Explorando novas culturas

Como os leitores mais atentos devem ter percebido, mês passado eu estava de férias. E uma das melhores coisas a respeito das férias é a possibilidade de se viajar, conhecer novos lugares e entrar em contato com novas culturas. Isso é ainda mais intensificado quando viajamos para outros países e visitamos lugares mais afastados de onde vivemos.

Nessas férias eu tive a oportunidade de visitar três países que apresentam uma realidade muito diferente da brasileira: a Eslovênia, a Croácia e a Bósnia e Herzegovina. Conheci muitas coisas novas e entrei em contato com culturas muito diferentes do que vemos aqui no Brasil.

É fascinante perceber, por exemplo, como os povos dos Bálcãs parecem dar muito mais importância à descendência étnica do que ao nacionalismo, o que é o padrão aqui no ocidente. Para eles, os ancestrais dizem muito mais sobre você do que o país onde você nasceu. Um tipo de pensamento que – assim como o nacionalismo – quando levado ao extremo pode levar a conflitos, como pudemos perceber nas guerras da Bósnia e do Kosovo.

No entanto, um outro aspecto que eu não pude deixar de observar (e que, afinal, é o que concerne a esse blog) é a religiosidade desses povos.

A Eslovênia e a Croácia são países de maioria católica, de modo que o cenário religioso por lá não era muito diferente do que podemos ver na Europa ocidental e até mesmo no Brasil. Há muitas igrejas e catedrais usando e abusando de adornos luxuosos e evidenciando onde foi parar todo o ouro e prata extraídos das colônias na época da exploração do novo mundo.

Cada igreja e catedral na Europa parece ter mais ouro e prata do que todo o estado de Minas Gerais

A Bósnia, por sua vez, me proporcionou um choque cultural muito maior, já que se trata de um país de maioria muçulmana. Eu nunca havia visitado um país onde o islamismo era a religião dominante, e devo dizer que a experiência foi muito interessante, me permitindo conhecer um pouco mais sobre essa religião e seus fiéis.

Fiquei hospedado em duas cidades, Mostar e Sarajevo. A primeira coisa que se nota de diferente é a paisagem urbana. Não há uma igreja a cada quarteirão, como no mundo ocidental. Estas são substituídas por mesquitas, com suas cúpulas e minaretes despontando no horizonte.

Ao invés de torres de igrejas, minaretes despontam no cenário.

Depois, ao andar nas ruas da cidade, outra coisa que causa estranheza a um ocidental é a quantidade de mulheres usando vestes tradicionais islâmicas que cobrem o rosto todo (niqab) ou os cabelos (hidjab), algo que, para quem está acostumado com os biquínis mínimos usados nas praias do Rio de Janeiro, parece pertencer a outro mundo.

Mulheres usando o hidjab em Sarajevo

Mulheres usando o hidjab em Sarajevo

Outra coisa que se pode notar é que a imagem pintada pela mídia ocidental (principalmente a estadunidense) a respeito do islamismo e sua relação com o terrorismo é baseada em estereótipos e preconceitos que não parecem se justificar frente à realidade.

É inegável que existem muçulmanos que se utilizam da religião para propagar o terror e que desejam a morte dos “infiéis”, mas pelo que eu pude observar, eles são uma minoria e provavelmente se concentram em áreas específicas do mundo islâmico. Embora eu continue achando que a doutrina islâmica apresenta pontos arcaicos e irracionais com os quais eu nunca concordaria, os muçulmanos com os quais eu tive contato me pareceram ser bem tolerantes, mesmo quando ficavam sabendo que eu não professava religião nenhuma.

É claro que a situação geo-política da Bósnia é completamente diferente dos países onde a Charia é imposta. Porém, os islâmicos bósnios me provaram algo do qual eu já suspeitava: que é possível sim uma pessoa seguir o islamismo e viver em harmonia com outras crenças sem maiores problemas, ao contrário do que os filmes, séries e noticiários que vemos diariamente nos querem fazer acreditar.

Eu mesmo pude conversar com diversos muçulmanos que condenavam atitudes de violência e de intolerância frente a pessoas de outros credos. Além disso, tive a oportunidade de entrar em várias mesquitas para conhecê-las e até de presenciar ao vivo um culto islâmico, chamado de salá, que são as orações diárias que os muçulmanos devem fazer em público.

Abaixo, segue a gravação que eu consegui fazer de um desses cultos (desculpem a baixa qualidade das imagens, foi o que deu pra fazer com a minha câmera). Antes de cada salá, há um anúncio entoado do alto dos minaretes avisando que chegou a hora das preces, chamado de adhan. O responsável por esse anúncio é chamado de muezim (ou almuadem). No vídeo se pode ver o momento em que o muezim de uma das mesquitas que eu visitei, a Careva Džamija (Mesquita do Imperador), em Sarajevo, realiza o adhan, convocando seus companheiros para a última prece do dia, às 17 hs.

Depois disso, os fiéis se encaminham para a mesquita, onde farão as rezas para Alah. As mulheres e os homens devem ficar em locais separados na mesquita. Enquanto os homens ficam à frente, as mulheres têm que se posicionar atrás deles. Segundo a doutrina islâmica, isso é para evitar que os homens se distraiam com as mulheres, tirando o pensamento de Alah enquanto estão rezando (embora eu continue achando puro sexismo).

Abaixo, podemos ver os homens realizando o salá das 17 hs.

O salá consiste na recitação de um conjunto de versículos do Alcorão, num ciclo de posições (em pé, curvado, de joelhos, prostrado e sentado) a que se chama de racka (genuflexão). O número de rackas varia de acordo com o período da oração. Se você já acha o culto católico cansativo com todo aquele levanta-senta-ajoelha, acredite, você não ia querer ser muçulmano.

Depois do culto, bati um papo com o muezim dessa mesquita, um senhor muito simpático chamado Salim, que explicou alguns dos preceitos do islamismo (ele que esclareceu o porquê de as mulheres terem que ficar atrás dos homens). Salim ficou muito feliz em saber que éramos brasileiros, e fez questão de enfatizar que o islamismo era (pelo menos na concepção dele) uma religião que pregava a paz e que ele condenava todas as mortes causadas por outros muçulmanos. Segundo o muezim, aos olhos de Alah, um homem que mata outro homem, seja ele quem for, está agindo como se matasse a humanidade inteira. E ele também não parecia ver nenhum problema com a minha ausência de religião, embora eu tenha ficado com a nítida impressão de que ele gostaria muito que eu entoasse a frase “Allahu akbar” (Alah é grande) antes de sair da mesquita.

Eu e o muezim Salim na Mesquita do Imperador, depois do culto.

Ainda tive a oportunidade de ganhar uma edição do Alcorão em árabe, que segundo os muçulmanos, é a única língua na qual a revelação feita por Alah a Maomé pode ser compreendida em sua totalidade. O que, aliás,  me parece muito conveniente para uma religião que se espalhou originalmente por países de língua árabe. De qualquer maneira, o livro em sua língua original é muito bonito, possuindo uma estética singular e já se encontra ornamentando minha estante.

O Alcorão, na única língua em que ele pode ser compreendido, segundo os islâmicos. É uma pena que o criador do universo não seja poliglota…

A Bósnia e a Croácia possuem ainda um número considerável de cristãos ortodoxos, que são maioria no país vizinho, a Sérvia. Assim, ainda tive a chance de visitar também algumas igrejas ortodoxas, uma coisa que é praticamente impossível de se encontrar no Brasil. E se você acha que as igrejas católicas romanas já possuem um ar meio opulento ou opressor que busca separar o fiel dos ritos da Igreja, acredite quando eu digo que isso é elevado à nona potência nas igrejas católicas ortodoxas.

Primeiro que as missas ainda são rezadas em latim. O padre fica de costas para os fiéis, entoando uns cânticos que ninguém deve compreender, e em algumas partes do culto o pároco entra em uma portinha que fica no altar (que obviamente também é banhado a ouro) e os fiéis não podem nem mesmo vê-lo, só ouvindo o que ele continua a entoar. Infelizmente não me autorizaram a gravar o culto ortodoxo, mas eu pude tirar algumas fotos de uma das igrejas.

O altar de uma igreja ortodoxa, banhado em ouro, dentro do qual o padre celebra parte da missa.

Essas igrejas normalmente são ornamentadas com diversas imagens medievais de santos e patriarcas da igreja (também banhadas em ouro), que são um pouco intimidantes a quem não está acostumado com elas.

Exemplo do tipo de imagens expostas nas igrejas ortodoxas.

E eu ainda encontrei tempo para visitar uma cidade de peregrinação católica, no meio da Bósnia muçulmana: Međugorje. Segundo os católicos, nessa cidade, em 1981, a Santíssima Virgem Maria fez uma aparição para cinco adolescentes e uma criança, dizendo que era a “Rainha da Paz”. É claro que a Igreja Católica se encarregou de promover a história e a cidade acabou se tornando um pólo de romaria católica no meio de um país de maioria islâmica, com uma quantidade de lojinhas vendendo imagens de Maria e de santos capaz de causar inveja ao município de Aparecida.

Santinhos e imagens de Maria surpreendentemente sendo vendidos no meio de um país de maioria muçulmana.

O Santuário de Nossa Senhora de Međugorje.

No fim das contas, além do merecido descanso que a viagem proporcionou, eu a pude utilizar para adquirir novos conhecimentos acerca da religiosidade, para entrar em contato com novas pessoas e crenças que eu mal conhecia e para acabar com alguns preconceitos que podem permear nossa visão de mundo.

Agora, com as baterias recarregadas, estou pronto para dar continuidade aos trabalhos do blog. Até o próximo post!

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