Autor Convidado – Valerio Lima

EU, TEÍSTA, E OS ATEUS

Quando alguém me diz que é ateu, eu sinto muita pena.
E lembro-me do Sr. Antonio de Figueredo, meu antigo chefe.
Jamais conheci alguém com tantas virtudes. Era ateu.
Quando alguém me diz que é ateu, eu morro de vergonha.
E lembro-me de José Mujica, Presidente do Uruguai.
“O presidente mais pobre do mundo”, que não tem conta bancária. Nem dívidas. Não usa gravata. Seu único bem é um Fusca azul 1300, ano 1987, avaliado em mil dólares. Dos US$ 12,5 mil que recebe de salário mensal como presidente, fica só com US$ 1.250. Doa o restante para ONGs, que constroem casas populares. Usa as dependências do palácio presidencial para abrigar sem-tetos. É ateu.
Quando alguém me diz que é ateu, eu sinto muita tristeza.
E lembro-me de Charlie Chaplin, compositor, ator, humorista.
Que fez tanta gente rir nas horas difíceis.
E nos embala até hoje com suas canções como Smile (Sorria). Era ateu.
Quando alguém me diz que é ateu, eu me sinto tão impotente.
E lembro-me de Herbert José de Sousa, o Betinho,
Um grande ativista e defensor dos direitos do ser humano,
Concebeu e dedicou-se ao projeto Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Era ateu.
Quando alguém me diz que é ateu, eu sinto muita ojeriza.
E lembro-me de Angelina Jolie, atriz e ativista contra a fome na África e no mundo que adotou crianças condenadas à morte por inanição. É ateia.
Quando alguém me diz que é ateu, sinto muito desgosto.
E lembro-me de Bill Gates que não se deixou vencer pelo dinheiro,
Destinando cerca de R$ 49 bilhões (quase metade de seu patrimônio pessoal) para diminuir a fome no mundo e investir em pesquisas e na produção de vacinas e energia alternativa. É ateu.
Quando alguém me diz que é ateu, fico chocado.
E lembro-me de Dráuzio Varella um profissional magnífico que faz de sua profissão porto seguro com toda dignidade que lhe é peculiar. É ateu.
Quando alguém me diz que é ateu, eu sinto muita indignação.
E lembro-me de Demócrito, Graciliano Ramos, Jose Saramago, Leonardo da Vinci, Monteiro Lobato, João Cabral de Melo Neto, Zélia Gattai, Chico Buarque, Machado de Assis, Mário Lago, Oscar Niemeyer, Patch Adams, Paulo Freire e tantos outros que contribuíram no conhecimento, humanismo, filosofia, arte e cultura para o crescimento dos povos. Eram ateus.
Quando alguém me diz, tu és teísta,
Eu sinto muita indignação, muito desgosto, muita ojeriza, muita impotência, muita tristeza, muita vergonha e muita pena de mim mesmo porque, apesar de eu ser teísta, jamais me comportei como tal deixando aos outros as responsabilidades que, também, cabiam a mim realizar. E como teísta devo saber que, quando um dia, eu estiver diante do tribunal da minha consciência, ninguém me perguntará em que eu acreditava ou a que religião ou filosofia eu frequentava. Mas a minha consciência me perguntará: – o que fiz para transformar, melhorar, embelezar e humanizar o mundo eu que vivi? Não importa se somos ateus ou teístas. O que realmente importa são as nossas ações e construções para um mundo melhor. Ser ou não ser é somente uma escolha, portanto, façamos o melhor de nós nessas escolhas.


Como vocês devem ter reparado, essa é uma nova seção aqui do blog, onde um autor convidado deixará seus textos e pensamentos.

O convidado de hoje foi o Valerio Lima, criador e moderador da comunidade Seja Exemplo Para um Mundo Melhor, que apesar da crença em Deus, também compartilha da opinião de que as mudanças nesse mundo dependem mais das ações de quem vive nele.

Se tiver interesse em contribuir com um texto para o blog, entre em contato pelo email blogateuedai@gmail.com ou através de nossa página do Facebook.

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6 Comentários

Arquivado em Convidados

6 Respostas para “Autor Convidado – Valerio Lima

  1. CARLOS GIMAS

    Muito inteligente esse artigo, parabens.

    • O que dizer do genio da lampada Thomaz Edison, crente em Deus?

      “Tenho […] enorme respeito e a mais elevada admiração por todos os engenheiros, especialmente pelo maior deles : Deus”. (thomaz Alva Edson)

  2. Creio em Deus, e dai?

    Quando vejo alguém alegando que não crer em Deus, Deus me faz compadecer dessa pessoa, por vários por motivos, cito apenas alguns:

    a) Outrora, a irmã Dulce na Bahia pedia esmolas para crianças carentes…

    b) Gandhi acreditava na existencia de Deus e foi um dos maiores líderes pacifista,

    c) Na outra ponta vejo Martin Luther King pastor defendendo a igualdade racial colocando a vida em risco.

    d) Analise o polemico Aliester Crowler acreditando piamente no inimigo de Deus (Satanás) e virando a 2ª Guerra pelo avesso.

    e) Francisco de Assis de família rica abandonando a riqueza para fazer caridade aos pobres.

    Ora, quantos caridosos e famosos crentes em Deus e no diabo eu poderia postar.

    Todavia, a caridade é uma escolha, assim como escolho se vou ou não acreditar em Deus. Não deixa de ser uma escolha virtuosa, que vem de um Deus empregnado na alma, mente e coração de muitos cegos que não querem enxergar.

    • Todas essas pessoas poderiam exercer a bondade e a caridade da mesma maneira, independente da existência de uma entidade divina. Em um claro exemplo disso, milhões de ateus e agnósticos também praticam boas ações apesar de não acreditarem em Deus. Poderia-se argumentar que era a crença na entidade divina que motivava essas pessoas a fazerem as coisas boas que faziam (o que já seria questionável), mas, mesmo assim, isso não significa que essas crenças estivessem corretas. Afinal, as pessoas vem sendo motivadas ao longo dos séculos a praticarem diversos atos em nome de diversas entidades e religiões, algumas claramente incompatíveis umas com as outras. Como dizer que todas elas estavam certas?

      • Decrente

        Exato! Me lembro q José de Paiva Neto (religioso) disse q qdo um ateu faz caridade está sendo superior a um cristão, pois esse espera recompensa divina e ateus não.

    • 1) Acreditar em qual deus? Varias dea pessoas acrditavam eme deuses diferentes ou em uma forma de deus com diferentes interpretações.

      2) Nem toda religião teísta. Jainismo algumas seitas budistas não são, por exemplo.

      3) Gandhi já tá sendo acusado até de pedofilia e racismo (apesar dele em teoria ou a princípio lutar contra isso em defesa dos indianos)

      https://www.vice.com/pt_br/article/d7ge8j/gandhi-era-um-racista-que-obrigava-meninas-a-dormir-na-cama-com-ele

      Gandhi era um racista que obrigava meninas a dormir na cama com ele
      As características péssimas que Gandhi exibia persistem na sociedade indiana hoje – ataques virulentos aos negros, um desrespeito blasé para com o corpo das mulheres, uma miopia cuidadosa diante do tratamento aos dalits.

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      Mayukh Sen
      Mayukh Sen
      Dez 15 2015, 11:43am

      Em agosto de 2013, um pouco antes do 65º Dia da Independência da Índia, a Outlook India, uma das revistas de maior circulação do país, publicou os resultados de uma pesquisa conduzida entre seus leitores. Quem, depois do “Mahatma”, era o maior indiano que já viveu? O Mahatma no centro dessa pergunta puxa-saco era, claro, Mohandas Karamchand Gandhi.

      Não é surpresa ver a Outlook colocando sua suposição como uma verdade. Gandhi se tornou o barômetro óbvio da grandeza indiana, se não da grandeza em geral. Afinal de contas, quem não gosta do Gandhi? Ele ficou conhecido como esse idoso frágil e nobre, com uma alma pura, moral e piedosa. Ele foi o cara que introduziu a gramática de resistência não violenta na Índia, um país que ele ajudou a escapar do comando imperial britânico. Ele fez greves de fome valentes até que um nacionalista hindu o matou, efetivamente o tornando um mártir.

      Meu avô por parte de mãe foi para a cadeia com Gandhi em 1933; então, cresci sabendo que o mito estava remendado com meias-verdades. Meu avô levou as lições que aprendeu na cadeia para começar um ashram nas entranhas da Bengala Ocidental. Como consequência, me criaram com uma compreensão íntima de Gandhi que oscilava entre laudatória e crítica. Minha família o adorava, apesar de nunca acreditar na ideia de que ele orquestrou sozinho o movimento de independência da Índia. O fanatismo de Gandhi nunca era mencionado em nossa casa. Nas décadas seguintes ao assassinato dele, em 1948, a imagem de Gandhi foi construída cuidadosamente, limpa de todos os detalhes sujos, e assim fica fácil esquecer sua retórica racista, sua alergia veemente à sexualidade feminina e sua pouca vontade em ajudar a libertar a casta dalit, ou os “intocáveis”.

      Gandhi morou na África do Sul por mais de duas décadas, de 1893 a 1914, trabalhando como advogado e lutando pelos direitos dos indianos – e só dos indianos. Como ele expressava abertamente, os sul-africanos negros praticamente não eram humanos para ele. Gandhi se referia a eles usando a expressão depreciativa kaffir. Ele lamentava que os indianos fossem considerados “um pouco melhores que os selvagens ou os nativos da África”. Em 1903, ele declarou que a “raça branca na África do Sul deveria ser a raça predominante”. Quando foi mandado para a cadeia em 1908, ele detestou o fato de que os indianos eram colocados com os prisioneiros negros, não os brancos. Alguns ativistas sul-africanos têm colocado essa parte da história de Gandhi sob os holofotes novamente, assim como um livro publicado em setembro passado por dois acadêmicos sul-africanos, embora isso sequer tenha gerado arranhões na consciência cultural ocidental além dos círculos concêntricos do Tumblr.

      Gandhi na África do Sul. Foto via Wikimedia Commons

      Por volta da mesma época, Gandhi começou a cultivar a misoginia que carregaria para o resto da vida. Durante seus anos na África do Sul, uma vez ele respondeu ao abuso sexual de duas de suas seguidoras as obrigando a cortar os cabelos para ter certeza de que elas não atrairiam mais atenção sexual. (Michael Connellan, escrevendo para o Guardian, explicou cuidadosamente que Gandhi achava que as mulheres entregavam sua humanidade no minuto em que eram estupradas.) Ele acreditava que os homens não podiam controlar seus instintos predatórios e que as mulheres eram responsáveis – e estavam completamente à mercê – desses impulsos. Suas visões sobre a sexualidade feminina eram similarmente deploráveis; segundo Rita Banerji, autora de Sex and Power, Gandhi achava que menstruação era “a manifestação da distorção da alma da mulher por sua sexualidade”. Ele também acreditava que contraceptivos eram um sinal de devassidão.

      Ele confrontou essa incapacidade de controlar a libido masculina quando decidiu ser celibatário (sem discutir isso com a esposa) na Índia, usando mulheres – inclusive meninas menores de idade, como sua sobrinha-neta – para testar sua paciência sexual. Ele dormia nu com elas na cama sem as tocar, se certificando de não ficar excitado – as mulheres eram adereços de seu celibato.

      “É fácil esquecer a retórica racista de Gandhi, sua alergia veemente à sexualidade feminina e sua pouca vontade em ajudar a libertar a casta dalit, ou os ‘intocáveis’.”

      Kasturba, a esposa de Gandhi, era seu maior saco de pancadas. “Simplesmente não consigo olhar para o rosto de Ba”, ele disse uma vez sobre ela depois de Kasturba ter cuidado dele quando Gandhi ficou doente. “A expressão geralmente é como a da cara de uma vaca mansa, e ela me dá a mesma sensação que as vacas geralmente dão: de que de seu jeito idiota, ela está dizendo alguma coisa.” Alguém poderia dar a desculpa de que as vacas são sagradas no hinduísmo – ou seja, chamar a esposa de vaca seria um elogio velado. Ou, talvez, ele só quisesse acabar com esse aborrecimento marital. Quando Kasturba teve pneumonia, Gandhi não deixou que ela recebesse penicilina, mesmo quando os médicos disseram que isso a poderia curar: ele insistiu que o novo medicamento era uma substância estranha que o corpo dela rejeitaria. Ela morreu da doença em 1944. Alguns anos depois, talvez percebendo seu erro, ele voluntariamente tomou quinino para tratar a própria malária. Ele sobreviveu.

      Há o impulso ocidental de ver Gandhi como o discreto aniquilador das castas, uma caracterização que é categoricamente falsa. Ele via a emancipação dos dalits como um objetivo inalcançável e achava que eles não mereciam um eleitorado separado. Ele insistia que os dalits continuassem complacentes, esperando por uma virada que a história nunca proporcionou. Os dalits continuam sofrendo com os preconceitos emaranhados ao tecido cultural da Índia.

      A história, como Arundhati Roy escreveu no ano passado no ensaio seminal “The Doctor and the Saint”, tem sido incrivelmente gentil com Gandhi. Isso deu espaço para apresentar seus preconceitos como meras imperfeições, pequenas marcas em mãos limpas. Apologistas vão insistir que Gandhi era apenas humano. Eles vão tentar metamorfosear os preconceitos dele em algo positivo, provas de que ele era como nós. Outro tipo de deserção histórica: o argumento de que iluminar os preconceitos de Gandhi demonstra como os americanos nutrem um fascínio doentio pelos problemas da Índia, como se os escritores ocidentais estivessem obcecados em concatenar problemas sociais para o subcontinente do nada.

      Essa é a ginástica mental que fazemos quando estamos ansiosos em criar uma mitologia. As características péssimas que Gandhi exibia persistem na sociedade indiana hoje – ataques virulentos aos negros, um desrespeito blasé para com o corpo das mulheres, uma miopia cuidadosa diante do tratamento aos dalits. E não é coincidência que essas mesmas características da retórica da Gandhi tenham sido riscadas de seu legado.

      Mas como você responde a uma alcunha ridícula como “o maior indiano”? Esse é um peso colossal para colocar sobre qualquer um: dizer que ele é a pessoa a se saudar num país com bilhões de pessoas. Criar um falso ídolo envolve muito esquecimento. É fácil babar sobre um homem que nunca existiu de verdade.

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