encadernadas mais parecido com os livros atuais. Isso fez com que o controle do conteúdo da Bíblia fosse mais fácil de ser mantido. Junto a esse fato, um outro acontecimento inesperado deu uma nova cara ao livro sagrado e de quebra ainda fez com que o novo movimento religioso deixasse de ser um mero culto e se transformasse na religião mais importante da cultura ocidental: a conversão de um imperador romano ao cristianismo. Mas isso já é um assunto para o próximo post…

ATUALIZAÇÃO: Veja a última parte do post aqui.

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Leitura Recomendada – A Bíblia Sagrada – Parte 1

A leitura recomendada de hoje é de um livro que eu acho que qualquer pessoa que se considere ateia deveria se dar ao trabalho de conhecer. A Bíblia Sagrada.

A Bíblia Sagrada - Uma das milhares de versões existentes

A Bíblia Sagrada – Uma das milhares de versões existentes

A importância de se conhecer a Bíblia não é tanto em razão do seu conteúdo, e sim pela influência que ela exerce em nossa sociedade.

Escrita (ou compilada) ao longo de séculos, este é com certeza o livro mais importante da cultura ocidental. Independente de se acreditar no que ele diz ou não, sua relevância não pode ser ignorada por ninguém nascido por esses lados do planeta.

Como qualquer obra literária, a Bíblia estimula o imaginário do leitor e tem o potencial de influenciar a forma de se enxergar o mundo. Muitos a leem em busca de uma inspiração para resolver problemas, vencer desafios ou à procura de conselhos sobre como levar uma vida melhor.

No entanto, além do aspecto positivo que sua leitura pode proporcionar, infelizmente há também um inegável prisma negativo que pode advir de seu conteúdo. Graças a passagens dúbias, interpretações controversas e uma fé inabalável dos fiéis em suas palavras, este mesmo livro pode ser utilizado por determinados grupos para justificar posições éticas e comportamentais que dificilmente poderiam ser defendidas por outros meios. Uma boa observação a esse respeito é feita pelo autor estadunidense Sam Harris, em seu livro “A morte da Fé”:

Precisamos começar a falar livremente sobre o que realmente existe nesses nossos livros sagrados […] Um exame mais minucioso desses livros, assim como da história, demonstra que não existe um ato de bárbara crueldade que não seja justificável, ou até mesmo ordenado, por uma consulta às suas páginas. É apenas fazendo grandes acrobacias para evitar certas passagens, cujo status canônico nunca foi questionado, que podemos deixar de assassinar uns aos outros em nome da glória de Deus.

A própria presença da Bíblia entre nós é quase universal. Afinal, ela é, com folga, o livro mais vendido do mundo, com seis bilhões de cópias comercializadas – quase uma para cada ser humano na Terra, superando em mais de sete vezes o número de vendas do segundo lugar, o livro vermelho de Mao Tsé-Tung. Quase todas as casas possuem pelo menos um exemplar. Muitos hotéis disponibilizam uma cópia em seus quartos. Passagens suas são mencionadas em diversas ocasiões, inclusive em discursos políticos, entalhadas em paredes, monumentos e lápides, e há até a possibilidade de se ouvir uma delas nas ruas e nos meios de transporte públicos, entoada por um eventual pregador. Acho muito improvável que qualquer brasileiro tenha conseguido passar a vida toda sem nunca ter ao menos ouvido falar desse livro em algum momento.

No entanto, apesar de sua quase onipresença em nosso convívio, encontrar alguém que tenha efetivamente lido a obra toda é, curiosamente, uma ocasião mais rara. Nem mesmo grupos sociais que se presume serem leitores assíduos do livro sagrado costumam exercer sua leitura completa. Uma pesquisa indica, por exemplo, que metade dos pastores evangélicos nunca leram a Bíblia toda. O mais comum é que se leiam ou memorizem passagens específicas, que podem vir a ser úteis em algum contexto, ignorando-se todo seu restante.

E esse comportamento é compreensível. Como literatura, o livro está longe de ser um primor ou mesmo atraente para um ocasional leitor. Sua narrativa é confusa, enfadonha e  inconsistente. Suas diversas traduções desvirtuaram o sentido de muitas passagens originais, que mesmo que tivessem sido fielmente adaptadas, seriam consideradas anacrônicas perante a sociedade moderna. As histórias contadas para explicar a origem do universo, do ser humano e a trajetória do povo escolhido por Deus – supostamente verídicas – alternam entre o inverossímil e o completamente fantasioso. Uma boa quantidade de tempo é perdido apresentando as árvores genealógicas de famílias hebraicas, o que era fundamental para a sociedade patriarcal baseada em clãs existente à época de sua elaboração, mas que não tem a mínima importância atualmente. E existem diversas contradições no texto, não só entre as diferentes versões do livro, mas em seu próprio conteúdo, como pode ser conferido aqui.

Mas então, por que, mesmo com tantas deficiências e defasagens, a Bíblia conseguiu chegar à época atual conservando tamanha influência perante a sociedade? Para tentar compreender esse fenômeno, primeiro é necessário conhecermos um pouco mais a respeito do livro sagrado e de sua história.

A ESTRUTURA DA BÍBLIA

A bíblia é composta por duas partes principais, o Antigo Testamento, que narra acontecimentos ocorridos antes do nascimento de Jesus Cristo, e o Novo Testamento, que conta os fatos havidos após este evento.

Cada um dos testamentos, por sua vez, é dividido em livros. O antigo possui 46 livros (39 na versão dos protestantes/evangélicos), e o novo possui 27 livros.

Cada grupo de livros da Bíblia tem um propósito específico. Os cinco primeiros livros do Antigo Testamento, por exemplo, formam o pentateuco (conhecido pelos judeus como Torá), que descreve a criação da Terra e define as leis do povo hebreu. Os 12 livros seguintes contam a história deste povo em busca da terra prometida por Deus, e assim por diante. O quadro a seguir mostra resumidamente a função de cada grupo de livros (clique na figura para aumentá-la):

A HISTÓRIA DA BÍBLIA

Segundo as doutrinas defendidas pela maioria dos religiosos, a Bíblia é a própria palavra de Deus, direcionada à humanidade. No entanto, até mesmo eles admitem que essa palavra só pôde ser colocada no papel por intermédio de homens comuns.

De acordo com a tradição judaico-cristã, cada livro da Bíblia foi escrito por um autor específico, supostamente inspirados pela sabedoria divina. Os profetas seriam, então, uma espécie de secretário que transcrevia o que Deus ditava em suas mentes. O Pentateuco teria sido escrito pelo profeta Moisés, os Salmos pelo rei Davi, e assim por diante. No entanto, a maioria dos pesquisadores da história da Bíblia afirma o contrário: que cada um dos livros foi escrito por diferentes autores, em diferentes épocas sendo, em seguida, compilados em um só texto.

É provável que  o primeiro esboço do que viria a se tornar a primeira parte da Bíblia tenha sido escrito por volta do século 10 a.C., em algum lugar do Oriente Médio, na então chamada Terra de Canaã. Alguém pegou um pedaço de uma planta importada do Egito – o papiro – e começou a escrever uma história a respeito da origem do universo e do homem. Essa história depois foi sendo ampliada, rasurada, revista e editada por diversos outros autores que deram continuidade a esse trabalho.

Região de Canaã, onde surgiram os primeiros esboços da Bíblia.

Canaã não era um Estado organizado, e sim uma região sem fronteiras definidas, por onde passavam várias tribos diferentes. Isso explica a semelhança entre algumas passagens bíblicas supostamente escritas pelos hebreus, e outras histórias fantásticas que rondavam a região, advindas de outros povos. Um exemplo é a história de Noé, que apresenta uma notável semelhança com a Epopéia de Gilgamesh, um poema originado na antiga Mesopotâmia (atual Iraque) que conta a história do semideus Gilgamesh e que contém uma passagem que menciona uma enchente que devasta o mundo, e da qual algumas pessoas são salvas construindo um barco.

É claro que a semelhança entre essas histórias, além de outras que compõem outras culturas, e as narrativas contadas na Bíblia, não significa que o livro sagrado seja uma mera compilação de lendas plagiadas de outros povos. Apenas sugere que os autores dos textos que deram origem à Bíblia eram pessoas variadas, e que alguns deles tinham contato direto com outras culturas da região, sendo inclusive possível que alguns deles até mesmo fossem integrantes de outros povos.

Essa multiplicidade de autores também explica o fato de a Biblia possuir diferentes estilos de escrita ao longo de seus textos. Isso é notável já nos dois primeiros livros, Gênesis e Êxodo. O deus criador da Terra é chamado por dois nomes diferentes, ora sendo tratado por Javé ou Jeová (Yahveh, no original), que seria um tratamento mais informal, ora sendo chamado de Senhor ou Deus (Elohim, no original), que seria um modo mais formal de se dirigir a ele. Segundo os estudiosos do assunto, o fato de haver no mínimo dois autores responsáveis por essas partes seria uma explicação plausível para essa discrepância, já que é improvável que àquela época um mesmo autor fosse se referir a uma divindade de maneiras diferentes em um mesmo texto.

No ano de 589 a.C., Jerusalém, a capital dos hebreus, foi conquistada pelos babilônios, e boa parte de sua população foi levada como prisioneiros de guerra para território babilônico, onde fica o atual Iraque. Algumas décadas depois, o imperador babilônico Ciro, que possuía certa tolerância religiosa, liberou os hebreus, que foram voltando aos poucos para Canaã, porém com sua fé transformada pelo contato com os babilônicos, que seguiam uma religião chamada de masdeísmo.

O masdeísmo, ou Zoroastrismo, religião fundada pelo profeta Zaratustra na antiga Pérsia (atual Irã) em meados do século VII a.C. exerceu considerável influência nos textos bíblicos. A doutrina do Zoroastrismo foi notavelmente a base de praticamente todo o mito da Criação presente na Bíblia, pois foi ela quem concebeu idéias como a de um ser poderoso criando o mundo em seis dias e descansando no sétimo e a formação de um paraíso na Terra, onde foram colocados dois seres humanos que de lá foram expulsos em seguida, e onde também havia uma cobra traidora. O Zoroastrismo também foi o precursor de ideias que viriam a ser fundamentais para a mitologia bíblica, como a do monoteísmo, a ressureição, a dicotomia da luta entre o bem e o mal e a vinda de um messias como prenúncio do juízo final.

Zaratustra, profeta fundador do Zoroastrismo

Representação artística de Zaratustra, profeta fundador do Zoroastrismo

A versão final do Pentateuco tomou forma por volta do século IV a.C., quando um religioso chamado Esdras liderou um grupo de sacerdotes que editaram os livros já existentes e escreveram a maior parte do Deuteronômio, Números e Levítico, inclusive a famosa parte dos 10 testamentos. A partir dessa reforma, Jeová começa a ganhar um ar belicoso, vingativo e sanguinário, ordenando, inclusive, o extermínio de cidades inteiras em seu nome. Atos que soariam abomináveis a qualquer ser humano moderno parecem aceitáveis ou até mesmo estimulados pela entidade divina hebraica. Aparentemente até mesmo lançar ursos selvagens para destroçar crianças inocentes, cujo único pecado teria sido conhecer outras crianças que zombaram da careca de um profeta:

Então, subiu dali a Betel; e, subindo ele pelo caminho, uns rapazes pequenos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo, sobe, calvo.

E, virando-se ele para trás, os viu e os amaldiçoou, no nome do SENHOR; então, duas ursas saíram dos bosques e despedaçaram quarenta e dois daqueles pequenos.

II Reis 2, 23-24

Encantador esse deus bíblico, não? Esse rancor gratuito atribuído ao todo poderoso pode ser reflexo do momento histórico que os hebreus passavam, em constantes guerras com seus vizinhos babilônicos e assírios. Assim, o clamor bélico e sanguinário presentes nesta parte das escrituras seria uma forma de estimular os hebreus a se unirem em torno de sua fé contra inimigos que mereciam o desprezo até mesmo de um suposto deus verdadeiro.

A essa altura, a fé também já exercia um grande papel no controle social ao estipular regras que deveriam ser seguidas por todos, algumas para manter a coesão do grupo (como a que proibía o casamento entre hebreus e não-hebreus), outras que supostamente visavam impor a aplicação de atitudes saudáveis (como as que vetavam a ingestão de certos alimentos) e outras que pareciam ser meramente cerimonialistas, sem nenhuma função prática aparente (como a que proibía o uso de vestimentas cerzidas com dois tecidos diferentes).

Por volta de 220 a.C. o conjunto de livros sagrados dos hebreus já estava finalizado e foi realizada então a primeira tradução completa do que hoje é chamado de Antigo Testamento, do hebraico para o grego, na cidade de Alexandria, no Egito, feita por ordem do rei Ptolomeu II. Supostamente realizada por 72 sábios judeus, essa versão ganhou o nome de septuaginta. Além da tradução para o grego, também surgiram versões do Antigo Testamento em aramaico, que era a língua mais comum na região à época.

Após dois séculos, a versão em aramaico do Antigo Testamento (que à essa época obviamente não era conhecido por esse nome) tornou-se muito popular, sendo a mais lida na Judéia, na Samária e na Galiléia (atuais Israel e Palestina). E foi nesse ponto que surgiu uma nova personagem bíblica que iria mudar totalmente os rumos dessa história: Jesus Cristo.

E este é um assunto que será tratado em breve, na segunda parte desse post.

ATUALIZAÇÃO: Veja a parte seguinte do post aqui.

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Leitura Recomendada – O Evangelho Segundo Jesus Cristo

A leitura recomendada de hoje é um dos meus livros favoritos: O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo

O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Escrito pelo lusitano e também ateu José Saramago, em 1991, o livro conta a história mais conhecida da cultura ocidental, a de Jesus de Nazaré, porém, de uma perspectiva um pouco diferente da que estamos acostumados a ver.

Para Saramago, a história de Jesus é a história de um ser humano comum que foi escolhido por Deus para ser sacrificado e se vê envolvido no plano divino sem entender ao certo o porquê.

Para quem nunca leu um livro do Saramago, a leitura pode parecer um pouco estranha no começo. O autor possui um estilo próprio de escrita, bastante inusitado. Ele raramente separa seus períodos por pontos, dando preferência às vírgulas. Não usa travessões para indicar os diálogos, utilizando somente letras maiúsculas para indicar quando uma personagem está falando. A linguagem é mantida no português de Portugal (não sei se por exigência do autor ou preferência da editora), o que resulta na utilização de termos pouco familiares aos leitores brasileiros (você sabe o que é um caravançarai?). E seus parágrafos costumam ser gigantescos, tratando de um assunto no começo, tergiversando no meio, até chegar ao final falando de algo totalmente diverso.

Achou complicado? Pois considere-se sortudo por este livro tratar de um relato histórico, assim cada personagem tem seu devido nome. Em vários livros do Saramago, ele sequer se dá ao trabalho de nomeá-las, referindo-se a elas apenas por suas características específicas (a mulher de óculos escuros) ou sua função (o primeiro ministro, a Morte).

Mas, deixe-me lembrar que meu objetivo aqui não é desencorajar a experimentação do livro, e sim incentivar. A leitura pode parecer difícil a princípio, mas eu acredito que seja mais uma questão de se acostumar com o estilo à medida que se vai lendo.

Passada a estranheza inicial, você se acostuma ao jeito Saramago de escrever, e vai percebendo que a leitura flui diferente de outros livros. Não parece que você está lendo alguém descrevendo um cenário, e sim ouvindo essa pessoa em sua mente falando como é o cenário, como alguém falaria se realmente estivesse ao vivo. As conversas não são simples diálogos para se ler, é como estar presente em uma mesa de bar ouvindo duas pessoas conversando. A leitura fica mais dinâmica, embora em algumas ocasiões você ainda precise reler o parágrafo inteiro para entender o que ele está querendo dizer. É algo meio difícil de explicar, então eu vou colocar aqui um trecho do início do livro para demonstrar o que eu quero dizer:

Viviam José e Maria num lugarejo chamado Nazaré, terra de pouco e de poucos, na região de Galiléia, em uma casa igual a quase todas, como um cubo torto feito de tijolos e barro, pobre entre pobres. Invenções de arte arquitectónica, nenhumas, apenas a banalidade uniforme de um modelo incansavelmente repetido. Com o propósito de poupar alguma coisa nos materiais, tinham-na construído na encosta da colina, apoiada ao declive, escavado pelo lado de dentro, deste modo se criando uma parede completa, a fundeira, com a vantagem adicional de ficar facilitado o acesso à açoteia que formava o tecto. Já sabemos ser José carpinteiro de ofício, regularmente hábil no mester, porém sem talentos para perfeições sempre que lhe encomendem obra de mais finura. Estas insuficiências não deveriam escandalizar os impacientes, pois o tempo e a experiência, cada um com seu vagar, ainda não são bastantes para acrescentar, ao ponto de dar-se por isso no trabalho de todos os dias, o saber oficinal e a sensibilidade estética de um homem que mal passou dos vinte anos e vive em terra de tão escassos recursos e ainda menores necessidades…

Esse é um parágrafo típico do Saramago. E ele não acaba ali, continua por mais umas três páginas. Requer sim mais vontade de ler do que um livro normal, mas eu garanto que compensa. É como subir uma trilha árdua, dá trabalho, mas ao chegar ao final, a vista é  a melhor que se poderia ter e vale todo o esforço.

As narrações feitas pelo autor são minuciosas. Ao descrever os cenários, parece que estamos ao lado das personagens vendo a mesma coisa, como o céu que José vê quando acorda, logo nas primeiras páginas. E a imersão no período histórico é profunda, fica nítido que o escritor fez uma extensa pesquisa para escrever o romance.

A Palestina de Saramago, com suas mulheres em completa submissão a uma sociedade estritamente patriarcal, os judeus com seus rituais religiosos arcaicos, a dominação romana na região e diversos saborosos detalhes que não escapam à mente do autor, é ainda mais crível que a mostrada na Bíblia. Saramago nos apresenta uma história ancorada na dura realidade. Maria não é virgem ao conceber Jesus. Este por sua vez tem oito irmãos mais novos e mantém um relacionamento com Magdalena. Os três reis magos eram meros pastores que passavam pela região quando Jesus estava para nascer, e assim por diante.

Ao nos trazer esta versão mais verossímil de uma história já tão conhecida e tantas vezes contada, e tão mitificada, somos levados a imaginar se não foi daquela maneira que os fatos realmente se deram até serem transformados pelo tempo, culturas, necessidades religiosas e políticas na história fabulosa que se tornou hoje.

Mas é claro que, contando a história que conta, não poderiam faltar elementos místicos, como a visita de anjos, premonições em sonhos ou a presença de Deus e Satanás, mas mesmo assim, parece que esses acontecimentos extraordinários que se adaptam à realidade ao invés do contrário. Assim, quando, por exemplo, Jesus expulsa os demônios que possuíam um cidadão e os manda para os porcos, Saramago em uma sacada genial nos mostra as consequências do ocorrido e o problema que isso geraria para o dono dos suínos.

Essa, aliás, é outra característica típica de Saramago, usar da fina ironia e sarcasmo para expor suas críticas. Diálogos e afirmações que pareceriam absurdos caso ocorressem em outro contexto soam naturais para as situações apresentadas, mas nem por isso menos absurdos, como a séria discussão travada pelas autoridades religiosas locais a respeito do que fazer com uma tigela cheia de terra.

Mas o clímax do livro se encontra mesmo em sua parte final, quando Jesus se encontra com Deus e Satanás em um barquinho no meio do mar para discutir o seu papel nos planos divinos. Aqui o diálogo travado entre as partes deixa transparecer os pensamentos de Saramago sobre o Cristianismo e religiões em geral e os equívocos humanos realizados em nome de Deus. É um diálogo primoroso, carregado de ironia e que, em minha humilde opinião, rivaliza com qualquer coisa que Shakespeare tenha escrito. O colóquio por si só já valeria a leitura do livro. Fazer uma lista com o nome de todos os mártires da Igreja Católica e manter a atenção do leitor enquanto lê não é pra qualquer um.

E é claro que com essa abordagem um tanto quanto diferenciada de uma história tão controversa, o autor sofreu acusações de ofensa à religião da parte de diversos setores da Igreja Católica. O ex-Arcebispo de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, classificou a obra como “uma delirante vida de Cristo” e desqualifica o autor por ser um “ateu confesso e comunista impenitente“. A pressão por parte dos setores religiosos fez com que o então subsecretário de Estado da Cultura, António de Sousa Lara, retirasse a obra de Saramago de uma lista de concorrentes ao Prêmio Literário Europeu. Em represália a esta atitude do governo português, que Saramago considerou como censura, o autor mudou-se de Portugal para as ilhas Canárias, na Espanha, onde permaneceu até o fim de sua vida.

Aliás, considerar o livro como uma versão delirante da vida de Cristo não faz o menor sentido. O simples fato de algo estar na Bíblia não significa que esse algo seja real. Você pode até acreditar que seja, mas querer que todas as outras pessoas também o façam que é delirante.

De fato, a própria Bíblia deixa de cobrir uma grande parte da vida de Jesus, então o autor cria livremente sua história preenchendo essas lacunas deixadas pelas escrituras bíblicas e utilizando da livre interpretação dos evangelhos já existentes para imaginar como realmente ocorreram os fatos ali relatados. Muitas das passagens escritas pelo autor estão presentes na Bíblia, porém com menores detalhes. A meu ver Saramago (ou qualquer outra pessoa) tem tanta credibilidade para escrever sobre os fatos passados quanto tinham as pessoas que escreveram os evangelhos oficiais décadas depois dos fatos ocorridos. E afirmar que um ateu não pode escrever sobre a vida de Jesus por não acreditar na Bíblia é o mesmo que afirmar que um pesquisador moderno não pode escrever sobre Zeus, Rá ou Quetzalcoatl. O fato de não se acreditar em algonão significa que você não o conheça e não possa discorrer sobre ele.

Afirmações como a do arcebispo só fazem sentido para quem acredita na literalidade da Bíblia e se sente ofendido pelo fato de alguém não o fazer. É meio óbvio que o autor não espera que seu romance substitua a crença das pessoas que acreditam que os relatos bíblicos são a verdade absoluta. Ele apenas oferece uma versão diferente da história. Se eu me meter a escrever uma versão diferente da Odisséia, o arcebispo julgaria se tratar de uma visão delirante da vida de Ulisses? Pois para quem vê a Bíblia apenas como literatura, não há diferença nenhuma entre uma coisa e outra. Querer censurar a venda de um livro apenas por discordar de seu conteúdo nos remete a tempos mais obscuros da história da Igreja Católica. E cá entre nós, se a sua fé é abalada com a mera leitura de uma obra de ficção, eu não acho que o problema esteja na obra, e sim no que você acredita.

Então, se você acha que se sentirá ofendido com a simples leitura do livro, não o leia. Mas tenha consciência que, ao deixar de fazê-lo, você estará negligenciando uma grande obra literária, que não só diverte, mas também nos faz refletir sobre nossa condição existencial.

I.S.B.N.: 978-8-5716420-9-6

Título original: O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Autor: José Saramago

Editora: Companhia das Letras – 31/10/1991

Origem: Portugal

N° de páginas: 448

Dimensões: 21 x 14 x 2,3 cm

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Leitura recomendada – Generation Atheist

Esse post estreia uma nova série no blog, que eu vou chamar de Leitura Recomendada. Nela, eu vou eventualmente falar sobre algum livro que trate de ateísmo, de religião ou qualquer outro tema relevante que gire em torno desse universo.

Minha idéia inicial era começar a série com um outro livro, não este que eu vou apresentar aqui. Porém, este primeiro post especificamente será especial na série, diferente dos demais, pois além de falar do livro, eu consegui entrar em contato com o seu autor, um camarada excepcional, que não só me enviou uma cópia da obra de presente como me autorizou a traduzir um dos capítulos do livro e reproduzí-lo aqui na íntegra.

O nome do livro é Generation Atheist (Geração Atéia, em tradução livre), do autor Dan Riley, e conta a história de 25 ateus estadunidenses, mostrando as trajetórias que os levaram ao ateísmo e como isso afetou suas vidas. Dan Riley trabalha no Center for Inquiry, uma organização não governamental norte americana que busca assegurar a laicidade do Estado e uma sociedade humanista.

generationatheist

Generation Atheist

Infelizmente o livro ainda não foi publicado no Brasil, então quem tiver interesse em lê-lo terá que importá-lo ou comprar a versão digital para ler no Kindle ou outro e-reader, e, por enquanto, só em inglês. A versão em papel pode ser comprada aqui, e a versão digital aqui.

Cada capítulo conta a história de uma das pessoas entrevistadas. Havia muitos capítulos interessantes no livro, alguns inclusive eram mais tocantes do que o que eu escolhi traduzir. Porém eu achei que a história a seguir seria de maior identificação para o público brasileiro, por se tratar de uma jovem ex-católica que se descobre atéia e se vê inserida em uma sociedade predominantemente cristã, até que um dia resolve lutar contra a imposição religiosa promovida pelo Estado, em sua escola. Essa é a história de Jessica Ahlquist:

Jessica Ahlquist sempre foi uma pessoa sensível. Ela chorou em sala de aula quando aprendeu sobre a escravidão na região sul pré-guerra civil. Ela chorou em sala de aula quando aprendeu que o Terceiro Reich massacrou os judeus. Com o que ela vivenciou nos últimos dois anos, é de se imaginar que um rio de lágrimas correria de Cranston até Providence. Mas não foi isso o que ocorreu; ela diz que agora se sente mais confiante do que nunca.

Atéia desde os 10 anos, ela atualmente é uma estudante da escola pública secundária Cranston High School West, em Cranston, Rhode Island. Ela notou um cartaz com uma prece no auditório de sua escola em seu primeiro ano. Ela soube que a prece, dirigida a um deus no céu, já era um problema. A ACLU (American Civil Liberties Union – União de Liberdades Civis Americana) já havia sido contactada por um dos pais de alunos, e um subcomitê foi formado para se decidir o que fazer a respeito. Em sua reunião final, o subcomitê, do qual o superintendente da escola fazia parte, chegou a uma votação de 4-3 para manter a prece.

Apesar das ameaças e da perseguição, Jessica se aliou à ACLU e entrou com um processo contra a escola. Ela encontrou apoio online durante seu ativismo. De acordo com ela, o seu envolvimento no movimento secular mostrou que “há muitas pessoas que se importam – e essa foi a melhor parte de tudo isso.”

II

Jessica Ahlquist: Coragem em Cranston

 Eu sou a mais velha de quatro filhos. Eu tenho uma irmã e dois irmãos mais novos. Meu pai é ateu desde sua adolescência. No entanto, ele não criou a mim e a minha família desse jeito. Eu sempre tive a liberdade de fazer e acreditar no que quisesse. Minha família se identificava como católica, mas eu não acho que nós éramos tradicionais. Eu ia na missa em homenagem a membros da família que faleciam, mas era basicamente isso. Minha mãe fazia parte de um grupo religioso chamado Ciência da Mente; eles acreditam que podem controlar ou manipular o universo através de suas próprias mentes e que o ato de pensar positivo terá automaticamente um impacto positivo nas coisas que acontecem em suas vidas.

Quando eu era mais jovem eu acreditava em Deus, principalmente porque eu acreditava em tudo que me ensinavam. Eu achava que havia um Deus no céu olhando para todos nos, cuidando de nós e nos observando. Quando eu fiquei mais velha, comecei a questionar as coisas. Eu estava ficando mais interessada nas grandes questões, ficando menos infantil. Os irmãos do meu pai são ateus, e uma boa parte do lado da família do meu pai é secular, então eu os ouvia conversando a respeito de questões religiosas. Isso atiçou uma curiosidade que causou uma reação em cadeia. Eu comecei a pesquisar mais e a fazer perguntas ao meu pai. Eventualmente, eu simplesmente decidi que não acreditava em nada disso.

Uma reviravolta em minha vida desafiou o meu distanciamento da fé. Quando eu tinha 10 anos, minha família se mudou para um setor rural de Rhode Island, e nós vivemos lá somente por um ano. Enquanto estávamos lá, minha mãe desenvolveu uma doença mental e ficou muito deprimida. Ela desenvolveu sintomas de psicose. Ela parou de comer completamente, perdeu muito peso e estava muito adoentada. Era assustador; eu estava preocupada com ela e com toda minha família. Eu lembro de me sentir desesperançosa. Sem ter mais para onde correr, eu decidi orar. E quando nada aconteceu por um ano inteiro, eu me senti enganada, traída. Eu percebi, finalmente, que Deus não estava nos ajudando porque Deus não existe.

Eu sempre fiquei muito chateada com as coisas que eu considerava injustas, e por causa disso eu sempre fui muito sensível. Na quinta série, por exemplo, meus colegas e eu estávamos aprendendo a história da escravidão na América. Eu estava no fundo da sala, chorando. As outras crianças da minha sala estavam zombando de mim porque elas achavam que eu era uma tonta por estar chorando, mas eu não conseguia evitar minha comoção com isso. Então novamente, na oitava série, eu aprendi a respeito do holocausto e tive a mesma reação. Em certo ponto, durante minhas próprias pesquisas independentes, eu descobri que Hitler era católico e queria se tornar um padre. Não haviam me ensinado isso na escola. Em minha juventude eu sempre fui ensinada a ver as pessoas religiosas como caridosas. Nunca fui exposta ao  lado mais negro da coisa. O holocausto envolveu religiosidade. Eu acho que isso me fez começar a perceber que ser religioso não necessariamente leva a um comportamento virtuoso.

Eu cresci em uma região muito religiosa, muito católica e eu estava ciente de que se eu “saísse do armário” como atéia eu provavelmente seria desprezada por muitos dos meus conhecidos. Durante um bom tempo, eu não contei a ninguém. Eu mentia para as pessoas e falava para elas que eu era cristã. Eu era meio nerd e não queria perder os poucos amigos que eu tinha.

Nos meus anos de ensino médio, eu conheci a minha amiga Taylor. Assim que eu a conheci ela era muito religiosa, muito católica. Uma vez eu estava na sua casa, e íamos passar a noite lá. Naquele ponto eu já era uma atéia completa, mas eu não havia contado isso a ela. Ao invés de ficarmos pintando as unhas ou passando maquiagem, eu peguei o computador dela e nos conectamos. Eu entrei no site godisimaginary.com e comecei a mostrá-la. Enquanto nós víamos o site, ela estava muito curiosa, e eu estava contente de vê-la assim. Um mês depois, ela se declarou atéia. Minha outra amiga, Alex, que eu conheci entre a sétima e oitava série era, a princípio, meio religiosa. Nós começamos a conversar mais a respeito de religião e, com o tempo, ela também percebeu que era uma atéia. Isso foi maravilhoso pra mim. Me fez sentir um pouco mais segura. Essas são minhas melhores amigas, e eu tive muita sorte de tê-las.

Eu também fui incrivelmente sortuda por ter nascido nessa época, com a internet, em minha infância, crescendo e questionando as coisas. Isso me permitiu encontrar muitos recursos que me influenciaram. Durante a maior parte da minha vida eu não soube que existiam outros ateus. Eu pensei que minha família e eu éramos os únicos por aqui.

O resto da minha história começa no final do meu primeiro ano do ensino médio. Minha amiga Taylor estava no auditório da nossa escola e viu um cartaz do colégio com uma prece. Ela me contou isso e eu corri para dar uma olhada. Eu fiquei em choque; nunca soube que aquilo estava lá. O cartaz pede a Deus que ajude a escola e permita que todos nos demos bem e nos entendamos uns com os outros. E termina com a palavra “amém”. É uma mensagem positiva, mas está pedindo a Deus que nos permita fazer as coisas ao invés de pedir que nós mesmos façamos. Me senti intimidada com isso.

Eu imediatamente perguntei ao meu pai se isso era legal; ele disse que achava que não. Quando eu cheguei em casa da escola, comecei a falar mais a respeito disso. Eu imaginava que tais demonstrações religiosas pudessem ocorrer no sul, ou anos atrás, mas não na minha escola, não nos dias atuais. Eu lembro de ter pesquisado um pouco online para saber se outros casos como esse já haviam ocorrido no passado, porque eu queria saber o que fazer. Eu queria dizer algo. Eu queria levar isso à administração. Mas eu também estava muito assustada porque a maior parte das pessoas na minha comunidade presumem que você é religioso a menos que você diga o contrário. Eu ainda estava considerando minhas opções quando as férias chegaram. Eu fiquei curiosa a respeito disso o verão inteiro. Em julho eu descobri que houve um pai que enviou uma reclamação à ACLU a respeito da prece. A ACLU pediu à escola que a removesse e a escola, em resposta, reuniu um subcomitê para decidir o que fazer.

A primeira reunião a que compareci foi em novembro de 2010. Eu tinha a impressão que eu chegaria lá e aquela reunião seria só uma formalidade, que eles tinham que fazê-la por causa de tecnicalidades. Eu presumi que o subcomitê perceberia que a prece era ilegal e a retiraria. Pensei que estava indo somente como uma observadora. Eu estava planejando falar se eu sentisse necessidade, mas eu não queria realmente fazê-lo. Eu sempre fui incrivelmente tímida.

Na reunião, o meu queixo caiu. A maioria das pessoas presentes queria que a prece ficasse. Eles falavam, “Nós precisamos ter a Deus”. Alguns falavam, “Isso nem é uma prece”. Outros diziam, “Isso é histórico”. Eu estava aturdida. Eu pensei que os adultos saberiam que isso era ilegal e o que fazer. Eu discursei naquela noite. Quando eu o fiz, eu levantei, e pela primeira vez na minha vida, eu disse publicamente que era atéia. Eu nunca havia contado a nenhum dos meus colegas de classe; nenhum dos meus professores sabia.  Eu disse, “Sendo uma estudante atéia, essa prece é discriminatória contra mim.” Alguém engasgou. Outras pessoas começaram a sussurar. Em um outro momento durante a reunião eu levantei para falar novamente e quando eu me sentei a ex-candidata a vice-governadora de Rhode Island, Kara Russo, me chamou baixinho de bruxa. No final da reunião, o subcomitê concordou que eles precisavam agendar outra reunião porque eles não chegaram a uma solução. Depois da reunião, eu estava nos noticiários. Eu lembro de entrar no carro depois da reunião e ficar pasmada, pois ela saiu completamente diferente do que eu havia esperado.

Depois de aparecer nos noticiários, a escola parecia um pouco estranha, mas naquele momento não parecia ser uma grande questão. Muitas pessoas ainda nem sabiam da controvérsia a respeito da oração. Eu criei uma comunidade no Facebook para apoiar a remoção da prece. Depois de aparecer na televisão, havia 150 pessoas na comunidade. A maior parte das pessoas entravam na comunidade e diziam, “Eu sou ateu, obrigado por fazer isso.” Isso foi muito encorajador, pois eu realmente odiei a reunião. Eu não queria voltar para mais uma, mas eu planejava fazê-lo. Me sentia doente toda vez que pensava nisso.

A reunião seguinte foi em fevereiro de 2011. Essa foi muito maior. Nós tivemos que usar uma sala diferente da que estava inicialmente reservada porque havia muitas pessoas e a sala original não acomodava a todos. A maioria absoluta das pessoas presentes era a favor de manter a prece. Eles apareceram liderados pelo ex candidato a prefeito de Providence, Chris Young, e sua noiva, Kara Russo. Eles são dois dos católicos mais fervorosos que eu já conheci.  Na primeira reunião Kara havia dito repetidamente que as pessoas precisavam de Deus em suas vidas, que elas não queriam ficar do lado errado. Eles me fizeram perceber que as pessoas realmente querem inserir a religião no governo; elas realmente estão tentando se infiltrar em nossa laicidade. Para mim, isso é assustador, pois como atéia, eu tenho medo do modo como eles poderiam mudar o país.

Houve uma quantidade massiva de apoio à oração. Todos os que apoiavam o cartaz com a prece apareceram com papéis e cartazes pendurados no pescoço que diziam “Mantenham o cartaz original”. Ele estavam realmente nervosos. Eles não gostavam dos ateus; começaram a gritar a respeito dos “interesses ateístas”. Eles estavam criticando os ateus e dizendo que eu era um fantoche. Eu me senti menosprezada e assustada. Eu esperava que eles agissem com um pouco mais de civilidade, especialmente em relação a uma garota de 15 anos. Eu queria sair, ir pra casa, e chorar por um tempo.

Em um determinado momento durante a reunião, as pessoas disseram que se eu tinha algum problema com Deus , eu deveria ir para uma escola diferente, o que foi realmente frustrante para mim, pois a Cranston High School West é uma escola pública. Se as pessoas querem Deus na escola, então elas devem ir para uma escola privada; nenhum ateu liga pra isso. Ninguém quer retirar esse direito. Eu estava tentando dizer que o que estava acontecendo com o cartaz da prece era ilegal. Eu não estava tentando falar como uma ateísta per se, mas eles meio que transformaram isso em uma guerra religiosa.

No final daquela reunião, o subcomitê decidiu ter ainda mais uma reunião. A seguinte foi em março e foi ainda maior que a última. Nós tínhamos talvez 10 pessoas apoiando a remoção da prece, e mais de 100 pessoas que queriam mantê-la na minha escola. Era muito difícil pra mim falar na frente daquelas pessoas. Quando os defensores da prece subiam para falar, eles não argumentavam somente a respeito de mantê-la. Eles falavam coisas a respeito dos ateus, o quão ruim nós éramos, como os ateus têm interesses ocultos e que nós somos socialistas. Em um momento, uma mulher subiu para falar, e pediu para todos pegarem uma cédula de dólar. Ela pegou uma nota também e disse, ” Segure-a na sua frente. Eu quero que todos nessa sala que não acreditam em Deus rasguem a nota ao meio”. Quando nenhum de nós o fez, ela disse que isso era prova que a prece deveria ficar, enfatizando que “Em Deus nós confiamos” estava nas notas. Eu ainda não entendi ao certo o que ela queria provar.

Na quarta reunião, a votação foi alcançada. O resultado foi uma votação de quatro contra três a favor de manter a prece e enfrentar a ACLU. Eu lembro que na primeira reunião o superintendente havia dito, “se você quer rezar, talvez devesse ir à igreja. Eu sou católico. Eu vou à igreja todo domingo e vejo muitos bancos vazios à minha volta.” Eu apoiava aquilo. Achei que foi muito legal. Ninguém está tentando acabar com a religião; estamos somente tentando separar a religião das escolas públicas. Ele parecia estar do lado dos que queriam retirá-la, mas quando foi sua vez de votar, ele disse, “Eu acho que a prece deveria ficar; precisamos dela aqui.” e votou para mantê-la na escola. Parecia que a superioridade numérica o estava assustando e o fazendo pensar que ele não seria reeleito se não votasse que permitia que o cartaz continuasse. Essa foi uma cena comum com os outros membros do subcomitê. Eles haviam se apresentado bastante neutros no começo.

A ACLU então pediu que eu procedesse com um processo judicial. Eles disseram, “Se você quiser ser a reclamante no caso, nós a representaremos.” Quando eu recebi esse email, eu sabia que diria sim. Era importante pra mim. Não importava muito o fato de que eu provavelmente enfrentaria muito ódio por isso. Eu queria fazê-lo porque me parecia a coisa certa a ser feita. Eu não tenho 18 anos, então eu precisava que um dos pais me desse autorização. Meu pai disse que dependia somente de mim, que essa era uma grande decisão e que eu podia tomá-la se quisesse, mas que não devia haver nenhuma pressão sobre mim. Depois que eu disse sim, eu comecei a imaginar que seria minha culpa se a escola gastasse uma grande quantia de dinheiro se defendendo no processo. No final eu decidi que prosseguiria porque eu conclui que na verdade era culpa da escola. Eles decidiram manter a prece. Poderiam tê-la retirado e não teriam que lidar com o processo. Isso me consumiu muito tempo e muita energia, mas definitivamente valeu a pena.

Há uma história que eu tenho que compartilhar. Na minha escola todo ano tem uma semana chamada “Semana da Diversidade”, e durante esse período há assembléias feitas pelos alunos, que administram a coisa toda. Na época da controvérsia com o cartaz da prece, o prefeito compareceu. Ele é sino-americano. Ele fez um discurso sobre minorias e como elas freqüentemente sofrem discriminações. E falou como ele, apesar de pertencer a uma minoria, conseguiu atingir o sucesso. Foi uma bela conversa. Ao final, houve uma sessão de perguntas e respostas. Um estudante pegou o microfone e perguntou, “Prefeito Fung, qual é sua posição a respeito da prece na nossa escola?” Quando eu ouvi a pergunta, fiquei um pouco nervosa e mesmo surpresa que ela tenha sido feita. Ele apontou para o cartaz da prece e falou, “Eu quero ver a prece permanecer exatamente onde ela está!” Ele foi muito dramático e passional enquanto apontava para a prece. Todos no auditório pulavam e apoiavam e aplaudiam e se mexiam e gritavam. Eu queria sair correndo da sala e chorar porque eu parecia a única pessoa sentada que não gostou do que ele disse. As pessoas começaram a olhar pra mim e eu me senti uma aberração. Foi terrível. O prefeito não pareceu preocupado com a possibilidade de eu estar na sala; ele não pareceu ter a mínima preocupação com o que eu sentia. Também causou um pouco de mágoa nenhum dos professores virem ver se eu estava bem. Todo mundo parecia muito feliz pelo prefeito estar do lado deles. Eu também achei muito irônico ele falar sobre a discriminação das minorias, enquanto dizia achar que o discriminatório cartaz com a prece deveria ficar na escola, magoando os sentimentos de ateus e outros não-cristãos que ficam se sentindo excluídos. Eu acho que o incidente na verdade acabou me deixando mais forte, mais resistente.

Houve ainda outras ocorrências difíceis relacionadas ao cartaz com a prece. No Facebook, os alunos da minha escola começaram a me adicionar como amiga apenas para que pudessem me perturbar. Certa vez eu postei um vídeo sobre como a história de nossa nação é laica e como elementos do governo atual são discriminatórios com os ateus e outras pessoas que não acreditam em um tradicional Deus Cristão. Uma das crianças começou a surtar; ele postou diversos materiais, inclusive um vídeo do Edward Currant onde ele retrata satiricamente um cristão. Eu perguntei, “Você percebeu que o Edward Currant está sendo sarcástico? Ele na verdade é ateu.” Isso conflagrou uma enorme argumentação de 200 ou 300 comentários nos quais esta pessoa e diversos de seus amigos me chamaram das piores coisas que já fui chamada na minha vida. Eles diziam que ninguém me quer na escola e que eu deveria simplesmente sair. Ele disse que se eu soubesse a opinião dele a meu respeito, eu me mataria. No dia seguinte a mesma criança me disse que outras pessoas que não tinham comentado mas viram o desenrolar da coisa falaram-no que ele tinha feito um belo trabalho.

De maneira geral, essa provação toda me mudou. Antes disso, eu nunca me consideraria uma ativista, alguém que falaria sobre esses assuntos. Eu sempre morri de medo de falar em público: eu quase vomitei quando tive que apresentar aos 20 alunos da minha sala na terceira série um trabalho sobre o estado da Georgia. Isso, obviamente, havia sido um pouco mais intenso.

Há uma grande diferença entre quem eu era há uns dois anos e quem eu sou agora. Me sinto melhor. Eu sinto como se tivesse muito mais amigos verdadeiros. Eu me sinto muito mais confortável em colocar as coisas pra fora e ser aberta a respeito do meu ateísmo. Eu acho que está valendo a pena. Eu lembro de me sentir inteiramente desesperançosa e sozinha após a primeira reunião. Eu descobri que há uma comunidade inteira de ateus e que há um movimento. As pessoas que se mobilizaram por mim foram fantásticas. O fato de saber que eu estava falando não só por mim mas também por outras pessoas mudou tudo. Isso fez valer a luta.

Apesar de eu ter passado por algumas dificuldades, eu não acho que estou ficando mais fria. Eu sei que sou a mesma pessoa que eu sempre fui. Eu só entendo mais coisas agora. Eu nunca voltaria a ser religiosa. Quando eu era mais nova, eu lembro de me sentir confusa toda vez que pensava a respeito do universo ou de Deus. Tudo está muito mais claro agora. Eu tenho mais confiança. Pela primeira vez eu posso dizer que não ligo pro que as outras pessoas pensam e genuinamente estar sendo sincera. Eu não evito intencionalmente situações onde eu estarei cercada de pessoas que discordam de mim. Eu tenho diversos amigos, muito apoio e eu sei que o que estou fazendo é o certo. Isso torna tudo muito mais fácil.

Nota: depois da entrevista de Jessica para este livro, um juiz federal considerou o cartaz com a prece em Cranston High School West inconstitucional.

I.S.B.N.: 978-0-9881795-0-9

Título original: Generation Atheist

Autor: Dan Riley

Editora: Dan Riley (Independente) – 28/09/2012

Origem: EUA

Nº de páginas: 294

Dimensões: 23 x 15 x 1,5 cm

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