O Eterno Conflito Entre Israel E Palestina

Em meu último post eu narrei o contato que tive com a cultura islâmica na Bósnia e Herzegovina durante minhas férias. As coisas que eu vi e ouvi por lá me fizeram chegar à conclusão de que, ao contrário do que alguns afirmam, é possível sim uma pessoa seguir o islamismo e conseguir viver em paz com pessoas de outros credos.

Infelizmente, enquanto eu estava no leste Europeu, teve início mais um conflito entre Israel e a Palestina, na Faixa de Gaza. Eu me vi então em um cenário curioso, pois estava testemunhando duas situações antagônicas. Onde eu estava, havia seguidores de diferentes religiões, entre os quais uma maioria de islâmicos, conseguindo conviver bem uns com os outros – se não em harmonia total, pelo menos em uma relativa paz.

Enquanto isso, a apenas alguns milhares de quilômetros a sudeste, israelenses e palestinos se explodiam em nome de Jeová e Alah. Até eu finalizar esse artigo, o número de mortos já passava dos dois milhares e o custo estimado de reconstrução de Gaza estava acima dos 6 bilhões de dólares.

A região que é palco dos conflitos entre as duas nações.

A região que é palco dos conflitos entre as duas nações.

Diante desse contrassenso, eu resolvi falar um pouco e também tentar entender a respeito desse aparentemente eterno conflito na região da Palestina.

A primeira pergunta que se pode fazer ao ler as notícias vindas daquele canto do planeta seria: afinal, por que essa gente se mata tanto? A resposta normalmente dada a esse questionamento é tão simples que pode até parecer ridícula a um observador externo: os dois grupos estão dispostos a matar e a morrer pela região em disputa por acharem que ela é sagrada.

É claro que essa é a versão simplista da história. Ao se analisar a situação mais profundamente podemos chegar a outras conclusões. Mas tentar entender essa conflito é  uma tarefa não muito fácil, já que os grupos envolvidos ocupam aquela área literalmente há séculos.

Os judeus, que formam o Estado de Israel, supostamente circulam por ali desde os tempos de seu patriarca bíblico mais antigo, Abraão, que teria vivido em alguma época entre os séculos XXI e XVIII AEC. Embora alguns historiadores e estudiosos defendam com bons argumentos a hipótese de Abraão nunca ter existido e se tratar somente de mais uma figura mística da história hebraica, isso não importa para os israelenses atuais. O que importa é que eles acreditam que Jeová teria prometido dar aos descendentes de Abraão o controle sobre aquelas terras algum dia, por isso o mandou se dirigir àquela religião, onde ele então deu origem ao restante da nação de Israel.

A partida de Abraão para Canaã, na visão de Molnár József.

A partida de Abraão para Canaã, na visão de Molnár József.

Porém, apesar das promessas do Todo Poderoso, os judeus não permaneceram efetivamente no controle da região por muito tempo. Ao longo dos séculos a área passou por diversos domínios, tendo sido invadida e ocupada pelos assírios, babilônios, persas, macedônios e romanos. Esses últimos inclusive foram os que renomearam a região como Palestina, já que ela era até então conhecida pelos judeus como Canaã.

No ano de 70 EC, após uma revolta que durou quatro anos, os romanos destruíram o templo dos judeus e, supostamente, os expulsaram da região. A partir de então o povo judaico passou a viver em êxodo, ao redor daquela área. (Muitos historiadores argumentam que os judeus não foram realmente exilados, só perderam o poder político, o que parece ser corroborado pelas evidências históricas).

Passado algum tempo, ocorreu o surgimento do Islã, no século 7, e a Palestina passou então a ser ocupada pelos muçulmanos. O Império Otomano permaneceu no domínio da região até o início do século XX. Isso só veio a mudar após a Primeira Guerra mundial.

Durante o conflito mundial, os otomanos apoiavam os alemães. Com a derrota do Império Alemão e a vitória dos Aliados na guerra, o Império Otomano se dissolveu e a administração da região ficou nas mãos do Reino Unido, por conta de um mandato concedido pela Liga das Nações.

Nessa mesma época começou a surgir entre os judeus exilados um movimento chamado sionismo. Os sionistas defendiam a volta do povo judeu à Terra Prometida – Israel – e a criação de um Estado nacional judaico independente e soberano para esse povo.

No entanto, apesar do fim do Império Otomano com a guerra, o povo muçulmano ainda se encontrava na região, e também a considerava um local santo, pois em 638 EC, após a conquista da região pelo califado islâmico, a cidade  de Jerusalém, capital da Palestina, passou a ser considerada a terceira localidade mais sagrada para o Islã, atrás apenas de Meca e Medina.

Após a Segunda Guerra Mundial, os terrores causados ao judeus no holocausto fizeram com que a pressão para o estabelecimento de um estado Judeu aumentasse. Vendo a batata quente que tinha nas mãos, o Reino Unido decidiu passar o problema para a recém-criada ONU. Em 1947 a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou um plano de partilha da Palestina, que recomendava a criação de um Estado Árabe e um Estado Judeu independentes, enquanto Jerusalém teria um regime especial, ficando sob controle internacional, a cargo da ONU, um plano que supostamente agradaria aos dois lados.

Porém, na prática não agradou. Esse plano foi aceito pelos israelenses, mas não pelos palestinos, que o viam como uma perda de seu território, e, por isso, nunca foi oficialmente implantado.

Cansados de esperar que a ONU solucionasse o dilema, em 14 de maio de 1948 os judeus decidiram se declarar independentes e fundaram o Estado de Israel. No dia seguinte o país solicitou a adesão à ONU, um status que alcançou um ano depois, com 83% dos membros das Nações Unidas reconhecendo sua independência e soberania.

Os palestinos obviamente não ficaram nem um pouco satisfeitos com a situação e isso propiciou o surgimento de alguns grupos islâmicos radicais que se opunham à ocupação israelense em territórios que eles consideravam como pertencentes à Palestina, como a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e as Colinas de Golã, e é por isso que essas regiões vivem em constantes conflitos. Um desses grupos radicais é o Hamas, que foi o responsável pelos ataques ocorridos no último mês.

Integrantes do Hamas tomando o escritório do presidente palestino em 2007.

Integrantes do Hamas tomando o escritório do presidente palestino em 2007.

O Hamas não é o único grupo que luta pela independência da Palestina. Desde a criação de Israel em 1948, já houve dezenas de conflitos e milhares de mortes entre muçulmanos e israelenses naquela área. Israel já guerreou literalmente contra todos os países islâmicos adjacentes à região: Egito, Jordânia, Iraque, Síria e Líbano. Porém, como o país conta com o apoio militar dos EUA, do Reino Unido e de alguns membros da ONU, Israel conseguiu repelir com eficiência todos os ataques sofridos até hoje e alcançou vitórias nas principais campanhas militares que manejou.

Críticos de um lado acusam o outro de se utilizar de táticas terroristas para alcançar seus objetivos. Mas para qualquer observador imparcial, é óbvio que ambos os lados são perpetradores de terrorismo, usando da violência contra inocentes.

Algumas pessoas têm receio de classificar Israel como um Estado terrorista, mas a verdade é que a única diferença entre eles e os palestinos é que esses útimos dispõem de muito menos recursos, por isso suas táticas têm que ser mais improvisadas e não-convencionais. Enquanto eles se utilizam de homens-bomba e sequestradores para atacar seus adversários, os israelenses podem se dar ao luxo de usar helicópteros, bombardeiros e mísseis teleguiados. Mas os dois lados buscam impor terror em seus ataques, e os resultados acabam sendo sempre os mesmos: civis que não têm nada a ver com o conflito político-religioso dos países e até mesmo crianças acabam sendo mortos.

Uma criança palestina investiga os escombros do que era sua casa, na faixa de Gaza.

Uma criança palestina investiga os escombros do que era sua casa, na faixa de Gaza.

Algumas tentativas de paz já foram arranjadas. Acordos foram assinados em certas ocasiões e cessar-fogos são postos em prática de vez em quando. Porém, é só uma questão de tempo até que alguém apareça ignorando os acordos e os confrontos voltem a acontecer na região. A animosidade entre os dois lados parece ser uma equação impossível de se solucionar.

Esse sentimento entre os dois grupos religiosos, tamanho ódio por outras pessoas que aparentemente não fazem nada além de possuir uma crença diferente da sua, não surge do nada. Ele é fruto de uma sociedade que fomenta tais sentimentos. Palestinos e israelenses são doutrinados desde crianças a verem o outro lado como inimigo, como algo menos que seres humanos, como uma coisa a ser eliminada. E se há algo que as religiões entendem bem é que se você orienta uma criança a ver o mundo de determinada maneira, as chances de essa forma de ver o mundo permanecer até a idade adulta é altíssima.

É justamente por isso que os conflitos por lá não parecem muito próximos de um término. Graças a essa doutrinação, nenhum dos dois povos que vivem na região parece aceitar a mera existência do outro no mesmo local. A maioria dos palestinos gostaria que o Estado de Israel fosse extinto e seus cidadãos expulsos da região. E a maioria dos israelenses defende a ideia de que os palestinos tenham que ser confinados a guetos, onde viveriam uma vida à margem da sociedade, o que não deixaria de ser uma forma velada de os expulsarem de seu meio de convívio.

É uma situação difícil de ser compreendida por nós brasileiros, pois nós (ainda) não temos nada parecido com isso em nossa vivência. Por mais que as pessoas aqui discordem do ponto de vista de uma outra em relação à religião, dificilmente você vai encontrar alguém defendendo a ideia de que os que seguem ou deixam de seguir determinada religião deveriam ser expulsos do país, ou pior ainda, sumariamente assassinados. Acho que a única coisa que poderíamos considerar como paralelo dessa situação em nosso país seria a maneira como a mídia e a opinião pública tratam os usuários de drogas, os traficantes e bandidos de uma maneira geral: como problemas à parte da sociedade, uma ameaça a ser eliminada de nosso meio através da força militar, e não como frutos dessa própria sociedade, tendo origem em políticas de educação e segurança equivocadas e apoiadas pelo próprio povo.

Crianças palestinas, sendo ensinadas desde pequenas a pegar em armas para lutar com os "inimigos" israelenses.

Crianças palestinas, sendo ensinadas desde pequenas a pegar em armas para lutar contra os “inimigos” israelenses.

E assim como nessa situação de declaração de “guerra ao inimigo” do Brasil ou de qualquer outro conflito pelo mundo, o caso Israel x Palestina também possui um grupo social que obtém vantagens com essa situação e que a fomenta, estimulando a doutrinação religiosa extremista e essa visão de luta do “bem contra o mal”. São os líderes por trás desses conflitos e que, obviamente, não vão pessoalmente a campo pegar em uma arma e lutar contra os supostos inimigos.

Os políticos e generais israelenses ficam sentados atrás de mesas, confortavelmente controlando seus subordinados e se aproveitando do doutrinamento imposto a eles para manter seus status na sociedade. É sintomática a maneira como, após os conflitos, as terras tomadas dos palestinos são geralmente distribuídas a uma parte da elite rural israelense, via de regra ligada ao governo.

O Comando Maior de Israel,na difícil tarefa de lutar contra os inimigos palestinos.

O Estado-Maior de Israel na árdua tarefa de lutar contra os malvados palestinos.

Por sua vez, o líder do Hamas, Khaled Mashal, é quem controla as doações  feitas pelos islâmicos ao grupo, vindas de todos os países do mundo, e é acusado pela imprensa israelense de ter desviado mais de 5 bilhões de doláres para o próprio bolso. Na semana passada, enquanto seus conterrâneos eram explodidos em mais uma das sangrentas batalhas na região, Khaled estava dando uma entrevista para uma emissora de TV em um hotel de luxo na cidade de Doha, no Qatar, onde vive em exílio.

Khales Meshal, o líder do Hamas, na difícil vida de luta contra os malvados israelenses.

Khaled Mashal, o líder do Hamas, na difícil vida de luta contra os malvados israelenses.

Para esses homens e mulheres, provavelmente pouco importa a religião das pessoas que estão se matando e morrendo nas ruas. Para eles não faria nenhuma diferença se da noite pro dia os israelenses todos virassem budistas e os palestinos se convertessem ao espiritismo, desde que eles continuassem se matando e dando lucro e poder a quem realmente decide a continuidade dos conflitos na região.

Mas apesar de isso ser fácil de ser avaliado por uma pessoa como eu, vendo do lado de fora, para os envolvidos no conflito não deve ser tão simples assim ter essa objetividade. O doutrinamento ao ódio é um círculo vicioso que, uma vez iniciado, tende a se manter indefinidamente. Deve ser difícil para um israelense ou um palestino não verem o outro como inimigo, quando eles sabem que os parentes e amigos da pessoa que está do outro lado do campo de batalha foram os responsáveis pela morte de seus próprios parentes e amigos. As mortes e crueldades que se seguem passam a ser justificadas pelas mortes e crueldades que vieram antes, em um ciclo pérpetuo.

Por isso quando alguém me pergunta se eu vejo alguma esperança de paz para aquela região, eu tenho que me esforçar muito para não dizer simplesmente “Não!“.

Há até esperança de que um dia essa guerra na Palestina acabe, mas será somente sob duas condições: ou se investirá maciçamente nas gerações vindouras, que ainda não foram contaminadas pelas ideologias de aversão aos que são diferentes, o que dependerá quase totalmente das lideranças que estão no poder e que não parecem nem um pouco interessadas em fazer esse investimento, ou os dois grupos continuarão se matando indefinidamente até que não sobre mais ninguém, ou do outro lado do campo de batalha, ou dos dois lados.

Infelizmente a história das guerras religiosas nos demonstra qual dessas situações é muito mais provável…

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2 Comentários

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2 Respostas para “O Eterno Conflito Entre Israel E Palestina

  1. João Lopes de Souza

    Não existe nenhum conflito entre malvados israelenses e malvados palestinos. O está ocorrendo naquela região é uma luta desigual entre um povo(palestinos) que teve seu país ocupado a força por outro(israelenses).

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