Cemitérios Proíbem Cultos Afro no Rio

Esta semana tivemos uma notícia interessante aqui no Rio. Segundo o jornal O Dia, a Santa Casa de Misericórdia, entidade responsável pela administração de sete cemitérios na cidade, está impedindo que os participantes de cultos de matrizes africanas realizem suas cerimônias nos locais.

A notícia veio à tona depois que a mãe de santo Rosiane Rodrigues foi barrada por um servidor na porta do cemitério de Ricardo de Albuquerque. A religiosa ia fazer uma oferenda no jazigo de seus pais e avós, quando foi informada pelo funcionário do local que ela não poderia entrar no local com as oferendas:

“Para minha surpresa, quando fui entrar com comidas caseiras, frutas, canjica, pipoca, velas e refrigerantes, o funcionário trancou o portão, disse que eu não podia entrar, ‘por ordem superior’. Fiquei arrasada, pois há anos faço o mesmo ritual. Me senti humilhada.”

A religiosa ainda entrou em contato com a Polícia Militar, que, segundo ela, disse que isso “era assim mesmo” e ignorou o caso. Então Rosiane decidiu filmar o ocorrido e lançou o vídeo nas redes sociais, onde já foi visualizado mais de 50 mil vezes.

Rosiane Rodrigues, proibida de entrar no cemitério para fazer suas oferendas / Uanderson Fernandes - O Dia

Rosiane Rodrigues, proibida de entrar no cemitério para fazer suas oferendas – Uanderson Fernandes/O Dia

Não demorou para que os líderes de religiões afro externassem sua indignação com o episódio. Jorge Mattoso, secretário da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, afirmou que irá denunciar o caso internacionalmente e o babalorizá Pai Omulu deu a seguinte declaração:

“Já sofremos demais com a perseguição de traficantes, de parte da polícia e de pessoas intolerantes nos terreiros e encruzilhadas. Mas isso é culpa principalmente dos nossos governantes, que não investem em um trabalho educacional sobre o respeito entre os praticantes da vasta quantidade de religiões que temos. Isso forma nosso maravilhoso sincretismo religioso”

A Santa Casa, procurada pela reportagem do O Dia, não se pronunciou sobre o ocorrido.

Bom, minha opinião sobre esse caso é simples. Sendo um ateu, é óbvio que eu defendo com unhas e dentes o direito das minorias religiosas. A liberdade de culto deve ser observada sempre que possível, e ninguém deveria ser proibido de frequentar qualquer local público pelo simples fato de possuir uma determinada orientação religiosa.

No entanto, posso estar enganado, mas nesse caso em particular, me parece que a proibição determinada pela Santa Casa não visava discriminar os integrantes de um grupo de religiões em particular, e sim, evitar que os integrantes destes cultos realizassem oferendas que viessem a poluir o ambiente dos cemitérios. Afinal, é de conhecimento público que algumas oferendas feitas por religiões de origem africana acabam por deixar restos de animais e dejetos em vias públicas.

oferenda

Exemplo de oferendas poluindo o ambiente e atrapalhando a passagem de transeuntes.

E ao escrever isso, já posso até prever os protestos de quem defende as orientações religiosas minoritárias: “Ah, então os seguidores de tal religião não podem realizar seus rituais”? “Isso é um desrespeito à diversidade religiosa”. “As pessoas deveriam ter a liberdade de fazer tudo o que suas religiões mandam”!

Bom, liberdade de culto não é uma carta branca para se fazer qualquer coisa em nome da religião.  Se uma orientação religiosa faz com que locais públicos fiquem sujos de comida e animais mortos, isso é um fato que já não diz respeito somente aos integrantes dessa religião, é um caso de saúde e saneamento públicos, portanto envolve o direito de terceiros. A liberdade religiosa tem que ter limites também, que é justamente onde começam os direitos de outrem. Do contrário, imaginem se amanhã ou depois surge uma religião dizendo que seus membros têm que defecar nas ruas. E depois uma outra dizendo que seus mortos têm que ser largados ao ar livre. Teríamos que permitir isso sem discussões? Se liberdade religiosa significasse que as pessoas podem realizar qualquer ritual, desde que amparadas por preceitos religiosos, até mesmo sacrifícios humanos seriam justificáveis pela fé.

E é claro que isso não se aplica somente às religiões de origem africana. Da mesma maneira que eu acho que oferendas que atrapalhem e poluam vias públicas não devem ser permitidas, também acho que os cultos barulhentos das religiões majoritárias que incomodem os vizinhos não deveriam ser realizados. E até mesmo o difundido costume de acender velas e largar seus cotocos em tumbas poderia ser discutido, visto que também causam poluição.

No entanto, não ignoro também que a maneira empregada pela Santa Casa para tentar solucionar o problema pode não ter sido a melhor opção possível. Proibir os integrantes de uma religião de entrar em um local público me parece um exagero. Se o objetivo deles era somente preservar a limpeza e a salubridade do local, talvez uma forma mais efetiva de vigilância, ou a aplicação de uma multa aos poluidores fosse o suficiente. Porém, essa me parece ser uma matéria que merece ser discutida mais profundamente do que simplesmente se afirmando que as pessoas deveriam ter total liberdade para fazer o que quiserem em nome de sua religião. Afinal, em uma vida em sociedade, ninguém tem a liberdade de ferir os direitos de terceiros. Mesmo que queira usar a religião como desculpa pra isso.

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4 Comentários

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4 Respostas para “Cemitérios Proíbem Cultos Afro no Rio

  1. Márcia

    A origem da máfia cristã

    “Lida propriamente, a bíblia é a força mais potente para o ateísmo concebida.” (Isaac Asimov)
    “Com ou sem religião, pessoas boas farão coisas boas e pessoas más farão coisas más. Porém para pessoas boas fazerem coisas más, é preciso religião” (Eteven Weinberg)

    Segundo Atos dos Apóstolos Ananias e Safira tinham uma pequena propriedade, obtida com trabalho, e por motivos financeiros tiveram de vendê-la. Ananias pegou parte do dinheiro e foi ofertá-lo ao mafioso apóstolo Pedro. Acontece que, como toda máfia, o sistema religoso tem uma rede de espionagem para controlar os cordeiros de deus. Assim que Ananias adentrou à fortaleza de Pedro e entregou-lhe o dinheiro, esse perguntou pelo resto. Guloso, Pedro queria tudo. Ananias disse que aquilo era tudo. Pedro, bem informado como qualquer bandido , sabia que ali não tinha tudo e vendo que não conseguia extorqui-lo, imediatamente evocou o senhor seu deus que naquele instante, na maior frieza e maldade, deu fim à vida do homem, em mais um ato de piedade cristã. As pessoas evocam deus para fazer o bem e ele não aparece, mas se for para fazer o mal ele comparece onipotente.
    Como o marido não voltava, Safira, foi ao encontro dele no esconderijo do perigoso. Lá chegando perguntou ao elemento pelo paradeiro do marido, que saiu de casa se dirigindo para aquele antro. Friamente esse não respondeu e obviamente ocultou o cadáver. Insensível e tranquilo perguntou à mulher pelo resto da grana, numa segunda tentativa de extorsão, sem se importar nem um pouco com o marido dela que ele e o deus dele tinham acabado de eliminar. Nenhuma compaixão pela dor da mulher, o negócio deles era só dinheiro mesmo. Como ela não quis entregar toda a grana ao bandido, esse, com as rezas dele, evocou novamente a entidade, que imediatamente deu a ela o mesmo fim que deu ao marido. Foi aí que ela ficou sabendo o paradeiro do marido, indo para a mesma cova rasa que ele, possivelmente no fundo do quintal da fortaleza do crime. Assassinato frio por Pedro e senhor seu deus, por causa de dinheiro. Possivelmente, embora não tenha nada escrito sobre isso, é crível que o casal tivesse filhos, porque se não os tinham com as esposas, tinham com as escravas, e esses ficaram esperando a volta dos pais que não voltariam, e se formos mais além podemos acreditar, segundo a própria bíblia, que Javé pode ter ido à casa do casal, não para acolher os pequenos órfãos, mas para “visitar a iniqüidade dos pais nos filhos”, matando pessoalmente ou enviando duas ursas para destroçá-los. Aí os meninos ficam felizes com a chegada de deus, solicitado em orações, se sentem protegidos pelo senhor e Javé mostra a que veio, assim como mostrou ao casal.
    Talves tenhamos aí a formação da primeira quadrilha cristã, Ali Babá e os quarenta ladrões, Javé Babá e os 12 discípulos ladrões. “Não matarás”, a não ser que seja por dinheiro, Javé não só admite como também ajuda na execução. O modus operanti da organização funciona dessa forma, atraem a vítima com palavras de amor, misericórdia e respeito à vida, e o fiél termina em um cemitério clandestino nos fundos do QG do crime cristão.
    Na Bíblia de Mulher, bíblia protestante, esse desespero por dinheiro e desrespeito à vida é contado da seguinte forma “Safira e Ananias aparentemente tinham um casamento satisfatório e colaboravam entre si, como membros da igreja primitiva de Jerusalém e discípulos dedicados de Jesus aliaram-se aos apóstolos. Porém, Safira e seu marido cometeram um erro fatal de julgamento, misturando cobiça com generosidade. Os membros da igreja de Jerusalém, venderam suas propriedades e ofertaram o dinheiro da venda aos apóstolos. Tal desprendimento ganhou admiração e a quantia arrecada foi então usada para ajudar os pobres. Porém egoísmo e dolo entraram no coração desse casal. Eles venderam a propriedade e entregaram como oferta apenas uma parte dos lucros. Em seguida mentiram sobre o preço recebido pelas terras, afim de manterem parte do dinheiro, embora alegassem ter dado todo o lucro à igreja. Com grande dicernimento, Pedro desafiou Ananias a respeito de sua duplicidade e pecado contra deus. Ananias, apanhado em mentira, caiu morto instantaneamente. Algumas horas depois Safira procurou Pedro. Ela também foi interrogada sobre o preço das terras. Sem saber da morte do marido Safira confirmou o engano dele. Pedro a acusou de ter ofendido o espírito de deus, informou-a do falecimento de Ananias e depois proginosticou a morte eminente dela. Safia caiu imediatamente morte, sendo enterrada junto com o marido. A morte da Safira e Ananias espantou e amedrontou a pequena congregação. Deus mostrou ao casal e também a igreja de Jerusalém que ele não permite desonestidade em seu relacionamento com os discípulos. Mediante a trágica história de Safira, mulher formosa, deus continua a mostrar às mulheres que o nosso relacionamento como o senhor, deve basear-se além da beleza externa e das promessas vazias, isto é, na integridade de um compromisso sincero.”Segundo Atos dos Apóstolos 5. Veja a capacidade de distorção dos fatos que essa organização tem. Esse livro ensina a mulher a orientar o marido quanto ao dinheiro por eles adquirido. Entregar tudo para a igreja para não serem mortos pelo desprendido e misericordioso, porque segundo a bíblia, é melhor morrer de fome gradativamente que morrer numa tacada só pelo senhor seu deus. Semear discórdia entre o casal por causa de dinheiro, caso o marido discorde da mulher.
    Essa foi a forma como a igreja interpretou essa extorsão e esses dois assassinatos por causa de dinheiro. Um casal que vivia bem, segundo eles mesmos relatam, oferece dinheiro para ajudar, mesmo não sendo obrigados a isso, mas, secos por dinheiro, a quadrilha queria tudo e se sentido enganados, matam o casal friamente, em mais um ato de fé. A mulher chega à fortaleza do gangster gospel perguntando pelo marido e Pedro quer saber é do restante da grana, sem se incomodar nem um pouco com o desespero dela na busca pelo provedor do seu lar, que ele e o deus dele mataram e deram sumisso no corpo, à espera da próxima vítima. Imagine quantas pessoas essa quadrilha matou com esse mesmo propósito, quantos cadáveres Senhor seu Deus, Pedro e o restante da quadrinha tiveram de ocultar, mas isso não consta na bíblia, citaram só esse caso para que o recado ficasse dado aos fiéis infiéis. É o que denominam moral cristã.
    A igreja acusa ao casal de cobiça e mentira, por isso foram mortos, Tudo isso para amedrontar os fiéis que supostamente venham a omitir sobre seus rendimentos. Matar duas pessoas e destruir uma família por causa de dinheiro, isso é o que a igreja prega sobre desprendimento e amor ao próximo. Se por um lado tinha o Império Romano tomando parte do dinheiro dos hebreu, por outro tinham os apóstolos de Jesus pegando o restante. E esses abriam mão de tudo para poder escapar do inferno.
    Cobiça, falsidade, extorsão, formação de quadrilha gospel e latrocínio a sangue frio são os atributos de apóstolo Pedro. Pedro, aquele que negou Jesus por três vezes e andava pela bíblia com uma espada descepando orelhas. Matar um casal que oferece ajuda. Bem informado, como qualquer perigoso, descobriu que ali não tinha tudo e simplesmente deu fim a vida de ambos. Máfia Siciliana do deserto, Dom Corleone Gospel, “ou dá ou desce”. Então fica o recado, se algum religioso te extorquir e vc não entregar todo o dinheiro à organização criminosa religiosa que ele comanda, deus, o piedoso, vai te matar. Além de morrer vc vai sair com fama de mercantilista e mentiroso. Era com esse tipo de gente que Jesus andava e ainda elogiava, confiando a eles o prosseguimento da seita. Pedro, primeiro papa da igreja católica. Começou bem. Através dele a igreja cristã mostrou claramente a que veio.

  2. Márcia

    Estou escrevendo um livro, assistindo vídeos e preciso do seu comentário. Essa é uma parte do meu livro. Obrigada.

  3. Márcia

    Apolônio de Tiana

    “Pitágoras disse que a mais divina arte é a de curar. E, se a arte de curar é a mais divina, deve ocupar-se com a alma tanto quanto com o corpo, pois nenhuma criatura pode ser saudável enquanto sua natureza superior estiver enferma” (Apolônio de Tiana)

    Veio à terra anunciado por um anjo. Anulou pragas, realizou curas e ressuscitou a filha de um senador romano. Devolveu a visão à cegos e endireitou mancos. Paralíticos passaram a andar graças à sua força divina. Considerava que a única forma de alimentação pura era a produzida pela terra: frutas e vegetais. Também se abstinha de vinho, pois mesmo sendo feito de frutas “tornava o éter túrbido na alma” e “destruía a compostura da mente”, apesar disso transmutou água em vinho como lhe caberia fazer . Tinha a capacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo, ler pensamentos e falar em várias línguas que não tinha conhecimento. Andava descalço, cabelos longos e livres, vestimenta em linho. Acusado de traição foi preso pelo imperador mas escapuliu milagrosamente. Devido a estas ocorrências teve um grande número de seguidores que também eram atraídos por suas mensagens de igualdade e fraternidade em uma terra de ignorantes violentos. Agitou as massas e foi perseguido pelos romanos. Depois de protagonizar sua participação no show da vida, aplaudido pela platéia retornou ao céu para morar com seu pai e sua mãe.
    Esse homem era nada mais nada menos que Apolônio de Tiana. Pensou que era Jesus Cristo né? Mas contrário a esse Apolônio não andava pra cima e pra baixo com uma tal Maria Madalena, era celibatário. Doou toda sua imensa fortuna, recebida por herança, aos pobres. Vegetariano, não comia nada que não viesse da terra, “Ele não usava nada que proviesse de um animal morto, nem tocaria num bocado de comida que anteriormente tivesse tido vida, nem a ofereceria em sacrifício, nem mancharia de sangue os altares, mas só bolos de mel e incenso, e o serviço de sua canção subiriam desse homem para os deuses, pois ele bem sabia que eles aceitariam tais presentes muito mais que as centenas de bois imolados com a faca ”. Contrário ao sacrifício de animais também se opunha terminantemente aos violentos espetáculos dos gladiadores. Talvez por isso não tenha agradado católicos que temiam decepcionar os sanguinários romanos com esse tipo de ensinamento.

    Seus modos eram sempre doces, gentis e modestos, e nisto, dizia Damis, ele parecia mais um indiano que um grego, mas era bastante ativo em atos positivos de compaixão ou quando se indignava com alguma barbaridade.
    Viveu, possivelmente, uns 90 anos. A principal fonte sobre a sua biografia é “A vida de Apolônio” do filósofo ateniense Flávius Philostratus entre os anos 205 e 245 d.c, baseados nos escritos de um discípulo contemporâneo a Apolônio, Damis de Nineveh, que o conheceu em suas andanças pela Pérsia.
    Teve vários discípulos além desse; Musônio, que era considerado o maior filósofo da época depois de Tianeu, que foi a vítima especial da tirania de Nero, e Demétrio que amava Apolônio. Esses nomes são bem conhecidos da história, outros são desconhecidos como o do egípcio Dioscórides, que, devido a idade e má saúde, foi deixado para trás na longa viagem à Etiópia. Menipo, a quem livrara de uma obsessão. Curiosamente teve um discípulo de nome Lucius de Cirena, ou apenas Lucius, sendo conhecido como Lucas ou Luke de acordo com as traduções. Tembém Fédimo e Nilo, que o seguiu deixando os Gimnosofistas, e, é claro, Damis, que nos faz pensar que estava sempre com ele desde a época do seu encontro em Níneveh. Coincidentemente Apolônio era seguido por Lucius, Lucas, assim como Lucas foi companheiro de viagem de Paulo.
    Fez voto de silêncio por cinco anos, não tinha interesse em apenas levar a palavra, na verdade era um homem de poucas palavras e muitas ações, percorria cidades, inclusive árabes, com suas curas, à medida do possível, aos quais julgava mais necessárias que palavras, e fazia-se entender com os olhos, as mãos e os movimentos da cabeça, contrário a Jesus que usou suas palavras para secar, praguejar, odiar e mandar matar todos aqueles que não acreditavam que ele era um pacificador.
    Foi neste período de silêncio que partiu da Grécia, e passando pela Babilônia atingiu a Índia, absorvendo o misticismo oriental de magos, brâmanes e sacerdotes, onde “Vi homens morando na terra e ainda assim sem estar nela, defesos de todos os lados, e mesmo assim sem defesa alguma e possuindo nada exceto o que todos possuem”. Também buscou conhecimento no Tibete, nas colinas do Himalaia.
    Na Babilônia costumava trocar idéias com os sábios de lá. Damis, seu discípulo, sempre o perguntava o que tanto conversam a sós com esses sábios, onde Apolônio o respondia pra não se importar em estar a par de tudo pois “eles são sábios, mas não em todas as coisas”.
    Foi acusado de traidor, tanto por Nero como por Domiciano, mas escapou da morte por meios milagrosos.
    Perseguido por Nero, que redigiu um decreto proibindo qualquer filósofo de permanecer em Roma, peregrinou por várias cidades na Espanha, Norte da África, Egito, Grécia, Ásia Menor e outras.
    Na Ásia Menor visitou o templo de Esculápio em Pérgamo, onde curou muitos doentes.
    Passou anos em um dos inúmeros hospitais da Grécia, onde a arte da cura era praticada. Lá os pacientes recorriam para “consultar os deuses” onde eram recebidos em uma atmosfera psíquica.
    Na Grécia Apolônio visitou o santuário de Afrodite de Pafos. Essa deusa tinha uma forma peculiar de representação, uma misteriosa pedra polida em formato em pinha. Recusou-se a visitar as ruínas do famoso labirinto de Cnossos, já que foi centro de sacrifícios humanos.
    Em Lesbos Apolônio visitou o antigo templo dos mistérios Órficos, que na antiguidade havia sido um grande centro de profecias e adivinhações.
    Sua presença no templo de Serapis foi marcante, o sumo sacerdote desse templo perguntou-o com desprezo “Quem é sabido o suficiente para reformar a religião dos egípcios?” Apolônio respondeu-lhe sabiamente e surpreendentemente “Qualquer sábio que venha da parte dos indianos”, esclarecendo sutilmente sua oposição aos sacrifícios sangrentos tão amplamente ensinados e instigados também pela bíblia sagrada.
    Apolônio foi contemporâneo de Jesus e nasceu em Tiana, Turquia, filho de pais aristocratas de antiga linhagem e fortuna considerável, devido a isso teve a oportunidade de aperfeiçoar seus conhecimentos nos melhores centros de estudo. Era sereno e nunca ficava revoltado diante de uma insubordinação ou descrença, não rogava praga, não secava figueiras e nem deseja mal. Era aclamado pelo povo ao adentrar os portões de Alexandria, assim como foi Jesus ao adentrar Jerusalém. No entanto este não foi crucificado, o termino de sua participação nos palcos da vida foi diferente, adentrou em um templo grego e desapareceu, enquanto era aclamado pelo povo ao som de coral de virgens.
    Avisou a seus apóstolos sobre a sua morte e ressurreição, foi quando um deles perguntou se ele estaria vivo ou morto “Do meu ponto de vista estarei vivo, do de vocês estarei revivido”.
    A fama de Apolônio ainda era muito forte em 272, quando Aureliano (imperador entre 270 e 275) citou Tiana, que tinha se rebelado contra as leis romanas. Num sonho ou numa visão, Aureliano afirmava ter visto Apolônio falar com ele suplicando-lhe poupar a cidade de seu nascimento “Aureliano, se você deseja governar, abstenha-se do sangue dos inocentes! Aureliano, se vc conquistar, seja misericordioso!”. O imperador, que admirava Apolônio, poupou desse modo a cidade e ainda dedicou-lhe um templo. Essa característica de Apolônio desagradava demais os cristãos que não queriam ir contra o poderoso e sangrento império romano, porque Cristo “Em nome da paz, faz guerra”(Ap 19:11)
    Também no século III é citado pelo escritor Flávio Vopisco, em seus textos sobre Aureliano “um sábio da mais larga fama e autoridade, um antigo filósofo e um verdadeiro amigo dos deuses”, “Pois quem dentre os homens foi mais santo, quem mais digno de reverência, quem mais venerável, quem mais divinal que ele? Ele foi quem deu vida aos mortos. Ele foi quem operou e disse tantas coisas além do poder dos homens”. Vopisco era devoto de Apolônio e prometeu escrever sobre ele também em latim, caso vivesse, “para que seus feitos fossem conhecidos por todos os povos”.
    Vespasiano, Tito e Nerva eram admiradores de Apolônio, enquanto que Nero e Domiciano olhavam-no com temor.
    Sotérico, um poeta épico egípcio, escreveu sobre Apolônio no texto Vidas, e logo depois Tácito Vitoriano sobre as obras de Nicomaco também compôs uma Vida, citando-o. Mas nenhuma dessas Vidas sobreviveu à fúria cristã.
    Porfírio, Máximo, Merágenes, Filóstrato e Jâmblico também compuseram seus tratados baseando-se em Apolônio
    O alquimista medieval islâmico Jabir Ibn Hayyan o cita em “O livro das pedras” (Aqui chamado Balinas). Também há citações dele na obra “A vida de Pitágoras” de Porfírio e em “A vida de patagórica” de Jâmblico.
    Um padre de nome Luciano, escritor da primeira metade do século II, usa como tema de uma de suas sátiras o aluno de um discípulo de Apolônio.
    Apuleio, um contemporâneo de Luciano, classifica Apolônio junto com Moisés, Zoroastro e outros magos famosos da antiguidade. Nesta época foi escrita uma obra intitulada “Quaestiones et Responsiones ad Orthodoxos” , (Perguntas e respostas aos Ortodoxos), atribuída a Justino, o Martir, com a seguinte declaração “Pergunta 24: Se deus é o autor e mestre da criação, como os objetos consagrados de Apollonius têm poder nas várias ordens dessa criação? Pois, como nós vemos, eles acalmam a fúria das ondas e o poder dos ventos e impedem o ataque dos vermes e das bestas selvagens”.
    Dion Cássio entre 211 e 212 d.c escreve que Caracala (Imperador entre 211 e 216) o homenageou com monumentos e capelas. E foi nesta mesma época que Fhilostratus escreveu sobre “A vida de Apolônio” a pedido de Donna Julia, mãe de Caracala
    Estranhamente nenhum desses escritores nada escreveu sobre Jesus. Nem um texto, linha ou palavra.

    Existiram várias estátuas de Apolônio nos jardins dos imperadores como Alexandre Severo (imperador entre 222 e 235). A torcida de Apolônio era grande e durou alguns séculos, até serem massacrados pela torcida de Jesus.
    Eunápio, discípulo de Crisâncio, um dos professores de Juliano, o imperador filósofo, meio irmão de Constantino, disse que Apolônio era mais que um filósofo, era “um meio-termo, por assim dizer, entre os deuses e os homens”, que “exemplificou plenamente o seu lado mais divino e prático”.
    Bacon e Voltaire falam de Apolônio nos mais altos termos e mesmo um século antes de Voltaire o deísta inglês Charles Blount o descreve em suas Notas de Blount, atribuídas a Lord Herbert, condenadas no século XVII sobreviveram poucas páginas.
    Poucos anos mais tarde Sidônio Apolinário, bispo de Cleremont, fala de Apolônio nos mais altos termos. Sidônio traduziu a “A Vida de Apolônio” do Grego para o latim a pedido de Leão, conselheiro do rei Eurico, dizendo “Lêde a vida de um homem que, religião à parte, se assemelha à vossa em muitos pontos; um homem procurado pelos ricos, ainda que jamais tenha procurado riquezas; que amava a sabedoria e desprezava o ouro; um homem frugal em meio a festins, vestido de linho em meio aos purpurados, austero em meio da luxúria…Enfim, falando claramente, talvez nenhum historiador encontrará nos tempos antigos um filósofo cuja vida fosse igual a de Apolônio”.
    Apolônio parece ter escrito muitas cartas a imperadores, reis, filósofos, comunidades e Estados, ainda que não tenha sido correspondente prolixo. Seu estilo literário era curto e conciso, segundo Fhilostratus, pois ele cita um número delas, não havendo razão para duvidarmos de sua autenticidade.

    Sua oração era simples “Já que os deuses conhecem todas as coisas, imagino rezaria assim: ‘Daí-me, oh deuses, o que me cabe’! ou ‘Concedei-me, oh deuses, que eu tenha pouco e não precise de nada’ ”.
    Há muitas histórias de dinheiro sendo oferecidos a Apolônio por seus serviços, mas ele invariavelmente recusava, tambem seus seguidores o mesmo faziam. Quando o Rei Vandan, com verdadeira generosidade oriental ofereceu-lhe presentes, foram devolvidos pois “Vê-de minhas mãos, ainda que muitas são todas parecidas”. E quando um rei o solicitou e insistiu num presente teve a seguinte resposta “Um presente que vos agradará, Sire. Pois se minha estada lá me tornar mais sábio, voltarei a vós melhor do que sou agora”.
    A Creso, rei da Lídia, conhecido por sua enorme riqueza, respondeu “Jovem senhor, penso que não sois vós que possuís vossa casa, mas que vossa casa vos possui”.
    Os Ritos Místicos ou Sobre os Sacrifícios trata-se de um tratado mencionado por Fhilostratus que fala do método apropriado de sacrificar aos deuses, horas propícias de rezar e oferendas. Teve larga circulação e Fhilostratus encontrou cópias deles em muitos templos e cidades, e nas bibliotecas dos filósofos. Diversos fragmentos foram preservados, dos quais o mais importante é encontrado em Eusébio e tem este conteúdo “É melhor não fazer sacrifício algum a deus, nem acender um fogo, nem chamá-lo por nenhum nome que os homens dão às coisas sensíveis. Pois ele não precisa de nada, nem mesmo dos deuses, muito menos dos homens pequeninos – nada que a terra produza, nem vida alguma que ela sustente, ou mesmo qualquer coisa que o ar límpido contenha. O único sacrifício adequado a deus é a melhor razão do homem e não a palavra que sai de sua boca. Nós homens deveríamos procurar o melhor dos seres através da melhor coisa de nós, pois o que é bom – age através da mente, pois a mente não necessita de coisas materiais para fazer sua oração. Assim, para deus, o poderoso Um, que está acima de tudo, nenhum sacrifício deveria jamais subir”.
    Historiadores nos contam que os eruditos estão convencidos da autenticidade desses fragmentos. Este livro, como vimos, estava em larga circulação e era tido na mais larga conta, e diz-se que suas regras foram gravadas em pilares de bronze em Bizâncio.
    No início do século V Agostinho o ridicularizou, visto que ainda existiam alguns indícios de sua existência, embora o cristianismo tenha dado fim a quase tudo sobre ele, mesmo assim Agostinho achou absurda qualquer tentativa de compará-lo a Jesus, embora tenha comparado o caráter de Apolônio, “muito superior” àquele atribuído à Júpiter, no que se tratava de virtude.
    No fim do século IV João Crisóstomo acusa Apolônio de “enganador e fazedor de más obras” e declara que todos os incidentes de sua vida são ficções desqualificadas, requerendo todos os créditos de Apolônio para Jesus, embora vários historiadores tenham escrito muito sobre ele e nada sobre Jesus.
    O historiador cristão Eusébio de Cesária, do século III, instruído, acabou finalmente classificando-o como diabólico, como cabe a todo bom cristão, “porque sua atuação e milagres não eram manifestações de deus”.
    Transformado em diabo pelos católicos, juntamente com criancinhas não batizadas, ateus, cientistas e outros, hoje ele vive por aí, aterrorizando, no imaginário dos cristãos logicamente.
    Jesus poderia ter sido discípulo de Apolônio, teria aprendido muito com ele, achou pouco, megalomaníaco queria ser o próprio deus.
    Moeda com a efígie de Apolônio
    Talvez Apolônio tivesse vencido o pleito messiânico. Muito mais foi escrito sobre ele, mas quase tudo foi destruído pelos piedosos cristãos na guerra santa para se fazer valer o “melhor dos messias”, prevalecendo o da torcida mais barulhenta e sangrenta.
    Apolônio não era o candidato do governo, sua plataforma não agradava as elites, precisavam de alguém com poderes mais para destruir que construir. Alguém para ameaçar aqueles que se rebelavam contra o sistema, que atraísse adeptos pelo medo e pela insegurança, um candidato que aterrorizasse quem não votasse nele e que, uma vez no poder, ditatorialmente perseguisse os opositores.
    Jesus era esse candidato, que mesmo desconhecido, com a ajuda da máquina administrativa, uma campanha midiática maciça e ofensiva, e a misericórdia da espada e do fogo, se transformaria da noite pro dia, de um completo desconhecido, a um salvador da pátria, digo, salvador do mundo.
    Esse era o candidato ideal, se tratasse os doentes e rebelados como endemoniados (Mateus 12:22, Mateus 9:32, Lucas 13:11-16, Mateus 17:14-18, Marcos 5:1-13 e João 3:36), que ameaçasse os desobedientes “com muitos açoites” (Lucas 12:46-47) e os encaminhassem ao inferno (Mateus 10:28).
    Se ele tivesse tido a proteção do “Senhor dos Exércitos” e espelhado nele tivesse sido forte e vingativo num momento em que o império fragmentado precisava de alguém assim para bancar o terror sobre os desobedientes. Simples, bondoso e verdadeiro demais, esses tipos não vingam, são mortos ou desonrados, ou mortos e desonrados, porque nem sempre vence o melhor, ou quase sempre.
    Se ao menos ele tivesse nascido em Belém, não fosse vegetariano e favorecesse o assassinato de animais em rituais de macumba e espetáculos tribais públicos. Ou talvez se Apolônio pregasse o ódio às pessoas que supostamente estavam contra ele, tivesse sido a favor da escravidão e instruísse ao povo dar a Cesar o que é de Cesar, aproveitando seu tempo livre separando e matando os homens com sua Palavra. Ou tivesse tido uma morte mais horrenda e cinematográfica, onde o autor da sua história a tornasse mais atraente, com ajuda dos roteiristas, e se empenhassem mais especificamente neste momento, trabalhando bem aquele ato principal, onde o diretor solicitasse que a câmara focalizasse bem àquele instante, mais especificamente sua boca que poderia ter dito: luz, câmara, ação “Daí-me de beber!” ou “Eles não sabem o que fazem!” com um fundo musical comovente e uma iluminação perfeita, teria tido mais aceitação que uma saída de cena ao som de um coral de virgens. Neste caso teria agradado mais pessoas, choro, grito e sangue rendem mais ibope junto às pessoas que pensam e concordam com um modo de semear amor disseminando ódio. Se ao menos Apolônio tivesse tido um lobby mais representativo no Senado Romano ou um canal de TV que investisse em sua ideia mediante favores, seria imediatamente aclamado como messias, seria mais amado e reverenciado, e estaria hoje, vivo, entre nós.

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