DIA DA HERESIA – Legalização do Aborto

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Bem vindos a mais um DIA DA HERESIA. Este é um espaço utilizado para se falar tudo que for relevante a respeito de um tema controverso específico que envolva a religião, apresentando minha opinião como ateu. O dia da Heresia ocorre todo terceiro domingo de cada mês.

E o tema desse mês será:

LEGALIZAÇÃO DO ABORTO

Este tema é provavelmente o mais polêmico envolvendo sociedade, legislação e religiosidade. Mesmo fora dos círculos religiosos, ele ainda suscita divergências. A legalização do aborto está longe de ser um assunto unânime mesmo entre ateus e agnósticos. Eu já vi descrentes defendendo o aborto em qualquer ocasião, em casos específicos ou condenando-o sob quaisquer circunstâncias.

O que é uma situação compreensível. Ao se debater o aborto, dois princípios muito importantes estão sendo colocados na balança: o direito à liberdade e o direito à vida. Discussões defendendo qualquer posição serão – e devem ser – sempre aprofundadas.

Nesse post eu tentarei apresentar meu ponto de vista sobre o assunto, mas já o faço com a certeza de que haverá quem discorde de mim. Em minha defesa, eu posso afirmar que, ao contrário dos religiosos, as conclusões que eu apresentarei aqui foram baseadas pura e simplesmente no racionalismo e no bom senso, mas se alguém sentir a necessidade de deixar seu pensamento a respeito do tema, sinta-se livre para utilizar o espaço de comentários abaixo.

Normalmente quando se envolve a religião neste assunto, longe de se examiná-lo racionalmente, se acaba por aplicar uma série de dogmas e crenças particulares, esperando-se que o Estado e o resto da sociedade os sigam como verdades absolutas. A situação em análise per se é ignorada, para se dar maior ênfase ao que uma determinada doutrina religiosa professa, ainda que sem nenhuma evidência para apoiá-la.

aborto

Essa imagem, veiculada em um site que desaprova o aborto, resume bem a maneira como alguns religiosos enxergam esse assunto: realizar um aborto é equivalente a assassinar uma criança inocente, e, portanto, deve ser proibido (e, aparentemente, a culpa da realização de abortos é dos cientistas). Não é difícil perceber que essa visão do tema não parece ter tido a preocupação de examiná-lo profundamente, apelando para a emotividade e/ou a fé cega para justificar seu posicionamento.

Para se fazer uma análise mais aprofundada do assunto, precisamos, primeiramente, deixar claro o que é o aborto. Embora possa parecer um conceito óbvio, sua simples definição já é relevante para que algumas pessoas se posicionem a seu respeito. Abortar ou interromper a gravidez é expulsar o embrião ou feto do útero materno, resultando em sua morte. Por envolver o término de uma vida em potencial, deliberado ou não, é obviamente um procedimento que demanda um grande debate ético.

Uma discussão sobre a ética diz respeito basicamente ao sofrimento. As ações tomadas por cada ser humano podem influenciar na vida dos outros, e as proporções e consequências dessa influência, se ela causa sofrimento ou não, são exatamente o campo de estudo da ética.

Portanto, não há necessidade de rodeios ou eufemismos aqui. Não vou tentar dourar a pílula e isso nem é necessário para chegar às minhas conclusões sobre o assunto: abortar é matar um ser vivo. E ponto. Mas, como eu tentarei demonstrar, em algumas situações, as mortes de seres vivos são justificáveis. A grande questão passa a ser, então, quando seria eticamente justificável fazermos isso.

Nesse sentido, talvez a mais relevante pergunta que se poderia fazer em relação ao tema é: por que alguém iria querer realizar um aborto? Conservadores extremistas podem argumentar que isso não deveria fazer diferença nenhuma no posicionamento a respeito da liberação do procedimento, já que, independente do motivo, uma vida humana está sendo retirada, e nada justificaria isso.

Esse pensamento já se mostra equivocado quando se constata que, independente do que se pense a respeito do aborto, existem sim motivos que justificam a retirada de uma vida humana. Nossa própria Constituição garante ao Estado o direito de aplicar a pena de morte em alguns casos extremos e o Código Penal prevê situações em que o ato de matar deliberadamente outro ser humano não pode nem ser considerado crime, como em casos de legítima defesa ou estado de necessidade.

Além disso, não é difícil conhecer pessoas que se posicionam ferrenhamente contra o aborto, mas defendem  a execução sumária da pena de morte a criminosos quando suas barbaridades são exibidas na mídia. Assim, pode-se perceber que o direito à vida passa a não ser uma coisa tão absoluta como afirmam, devendo ser aplicado a algumas pessoas, mas não a outras.

Pena de morte também é um assassinato, no entanto ninguém parece se importar muito com o direito à vida nesse caso.

Tecnicamente, a pena de morte também é assassinato, no entanto as pessoas parecem se importar muito menos com o direito à vida nesse caso.

As nossas leis atuais já prevêem a possibilidade de aborto em duas situações: quando a intervenção é necessária para se salvar a vida da mãe, ou quando a gravidez é resultante de um estupro, desde que tenha o prévio consentimento da gestante.

Embora a necessidade do procedimento pareça óbvia nas duas situações, ainda há religiosos que se opõem a ele mesmo nesses casos. Em agosto do ano passado, a presidente Dilma Rousseff sancionou uma lei que obrigava os hospitais a prestarem atendimento integral e interdisciplinar às mulheres vítimas de violência sexual. A lei garantia, entre outras coisas, o acesso a pílulas do dia seguinte, para evitar que as vítimas engravidassem do estuprador.

Não tardou muito para que grupos que se autointitulam como “pró-vida” ou “pró-família”, compostos em sua maioria por representantes evangélicos e católicos, surgissem diante do Palácio do Planalto em protesto, alegando que tal lei estaria legalizando o aborto no Brasil.

Não sei se esses grupos estavam mais motivados por má-fé ou por pura ignorância, mas o protesto deles logo de início já não fazia o menor sentido. O código penal, a lei que autoriza o aborto nos dois casos mencionados acima, existe desde 1940. Ao sancionar a nova lei, a presidente não estava tentando legalizar aborto nenhum, afinal eles já eram legalizados há 73 anos! Só se estava tentando regularizar uma forma de se cumprir de modo mais efetivo e seguro o que a legislação já autorizava.

Afinal, ainda que não ingerisse a pílula do dia seguinte, se uma gestante comprovasse que sua gravidez era resultado de um estupro, ela poderia abortar mais tarde, legalmente e através da rede pública, só que por meio de um procedimento bem mais caro para o Estado e traumatizante para todos, e com mais riscos à sua saúde. Ou seja, quem estava protestando contra a nova lei estava na verdade exigindo que o Estado gastasse mais dinheiro público com a saúde e ocupasse mais médicos desnecessariamente. Obviamente, os líderes religiosos por trás dos protestos tinham ciência disso, mas eles precisavam de uma causa supostamente nobre para consolidar o domínio sobre seus fiéis e estabelecer o poder de suas religiões sobre os políticos do país.

Manifestação de evangélicos "contra o aborto", no Palácio do Planalto - Givaldo Barbosa/O Globo

Manifestação de evangélicos “contra o aborto”, no Palácio do Planalto – Givaldo Barbosa/O Globo

Em qualquer país sério, esses dois casos em que o aborto já é permitido nem precisariam ser discutidos, mas como, aparentemente, alguns religiosos são obtusos demais para reconhecer sua necessidade, achei relevante tratar brevemente deles aqui também.

A interrupção da gravidez quando esta afeta a vida da gestante, por mais triste que seja, é autorizada e até incentivada pelo Estado por motivos lógicos e fáceis de serem compreendidos. Olhando-se de uma maneira puramente objetiva, para a sociedade de uma maneira geral, e, portanto, para o Estado, é muito mais vantajoso que, tendo que escolher entre a vida da mãe e a do feto, a primeira receba prioridade.

Uma mãe que engravidou já tem uma vida formada. Há grandes chances de se tratar de uma pessoa adulta, com uma família, uma história, um emprego e uma utilidade para a sociedade, ao passo que, sendo salvo em seu lugar, seu filho já cresceria sem um de seus genitores e ainda requereria uma série de investimentos, seja material, educacional ou de qualquer outra natureza, para chegar à mesma situação social que a mãe já possui. Sem contar que a mãe já estabeleceu vínculos emocionais com um grande número de pessoas: parentes, amigos, colegas de trabalho, vizinhos etc, enquanto um bebê ainda não nascido está vinculado basicamente a seus familiares. Até burocraticamente falando é mais fácil administrar a morte de um feto que a de um adulto formado, já que pessoas não nascidas não possuem sucessores ou bens para legar. Assim, analisando-se friamente, se a infeliz escolha entre a morte de um feto ou de sua genitora tiver que ser feita, ela parece ser óbvia.

Quanto à gravidez advinda de um estupro, qualquer um que defenda que a mãe deve ser obrigada a manter o filho, com certeza não possui a mínima empatia, a capacidade de se colocar no lugar da outra pessoa. Novamente os grupos “pró-vida” vêm afirmar que, independente do motivo, o aborto é um assassinato, uma crueldade, que eles são a favor da vida em qualquer situação… e ignoram completamente a situação da mãe nesses casos.

Afinal, se o aborto seria considerado por eles uma crueldade, também me parece ser imensamente cruel obrigar as mães a carregarem o filho de seu violentador no ventre durante nove meses, sentir as dores do parto por ele, investir boa parte de seu tempo e dinheiro nesse filho e criá-lo pelo resto da vida lembrando da violação e constrangimento pelos quais ela passou, cada vez que olhar para seu rosto. Para algumas mães a morte seria melhor que essa opção. Me pergunto se os integrantes do “pró-vida” continuariam pensando desta maneira se as mulheres nessa situação fossem suas mães, filhas ou irmãs. E imagino como seria a relação entre mãe e filho nesse caso. No final das contas poderia até acabar sendo uma crueldade também para a própria criança permitir que ela viesse ao mundo sob essas condições.

O que a mãe lembrará cada vez que olhar para o filho resultante de um estupro.

O que a mãe lembrará cada vez que olhar para um filho resultante de um estupro.

Pode ser que uma vítima de estupro tenha a grandeza de espírito de conseguir criar o filho da pessoa que a estuprou sem deixar que esse fato influencie em sua criação. Ou que uma gestante que corre risco de morte com sua gravidez tenha o altruísmo de se dispor ao sacrifício para garantir que seu filho nasça. Talvez elas consigam ser felizes assim, e, o que algumas pessoas parecem ser incapazes de compreender é que, se elas quiserem, elas podem tomar essas decisões.  A lei na verdade não obriga ninguém a realizar abortos. Ela só lhes dá a opção de realizarem o procedimento se acharem que devem fazê-lo.

Cada ser humano sabe o que lhe convém, o que eles aguentam ou o que não aguentam. E a única pessoa que deveria ter o direito de saber o que fazer com o feto em um caso de uma gravidez de risco ou resultante de um estupro é a mãe que carrega esse filho no ventre. Só ela sabe o que será capaz de suportar. E é por isso que os grupos que se opõem aos “pró-vida” intitulam-se como “pró-escolha”, não apoiando o aborto em si, mas a escolha da mulher. Eles não necessariamente querem que o aborto seja realizado, e sim que a gestante tenha o direito de decidir, seja pelo aborto ou pela manutenção do filho.

Assim, eu só posso supor que os extremistas e religiosos não são exatamente contra o aborto. Se fossem, para eles as leis não fariam diferença nenhuma. Quem acha que sua religião proíbe determinado procedimento simplesmente não o realiza, independente do que a lei diga. Não se vê nenhuma testemunha de jeová reclamando que a transfusão de sangue é permitida, ou judeus ortodoxos protestando contra a permissão de ingestão de carne de porco. Para eles, essas práticas são proibidas e eles simplesmente não as fazem. Da mesma maneira, nenhum religioso seria obrigado a realizar o aborto, mesmo nas situações permitidas por lei, se não quisesse. Porém, eles não querem que o contrário seja aplicável. Se alguma mulher não segue determinados preceitos religiosos e quer aplicar a lei, realizando o aborto, os religiosos a vêem como uma abominação, fazendo o possível para impedir o procedimento.

O que me parece então é que esses religiosos que se posicionam tão fervorosamente contra o aborto, mesmo nesses casos óbvios, estão longe de estarem interessados em defender a santidade da vida. Afinal, em um país onde a taxa de homicído é maior que a de alguns países em guerra civil, o que não faltam são outras áreas onde se poderia defender a vida sem maiores oposições. O que eles parecem querer é se posicionar contra a liberdade de escolha das mulheres, reforçando o papel submisso legado ao sexo feminino pela religião, ou impor à força seu ponto de vista sobre o resto da nação. É bem provável que, como o Dr. Dráuzio Varella já disse uma vez, “se os homens parissem, o aborto seria legalizado há muito tempo, e no mundo todo“.

A IURD deixa bem claro o entendimento que ela tem sobre o papel da mulher na sociedade

A IURD deixando bem claro o entendimento que ela tem sobre o papel da mulher na sociedade. Daqui.

Então, ok, isso cobre os casos de abortos permitidos pela lei. Mas, e quando a situação da gestante não se encaixa em nenhuma dessas previstas no Código Penal? Quando ela simplesmente está grávida e não deseja ter o filho? Nesses casos, posicionar-se a favor do abortamento não seria adotar uma posição meramente “pró-aborto”, ou a favor do assassinato de crianças inocentes?

Bom, aí a situação merece um outro tipo de análise. Como eu disse no começo do post, a discussão acerca do aborto é uma discussão ética, logo, requer o dimensionamento do sofrimento causado pela atitude em exame. Condutas como matar, roubar, caluniar ou quaisquer outros comportamentos proibidos por lei são eticamente reprováveis por um simples motivo: elas causam sofrimento a outras pessoas, em algum nível.

Para nos posicionarmos em relação à liberação do aborto então, teríamos que averiguar se ele causa algum tipo de sofrimento aos fetos abortados. E para fazermos isso objetivamente, temos que lançar mão da biologia.

O sofrimento é geralmente caracterizado como um sentimento de dor, infelicidade ou alguma emoção negativa advinda de determinada experiência. Mas para que o ser humano (ou qualquer outro ser vivo) consiga sentir isso, é necessário que ele seja dotado de membros ou sistemas orgânicos que permitam essas sensações.

No caso do homem, o responsável por essa área é o córtex cerebral, que também é a área que nos torna capazes de adquirirmos consciência. Se você consegue pensar em si mesmo como indivíduo, emitir opiniões, sentir dor, medo, prazer ou colocar-se no lugar de outras pessoas é somente porque você faz parte da espécie animal que possui o córtex cerebral mais desenvolvido do planeta.

Nos fetos, porém, o córtex não começa a se desenvolver desde o início da concepção. Na verdade, durante as três primeiras semanas de vida, o embrião não passa de um punhado de células. Quando, por exemplo, a pílula do dia seguinte atua no impedimento do prosseguimento da gravidez, o embrião nem pode ser chamado assim ainda, recebendo a denominação de mórula, que não passa de uma massa compacta de células.

A mórula. Segundo o entendimento da maioria dos religiosos, isso já é dotado de uma alma.

A mórula, expelida pela pílula do dia seguinte. Segundo o entendimento de alguns religiosos, isso já é assassinato.

O tubo neural, que dará origem ao cérebro e à medula só começará a se desenvolver no final de três semanas. No entanto, o sistema nervoso só pode ser considerado plenamente constituído muito depois. Uma pesquisa conduzida pelo Real Colégio de Obstetrícia e Ginecologia britânico aponta que até as 24 semanas de gestação os fetos não são capazes de sentir dor. Segundo o estudo, as ligações nervosas entre a periferia e o córtex não estão intactas antes desse período, e, mesmo depois das 24 semanas, o feto encontra-se naturalmente sedado, não tendo consciência, devido ao ambiente no interior do útero.

Portanto, qualquer procedimento que se realize em um feto no período anterior às 24 semanas de gestação não é capaz de causar nada que possa ser remotamente considerado como sofrimento, pelo menos não na concepção atribuída a esse termo quando ele é aplicado a seres humanos já formados e conscientes.

Embora os detalhes possam ser questão de debate, qualquer pessoa que veja a questão sob um ponto de vista objetivo não teria dúvidas de que o aborto deveria ser permitido desde que se estabelecesse um limite de tempo razoável para sua realização, digamos, nas primeiras 20 semanas. Essa conclusão é óbvia a partir do momento em que se percebe dois fatos: nesse período o embrião não irá passar por nenhum tipo de sofrimento se o aborto for realizado, e a gestante ou sua família passarão por algum tipo de sofrimento se ele não for. E a janela de tempo, cerca de 5 meses, é mais do que suficiente para a gestante e sua família formarem uma decisão ponderada a respeito.

Um outro aspecto que tem que ser levado em consideração é o da realidade social. Mesmo que a lei não autorize abortos fora dos casos ja mencionados, hoje em dia eles podem ser realizados facilmente, seja em clínicas clandestinas ou com procedimentos caseiros que colocam em risco também a vida da mãe. A exemplo da “guerra contra as drogas”, o fato de a lei não permitir que uma coisa seja feita não tem impedido sua prática pelas pessoas. Se uma mulher estiver grávida e quiser retirar o feto ela o fará, nem que para isso tenha que comparecer a uma clínica duvidosa ou usar um cabide ou agulha de tricô. Assim, a autorização legal para se realizar abortos dentro deste período razoável também serviria para reduzir o número de procedimentos ilegais e caseiros, evitando doenças e mortes desnecessárias em milhares de mulheres, que, além da ameaça à saúde à qual são expostas, hoje ainda correm o risco de serem presas ao realizar o aborto clandestinamente.

Quanto a procedimentos abortivos que tivessem que ser realizados depois desse período de tempo, uma análise mais rigorosa teria que ser realizada, mas utilizando os mesmos parâmetros a respeito do sofrimento. Quando o sistema nervoso do feto já estivesse formado ou em formação final, já haveria a possibilidade de ele sofrer com o aborto. Seria necessário então pesar se esse sofrimento seria justificável ou não diante do sofrimento que a família e o próprio bebê passariam se este nascesse. Afinal, vir ao mundo para ser rejeitado por seus pais, abandonado em uma instituição de adoção ou para passar necessidades em uma família que não tem como sustentar mais um filho pode não ser desejável diante da possibilidade de simplesmente nunca ter existido.

A partir desse ponto, entraremos em uma questão filosófica e metafísica sobre a qual fica mais difícil extrair conclusões incontestáveis. Até mesmo Shakespeare já tinha percebido a complexidade da decisão entre a existência e a não existência quando publicou em seu clássico Hamlet a frase mais famosa da literatura mundial: “Ser ou não ser, eis a questão“.

Será que seria realmente melhor para um feto nascer em meio a um possível sofrimento ou miséria do que simplesmente nunca ter existido, como alguns religiosos afirmam?

Nascer em meio à miseria ou ser abandonado em um orfanato é melhor do que nunca ter existido? Uma questão filosófica difícil de ser respondida.

Nascer em meio à miséria ou ser abandonado em um orfanato é melhor do que nunca ter existido? Uma questão filosófica difícil de ser respondida.

Para muitas pessoas, o simples fato de se estar vivo, existindo, não parece ser o suficiente. Certas condições básicas de satisfação precisam ser alcançadas enquanto se existe. Que o digam as milhares de pessoas que buscam diariamente a eutanásia ou que tentam o suicídio. Se eu, particularmente, quando fosse um feto, tivesse a opção de escolher conscientemente entre vir ao mundo para passar por uma série de dificuldades ou nunca existir, ficaria em profunda dúvida sobre o que escolher. Novamente, o nível de sofrimento imposto em cada condição é que irá ditar a escolha mais apropriada.

No entanto, eu imagino que, mais uma vez, uma escola de pensamento fundamentalista ou religiosa não veria dificuldades em se posicionar. “Ora, é claro que viver, ainda que em péssimas condições, é melhor do que estar morto”, diriam eles. Afinal, uma das frases que mais se ouve entre os opositores do aborto é que “todas as pessoas a favor do aborto tiveram pelo menos a chance de nascer. Quem foi abortado, nem isso”.

Um vislumbre do tipo de pensamento disseminado pela religiosidade pode ser visto na edição do periódico Correio Espírita publicada nas bancas neste mês de maio. A reportagem de capa, escrita pelo Dr. Americo Domingos Nunes Filho, tratando do aborto, traz afirmativas que evidenciam o modo como alguns religiosos se posicionam a respeito do tema.

Capa do periódico Correio Espírita de maio de 2014

Capa do periódico Correio Espírita de maio de 2014

Logo no começo da matéria, o ilustríssimo doutor compara o aborto de um feto de 14 semanas à retirada de uma criança da proteção e do calor de sua residência em uma noite escura e gelada para matá-la a pauladas. E segue equiparando as duas situações, afirmando coisas como:

“[…] O episódio descrito demonstra a incapacidade de algumas pessoas de sentirem piedade de outro ser humano e utilizam argumentos fúteis no sentido de tentar explicar 0 2º crime [o aborto], situando-o como diferente do 1º; contudo, a realidade revela absoluta igualdade nos dois trágicos eventos. Dois seres infantis foram mortos brutalmente […]”

Não é difícil perceber o tom de proselitismo adotado nesse discurso. Difícil mesmo é ignorar a forma como o autor  distorce a realidade, tentando forçar duas situações completamente diferentes a serem vistas como semelhantes, apenas para tentar provar seu ponto de vista.

Ora, se, como já foi demonstrado, embriões com 14 semanas de desenvolvimento não são nem mesmo capazes de sentir dor, não há como comparar seu aborto com uma morte a pauladas. E os médicos que realizam o procedimento também não teriam como infligir sofrimento, ainda que quisessem, logo não há o menor sentido em dizer que eles não sentem piedade, tampouco pode se considerar isso como um assassinato brutal.  Aliás, desconsiderando-se doutrinas religiosas, não há nem de se falar em “outro ser humano”, já que dificilmente se poderia considerar um grupo de células que não possui sistema nervoso formado como “humano”. O que se considera como humano também pode ser uma questão filosófica complexa, mas eu diria que a existência de um cérebro para abrigar a consciência de si e dos outros e possibilitar os sentimentos e pensamentos seria um pré requisito para essa conceituação.

Fica óbvio que, ao considerar o tema do aborto, os espíritas não se preocupam em incluir as condições do feto na equação, somente suas crenças sobrenaturais. Isso se torna ainda mais evidente quando se percebe que eles defendem a manutenção de fetos anencéfalos no ventre da mãe até o nascimento, sob argumentos vagos como “tudo no universo ocorre por um motivo”, “a fatalidade da morte após o renascimento os reconduz ao mundo espiritual” ou com a desculpa de que, mesmo com apenas uma parte do cérebro o bebê é capaz de viver por algumas horas após a morte. Alegações hipotéticas ou irrelevantes como essas prevalecem sobre o fato indiscutível de que um bebê que nasce sem cérebro ou só com parte dele está fadado a morrer causando enorme sofrimento, não só à própria criança, que provavelmente passará por imensa agonia até perecer, mas também a seus pais e familiares, que terão que assistir a seu filho morrer em dor sem poder fazer nada. Sem contar o risco para a gestante, que aumenta a cada dia que a gravidez anencéfala é levada adiante.

A ausência de atividade cerebral aliás, é entendida pela lei brasileira como a caracterização do momento em que a vida se acaba. É por esse motivo que pacientes com morte cerebral podem ser considerados tecnicamente como mortos, mesmo que o restante de seu organismo seja mantido ativo por meio de aparelhos. Se um ser humano completo, formado, com família e uma história de vida não pode ser considerado vivo sem atividade cerebral, quem dirá um feto.

O posicionamento das religiões brasileiras majoritárias contra o aborto também não conta com fundamentos muito mais convincentes para se justificar, ignorando qualquer tipo de racionalização sobre o tema e valendo-se apenas de crenças no sobrenatural. Passagens da Bíblia, a suposta palavra divina legada à humanidade, ou chavões religiosos são citados a torto e a direito como argumentos: “O sexto mandamento divino nos proíbe de matar“. “Deus abomina o assassinato de crianças inocentes“…

Talvez fizesse bem aos cristãos reexaminar essa imagem de um Deus amoroso para com as crianças, considerando-se que o próprio livro sagrado deles nos dá exemplos de atitudes divinas que parecem não demonstrar muita preocupação de Deus para com as crianças inocentes. Afinal, um deus que supostamente já exterminou toda a humanidade através de afogamento, inclusive crianças e bebês, já matou todos as crianças primogênitas de um país inteiro e já mandou duas ursas destroçarem 42 crianças só porque elas chamaram um careca de careca, não me parece estar particularmente preocupado com o bem estar ou segurança de crianças inocentes.

O modo Jeová de lidar com crianças inocentes. Esperemos que nossos governantes não sigam esse exemplo.

O modo Jeová de lidar com crianças inocentes. Esperemos que nossos governantes não sigam seu exemplo.

Aliás, a existência de uma divindade que se importasse muito com o destino de “fetos inocentes” tornaria muito difícil explicar o fato de que a imensa maioria dos abortos em seres humanos acontece espontaneamente, por mero capricho da natureza, ocorrendo em 30 ou 40% do total de gestações, às vezes mesmo quando a própria gestante não sabia que estava grávida. Mas é claro que isso não impede os crentes de realizarem acrobacias mentais na tentativa de encontrar justificativas para isso. Segundo eles, “Deus escreve certo por linhas tortas” ou “Deus dá a vida, então cabe a ele tirar“. Não me parece fazer muito sentido. Eu, particularmente, não vejo porque alguém que, por exemplo, gostasse muito de carros, teria motivos para destruir 40% da matéria prima na linha de produção de uma fábrica de automóveis, mas… eis o mistério da fé!

Felizmente ainda vivemos em um país laico, então o Estado não pode se utlilizar de argumentos teológicos ou interpretações de textos supostamente sagrados como base para sua legislação, somente dados científicos comprováveis.

Pelo menos até o domínio total da bancada evangélica no Congresso. Já estou até sentindo pena de quem tenha um útero no momento em que isso acontecer.

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24 Comentários

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24 Respostas para “DIA DA HERESIA – Legalização do Aborto

  1. Ateu,
    A matéria não está ruim, você tem todo o direito de manifestar a sua opinião, mas você não deixou claro o seu pensamento, que eu saiba essa atitude é agnóstica e não de um Ateu, parece que esse post foi mais destinado a criticar os Evangélicos por causa de seus protestos que confesso nesse caso da pílula do dia seguinte, foi um protesto sem lógica, e com o intuito de criticar a postura de Deus. em ambos os casos é direito seu de usar o seu espaço para criticar e escrever o que você quiser e de opinar livremente. Em relação as decisões de Deus em relação a morte de crianças nessas passagens citadas não denota a preocupação ou não de Deus, essas ações têm contexto que deveriam ser citadas para compreensão dos fatos, nisso se baseia o ateísmo, não é mesmo e após destrinchar o contexto aí sim um Ateu discrimina as suas idéias, como você fez com a questão do Aborto, deveria ter feito em relação aos procedimentos de Deus relacionados as passagens citadas, pois uma noticia sem contexto histórico e legal induz o leitor em seu pensamento, mas uma notícia com contexto histórico e legal leva o leitor a pensar por si só, e em 90% do post você fez isso, mas quando se referiu a Deus e seus procedimentos, esse bom censo não foi aplicado e isso não é uma atitude de um Ateu, mas de um Anti-Deus.

    • Obrigado pelo comentário, Weverton.

      Bom, resumindo tudo que eu destrinchei detalhadamente acima, minha opinião sobre o aborto dever ser permitido ou não é:

      – Se a gravidez é de risco ou resultado de estupro: claro, evidente, óbvio e sem dúvidas;
      – Se a gravidez ainda não atingiu 20 semanas de gestação, independente do motivo: sim, visto que isso não implicará em sofrimento para o feto;
      – Depois das 20 semanas de gravidez: como já há a possibilidade biológica de o feto sofrer, cada situação precisa ser analisada individualmente. Fatores como a condição social e psicológica da mãe serão relevantes para determinar se um aborto seria ou não a conduta que causaria menos sofrimento de um modo geral.

      Pronto, consegui deixar mais claro agora? Note-se que eu não estou dizendo que o aborto DEVE ser realizado nos casos acima, e sim que a gestante tem que ter a ESCOLHA de realizá-lo ou não.

      Quanto às críticas feitas no texto, não se preocupe, elas não são contra deus. É claro que eu não sou anti-deus, não tenho nada contra ele. Eu simplesmente não acho que ele exista. É difícil se posicionar contra algo que você não acha que exista. Alguém tem alguma coisa contra o bicho papão, por exemplo?

      Minha crítica é a uma ideia, a um conceito. Nesse caso, ao conceito de divindade na qual os seguidores da Bíblia acreditam, que me parece bem contraditório. Afinal, eles defendem que o deus no qual acreditam é bondoso e piedoso, mas também acreditam que ele cometeu atos de barbárie extrema, como matar crianças inocentes e exterminar toda a raça humana. E os exemplos citados no post são só alguns de diversos atos atrozes atribuídos a essa divindade. Como você bem deve saber, há muito mais de onde esses saíram.

      E a resposta dos seguidores bíblicos a essa crítica é sempre parecida com essa que você fez: “as passagens estão sendo utilizadas fora de contexto”. Bom, primeiramente não esqueçamos do fato de que diversos religiosos se utilizam de passagens bíblicas fora de contexto quando querem justificar seu ponto de vista, inclusive em relação ao aborto. Porém, mais relevante nesse caso, eu gostaria de saber exatamente em que contexto a morte de crianças inocentes ou o genocídio de uma espécie inteira poderia ser justificado. Porque qualquer explicação que se tente utilizar para justificar essas passagens soam para mim exatamente como eu coloquei no post: acrobacias mentais feitas para defender crenças prévias.

      A maior parte dos religiosos só não consegue perceber a incongruência do conceito bíblico divino porque foram doutrinados desde pequenos a ver a Bíblia como a palavra divina infalível e incontestável. Mas para qualquer pessoa que não compartilhe dessa crença, essas contradições são perceptíveis, assim como para os seguidores de uma doutrina religiosa é fácil verificá-las em outras religiões e textos sagrados. Se você fosse, por exemplo, islâmico, suponho que seria bem mais fácil analisar as narrativas bíblicas objetivamente.

      • Ateu,

        Agora sim eu entendi o seu ponto de vista em relação ao aborto, eu perguntei sobre a sua posição, apesar do tema do Post ser LEGALIZAÇÃO DO ABORTO, você escreveu… “Nesse post eu tentarei apresentar meu ponto de vista sobre o assunto”… e se você leu o Post para revisá-lo você deveria ter lembrado de concluir, uma vez que o assunto abordado por mais que seja repleto de informações cotidianas deveria ter uma conclusão, pois se trata de um ponto de vista e não de uma dissertação.

        É claro que como se trata de um ponto de vista o conceito de certo ou errado pode ser questionável, a decisão de ter ou não a criança nos casos de estupro, ou nos casos em que há a possibilidade de tomar a pílula do dia seguinte sendo que o feto ainda não se formou e nem foi gerado, a decisão é do casal, ou da gestante, porém cada um vai colher o que plantar baseado em suas escolhas.

        Os cristãos em sua maioria vivem e explicam a bíblia fora de contexto, infelizmente, não conhecem a lingua hebraica e nem o contexto hebraico, tomam versos separados e fora de contexto e quando não conseguem explicar uma passagem dizem… É uma questão de fé…Ou, é o mistério da fé… Todos os elementos bíblicos estão dentro de um contexto e não existe outro contexto para se entender todas as questões bíblicas a não ser o contexto judaico.

        Em relação a morte das crianças e o genocídio, sim aconteceram e sim os citados que foram ordenados por Deus a serem realizados pela nação de Israel aconteceram e ninguém pode negar, agora se eles foram “justos”, aí sim devem ser vistos dentro de um contexto, a palavra justiça está relacionada a leis, decretos e normas, quando alguém descumpre uma dessas normas, leis ou decretos está passível de punição. A bíblia só relata sobre leis e mandamentos após o dilúvio que foi um trato que Deus fez com Noé(Noach), mas antes disso os relatos que temos estão no livro de Enoch(Enoque) que fala de transgressão, pecado, mas só existe pecado se existir lei e mandamento, porque a palavra pecado está relacionada a transgressão da lei e é por isso que a tradição judaica acredita que se o mundo foi destruído antes com água é porque existia um tratado de Deus com os homens e os homens se desviaram desse tratado, agora Deus não precisa de aprovação nossa para agir, o conceito de Justiça está relacionado a padrões legais e não padrões subjetivos de moral e crença. Houve inúmeros genocídios, em inúmeras guerras, pois em guerras se tinha a crença de que se houvesse sobreviventes haveria a possibilidade de vingança de um povo contra o outro, portanto em guerra não existe o conceito de justiça. No caso da ursa foi autorizado por Deus as ursas devorarem os jovens, mas de inocente eles não tinham nada, todas as crianças conhecem a Torah desde pequenos, aos 12 anos passam pelo ritual de Bar Mitzvah(Filho do Mandamento(Torah)) eles sabiam que na lei estava escrito que era proibido o povo dizer o mal contra autoridades…A Deus não amaldiçoarás, e o príncipe(Autoridades, ex.Juízes, Reis, Sacerdotes e profetas) dentre o teu povo não maldirás. Êxodo 22:28 e eles foram punidos por isso, se é justo, como eu te disse, conceito de justiça está relacionado a lei e não a pensamentos subjetivos. A lei universal é essa, nós colhemos o que os nossos pais nos legaram, legado não se adquiri porque quer, mas é imposto, nossas escolhas de hoje impactam o futuro dos nossos filhos, isso é uma lei universal, onde está escrito? Na história é só ler. Por isso eu disse, cada um vai colher o que plantar baseado em suas escolhas, sendo eles certas ou não.

        Até mais.

        Weverton da Cruz Estevam

      • Puxa, mil perdões, Weverton. Imagine você que, em minha inocência literária, eu pensei que trechos como “se a infeliz escolha entre a morte de um feto ou de sua genitora tiver que ser feita, ela parece ser óbvia“, “também me parece ser imensamente cruel obrigar as mães a carregarem o filho de seu violentador no ventre durante nove meses“, “o aborto deveria ser permitido desde que se estabelecesse um limite de tempo razoável para sua realização” e “o nível de sofrimento imposto em cada condição é que irá ditar a escolha mais apropriada” seriam suficientes para que qualquer leitor com uma mínima capacidade de interpretação textual conseguisse concluir qual é meu posicionamento a respeito do assunto. Mas agora vejo que estava enganado. Obrigado pela ajuda ao me mostrar isso, tentarei deixar minhas conclusões mais óbvias em meus próximos textos. De repente se eu escrevesse em prosa alegórica eles ficariam mais compreensíveis, que acha? As pessoas sempre parecem compreender a Bíblia tão bem…

        Quanto à morte de crianças inocentes serem justificáveis se elas descumprirem leis, eu imagino que se deus esmigalhasse um filho seu com seu dedo divino depois de flagrá-lo pichando um muro, você acharia a situação justa então? Ou se ele afogasse seu filho recém nascido porque você descumpriu um trato com ele, tudo certo? Se a justiça divina do deus em que você acredita funciona desse modo, eu não gostaria de maneira nenhuma que ele fosse justo comigo. Aliás, acho que eu faria de tudo para ter o mínimo de envolvimento possível com um deus desse.

        O conceito de justiça também é uma coisa complexa de ser definida, e não envolve somente o cumprimento de leis. Na verdade existe toda uma cátedra na faculdade de direito só para explorar o significado de justiça e sua correta aplicação. Livros inteiros são escritos a respeito e filósofos até hoje quebram a cabeça para definir essas coisas. Mas uma coisa que poderia ser afirmada por certeza por qualquer um que tenha um bom senso é que há claramente algo de errado com esse conceito de justiça pregado por sua religião se ele faz com que você veja alguma dessas situações apresentadas como justas. As coisas não mudam simplesmente porque queremos conceituá-las de maneira diferente. Se eu chamar uma cadeira de carro isso não significa que eu vá poder sentar nela e sair dirigindo. Assim como matar pessoas inocentes por supostos pecados de outros não passa a ser justo simplesmente porque alguém chama isso de justiça, de aplicação da lei ou o que seja.

        Mas, se você acha interessante pensar dessa maneira e viver sob o jugo dessa “justiça”, tudo bem, você é livre para fazê-lo. Só espero que você tenha a consciência de que, para qualquer pessoa posicionada fora do seu sistema religioso, isso tudo seria visto, no mínimo, como uma enorme incongruência. E imaginar que esse modo de pensar deveria servir de base para um Estado elaborar leis aplicáveis a toda a população beira a loucura.

        E o Bar Mitzvá é aos 13 anos.

  2. Pedro,

    O texto em que relata sobre as ursas, a tradução mais correta é jovens e não crianças, isso significa que já haviam passado pelo B’nei/ Bar Mitizvah se você quiser eu translitero do hebraico pra você. Você não está falando com um ignorante nos aspectos bíblicos e teológicos, eu conheço um pouco da língua hebraica, e em relação ao conceito de justiça, bem, é como alguém tentar explicar sobre energia, ou seja, é complexo, pois a maioria não entende que a lei se enquadra em um contexto social e não subjetivo. No caso de Deus, qualquer “Ser” que fosse aplicar a Torah ao seu contexto social teria uma comunidade equilibrada e prospera, imagine uma sociedade onde não há assassinato, roubo ou adultério, onde as pessoas não desejam as coisas alheias e não dão calote no próximo, bem para mim não parece uma sociedade a beira da loucura, mas essa é a sua opinião e eu respeito.

    Só quero que você entenda que você acreditando ou não em Adonai e aprovando ou não a sua Torah e as suas Mitzvot ele continua e continuará sendo Elohim e não precisa da minha ou da sua aprovação, pois ele é El Shadday.

    E em relação ao aborto, eu só disse que a escolha em casos extremos é do casal e ou da gestante, eu não disse ser certo ou errado, portanto vou desconsiderar o seu sarcasmo, se a minha esposa estivesse em uma provável gravidez de risco e o feto não estivesse sido formado ainda eu iria decidir com ela o que fazer se nesse caso não tivéssemos fé o suficiente em Deus eu optaria pelo aborto, mas isso não acontecerá comigo, eu tenho a minha esperança no Todo Poderoso e as minhas experiencias com Ele são grandes e inefáveis, se você tivesse essas experiencias talvez você não fosse Ateu, não estou falando mal de você e nem sendo sarcástico, mas tão somente compartilhando um pensamento, se eu creio Nele é porque ao contrário de muitos essa crença é pautada em cima de experiencias.

    Até mais e me desculpa se você se sentiu afrontado com a minha resposta eu apenas estou expressando a minha opinião, nada mais.

    Tenha um fim de semana de paz!

    • Bom, eu não acho que a situação das ursas em específico se torne mais ou menos justa em função da idade dos jovens ou do conhecimento que eles tinham da lei hebraica. Pode até ser que àquela época fosse considerado justo mandar animais selvagens matarem pessoas que zombassem de um profeta, fossem crianças ou adultos, mas eu acho que a filosofia então aplicada dificilmente seria vista por uma pessoa moderna como correta.

      Imagine se uma criança ou um jovem chegasse hoje em um culto evangélico e chamasse o pastor de careca, de gordo ou de feio. O líder religioso então reza para Deus pedindo a punição dessa criança/jovem e magicamente surge da esquina um bando de rottweilers que estraçalham o menino até a morte. Você acharia que foi uma punição justa? Eu prefiro imaginar que não, e nossas leis atuais jamais permitiriam uma situação como essa. Mas a justiça divina supostamente é imutável, então se ele achou justo fazer isso no passado, deveria achar fazer hoje também. E se Deus acha justo, todos também teriam que achar.

      Agora, pensemos, o que é mais provável? Que Deus possua um código de justiça extremamente amoral como esse e que serviu de base para elaborar as leis hebraicas existente à época da confecção do Torah, ou que os hebreus já possuíam as leis deles, construídas e adaptadas com o tempo, e escreviam histórias como essa, que afirmavam que ela estava de acordo com a providência divina, para justificá-la?

      É bem provável que a história das ursas nunca tenha acontecido. Um dilúvio global, como qualquer geólogo sério poderá confirmar, certamente nunca aconteceu. E a morte de diversos jovens no Egito, bem como chuva de sapos, de granizo, peste de animais etc, se realmente ocorreu um dia, provavelmente foi em virtude de alguma(s) catástrofe(s) ecológica(s). Uma suposta “justiça divina” nunca esteve em ação em nenhum desses casos, mas para os líderes religiosos daquela época provavelmente era vantajoso inverter a relação causa e efeito e atribuí-los a Deus, corroborando assim o posicionamento jurídico hebreu.

      Pode ser difícil para você conseguir avaliar essa opção, afinal, você já está inserido no processo religioso/cultural que faz com que a maioria dos fieis vejam a Bíblia como relatos históricos primorosos. A maior parte dos religiosos que creem na Bíblia não consegue vislumbrá-la como um livro comum, escrito e modificado por homens comuns com interesses diversos, ao longo de séculos, e sim como a narração de histórias verídicas e precisas, narradas por Deus a seus profetas. Esse é um exercício muito mais fácil de se realizar com a religião alheia.

      Por exemplo, segundo o Corão, Alah diz, na sura 2:178 que se alguém matar o teu escravo, você tem o direito de matar um escravo dele também. Na 4:34, que a mulher deve ser submissa ao marido, e se ela não for, ele têm o direito de bater nela. Na 24:2, determina-se que os adúlteros deveriam ser castigados com 100 chibatadas, e um marido pode acusar uma mulher de adultério tendo apenas ele mesmo como testemunha. No Livro de Mórmom, no capítulo 1, Nephi, 13:15, é dito que Deus inspirou os europeus, que tinham a pele da cor justa (branca), a exterminarem os índios nativos americanos, que tinham sua pele escurecida por serem marcados como descendentes de descrentes. Os vedas indianos estabelecem a lei do Karma, que afirma que as pessoas que nascem na miséria nessa vida são merecedoras, por terem cometido transgressões em vidas anteriores.

      Alguma dessas passagens lhe pareceu ser a aplicação de uma justiça divina? Ou para você também parecem ser só injustiças que contam com a desculpa de serem permitidas pela divindade descritas em cada livro? Pois para os crentes dessas religiões, as passagens mencionadas também exemplificam o que o deus deles considera como justo. E não há objetivamente nenhum motivo para se acreditar que o deus bíblico seja mais ou menos verdadeiro que as divindades dessas religiões, ou que a Bíblia seja um livro mais verossímil que o deles. Todos são igualmente dúbios, mas os cristãos têm uma tendência a confiar na Bíblia e descartar os outros textos pelo simples motivo de terem sido condicionados a pensarem assim desde pequenos. Se você tivesse nascido no Sudão, por exemplo, certamente veria o Corão com a mesma reverência com que vê a Bíblia agora.

      E uma sociedade onde a Torah fosse aplicada integralmente poderia até ser uma em que não houvesse assassinato, roubo e adultério (do que eu particularmente duvido, já que uma utopia dessa certamente nunca existiu e provavelmente nunca irá existir entre a raça humana), mas seria também uma sociedade onde você seria apedrejado até a morte não só se cometesse algum desses desvios, mas também se trabalhasse aos sábados, blasfemasse, ou fosse homossexual. Sem contar que você seria expulso da comunidade se fosse leproso, se não fosse circuncidado, tivesse menstruada ou encostasse em algum cadáver. Não vejo como essa poderia ser considerada uma sociedade equilibrada ou próspera…

      Quanto ao aborto, você afirma não julgar certo ou errado sua realização em casos extremos, mas diz que você e sua esposa só o realizariam nesse caso se não tivessem fé suficiente em deus, o que, em sua opinião, suponho que seja um aspecto negativo. Bom, eu prefiro acreditar que isso seria um aspecto positivo, pois significaria que você estaria deixando crenças incomprováveis de lado para resolver a questão racional e objetivamente.

      E eu acredito plenamente que sua fé no divino seja oriunda de experiências pessoais. Aliás, imagino que a maioria dos crentes tenha tido sua fé originada ou fortalecida em dado momento por acreditarem que tiveram alguma espécie de experiência pessoal divina ou sobrenatural. Essas experiências são um dos argumentos mais convincentes a favor da existência divina para as pessoas que acreditam ter passado por elas. Mas o fato é que experiências pessoais não servem para terceiros como argumento de prova de existência divina pelo motivo óbvio: elas são pessoais. Não há como você fazer outra pessoa vivenciar aquilo pelo que você passou.

      Além do mais, é provável que as experiências que as pessoas julguem ser sobrenaturais não passem de autoengano. Psicólogos e psiquiatras não terão dificuldade nenhuma em relatar a facilidade com que o cérebro humano pode construir cenários, visões ou sons que parecem reais para quem os experimenta, mas que só existem na mente de quem os vê. A pareidolia é um claro exemplo disso. Em uma circunstância de condicionamento religioso, como um culto, durante uma oração ou em uma mente já influenciada por doutrinas religiosas, não seria difícil confundir isso com uma intervenção divina, ou manifestação do sobrenatural. Normalmente experiências como essas são consideradas como desvio de percepção pelos profissionais de saúde. Se uma pessoa afirma ouvir a voz de Napoleão em sua cabeça, que Einstein estava ao seu lado durante uma prova e o ajudou a passar, ou que Gengis Khan veio em seu auxílio durante uma luta, ele seria considerado como psicótico e devidamente tratado. Mas não se costuma fazer isso quando se fala em anjos, em Jesus ou em Deus porque um grande número de pessoas afirma essas coisas, em virtude da massiva doutrinação religiosa que permeia nossa sociedade,

      Para perceber que essas experiências não têm como serem verdadeiras basta se fazer uma rápida observação e perceber que elas acontecem entre fieis de todas as religiões, mesmo as que professam crenças incompatíveis entre si. Existem milhares de católicos que afirmam ver Maria, hindus que afirmam ver Kali e muçulmanos que dizem ter recebido a visita de Maomé, ou que esses entes intercederam por eles. Candomblecistas acreditam que incorporam orixás, espíritas que se comunicam com espíritos… Integrantes de todas as religiões acreditam terem passado por experiências religiosas pessoais que corroboram suas crenças. Nunca se vê um orixá incorporado em um evangélico, Kali aparecendo para um judeu, ou um hindu psicografando uma carta. Ou todos os deuses, deusas, santos e espíritos existem e são realmente democráticos, ou todas essas pessoas estão enganadas, e essas experiências não passam de ilusões causadas pelo enraizamento de suas crenças em sua consciência.

      Para finalizar esse texto que já está ficando maior que o próprio post, eu não te desculpo por ter expressado sua opinião. Não desculpo porque eu não acho que você precisaria ter que se desculpar simplesmente por expor o que pensa. E mesmo que eu discorde ou que me sinta ultrajado (o que não é o caso), eu não acho que teria o direito de impedir sua livre expressão. Além do mais, fui eu mesmo que abri esse espaço para a exposição de opiniões, então espero que se sinta à vontade para oferecê-la sempre que achar relevante.

      Obrigado pela participação e um ótimo fim de semana,

  3. Obrigado Pedro,

    Só vou relatar sobre a Torah, ela é mal interpretada em relação a alguns assuntos como menstruação, crimes dignos de morte por apedrejamento ou lepra.

    A lepra não existe mais ou é quase inexistente devido aos avanços científicos e por questões de higiene eles eram obrigados a se afastarem por causa do risco de contaminação, a mesma coisa está relacionado com a menstruação, antigamente não existia Absorventes íntimos para as mulheres, visto o grande risco de contaminação esse procedimento era adotado, hoje em dia não há essa necessidade por questões dos avanços científicos. Já em relação a penas de morte por apedrejamento foram aplicadas somente nas citações bíblicas que foram poucos os contextos aplicados pela Torah em relação a pena de morte. Esse recurso dificilmente era usado, mesmo assim se a Torah fosse aplicada nos dias de hoje você não tem como negar que ela seria muito melhor do que hoje.

    Até logo, tenha uma semana de paz

    • Mas é exatamente esse o ponto. Se o que foi transcrito para a Bíblia se tornou defasado ou inutilizável devido aos avanços científicos, isso não nos diz muita coisa a respeito de esses escritos serem ou não realmente a palavra ou a lei divina? É de se supor que o que Deus recomendasse aos homens como orientação ou como lei fosse valer para todo o sempre. Ou um deus onisciente não tinha consciência de que algum dia sua criação inventaria modos de superar incômodos como a menstruação ou a lepra? Aliás, se ele sabia de algo assim, por que ao invés de dar recomendações ou ordens atualmente inúteis não os ensinou logo a desenvolver a tecnologia que permitiria superá-las?

      Aparentemente, ele até tentou ensinar a cura da lepra, em Lv 14:2-52, um procedimento que envolve degolar pombas, banhar-se em seu sangue e se depilar. Me pergunto porque esse ensinamento divino não é utilizado até hoje…

      Isso só mais uma evidência de que, longe de representar a palavra divina, os ordenamentos do Antigo Testamento somente reproduzem um ordenamento jurídico baseado na vivência hebraica daquela época e daquele local, e que não faz o mínimo sentido tentar aplicá-los ipsis litteris hoje em dia. Ao contrário do que você pensa, eu imagino que se a Torah fosse aplicada nos dias de hoje seria um retrocesso em relação a todas as evoluções jurídicas surgidas desde então.

      Afinal, se ainda hoje há grupos sociais que se utilizam de passagens bíblicas para justificar atitudes abomináveis como o racismo, escravidão e homofobia, imagine se a Torah por inteiro ainda estivesse em vigor…

      • Deixa eu deixar claro a você o que é Torah. A Torah são as 10 palavras ou os dez mandamentos baseados em Êxodo 20, as outras ordenanças dependiam são chamadas de Mandamentos, quando Adonai se refere a um mandamento que tem por objetivo ser perpétuo ele deixa isso claro ao dizer, “e esse mandamento vos será por todas as gerações”, os outros mandamentos dependiam de um contexto e com o passar do tempo caíram em desuso, como enterrar as fezes, hoje temos redes de esgoto, outros mandamentos estão intrinsecamente ligados a uma estrutura ou local, como os mandamentos(leis) relacionados ao Templo, como os procedimentos relacionados ao trabalho do templo, nos dias de hoje eles não são praticados pelos Judeus pelo simples fato de não existir ainda o Templo em Israel, então você que é caracterizado pela forma inteligente de pensar e discursar baseado na intelectualidade, não pode de maneira nenhuma se basear nos cristãos para entender a bíblia, pois a bíblia vem dos Judeus. Um povo que várias vezes foi quase que exterminado da terra e que sofreu perseguições que quase culminaram em sua extinção na época da inquisição e que foram mortos na 2°guerra mundial, mais de 6 milhões de judeus.

        Está falando de preconceito, o mundo está repleto dele, ao contrário a bíblia promete redenção a qualquer que vier a Yeshua, então não venha com essa balela de que na bíblia utiliza passagens abomináveis como o racismo, escravidão. E homofobia é a palavra da moda, você racionalista deveria entender que essa palavra nada tem a ver com o título que eles querem dar para aqueles que não concordam com essa prática. Homofobia significa medo, pavor ao igual, eu não concordo com a prática, até porque a bíblia condena a prática e não a tendencia, mas isso é outra discussão relacionada a outro tema, mas não se preocupe, um dia a Torah será praticada no mundo todo. Muito obrigado pelo espaço concedido. Como não vamos chegar em um denominador comum essa discussão torna-se inútil, mesmo assim eu te agradeço pela oportunidade. Muito obrigado e tenha uma ótima semana.

      • A Torah na verdade são os cinco primeiros livros que compõem o Tanakh judaico. É o equivalente ao Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio nas Bíblias cristãs, então na verdade é muito mais que os 10 mandamentos do Êxodo. Inclui também toda a fábula da criação do mundo, do dilúvio, da fuga do Egito etc…

        O que me parece dúbio é: por que um deus que teoricamente sabia que as redes de esgoto seriam inventadas em algum momento da História mandaria enterrar fezes, ao invés de mandar construir logo redes de esgoto, ou ainda melhor, algum sistema de tratamento de resíduos ainda mais efetivo que os atuais, que proventura venham a ser inventados no futuro? E antes que se diga que ele queria que o homem adquirisse conhecimento por si próprio, que ele não queria que se acomodasse, então por que ele tenta fornecer outros tipos de conhecimento ou ajuda em outras passagens? Se ele não queria que o homem se acomodasse, por que ele ajudaria o homem a respeito de qualquer coisa, pra começo de conversa? Por que ele escolheria uma tribo pra ser sua preferida entre todas as outras tribos do deserto, fornecendo comida magicamente, fazendo com que ela ganhasse batalhas impossíveis, realizando milagres de curas, se o objetivo inicial era fazer com que ela não se acomodasse? Curiosamente ele ajudava seu povo somente na medida em que era possível ajudar com o conhecimento científico existente à época…

        “…então não venha com essa balela de que na bíblia utiliza passagens abomináveis como o racismo, escravidão. E homofobia é a palavra da moda…”.

        Ok. Vejamos o que o bom livro nos diz a respeito de tolerância entre diferentes povos: “Para que eu te faça jurar pelo Senhor Deus dos céus e Deus da terra, que não tomarás para meu filho mulher das filhas dos cananeus, no meio dos quais eu habito.” (Gn 24:3); “E disseram-lhe: Não podemos fazer isso, dar a nossa irmã a um homem não circuncidado; porque isso seria uma vergonha para nós;” (Gn 34:14) “Mas entre todos os filhos de Israel nem mesmo um cão moverá a sua língua, desde os homens até aos animais, para que saibais que o Senhor fez diferença entre os egípcios e os israelitas.” (Ex 11:7); “Não farás aliança alguma com eles, ou com os seus deuses. Na tua terra não habitarão, para que não te façam pecar contra mim; se servires aos seus deuses, certamente isso será um laço para ti.” (Ex 23:32-33).

        Agora o que ele diz sobre escravidão: “Se comprares um servo hebreu, seis anos servirá; mas ao sétimo sairá livre, de graça. […] Se seu senhor lhe houver dado uma mulher e ela lhe houver dado filhos ou filhas, a mulher e seus filhos serão de seu senhor, e ele sairá sozinho” (Ex 21:2-4); “E pelejaram contra os midianitas, como o Senhor ordenara a Moisés; e mataram a todos os homens. […] Porém, os filhos de Israel levaram presas as mulheres dos midianitas e as suas crianças; também levaram todos os seus animais e todo o seu gado, e todos os seus bens. […] Agora, pois, matai todo o homem entre as crianças, e matai toda a mulher que conheceu algum homem, deitando-se com ele. Porém, todas as meninas que não conheceram algum homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós.” (Nm 31:7-18); “E os filhos de Israel levaram presos de seus irmãos duzentos mil, mulheres, filhos e filhas; e também saquearam deles grande despojo, que levaram para Samaria.” (II Cr 28:8).

        E, é claro, o que ele diz sobre homossexualismo, que não é homofobia, lógico: “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é; […] Porém, qualquer que fizer alguma destas abominações, sim, aqueles que as fizerem serão extirpados do seu povo.” (Lv 18: 22-29); “Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles.” (Lv 20:13); “Não haverá traje de homem na mulher, e nem vestirá o homem roupa de mulher; porque, qualquer que faz isto, abominação é ao Senhor teu Deus.” (Dt 22:5).

        Realmente, é tudo balela minha. E não, ordenar a morte de homossexuais não é homofobia, porque não é medo… Qual é o nome que devemos dar ao ódio mortal contra homossexuais então?

        A leis da Torah parecem ser um ótimo guia de como os seres humanos deveriam lidar um com o outro, não? Você realmente acha que estaríamos melhores seguindo essas regras ao pé da letra? E se não é ao pé da letra que deveríamos seguí-las, pra que servem essas ordens atualmente então? Por que uma entidade divina as escreveria assim, de modo que pudesse causar confusão e desavenças entre os religiosos que as interpretassem futuramente?

        Pode-se até argumentar que as leis não podem ser interpretadas de tal maneira, que o contexto em que elas foram escritos era diferente, ou qualquer subterfúgio nesse sentido… Mas o fato é que até hoje passagens como essas são usadas como argumento por líderes religiosos que buscam bases teológicas para justificar seus atos reprováveis. Basta ver o exemplo do Malafaia (http://dacarpe.files.wordpress.com/2010/10/foto-do-outdoor-que-o-silas-malafaia-colocou-rio-de-janeiro.jpg) e do Feliciano (http://4.bp.blogspot.com/-gWNtyEmvj9o/UjmVd3IRbUI/AAAAAAAADRw/vv8vj_QQZj4/s1600/marco-feliciano-twitter.png) em relação aos homossexuais. Esse último já usou passagens da Bíblia até para justificar o racismo contra negros. Ora, um Deus onisciente não teria consciência de que regras desse tipo, ainda que locais e referentes a determinada época, poderiam ocasionar isso séculos depois?

        Eu que agradeço pelo debate, um ótimo dia, Weverton.

  4. Pedro,

    Você pesquisou sobre a bíblia hebraica muito bem isso é bom, mas você se esqueceu de tomar o significado em que a palavra Torah é aplicada. Em seu sentido pleno a Torah são as dez palavras de Êxodo 20, a palavra Torah como qualquer palavra hebraica tem vários significados entre eles תורה Torah significa lei, doutrina, dogma; ciência e Ensino. A bíblia será encarada de várias formas e dependendo do contexto alguns farão como você fez agora, usar trechos isolados para defender suas teses, a bíblia é um livro histórico em seu sentido mais amplo e retrata os pontos altos e os pontos baixos da história dos Hebreus, então você encontrará frases ofensivas, adultério, etc… por estar retratando a história de um povo, só entendendo o contexto você entenderá o cerne bíblico e já vou adiantando que se você quiser realmente aprender sobre esse âmbito não procure os cristãos, mas os Judeus e em relação aos homossexuais, as práticas deles são reprováveis de acordo com a Torah, por isso são reprováveis. Não tenho ódio dos Homossexuais e muitos judeus e cristãos pensam da mesma forma, mas isso não significa que eu ou qualquer judeu ou cristão tenha que concordar com as suas práticas. Os cinco primeiros livros da Bíblia são chamados Torah porque em todos eles a Torah é lecionada e pela forma em que ela é peculiarmente ensinada, principalmente no livro de Deuteronômio. Eu não estou usando argumentos teológicos judaicos com você por não ter necessidade, como eu falei anteriormente respondendo uma citação sua, o tempo do silencio está no fim, logo, logo o mundo verá o Mashiach e a terra se encherá do conhecimento de Adonai como as águas cobrem o mar.(לֹא- יָרֵעוּ וְלֹא- יַשְׁחִיתוּ בְּכָל- הַר קָדְשִׁי כִּי- מָלְאָה הָאָרֶץ דֵּעָה אֶת- יְהוָה כַּמַּיִם לַיָּם מְכַסִּים: פ )Isaías 11 v 9. Os conceitos judaicos, não os conceitos extremistas judaicos, mas a Torah será lecionada em seu contexto. infelizmente esse conceito de que a Torah de Elohim é má foi imposta aos corações pelos romanos e até hoje as pessoas encaram isso como verdade, até mesmo os cristãos, mas na verdade a palavra de Deus diz… Um ramo surgirá do tronco de Jessé, e das suas raízes brotará um renovo.
    O Espírito do Senhor repousará sobre ele, o Espírito que dá sabedoria e entendimento, o Espírito que traz conselho e poder, o Espírito que dá conhecimento e temor do Senhor. E ele se inspirará no temor do Senhor. Não julgará pela aparência, nem decidirá com base no que ouviu; mas com retidão julgará os necessitados, com justiça tomará decisões em favor dos pobres. Com suas palavras, como se fossem um cajado, ferirá a terra; com o sopro de sua boca matará os ímpios. A retidão será a faixa de seu peito, e a fidelidade o seu cinturão. O lobo viverá com o cordeiro, o leopardo se deitará com o bode, o bezerro, o leão e o novilho gordo pastarão juntos; e uma criança os guiará. A vaca se alimentará com o urso, seus filhotes se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. A criancinha brincará perto do esconderijo da cobra, a criança colocará a mão no ninho da víbora. Ninguém fará nenhum mal, nem destruirá coisa alguma em todo o meu santo monte, pois a terra se encherá do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar. Naquele dia as nações buscarão a Raiz de Jessé, que será como uma bandeira para os povos, e o seu lugar de descanso será glorioso. Isaías 11:1-10

    Mais uma vez eu agradeço o espaço. Deus te abençoe.

    Shalom Aleikhem!

    • A interpretação de que a Torah é má foi uma invenção dos romanos?

      A Torah diz para apedrejarmos homossexuais, adúlteros e blasfemadores até a morte. Discrimina pessoas com deformidades físicas. Manda matarmos quem não segue a religião considerada correta. Manda executar quem trabalhar aos sábados. Ordena a dizimação de cidades inteiras se seus residentes tiverem convicções religiosas diferentes. Não foram os romanos que inseriram essas coisas na Torah, elas foram lá escritas supostamente por ordens do próprio Deus que ela diz que deve ser louvado.

      Pouco me importa o que os romanos dizem a respeito dela. Eu não preciso saber a opinião de nenhuma outra pessoa para julgar que um livro que ordena coisas como essas é obviamente um livro vil, independente da época ou do contexto histórico em que ele é utilizado.

      • Pouco me importa se você acha o livro vil ou não, mas na Torah são aplicados os conceitos mais puros de justiça, são padrões a serem seguidos, A discriminação de pessoas com deficiência física está ligada ao povo e não a Torah, essas pessoas só não podiam realizar Avodah no Tabernáculo/Templo por questões relacionados a Avodah, e os outros procedimentos tidos como delitos estão relacionados a julgamentos baseados na lei, isso não é sinônimo de maldade ou bondade, até porque o próprio povo de Israel aceitou a Torah no Sinai, não só as bençãos em caso de obediência, mas também a maldição em caso de transgressão, saiba que quando é feito um tratado, na quebra de algum item existe uma multa a ser paga, punição, a punição é algo previsto em qualquer tratado, pois é, o povo de Israel disse, tudo que o Senhor ordenar cumpriremos, Amém, Em relação a matar pessoas de outras religiões, bem você está equivocado, o contexto das mortes está relacionado a guerra e em uma guerra não há espaço para piedade, pois esse pode ser um ingrediente que pode levar a derrota. Sempre existiram pessoas em Israel que não faziam parte do contexto de Avodah do Templo, sempre existiram pessoas idólatras e mesmo assim não houve um assassinato em massa. Houve um tratado que Deus fez com Noé e que seus descendentes deveriam cumprir, mas não cumprem. Mesmo com todo seu descontentamento, a Torah aplicada em seu contexto mais puro, torna a sociedade justa, santa e sem crimes.

        Baruch Ha’Shem! Que ele envie o seu Messias em nosso Tempo! Bendito seja Adonai!

      • Mas se formos seguir essa lógica tresloucada, muitas perversidades podem ser justificadas. Imagine um bandido com uma arma apontada para sua cabeça. Ele te dá duas opções, ou você dá seu dinheiro para ele, ou ele estoura seu cérebro. Você decide dar o dinheiro, aí ele vai embora e não te mata. Pronto, também foi feito um acordo entre você e o bandido. Se você quisesse, poderia não ter aceitado o acordo, se negando a dar o dinheiro, aí seria morto. Isso significa que você ser deixado vivo é uma atitude justa ou boa?

        Pois é basicamente isso que Yahweh faz na Torah. Ele diz que devemos adorá-lo e seguir suas regras, do contrário seremos mortos. E você vem me dizer que isso foi um tratado, que o povo de Israel aceitou a Torah? Ora, realmente, quem seria idiota de dizer não a um acordo desse, não é mesmo? Os adoradores do bezerro de ouro em Ex 32 e o blasfemador de Lv 24:14 são belos exemplos do que Yahweh faria, ordenaria ou permitiria que fosse feito, se você não seguisse exatamente o que ele comandou. Note que não importa sua opinião pessoal sobre as ordens, não importa se elas causam efetivamente algum mal a alguém ou não, não importa se elas te deixam feliz ou não. Se a sua vontade/opinião não estiver nos planos de Yahweh, você deve ser morto. É essa a sua ideia de um tratado justo? Hoje em dia nós temos outros nomes para isso: ditadura, despotismo, tirania…

        Imagine um casal homossexual naquela época. Até então eles eram felizes assim e não faziam mal a nenhuma outra pessoa, ou seja, não havia nada que pudesse ser considerado inerentemente “mau” em suas atitudes. De repente, chega um líder religioso, diz que Yahweh falou que não gosta mais daquela atitude e que se eles continuarem com aquilo serão apedrejados até a morte. Isso realmente lhe parece com um acordo feito entre a entidade divina e o seu povo? Um tratado justo entre as partes? Pois essa seria a aplicação da Torah em seu contexto mais puro. Ora, até eu seria morto naquela época, pela minha forma de pensar.

        “Em relação a matar pessoas de outras religiões, bem você está equivocado, o contexto das mortes está relacionado a guerra e em uma guerra não há espaço para piedade”

        Acho que o Tribunal Internacional Militar discordaria dessa afirmação. Genebra e Nuremberg que o digam. Mas, de qualquer maneira, a Torah nem de longe deixa explícito que as execuções que ela ordena só devem ser efetuadas em caso de guerra, o que, acredito, seria essencial para se fazer uma afirmação como essa. Pelo contrário, ela parece deixar bem claro que elas devem ser levadas a cabo em qualquer situação. Vejamos:

        O que sacrificar aos deuses, e não só ao Senhor, será morto.” – Êxodo 22:20

        Nenhuma menção a esse ordenamento só ser executado em caso de guerra. É de se imaginar que algum adendo nesse sentido seria incluído se esse mandamento devesse ser visto como uma exceção. Suspeito que não seria complicado: “O que sacrificar aos deuses, e não só ao Senhor, será morto. O previsto na frase anterior só se aplica em casos de guerras declaradas entre dois povos ou tribos, e não deve ser aplicado como regra geral de convivência em tempos de paz”. Viu como não seria difícil deixar isso bem claro se fosse essa a intenção?

        Mas é claro que essa não era a intenção porque essa obviamente não era uma regra imposta por uma divindade justa ou boa. É simplesmente uma regra inventada por líderes religiosos que queriam impor sua crença sobre outras nações e justificavam seu domínio sobre os fieis dizendo que a receberam diretamente de Deus. O que me surpreende é que hoje em dia alguém ainda tenha dificuldade de perceber isso e se sujeite a ficar fazendo contorcionismos mentais para justificar suas crenças atuais, imaginando que ordens como essa poderiam ser justificáveis sob determinado contexto.

  5. Pedro,

    Eu não vou continuar essa discussão, pois não vai levar a lugar algum. Somente vou te esclarecer sobre a parte final da sua retórica, quando você usa Êxodo 22:20 para tentar me refutar. Eu disse anteriormente que Deus havia feito um pacto com os Israelitas, o povo de Israel foi separado dos outros povos, dentro do contexto da Torah, os Israelitas vivem o Judaísmo, os outros povos vivem outros costumes, ou seja, os outros povos são outras religiões, note… Estes são os estatutos que lhes proporás. Êxodo 21:1, propor a quem? Ao povo de Israel, Êxodo 22:20 foi destinado ao Israelita e ao estrangeiro que se tornar prosélito. E a Torah só foi estabelecida como aliança porque o povo disse… Veio, pois, Moisés, e contou ao povo todas as palavras do Senhor, e todos os estatutos; então o povo respondeu a uma voz, e disse: Todas as palavras, que o Senhor tem falado, faremos. Êxodo 24:3, então não apele para interpolações sem contexto, volto a dizer, nenhum gentio tem conhecimento para explicar a Torah em seu contexto mais puro. Agora vá e estude.

    • Se nenhum gentio tem conhecimento para explicar a Torah em seu contexto mais puro, por que você acha que a entende então? Ou você é judeu e eu não sabia?

      • Sou um estudante da Torah, descendente de Marranos/Anussim, sendo assim sou Judeu, escolhi não praticar a Halachá do Sinédrio, somente a Torah, visto a recomendação dos Apóstolos de permanecer da maneira na qual foi chamado. Fora de um contexto qualquer texto pode ser deturpado. Entendeu? Se eu falo hebraico e você traduz a minha fala escrita ou falada para qualquer outro idioma a tradução perderá muito dos elementos linguísticos originais, o cerne da mensagem muda pouco, mas não a ponto de se afastar do objetivo, mas se a pessoa entende a língua, a cultura e os tipos de linguagens aplicadas no país dependendo da localidade, por mais que ela não concorde com o tema ela entenderá cada elemento e figura de linguagem, pois está inserida dentro de um contexto linguístico e cultural. Por essa razão eu disse… nenhum gentio tem conhecimento para explicar a Torah em seu contexto mais puro. Um Gentio que se inserir nesse contexto aí a perspectiva mudará. Por isso eu entendo Torah, apesar de os ortodoxos não me considerarem um conhecedor pelo simples fato de eu confessar Yeshua como HaMashiach, eu conheço Torah e tenho buscado conhecer mais e mais até alcançar a estatura de Varão perfeito.

        Shalom!

      • Me parece então que a exigência para se entender a Torah não é ser judeu, e sim estudar a língua hebraica e o contexto histórico da Palestina à época do antigo testamento. Corrija-me se eu estiver enganado, mas qualquer pessoa, judia ou não, não poderia fazer isso?

        O que nos leva a um importante questionamento. Se a Torah só pode ser entendida e aplicada em um contexto, linguagem e época específicos, qual é sua validade hoje em dia?

  6. Pedro,

    Só mais essa vez eu vou te dizer, estude a Torah, busque o entendimento sobre ela, não vai adiantar eu te dizer que existiram leis específicas pra época e outras eram de caráter perpétuo, principalmente as 10 palavras, essa sua resposta prova que só o entendimento correto do contexto linguístico original pode trazer um entendimento mais puro da Torah. Como eu te disse alguns conceitos podem até ser absorvidos por estudos de traduções e história, mas muitos elementos são perdidos, ignorados e deturpados. Se você realmente quer conhecer a Torah, siga meu conselho.

    “Toda verdade passa por três estágios;

    No primeiro, ela é ridicularizada;

    No segundo, é rejeitada com violência;

    No terceiro, é aceita como evidente por si própria”. Saia do segundo estágio, venha para o terceiro, você é um cara muito inteligente e questionador, já é um grande princípio para se chegar ao status ao princípio da Sabedoria, falta um degrau somente, o Temor a Adonai, mas como você o temerá se você não o conhece?

    Esteja pronto para buscar a verdade única e exclusivamente à luz das Sagradas Escrituras, sem os dogmas impostos por religiões humanas que criaram as suas próprias “verdades”, ou os traumas causados pelos seus bastidores. Siga o conselho do rabino Yehudá HaLevi: “Questione a verdade nas coisas que você quer saber, para que o seu cérebro atue e não atuem sobre ele”. Considere o que digo, por favor, não considere como um debate, mas como um conselho.

    Confio que o SENHOR há de lhe abrir os olhos para que a verdade lhe seja revelada tão clara como a luz do dia, e que haja libertação de todas as fortalezas na mente arquitetadas pelas malignas teologias de falsas religiões e filosofias de ódio a Torah e a descrença em Adonai.

    Por fim, gostaria de lembrar um clássico da literatura que muito se relaciona com as diversas interpretações da Bíblia, isto é, como as palavras podem ser distorcidas a tal ponto de se criar qualquer coisa com elas. Dizendo de outro modo, se mais de duas mil religiões totalmente diferentes dizem que seguem a mesma Bíblia, então, é evidente que as palavras das Escrituras são usadas de modo arbitrário para justificar plúrimos dogmas.

    No livro “Alice no País das Maravilhas” (1862), escrito pelo inglês Lewis Carrol, o coelho branco Dumpty fala em tom debochado:
    “Quando uso uma palavra, esta significa apenas o que eu quero que signifique – nem mais, nem menos”.
    Respondeu Alice: “A questão é que você pode fazer com que as palavras signifiquem coisas tão diferentes”. “A questão é quem manda – isso é tudo”, disse o coelho Dumpty.
    A assertiva do coelho branco é de extrema profundidade em termos de religião, pois a Bíblia é interpretada de acordo com “quem manda” (Igreja Católica, Igrejas Protestantes Clássicas e Igrejas Evangélicas).

    Concluindo, se você quiser conhecer a verdade da Torah, estude, pois as pessoas dizem muitas coisas sobre a Torah, mas não buscam entendê-la em seu contexto Original.

    “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”
    (Yochanan/João 8:32).

    Shalom!

    • “falta um degrau somente, o Temor a Adonai, mas como você o temerá se você não o conhece?”

      Eis aí a grande questão quanto a encarar a Torah como a verdade absoluta ou como um mero livro religioso de cárater histórico que não deveria ter necessariamente alguma relevância atualmente. O temor ao divino. Para se chegar à conclusão que você chega a respeito da Torah, de que alguma parte dela contém ordens ou conhecimentos de cárater perpétuo, é necessário partir dessa premissa: de que ela foi escrita sob a ordem de uma entidade suprema que, de alguma maneira, sabe o que é melhor ou pior para a humanidade. Qualquer um que a encare ceticamente, sem essa presunção, não vai chegar a mesma conclusão que você.

      E se por um lado, em um terceiro estágio, a verdade é considerada evidente por ela própria, por outro, isso é feito universalmente, o que não é o caso quanto à aplicação dos ensinamentos judaicos. Se uma pessoa que não esteja familiarizada com as tradições judaico/cristãs se visse frente a afirmações como as da Torah, longe de achar que são aplicáveis aos dias atuais, provavelmente as veria como uma abominação. Isso é porque não se tratam de verdades evidentes por si próprias. Se fosse o caso, seriam incontestáveis, independente da crença de quem as analisasse. Ninguém em sã consciência discordaria, por exemplo, que assassinar um ser humano inocente sem nenhum motivo é uma coisa abominável. As pessoas podem chegar a essa conclusão independente de serem judias, católicas, protestantes, budistas, muçulmanas, hinduístas ou descrentes. Isso sim seria uma coisa evidente por si própria. Mas se, mesmo depois de conhecer a Torah, o contexto histórico em que ela era utilizada, familiarizar-se com a linguagem na qual ela foi escrita, ainda há uma quantidade enorme de pessoas que, mais de dois milênios após sua confecção, contestam sua sabedoria (basta ver os milhares de judeus céticos ou apóstatas pelo mundo), isso deve significar que o que ela apresenta não é, afinal, uma verdade tão evidente.

      A título de curiosidade, segundo seu entendimento, quais são as leis pérpetuas existentes na Torah?

      • Pedro,

        Em primeiro lugar quero falar da sua parte final do texto quando você diz… ainda há uma quantidade enorme de pessoas que, mais de dois milênios após sua confecção, contestam sua sabedoria (basta ver os milhares de judeus céticos ou apóstatas pelo mundo)… Você deve conhecer a história, você também deve ter lido sobre a inquisição? Pois bem, 98% dos que foram condenados a fogueira dos 5% dos documentos liberados pela ICAR sobre a inquisição, eram judeus que estavam sendo acusados de praticar judaismo, isso é história, os outros em sua grande maioria foram obrigados a se “Converter ao Catolicismo”, os Chamados Anussim, ou Marranos, como eram conhecidos esses “judeus convertidos”, esses judeus que você citou são produtos desse cenário que remonta a essa época, portanto essa afirmação que você especulou não é consistente. Outra questão é essa afirmação… Ninguém em sã consciência discordaria, por exemplo, que assassinar um ser humano inocente sem nenhum motivo é uma coisa abominável…. Pois é a Torah condena esse procedimento, e muitos outros como o adultério, o roubo, assassinato, estelionato, estupro, incesto, etc… Se isso é abominável perante essa sociedade que você citou, eu gostaria de conhece-la para avaliá-la para enfim contemplar qual o grau de insanidade em que vivem.

        Hoje vejo uma Sociedade clamando por reformas, clamando por mudanças. Chegará o tempo em que elas ocorrerão e esse tempo está próximo.

        Baruch Ha’Shem!

      • Olá Weverton. Eu não especulei a informação de que milhares de Judeus não acreditam no que os livros sagrados hebraicos ditam. Uma pesquisa feita ano passado nos EUA mostrou que dois terços dos judeus estadunidenses não frequentam a sinagoga. 25% deles sequer acreditam em Deus. Isso é a realidade, não especulação de minha parte. A matéria com esses dados pode ser acessada nesse link: http://www.nytimes.com/2013/10/01/us/poll-shows-major-shift-in-identity-of-us-jews.html?_r=0

        Provavelmente milhares desses judeus céticos cresceram recebendo os ensinamentos judaicos, estudando a respeito da Torah e aprendendo hebraico. Porém, muitos deles decidiram que esses ensinamentos não se coadunam com a sociedade moderna em que vivemos. E foi uma escolha consciente. Não vejo nenhuma relação entre esses judeus modernos relacionados na pesquisa e os judeus convertidos durante a inquisição.

        E eu sei que a Torah condena assassinatos, adultérios, roubos etc. O que eu quis dizer quando afirmei que ninguém discordaria que assassinato é uma coisa abominável é que não é necessário recorrer à Torah ou a qualquer livro supostamente sagrado para se chegar a essa conclusão. Uma pessoa bem educada e com uma formação mínima em ética pode chegar a esse entendimento mesmo que nunca tenha sido apresentada à Torah ou à Bíblia na vida. Basta levar em consideração o sofrimento causado por suas ações e usar de empatia. Agora, o que ninguém conseguiria condenar sem recorrer a textos sagrados são atitudes que não causam efetivamente nenhum mal, e que também são desaprovados pela Torah, como sentir atração por pessoas do mesmo sexo. Para justificar discriminações como essa somente ignorando a lógica e o bom senso e apelando para a autoridade sobrenatural divina mesmo.

        E eu não diria que obrigar um estuprador a casar com a mulher estuprada seja exatamente condenar a prática do estupro…

  7. Pedro,

    Novamente te digo que você especula, note a sua frase… Provavelmente milhares desses judeus céticos cresceram recebendo os ensinamentos judaicos, estudando a respeito da Torah e aprendendo hebraico…

    Você não conhece o meio Judaico, eu não desprezaria que alguns saíssem do meio judaico depois de ter estudado Torah, porém a causa de Judeus se tornarem céticos foi o distanciamento dos princípios judaicos e do que houve na história, Pedro, você poderia estudar sobre essa parte da História, você poderia se inteirar dos contextos históricos, nisso se baseia um Ateu, você nem parece que é Ateu, tá mais para um Agnóstico, ou um Anti-deus, mas tudo bem, eu respeito as suas ideias mesmo não concordando com elas. Um texto tem que ter contexto, essa é a regra para uma boa interpretação de qualquer tipo de literatura, mas parece que essa regra é usada para quase tudo, mas quando essa interpretação deveria ser aplicada para um conceito subjetivamente desafetuoso essa regra não é aplicada. Vou lhe contar um segredo, Todo Hebreu que vive na fé Judaica deve cumprir os 10 Mandamentos mais os Mitzvot, os Estrangeiros se desejarem se converter ao judaísmo e viver como Judeu, ou seja, se tornar prosélito deve também cumprir os 10 mandamentos e os Mitzvot, agora um gentio, não é obrigado a viver como um judeu, nem se ele se converter ao judaísmo, a lei do estupro é para o natural da terra e eu já expliquei acima o porque que elas foram aplicadas, se é justa ou não aos seus olhos isso não quer dizer que essa lei é injusta, pois no judaísmo existe um contrato de Casamento em que ambas as partes impõem itens, hoje esse mandamento não se aplica mais, pois era um mandamento temporal, diferente dos 10 mandamentos e as festas de Pessach, Shavuot e Sucot. Eu não vou prolongar mais esse assunto,

    Que o Eterno possa te mostrar a sua Luz, Shalom!

    • Não entendi. Você diz que eu estou especulando ao afirmar que existem judeus que foram criados no judaísmo e hoje em dia não acreditam nos ensinamentos judaicos e na frase seguinte concorda com o que eu disse, ao dizer que alguns judeus se tornam céticos e se distanciam dos princípios judaicos…

      Por decerto que isso não é especulação. Eu mesmo conheço judeus que foram criados por pais judeus, aprenderam hebraico, estudaram a Torah e hoje em dia não acreditam em nada do que lhes foi ensinado. Aliás, existem vários descrentes famosos que foram criados no judaísmo: Woody Allen, Alain de Botton, Noam Chomsky, Richard Feynman, Olga Prestes, Carl Sagan, só pra citar alguns… Não sei qual foi o nível de instrução que esses citados receberam de hebraico ou a respeito da Torah, mas é de se imaginar (sim, especulando, mas com base no melhor bom senso) que pelo menos alguns milhares de judeus que recebem esses ensinamentos acabem os desconsiderando depois de analisá-los criticamente.

      E ok, um texto tem que ter contexto para ser analisado… Vou aqui então admitir minha total ignorância a respeito do judaísmo, de hebraico, da Torah etc, e pedir que você me ilumine: por favor, me explique exatamente em que contexto determinar que um homossexual seja apedrejado até a morte, ou obrigar uma jovem estuprada a casar com seu estuprador é uma coisa ética? Pode gastar todo seu hebraico, se achar necessário, para explicar isso…

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