Milagres existem?

Uma das argumentações que eu mais ouço de religiosos quando estes ficam sabendo a respeito do meu ateísmo é que eu não creio em Deus porque eu nunca testemunhei as maravilhas que ele é capaz de realizar. E não raramente, segue-se a isso um longo detalhamento de milagres realizados pela entidade divina em questão na congregação que a pessoa frequenta.

A crença em milagres é provavelmente tão antiga quanto a própria religião. A grande maioria das pessoas que seguem um sistema religioso organizado afirma sem a mínima sombra de dúvidas que milagres existem e alguns dirão inclusive que já testemunharam ou até mesmo já foram beneficiados por algum.

Por definição, milagres são acontecimentos extraordinários que desafiam as leis da natureza. Para a maior parte dos religiosos eles são atribuídos à onipotência divina e geralmente têm propósitos específicos, como recompensar alguém por seu excesso de fé ou desafiar a falta dela em algum descrente.

Acredito que a ocorrência que se atribua mais comumente a milagres seja a cura de doenças. Não é difícil conhecer alguém que sofria de algum mal e, depois de comparecer a algumas sessões do culto de sua escolha, repentinamente se viu livre da moléstia. Mas eles também podem ser atribuídos a outros acontecimentos, desde os mais inócuos, como estátuas que choram ou imagens santas aparecendo em lugares inesperados aos mais extraordinários, como membros amputados sendo restaurados ou mortos ressuscitando.

Milagre!

Milagre!

Mas o que a ciência tem a dizer a respeito de milagres?

Para os cientistas, até hoje nenhum milagre foi comprovado. Quando submetidos ao escrutínio das investigações científicas, todos os fenômenos que se consideravam milagrosos acabavam possuindo explicações naturais, algumas até simples. E por mais que os religiosos insistam no contrário, o fato é que acreditar que se está observando um milagre não faz com que eles realmente existam.

Normalmente a atribuição de miraculoso a algum fenômeno que não se compreende por completo decorre de três situações complementares e progressivas: a falta de conhecimento, o otimismo exagerado e o engano fraudulento.

O primeiro degrau para a crença em milagres, a falta de conhecimento, deve ser o mais comum motivo para se acreditar neles e acaba sendo indiretamente responsável pelos outros dois. É isso que faz com que o ser humano atribua ao sobrenatural tudo aquilo que ele ainda não detém conhecimento para explicar de maneira racional.

Exemplos desse tipo de comportamento podem ser observados desde o início da civilização humana, em praticamente todos os povos. Os nórdicos atribuíam a ocorrência de relâmpagos e trovões ao deus Thor, quando este percorria os céus em uma carruagem puxada por dois bodes. Já os gregos acreditavam que os trovões vinham de Zeus, o deus controlador dos céus. E certas tribos indígenas brasileiras afirmavam que os raios e relâmpagos eram manifestações do deus Tupã, que representava o sopro de vida.

Anos mais tarde, quando descobriu-se que os relâmpagos eram apenas uma descarga elétrica produzida entre duas nuvens ou áreas eletricamente carregadas e que eles podiam inclusive ser reproduzidos em menor escala, as explicações sobrenaturais para este fenômeno tornaram-se desnecessárias e foram descartadas. No entanto, antes de se adquirir este conhecimento, creditava-se o evento a ações realizadas diretamente pelas divindades, o que, no fim das contas, relegava-os à mesma categoria dos milagres.

Milagre?

Milagre?

O segundo passo, o otimismo exagerado, também decorre da falta de conhecimento, mas adiciona-se à situação um outro componente relevante: o firme desejo de se acreditar em uma intermediação divina proposital. Aqui, não só se acredita na atuação da divindade em algum caso, mas também que ela age em prol de determinada pessoa ou causa. Deus não apenas contorna as leis naturais por um momento, como ele o faz porque se pediu com fé suficiente que ele fizesse isso. É uma espécie de autoengano.

Esse tipo de pensamento não é estritamente necessário para se promover uma crença religiosa. Mas é fácil perceber porque ele é incentivado pela maioria das religiões que disputam fieis. Afinal, para que serve um Deus bom e poderoso se na hora da dificuldade ele não puder fazer efetivamente nada em seu benefício?

Nesse ponto é curioso perceber como praticamente todas as religiões majoritárias do mundo afirmam que milagres são executados em favor de seus fiéis, embora possuam crenças incompatíveis umas com as outras. Essa afirmação é importante para fazer com que os seguidores de determinada congregação se sintam especiais, imaginando terem escolhido a crença correta.

E isso leva ao passo número três para a crença em milagres: a fraudulência.

Percebendo como a crença na intervenção divina faz com que o arrebanhamento de fiéis aumente, e aproveitando a propensão das pessoas a se autoenganarem quando se deparam com situações aparentemente inexplicáveis, muitos líderes religiosos encenam situações “milagrosas” em suas congregações. Alguns chegam até ao cúmulo de contratar atores ou empregar truques e ilusões em seus cultos para simular milagres acontecendo ao vivo.

Recentemente tivemos um claro exemplo disso com a pastora Elizabete Batista, da Igreja Graça de Cristo, que gravou um vídeo onde ela supostamente retira milagrosamente um tumor do rosto da cantora Baby do Brasil:

É claro que a retirada do tumor está longe de ser um verdadeiro milagre, não passando de um ardil feito para enganar os presentes ao culto. Os detalhes de como o truque é elaborado já foram até revelados pelo Pastor Adélio em seu canal do Youtube.

Exemplos como este estão longe de serem casos isolados e também não são exclusivos dos evangélicos. Há pouco mais de uma semana o papa João Paulo  II foi canonizado no Vaticano por supostamente ter realizado dois milagres, curando uma mulher costa riquenha de um aneurisma cerebral e uma freira francesa do mal de Parkinson.

O comitê de médicos contratados pelo Vaticano para investigar os casos não conseguiu explicá-los plenamente e pronto, eles foram considerados como milagres pela Igreja Católica. O que me deixa curioso para saber o porquê de o próprio Santo Padre não ter se curado da doença que o afligia, já que ele próprio sofria do mal que supostamente ajudou a curar na irmã francesa e que ocasionamente o levou à morte, o Parkinson.

E também me causa estranheza o fato de alguém  ser capaz de interceder pela cura de doenças tão severas em outras pessoas mas ter precisado se internar diversas vezes na famosa Policlínica Gemelli, o hospital dos papas, para tratar de problemas de saúde como um fêmur quebrado e uma gripe.

Curas supostamente milagrosas como as do Papa deveriam ser vistas com mais ceticismo por qualquer pessoa que possuísse um mínimo de bom senso. O fato de alguns casos médicos não conseguirem ser explicados com exatidão pelos profissionais de saúde não deveria levar imediatamente à conclusão de que se trata de uma intervenção divina, de alguma distorção das regras da natureza.

Primeiro porque a medicina não é uma ciência exata. Nem sempre 1 + 1 será igual a 2 quando se trata de diagnósticos, tratamentos e curas de doenças. Assim como alguns doentes parecem melhorar do nada, muitos também pioram do nada. Certamente também existem milhares de fiéis doentes que rezam pela intercessão divina, do papa, da Igreja ou de algum santo e que, mesmo apresentando alguma melhora aparente em determinado momento, acabam aparecendo mortos horas ou dias depois. E, no entanto, ninguém parece creditar essas mudanças também supostamente inexplicáveis a milagres ou à vontade divina. Curiosamente, milagres só acontecem quando os resultados finais podem ser considerados positivos. Nunca vi ninguém falando: “Nossa, ele estava se recuperando e os médicos garantiram que ele ficaria bem, mas ele morreu repentinamente, só pode ser um milagre!”, ou algo do gênero.

E segundo, porque a ciência não detém conhecimento acerca de tudo, nem na medicina, nem em nenhuma outra área. Como o comediante Dara O´Briain já disse uma vez, se a ciência soubesse de tudo, ela seria desnecessária. O objetivo da ciência é adquirir conhecimento constantemente,  portanto, ainda existem – e talvez sempre irão existir – coisas que a investigação científica não tem como explicar plenamente. O que não significa que elas sejam necessariamente sobrenaturais, como o exemplo dos relâmpagos já deveria nos ter ensinado.

A despeito disso, milhares de fiéis pelo país e pelo mundo frequentam cultos onde os líderes supostamente realizam milagres a fim de provar sua afinidade com a entidade divina sobre as quais professam. E isso acaba se transformando em mais uma ferramenta de poder nas mãos de líderes religiosos inescrupulosos, que se utilizam do deslumbramento causado para manter e explorar seus fiéis sem questionamentos.

Um caso extremo demonstrando isso ocorreu na Índia há dois anos. Em uma igreja católica na cidade de Mumbai, surgiram fios d´água que escorriam de um crucifixo com a figura de Cristo. As autoridades religiosas locais prontamente classificaram o evento como milagroso e um grande número de fiéis se dirigiram em romaria para a igreja a fim de testemunhar o fenômeno.

No entanto, um indiano menos impressionável achou a situação muito suspeita e compareceu ao local para investigar o ocorrido. Sanal Edamaruku, presidente da Associação Racionalista Indiana, não tardou a perceber o que realmente ocorria. A água que escorria do crucifixo tratava-se na verdade apenas de uma infiltração vinda de um encanamento rompido.

Sanal Edamaruku, presidente da Associação Racionalista Indiana

Sanal Edamaruku, presidente da Associação Racionalista Indiana

Sanal e sua associação já desmascararam mais de 300 charlatões na Índia que afirmavam ter realizado ou testemunhado milagres. Obviamente isso não deixou os líderes religiosos locais muito satisfeitos. E sendo a Índia um país onde a religiosidade anda de mãos dadas com a política, isso o levou a se complicar com as autoridades locais. Sanal foi processado por blasfêmia e, para evitar que fosse preso até a ocorrência do julgamento (pelo visto presunção de inocência e liberdade de expressão são conceitos inexistentes na Índia), ele teve que se exilar na Finlândia. E isso tudo só porque ele demonstrou racionalmente que pessoas estavam sendo iludidas por líderes religiosos oportunistas.

Por mais esdrúxula que essa notícia possa parecer, eu não poderia afirmar com total certeza que situações como essa jamais ocorreriam em nosso país. Seguindo a tendência contrária de quase todos os países desenvolvidos, o Brasil está fazendo com que a relação entre o Estado e a religião fique cada vez mais estreita e com que os líderes religiosos consigam cada vez mais privilégios, sob a desculpa de se conservar o livre exercício de crença e o “respeito à religião”. Os episódios em que pastores ameaçaram com processos a Rede Globo por exibir um beijo entre dois homens na novela e o canal Porta dos Fundos por fazer uma esquete humorística sobre o natal  são sintomáticos desses novos tempos.

Ao continuarmos nesse ritmo, não demorará muito para que seja instituída uma “lei da blasfêmia” semelhante à indiana para impedir que se possa manifestar qualquer opinião ou pensamento que desafiem as afirmações de líderes religiosos. Em breve correremos o risco de sermos presos ao questionarmos se aquela hérnia do tamanho de uma melancia que foi retirada de um fiel ou se aquela alergia que foi curada em outro foram realmente milagres divinos ou resultado da perícia de profissionais que passaram anos estudando medicina, aliada a uma pitada de sorte.

É claro que a religião pode ter um efeito positivo na saúde das pessoas, em especial quando provoca o efeito placebo, situação que merecerá um post específico em breve. Mas a verdade é que tudo que foi considerado milagre até hoje – inclusive as curas atribuídas ao divino – tem uma explicação racional. Mesmo que essa explicação ainda não seja conhecida.

Porém, parece que, longe de esperar que a verdade os liberte, os religiosos preferem que ela seja convenientemente ignorada ou distorcida. Os líderes religiosos que conseguem estufar ainda mais seus bolsos graças à crença inquestionável em milagres agradecem.

E eu, por minha vez, não posso deixar de fazer outra coisa que não concordar em gênero, número e grau com meu querido Mario Quintana:

DOS MILAGRES

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,

Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo

Nem mudar água pura em vinho tinto

O milagre é acreditarem nisso tudo!

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6 Comentários

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6 Respostas para “Milagres existem?

  1. Cadu ....

    Não quero mais seguir o blog, como faço? Obrigado.

    • Para ser sincero, Cadu, eu não faço a mínima ideia. Talvez no email que você recebeu do wordpress confirmando o seguimento haja instruções ensinando a remover o site da lista. Vou verificar aqui se consigo alguma informação e te dou um retorno.

  2. Tiago

    Parabéns! Muito bom o post e o texto do Mario Quintana fechou com chave de ouro 🙂

  3. Amora Miranda

    Gostaria de compartilhar o texto e creditar devidamente o autor,qual o nome do mesmo por favor?

  4. Vinicius Barbosa

    Como uma gestora de negócios religiosos pode definir a emoção de utilizar truques elementares de mágica para ludibriar pessoas dotadas de ignorância exacerbada?
    As atuações teatrais e as demonstrações pífias de materialização são engraçadíssimas.
    Despejar água límpida em uma jarra com corante e depois repassar o líquido colorido a jarras transparentes deixa qualquer mágico de dois anos de idade boquiaberto.
    Extrair coração de boi de um emaranhado de panos e dizer que foi operação divina é um ato que deve ser aplaudido por todas as minhocas do mundo.
    Esconder objetos em uma das mãos, apalpar alguém e depois declarar que removeu tumor, artéria, grampo, entre outros, merece o louvor de uma ameba.
    Quanta criatividade relatar visitas ao céu e afirmar que há um trono preparado para alguém que representa excelentemente o charlatanismo mundial. Esopo ficaria com inveja de tanta criatividade. Charles Ponzi ficaria com inveja de tanta picaretagem.

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