A Igreja Ateísta – The Sunday Assembly

Sabem como eu vivo dizendo que – ao contrário do que alguns religiosos afirmam – o ateísmo não é e nunca será uma nova religião?

Pois é… No entanto, ano passado, em Londres, ocorreu a inauguração de um estabelecimento que aparentemente contradizia essa minha afirmação: a Sunday Assembly. Uma entidade com o objetivo de  unir pessoas em congregação, em especial os ateus, e que rapidamente passou a ser designada como a “Igreja Ateísta”.

Símbolo da Sunday Assembly, a "Igreja Ateísta"

Símbolo da Sunday Assembly, a “Igreja Ateísta”

Pronto. Bastou essa notícia começar a circular para que alguns religiosos gritassem “xeque-mate!” e se declarassem vencedores do debate a respeito de o ateísmo ser ou não uma nova religião.

Mas, como bom cético que eu espero que seja, acho que, antes de chegarmos a qualquer conclusão, nossas premissas têm que ser bem analisadas. Sendo assim, nos perguntemos: o fato de existir um estabelecimento que alguns chamam de Igreja Ateísta realmente faz com que o ateísmo possa ser chamado de religião?

Para analisar esse questionamento, primeiro temos que estabelecer o significado de alguns conceitos, como o de religião e igreja.

Religião é, segundo a maioria dos dicionários, um sistema de cultos ou de crenças, relacionado de alguma forma a entidades divinas, à espiritualidade ou à sobrenaturalidade. Já uma igreja, por sua vez, seria a congregação de fiéis de determinada religião ou o local onde eles se reúnem, geralmente com o objetivo de louvar à entidade suprema na qual acreditam ou para praticar ritos decorrentes de seus preceitos religiosos.

Seria então o objetivo da Sunday Assembly promover alguma coisa parecida com isso? Com ateus sendo intimados a seguirem determinadas lideranças estabelecedoras de dogmas inquestionáveis, realizando proselitismo em favor do ateísmo e achincalhando as crenças religiosas alheias?

Certamente não.

Pra começar, os fundadores da congregação Sunday Assembly nem de longe poderiam ser considerados líderes religiosos. Eles são dois comediantes ingleses, conhecidos por fazerem shows de stand-up comedy, Sanderson Jones e Pippa Evans.

Sanderson Jones e Pippa Evans, fundadores da Sunday Assembly

Sanderson Jones e Pippa Evans, fundadores da Sunday Assembly

Segundo eles, o objetivo da Sunday Assembly é “celebrar a vida”. O lema da congregação é: “Viver melhor, ajudar frequentemente e questionar mais”. De acordo com os fundadores, sua intenção inicial era criar um local que aproveitasse o que as religiões oferecem de melhor, mas sem a parte religiosa.

“Achamos que seria um desperdício não aproveitar as coisas boas da religião, como o senso de comunidade, só por conta de uma discordância teológica.”

No site da instituição, eles dizem o que se pode esperar de uma das reuniões localizadas no local:

“Só de estar conosco você já deve se sentir energizado, vitalizado, reparado, revigorado e recarregado. Não importa qual é o tema da Assembleia, ela irá aliviar suas preocupações, provocar simpatia e injetar um toque de transcedência no seu cotidiano.

Mas a vida pode ser dura… e é. Às vezes coisas ruins acontecem com pessoas boas, temos momentos de fraqueza ou a vida simplesmente não é justa. Nós queremos que a Sunday Assembly seja um lar de amor e compaixão, onde, não importa qual a sua situação, você seja bem-vindo, aceito e amado.”

Os encontros realizados no local lembram shows de comédia e não são exclusivos para ateus. Pessoas de qualquer orientação religiosa podem participar. A intenção principal é divertir e informar. Ao invés de hinos e louvores, a plateia vibra ao som de músicos como Stevie Wonder e da banda Queen. No primeiro evento, realizado ano passado, houve uma leitura de um trecho do livro Alice no País das Maravilhas e uma palestra feita pelo físico de partículas Dr. Harry Cliff, explicando as origens da teoria da antimatéria.

A audiência em um dos encontros realizados. Realmente me parece muiito mais animado que qualquer culto religiosos do qual eu já tenha participado.

A plateia em um dos encontros realizados. Realmente, me parece muito mais animado que qualquer culto religioso do qual eu já tenha participado.

Mas também há momentos mais sérios. Em um determinado momento, Jones pediu que os participantes curvassem a cabeça em contemplação e falou sobre a morte de sua mãe e como esse evento influenciou em sua própria jornada espiritual e em sua determinação de aproveitar cada segundo da vida.

Então, resumidamente, a Igreja Ateísta é isso. Um local de encontro para pessoas que querem se divertir, fazer novas amizades, ouvir música boa, aprender coisas novas e contemplar sobre a vida. Acho muito difícil alguém, seja religioso ou não, encontrar bons motivos para se opor a uma congregação com esses objetivos.

É claro que se pode contestar o fato de isso ser realmente uma igreja. Eu, particularmente, acho que não, e o próprio Jones admite que a denominação “Igreja Ateísta” foi dada com objetivos meramente marketeiros:

“A frase ‘Igreja Ateísta’ é algo que usamos quando começamos [os encontros]. Parecia uma frase boa e curta para explicar o que éramos (e definitivamente nos ajudou a conseguir atenção da mídia, o que foi vital para tirar a Sunday Assembly do papel). No entanto, nós não focamos no ateísmo, e sim na celebração da vida.”

Pode-se argumentar que essas reuniões na verdade são mais parecidas com shows, peças teatrais, palestras, ou com qualquer outra coisa, e que chamá-las de Igreja é simplesmente uma deturpação dessa nomenclatura. Mas aí nós estaríamos  inutilmente discutindo semântica.

Independente do nome que se dê a essas reuniões, elas me parecem muito interessantes e divertidas e eu certamente compareceria a uma se tivesse chance.

E é claro que nada disso significa que o ateísmo é uma religião. Construir um templo com o mero objetivo de promover o ateísmo me parece um imenso desperdício de dinheiro. E definitivamente não parece ser o que acontece nesses encontros.

Longe de querer transformar o ateísmo em um novo sistema religioso, a Igreja Ateísta (ou seja lá como você queira chamá-la) só parece atestar uma coisa: assim como os religiosos, muitos ateus também gostam de se reunir e de aproveitar uma chance de celebrar a vida.

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