DIA DA HERESIA – Casamento Homossexual

dia da heresia

Bem vindos a mais um DIA DA HERESIA. Este é um espaço utilizado para se falar tudo que for relevante a respeito de um tema controverso específico que envolva a religião, apresentando minha opinião como ateu. O dia da Heresia ocorre todo terceiro domingo de cada mês.

E o tema desse mês será:

CASAMENTO HOMOSSEXUAL

Em primeiro lugar, deixe-me registrar que eu acho extremamente bizarro em pleno Brasil do século XXI ainda haver a necessidade de alguém escrever um texto defendendo a união entre duas pessoas que se amam. Parece que estou argumentando com um viajante do tempo vindo da Idade Média que o uso de ervas para fazer um chá não indica que uma pessoa seja bruxa… Mas tudo bem, vamos lá…

Em maio de 2011, uma decisão do Supremo Tribunal Federal surpreendeu o Brasil e fez os conservadores de todo o país ficarem alvoroçados. Em uma votação unânime a corte reconheceu que a expressão “homem e mulher” deveria ser afastada do artigo 1.723 do Código Civil, que trata da união estável, permitindo sua interpretação extensiva aos casais de mesmo sexo.

Art. 1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família.

Isso significa que, a partir de então, a união estável entre pessoas do mesmo sexo deveria ter o mesmo reconhecimento de entidade familiar que a união entre heterossexuais, teoricamente permitindo que casais homossexuais registrassem sua união estável em cartórios.

Entretanto, muitos cartórios do país ainda continuavam se recusando a reconhecer a união estável ou a convertê-las em casamento quando os requerentes eram um casal de homossexuais, alegando que não havia previsão legal para isso, uma vez que a decisão do STF não tinha força de lei.

Então, em resposta a essas alegações, em maio do ano passado, o CNJ, Conselho Nacional de Justiça, aprovou, por 14 votos a 1, uma resolução apresentada por seu presidente, o ministro Joaquim Barbosa, obrigando os cartórios de todo o país a aceitarem o casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo, deixando claro que nenhum casal, homossexual ou não, poderia ter o pedido de casamento ou reconhecimento de união estável recusado com base na orientação sexual de seus integrantes.

Segundo o texto, “é vedada às autoridades competentes a recusa de habilitação, celebração de casamento civil ou de conversão de união estável em casamento entre pessoas do mesmo sexo.” Na ocasião, Joaquim Barbosa afirmou que a decisão “remove obstáculos administrativos à efetivação” da decisão anterior do Supremo. Essa resolução tem força de lei e, sendo descumprida, cabe comunicação ao juiz corregedor do respectivo tribunal local, e até mesmo recurso ao próprio CNJ.

Essas decisões da Justiça vieram pôr fim a uma situação há muito controvertida e que se dependesse da boa vontade de nossos parlamentares provavelmente não seria solucionada tão cedo. A regularização do casamento entre pessoas do mesmo sexo no Brasil.

Mas, para começarmos a falar a respeito de casamento homossexual, primeiro temos que definir exatamente o que é “casamento”. Essa palavra tão simples pode ter significações diversas, dependendo do contexto em que é empregada.

Para o Estado, o casamento é um mero procedimento administrativo. É simplesmente o reconhecimento governamental de uma relação existente entre duas pessoas. Essa relação, por sua vez, pressupõe direitos e deveres entre as duas partes envolvidas, previstos em lei. Assim, o casamento seria mais ou menos como uma espécie de contrato firmado entre os dois nubentes.

Já para as doutrinas religiosas, o termo tem outro significado. Assim como o casamento civil, ele também representa a união entre duas pessoas, porém essa união se submete às regras da religião em questão, podendo ter objetivos e exigências totalmente distintos do casamento reconhecido pelo Estado. Para a Igreja Católica, por exemplo, o casamento (ou matrimônio) representa um dos sacramentos – os sinais sagrados que visam renovar a salvação da humanidade – e, graças a uma interpretação bíblica, só pode ser realizado entre um homem e uma mulher.

Uma maneira efetiva da humanidade ser salva, segundo a ICAR.

Uma maneira efetiva da humanidade ser salva, segundo a ICAR.

E há ainda um terceiro entendimento do termo casamento, este derivado das mudanças socioculturais ocorridas em nossa sociedade nos últimos anos, que é quando duas pessoas resolvem morar juntas, dividindo o teto, a cama, as contas e as preocupações, porém sem formalizar a união. Embora a sociedade veja estas pessoas como casadas de fato, o Direito considera essa relação como uma união estável, que apresenta algumas diferenças sutis, porém importantes, para com o casamento.

Portanto, quando se fala em casamento, podemos estar nos referindo ao casamento civil (estatal), ao casamento religioso (matrimônio) ou à união estável (“juntada”). Porém, quando se discute o casamento entre pessoas do mesmo sexo, normalmente os movimentos em seu favor estão se referindo ao primeiro dos conceitos acima, o casamento civil.

E a explicação para isso é simples. Se virmos a união estável como casamento, então poderíamos considerar que o casamento entre pessoas do mesmo sexo na prática já existe há muitos anos no país, antes mesmo do Supremo ter decidido qualquer coisa. Afinal, o que não faltam por aí são exemplos de casais de homossexuais e lésbicas vivendo juntos há anos, como qualquer outro casal heterossexual. E iriam continuar vivendo, independente do que a lei dissesse ou o do que qualquer religioso achasse disso. E se nos referirmos ao casamento religioso, isso se torna um assunto particular de cada religião, retirando o Estado da equação. Cada crença religiosa que defina o que entende por casamento como melhor entender.

Portanto, o que se reivindicava para os homossexuais era que o Estado lhes desse a oportunidade de ter suas uniões reconhecidas oficialmente, permitindo que eles se casassem no civil, como já era permitido entre um homem e uma mulher.

Achava-se que com essas eloquentes decisões judiciais o assunto estaria encerrado. Porém, aparentemente isso está longe de acontecer. Assim que o CNJ divulgou sua decisão, diversos grupos contrários ao casamento gay resolveram se manifestar, desaprovando o posicionamento do judiciário e clamando a existência de uma suposta “ditadura gay”.

Aliás, eu confesso que sempre considerei a causa defendida por esses grupos uma coisa difícil de se entender. Por que, afinal de contas, alguém seria contra um determinado grupo de pessoas adquirirem direitos que já são garantidos a outras pessoas? E por que elas acham que está sendo imposta uma “ditadura” se nenhum direito está sendo efetivamente retirado de ninguém? Talvez as pessoas que utilizam essa expressão não tenham muito conhecimento geopolítico, mas ditaduras não costumam distribuir direitos a quem não os tem, e sim retirar de quem já tem. E nesse caso ninguém está tendo nenhum direito tolhido. Mas enfim, divago…

Assim que o CNJ divulgou sua resolução, o pastos Silas Malafaia deu uma declaração criticando a decisão e afirmando que o conselho extrapolou sua competência ao decidir sobre esse assunto. O pastor Marco Feliciano, aproveitando a proximidade do fim de seu mandato como presidente da Comissão de Direitos Humanos, aprovou dois projetos legislativos que visam retirar o direito de casamento obtido pelos homossexuais e rejeitou um terceiro que almejava garantir o direito em lei. O vereador Carlos Apolinário alegou que o STF só tomou essa postura por estar sendo pressionado pelos gays a se posicionar, e afirmou coisas como:

“…os gays querem enfiar tudo goela abaixo do Congresso e da sociedade. Os gays precisam aprender a conviver com quem não concorda com eles. Eles têm de se acostumar ao fato de existirem pessoas que continuarão contrárias ao casamento gay, mesmo que ele seja aprovado.”

É irônico perceber que o digníssimo vereador acha que os gays devem aprender a viver com opiniões contrárias às deles, embora ele não pretenda fazer o mínimo esforço para conviver com pessoas que discordem de sua maneira de pensar. E não sei porque ele acha que os gays estão exigindo que as pessoas passem a ser a favor do casamento gay. Mesmo se ele fosse aprovado, obviamente as pessoas poderiam continuar sendo contrárias à sua realização.

Feliciano defendendo os interesses da nação no Congresso.

Feliciano defendendo os interesses da nação no Congresso.

Todos esses ilustres cidadãos acima deixaram bem claro que abominam o casamento gay, que são contra relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo e que acham que ser gay é errado, porém não apresentam um argumento que responda à esse questionamento: por que o Estado deveria impor o ponto de vista deles sobre outras pessoas que pensem diferente?

O que a maior parte das pessoas que se posicionam contra o casamento gay falham em perceber é que o fato de o Estado permitir que alguém faça alguma coisa não obriga ninguém a achá-la boa ou correta. Eu, por exemplo, tenho ojeriza a funk, porém jamais ia lutar para que o Estado proibisse outras pessoas de ouvir esse ritmo. Eu estaria apenas tolhendo a liberdade delas em adequação a meu gosto pessoal. E o fato de elas poderem ouvir esse ritmo também não significa que eu tenha que achá-lo legal ou seja obrigado a ouvi-lo.

É mais do que óbvio que o principal argumento de que essas pessoas dispõem para justificar seu posicionamento contra a união entre pessoas do mesmo sexo é o simples fato de querer impor seu modo de pensar sobre outras pessoas que pensem diferente.

Certamente esse não é um comportamento exclusivo dos religiosos. Eu já conheci ateus e pessoas sem religião que eram contra o casamento homossexual, pelo simples fato de não gostarem de gays. Confesso que  desconheço o processo lógico que as levava a pensar assim, me levando a imaginar que era pura discriminação de sua parte. Afinal, como eu demonstrei no exemplo acima, o simples fato de não gostar de determinado posicionamento não significa que outras pessoas não possam gostar dele e segui-lo.

Porém, entre os religiosos essa condenação é muito mais expressiva e perniciosa. Devido à estrutura doutrinária adotada pela maioria das religiões, a questão do casamento gay é ofuscada por uma série de dogmas, crenças, mitos e ideias pré concebidas, impedindo que as pessoas pensem sobre o assunto sob um prisma racional. E agrava ainda mais a situação o fato de os líderes religiosos disporem de tanto poder político em nosso país.

A maior parte dos argumentos usados pelos religiosos para condenar o casamento entre homossexuais é baseada em ideias teológicas que, embora possam ser aplicáveis à doutrinas religiosas, não podem ser relevantes à legislatura de um Estado laico, sob pena de se impor a crença de uma religião específica a todos os cidadãos, ainda que eles não a sigam.

Passo a listar a seguir alguns dos argumentos com que já me deparei em rejeição à legalização do casamento homossexual e a minha opinião a respeito:

  • Ser gay não é natural – Em primeiro lugar, quem disse que ser gay não é natural? Aliás, o que se entende por “ser natural”? Significa que outras espécies na natureza não realizam essa conduta? Porque se for por isso, então podemos considerar que ser gay é a coisa mais natural do mundo, já que centenas de outras espécies apresentam comportamento sexual entre indivíduos do mesmo gênero. E se por acaso se está referindo à “natureza humana”, que os seres humanos que não devem fazer sexo entre pessoas do mesmo gênero, esse argumento é contraditório, já que, uma vez que existem seres humanos que adotam esse comportamento, tem que ser necessariamente porque ele faz parte da natureza humana. E em segundo lugar, por que diabos o fato de alguma atividade ser natural ou não deveria ter alguma influência em nossas leis a autorizarem? Seres humanos lidam com coisas que não fazem parte da natureza cotidianamente. Ou alguém acha que faz parte da natureza usar roupas? Dirigir automóveis? Usar computadores? Aliás, se existe algo que definitivamente não faz parte da natureza é o próprio casamento. Não conheço uma espécie animal que precise trocar alianças ou assinar um papel para manter um relacionamento. Então se alguém acha que o casamento gay não deve ser permitido por não fazer parte da natureza, seria no mínimo coerente que ele estendesse essa forma de pensar a todos os casórios.
  • Liberar o casamento gay vai fazer com que mais pessoas virem gays – Primeiramente é importante ressaltar que ninguém “vira gay”. A visão predominante hoje entre os pesquisadores da área é de que a orientação sexual é determinada por fatores biogenéticos e, portanto, não está sujeita a escolhas deliberadas. Mas, concedamos o benefício da dúvida e digamos que fatores externos podem influenciar na orientação sexual de alguém. O que essas pessoas imaginam, que alguém vai ver um casal gay se casando e de repente vai querer fazer o mesmo? Ou alguém irá mudar todo o estilo de vida porque ficou sabendo que agora os homossexuais têm o mesmo direito dos héteros? Ora, por essa linha de pensamento deveríamos supor que não há mais gays no Brasil, já que casamentos héteros são realizados há décadas, enquanto nenhum gay havia se casado até recentemente. Suspeito que o máximo que pode acontecer é que mais gays saiam do armário para perseguirem seus direitos, mas isso não quer dizer que o número de gays irá aumentar, eles só vão se tornar socialmente mais visíveis. Mas talvez seja justamente este o problema para quem é contra. Na verdade eles gostariam que os gays continuassem oprimidos, não possuindo os direitos que os outros já tinham, já que o contrário os tornaria iguais perante o resto da sociedade.
  • Autorizar o casamento gay vai abrir a porteira para outros tipos de casamentos bizarros, com animais ou crianças – Pérolas como essa já foram afirmadas por pessoas como o pastor Silas Malafaia. Trata-se de uma falácia lógica conhecida como Slippery Slope, ou Bola de Neve, que consiste em partir de uma proposição e encadear outras proposições até chegar a uma conclusão absurda, sem nenhum argumento racional ou mecanismo que demonstre a inevitabilidade do afirmado. Não há nenhum motivo para se imaginar que as situações mencionadas irão acontecer, a não ser o fato de quem as afirma não ter interesse em ver realizada a primeira situação.
  • Não é casamento. O casamento é uma instituição tradicionalmente entre homem e mulher – Se estamos falando do casamento religioso, ele realmente sempre foi entre homem e mulher e se vai permanecer assim ou não é problema da religião em questão e de seus seguidores, não do Estado. Mas se estamos falando do casamento civil, que é o reivindicado pelos homossexuais, então não há instituição mais mutante no ordenamento jurídico. Basta lembrar que há algumas décadas o casamento entre pessoas de diferentes “raças” não era permitido. Se um homem branco fosse casar com uma negra o Estado não reconheceria essa união. E até 1977 o casamento entre duas pessoas era um vínculo indissolúvel, porém, a partir daquele ano, qualquer pessoa casada poderia se divorciar e casar novamente. O casamento também já foi uma maneira de selar alianças políticas e econômicas e de libertar ou fazer escravos. Como se pode ver, o conceito civil de casamento é constantemente adaptado de acordo com a realidade social. Então essa seria só mais uma das alterações ocorridas em face de novos entendimentos. Afinal, se as leis não pudessem se adaptar a novas realidades, sob a desculpa da tradição, ainda estaríamos matando quem fosse considerado herege ou apedrejando quem cometesse adultério. E se o problema é com a nomenclatura, então se está discutindo semântica. Se isso vai satisfazer aos críticos, que eles deem então à união entre duas pessoas do mesmo sexo outro nome, sei lá, “gaymento” – que na prática vai permitir os mesmo direitos do casamento – e permitam que eles se casem. Ou, no caso, que se “gayem”.
  • O casamento hétero perderia o sentido – Eu não vejo porque permitir que gays se casem automaticamente fará com que os outros casamentos realizados percam o sentido. Afinal, os casais héteros que se casassem continuariam se amando, continuariam tendo os mesmos direitos e deveres, continuariam podendo gostar ou não gostar do que quisessem e poderiam continuar seguindo qualquer crença que possuíssem. A única coisa que aconteceria de diferente é que casais do mesmo sexo poderiam fazer a mesma coisa e eu não vejo como isso poderia afetar a vida ou o modo de pensar de alguém que não fizesse parte desses casais. É o mesmo que afirmar que o fato de as mulheres agora poderem votar faz com que meu direito de voto perca o sentido.
  • Os gays já têm a união estável, não precisam do casamento – Se alguém acha que os gays não precisam se casar por já poderem se juntar em união estável, não vejo porque esse mesmo pensamento não possa ser ampliado a todos os casais, gays ou não. Se o casamento é desnecessário por já se possuir o direito de se unir estavelmente, ninguém precisa se casar, oras. Deveríamos abolir a instituição do casamento de nossas leis. Mas o fato de o casamento ainda existir em nosso Código Civil é a prova cabal de que união estável e casamento não são efetivamente a mesma coisa. A diferença entre um e outro é basicamente o acesso a diversos direitos que os casados têm entre si e que não são garantidos às pessoas que vivem em união estável. Entre esses direitos encontram-se o de poder adotar o sobrenome do parceiro, o de inscrever o parceiro como dependente de servidor público ou na previdência, o de adotar filhos em conjunto, de ter direito à herança, de acompanhar a companheira ao parto ou autorizar cirurgias de risco, entre diversos outros. Por mais que alguns casais conviventes em união estável consigam esses direitos reinvicando-os administrativa ou judicialmente, eles são garantidos automaticamente para quem é casado.
  • Casamentos entre gays não geram filhos, portanto não fazem sentido – Claro, porque é só para isso que as pessoas se casam, para colocar filhos no mundo. Eu entendo que isso possa fazer sentido para alguém que segue um livro que dá ordens como “crescei e multiplicai-vos”, a despeito de já estarmos em um mundo onde a superpopulação é um problema constante para as autoridades, mas o fato é que pessoas se casam por diferente motivos. Sim, um deles pode ser ter filhos, mas se eu tivesse que arriscar eu diria que, pelo menos nos países democráticos, o principal motivo para as pessoas se casarem é o simples fato de amarem outra pessoa e quererem passar a vida ao lado dela. Além disso, se fossemos levar esse argumento a sério, pessoas héteros que fossem estéreis ou idosas também não poderiam se casar. Ou mesmo pessoas que podem ter filhos, mas não planejam tê-los. Isso sem contar com o fato de que casais gays podem sim ter filhos: através da adoção. Aliás, essa era uma das principais reivindicações para quem apoiava o casamento gay, pois isso permitiria que eles pudessem adotar filhos. E se alguém acha que permitir que uma criança seja criada no orfanato é melhor que ser criada por um casal do mesmo sexo com amor e carinho, desconfio que a bússola moral dessa pessoa já esteja seriamente comprometida pelo preconceito.
  • Um filho criado por um casal gay também será gay – Mais uma vez, uma pérola apresentada por nosso digníssimo pastor Silas Malafaia, na entrevista que ele concedeu à Marília Gabriela. Mas o fato é que a orientação sexual dos pais não influencia a dos filhos. Isso já foi desmistificado por pesquisadores da área, assim como outros mitos a respeito de filhos de pais gays, como o que afirma que eles terão problemas psicológicos ou sofrerão abusos sexuais. Aliás, basta fazer uma simples observação para perceber que esse argumento não tem o menor sentido lógico: se todos os casais gays gerasse filhos gays, todos os casais héteros gerariam filhos héteros. E é óbvio que todos os gays existentes hoje em dia não são somente filhos de casais gays.
  • O casamento teve origem na religião, e a maioria dos religiosos são contra – Em primeiro lugar, como eu já mencionei acima, o casamento reivindicado pelos gays não é o religioso, é o civil, tratando-se de conceitos totalmente diferentes. Na prática, nada mudaria para religião nenhuma. Os líderes que não quisessem celebrar cerimônias de casamento gay em suas instituições não seriam obrigados a isso (embora eu me pergunte que gay gostaria de casar em uma instituição que os condena) e os fiéis que não gostassem de gays poderiam continuar não gostando. Ninguém muda de opinião por conta de uma lei. E em segundo lugar, o casamento não teve origem na religião. Antes de os religiosos definirem o que era e como deveria ser o casamento, uniões entre casais já eram celebradas na forma de acordos entre o pai da noiva e o noivo e implicava no pagamento de um dote. E, mesmo considerando-se que o casamento tenha sido invenção da religião, teríamos outro problema. Qual religião deveria ser privilegiada com o poder de definir o que é ou não é casamento? Porque certamente todas as religiões existentes vêem o tema de forma diferente. Duvido que um casamento hinduísta ou islâmico tenha exatamente as mesmas definições de um católico ou protestante. Privilegiar qualquer posição religiosa, ainda que a majoritária, seria desconsiderar todas as outras discordantes, e arriscaria a transformar o Estado em uma teocracia, defendendo oficialmente uma determinação religiosa, desmantelando-se, assim, a laicidade estatal.

Como se pode perceber, eu ainda não fui apresentado a um argumento contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo que no final das contas não fosse sustentado por uma crença religiosa, por desinformação ou por pura discriminação. E nenhuma dessas bases pode servir de fonte legal a posições adotadas por um Estado de Direito laico e democrático.

Eu fiz uma rápida pesquisa online para saber o posicionamento de dois diferentes grupos de pessoas a respeito do casamento gay: usuários do site Gospel Mais e ateus que frequentam a página da Associação de Ateus e Agnósticos no Facebook. Minha pergunta foi a mesma para os dois grupos: “O que vocês acham a respeito do casamento entre pessoas do mesmo sexo? São a favor, são contra, são neutros, e por quê?“. É óbvio que a intenção dessa pergunta não era buscar nenhum posicionamento oficial ou estatístico dos referidos grupos, ela foi feita como mera curiosidade. Mas as respostas recebidas em cada grupo de pessoas é bem sintomática de como a doutrinação religiosa pode interferir no posicionamento a respeito do tema. Primeiro, vejamos algumas das respostas do Gospel Mais:

resposta1

resposta2

resposta3

E agora, algumas das respostas dadas pelos ateus:

resposta4

resposta5

resposta6

Como se vê, quando não há nenhuma doutrinação religiosa ou discriminatória em consideração, o posicionamento a respeito do casamento homossexual parece bem óbvio a qualquer ser humano que possua um mínimo de consideração em relação a seus semelhantes.

Nos encontramos em um momento determinante em relação a este assunto. Provavelmente as decisões tomadas por nossos representantes nos próximos meses serão decisivas para que o Brasil finalmente decida como será o futuro de milhões de casais homossexuais que se amam e gostariam de constituir uma família.

Eu sinceramente espero que daqui a alguns anos possamos olhar para trás e ver a polêmica existente em relação ao casamento homossexual com a mesma estranheza com que olhamos a polêmica existente em relação ao divórcio três décadas atrás. Naquela época, quem se posicionava a favor da separação entre os casais também era visto como uma “ameaça à família”. Na sessão que aprovou o divórcio, um parlamentar chegou a afirmar que o país criava uma “fábrica de menores abandonadas” e a Igreja também se posicionou firmemente contra sua aprovação. No entanto, hoje em dia achamos a coisa mais natural do mundo alguém ser divorciado e não esperamos que nenhuma criança seja melhor ou pior criada por conta de seus pais não serem mais casados.

E é mais do que óbvio que a religião terá mais uma vez um papel crucial no posicionamento de nosso Estado. Ou a laicidade estatal irá prevalecer e poderemos progredir, nos juntando ao grupo de países que já aprovaram o casamento entre homossexuais, como Dinamarca, Noruega, Holanda, Canadá e França, ou nos juntaremos às nações onde a religião ainda tem grande influência na legislatura e, portanto, não reconhecem o casamento entre pessoas do mesmo sexo, como quase todos os países da África e do Oriente Médio.

Acho que podemos perceber claramente em qual desses grupos a balança social pende para o lado do progresso.

Torçamos.

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4 Comentários

Arquivado em DIA DA HERESIA

4 Respostas para “DIA DA HERESIA – Casamento Homossexual

  1. nome

    Vc começou falando em bizarrice… pois bem, nada mais bizarro que seu post, recheado de preconceito e desprovido de embasamento científico e teórico. A tua necessidade de provar o teu ateísmo soa como uma busca por auto afirmação recheada de dúvidas… deprimente.

    • Por favor, aponte exatamente em que trechos eu demonstro algum preconceito em meu post. E o que exatamente está desprovido de embasamento científico e teórico? Todas as passagens em que eu julguei necessário complementar com alguma fonte de informação externa possuem um hiperlink, basta clicar neles que você será levado aos locais de onde os dados aqui utilizados saíram.

      E onde você viu necessidade de afirmar meu ateísmo no post? É um artigo que versa exclusivamente sobre casamento homossexual e o tratamento dado ao tema pelos religiosos. Em nenhum momento eu cogito fazer alguma argumentação a favor ou contra a existência de entidades divinas. E, mesmo que o fizesse, acredito que dificilmente eu o faria de forma a “provar meu ateísmo”. Afinal, eu não tenho dúvidas de que sou ateu, e não vejo motivo nenhum para que outras pessoas tenham. Por que eu precisaria provar isso? É a mesma coisa que eu tentar provar que sou flamenguista, ou que sou vegetariano. Como, e mais importante, porque alguém tentaria provar uma convicção ou posicionamento pessoal?

  2. nome

    sei que vc não vai postar porque vc e os teus amigos ativistas nazogays são intolerantes e não admitem a contraditório… deprimente em dobro.

    • É, mas dessa vez meus “amigos ativistas nazogays” estavam ocupados tentando tomar o Congresso à força para instituir a ditadura gay®, aí seu comentário passou incólume. Sortudo.

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