Pergunte Ao Ateu: Indicações de Leitura

Estreia nesse momento uma nova seção aqui no blog, intitulada “Pergunte ao Ateu”.

Nela, irei publicar alguns dos e-mails que recebo de leitores com dúvidas, questionamentos ou sugestões ao blog e tentarei respondê-los da maneira mais clara e respeitosa que eu conseguir.

Qualquer um, ateu ou não, pode se sentir à vontade para entrar em contato e mandar um e-mail se quiser. Responderei a todos privativamente, porém nem todos serão publicados aqui nessa seção. A reservarei apenas para os casos que eu julgar mais relevantes e abrangentes.

Embora eu eventualmente faça uso da ironia e de piadas aqui no blog, irei levar a sério as questões que forem trazidas aqui, portanto, peço que não me enviem frivolidades ou casos que não representem uma situação real pela qual se esteja passando. E, preferencialmente, assuntos relacionados ao tema do blog: ateísmo ou religião. Não responderei a dúvidas em relação ao preenchimento da declaração do imposto de renda de ninguém, ou como tirar a barra de pesquisas do browser da internet.

A menos que o leitor peça expressamente o contrário, sua identidade será mantida em sigilo: usarei um pseudônimo ao publicar o e-mail. A parte de comentários, como sempre, estará disponível para quem quiser concordar ou discordar de minha opinião, ou, melhor ainda, dar sua contribuição ao tópico com suas próprias ideias e experiências.

Quem desejar mandar sua própria pergunta para essa seção, basta enviar um e-mail com o assunto “Pergunte ao Ateu” ao seguinte endereço eletrônico: blogateuedai@gmail.com

Pedro, bom dia.

Acabo de conhecer seu site e gostaria de parabenizá-lo pelo conteúdo escrito.

Venho me descobrindo ateu há pouco mais de um ano, mas só agora decidi estudar mais sobre o assunto.

Sou de uma família muito católica e simplesmente não posso chegar com essa nova opinião em um jantar de família, mas o fato é que ainda fico um pouco confuso em como passarei isto pra frente (tendo em vista que sou casado na igreja e planejo ter filhos e tudo mais).

Como disse gostei muito do conteúdo apresentado em seu site, não só pela pesquisa e fontes históricas muito bem relatadas, mas pela forma que as escreveu, de maneira respeitosa e imparcial. Falou de fatos e apenas isto, sem o deboche que tanto vemos com grande parte dos ateus.

Sigo pelo mesmo caminho, eu respeito, mas não concordo e nem acredito, porém, como já “acreditei” um dia, devo respeitar a opinião dos demais.

O fato é que, sendo novo nesse barco, gostaria de ter uma orientação para leitura e material de pesquisa para que me aprofunde mais neste assunto, pois de todos os sites que consultei apenas o seu falou a linguagem que eu esperava de um ateu no mundo de hoje e principalmente no Brasil.

É por este motivo que confio a você fazer esta indicação para um novo ateu se orientar como base nos mesmos princípios que escreve no site.

Se puder me ajudar serei grato.

Mais uma vez parabéns!

– Nascimento

 Olá Nascimento.

Obrigado pelos elogios. É uma enorme satisfação saber que estou dando minha contribuição, por menor que seja, para que mais um ateu se sinta confortável com sua falta de fé em um país intrinsecamente religioso como o nosso.

Quanto a seu posicionamento perante sua família, meu conselho é que você pense bastante antes de decidir se e como irá revelar a eles sua descrença. Como você afirma que se casou na igreja, presumo que sua esposa siga alguma religião. Resta saber se ela está ciente de seu ateísmo ou se, como o resto da família, ela permanece sem saber dessa sua inclinação.

Se você já conversou com ela a esse respeito, menos mal. Uma vez que ela saiba que você é ateu e tendo aceitado isso, fica muito mais fácil lidar com o resto da família, já que – presumivelmente – você não tem uma relação cotidiana ou de dependência com eles. Nesse sentido basta lembrar que você não precisa fazer do ateísmo um ponto central em sua vida. Se você não sentir a necessidade de deixar claro para eles seu posicionamento a respeito de suas crenças, não há obrigatoriedade de fazê-lo, se essa sua “permanência no armário” não estiver fazendo com que você se sinta mal. É provavel que você consiga levar uma vida satisfatória com toda sua família sem nunca precisar revelar seu ateísmo. Mas se, por acaso, algum dia você achar que há a necessidade de eles saberem que você não tem mais fé, busque fazê-lo de maneira respeitosa e calma. Talvez o post que eu escrevi a respeito da saída do armário ateísta tenha alguma utilidade nesse caso.

Agora, se nem sua esposa está sabendo dessa sua inclinação teológica, a coisa muda de figura. Você poderia tentar manter sua falta de fé para si mesmo e continuar levando o casamento da maneira como ele está. Há quem consiga conviver muito bem sem expor o ateísmo para o cônjuge, porém, isso muitas vezes implica em tomar determinadas atitudes ou frequentar lugares que para um ateu não faz muito sentido, como, por exemplo, participar de cultos religiosos ou de orações em família, sem contar o fato de que você estará disfarçando ou escondendo uma parte de sua personalidade de uma pessoa que você ama e que convive com você. Algumas pessoas poderiam considerar isso uma falta de honestidade para com a pessoa amada e uma atitude não muito agradável de se manter na consciência. Por outro lado, ao revelar para sua esposa que você não tem mais fé, isso pode causar uma reação inesperada, como raiva ou decepção. Caberá a você, que provavelmente a conhece melhor que ninguém, decidir se essa revelação terá mais aspectos positivos ou negativos. Lembrando que quando entrarem filhos nessa equação, o problema se tornará muito mais complexo de se resolver, tendo que decidir como será a criação deles com dois pais tendo visões de mundo conflitantes. Se você achar necessário discutir mais a fundo a situação com sua família, fique à vontade para retornar o e-mail com mais detalhes.

Em relação a seu pedido de indicação de literatura a respeito do ateísmo, isso pode ser complicado. Eu tenho dezenas de livros que tratam sobre ateísmo e religião, e a indicação deles pode depender de muitas coisas, como o gosto do leitor e a finalidade da leitura. Alguns deles eu já cheguei a recomendar no blog, na seção Leitura Recomendada, a qual pretendo ampliar sempre que possível. Como você diz que é ateu há pouco tempo e que gostaria de textos que o orientassem a manter seu ateísmo sem perder o respeito, vou arriscar a seguinte recomendação: dê preferência a livros de filosofia, eles serão mais importantes para você definir e visualizar sua posição e utilidade na sociedade do que qualquer livro sobre religião ou ateísmo. Nesse sentido, acho que se pode cobrir o básico da filosofia,com a leitura de Aristóteles, Sócrates, Platão, Immanuel Kant, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Jean-Paul Sartre, Marx e Durkheim.

Porém eu sei que o estudo de filosofia pode ser maçante e muito exigente por vezes, então talvez o ideal seja você deixar para se aprofundar nessas leituras aos poucos. A Editora Globo lançou recentemente um livro chamado O Livro da Filosofia, que, apesar do nome, não tem nenhum conteúdo filosófico em si, mas é um guia que compila informações a respeito das mais importantes obras filosóficas feitas pela humanidade. Pode ser interessante adquirí-lo para ir decidindo paulatinamente o que você gostaria de ler.

Quanto ao ateísmo em si, existem diversos autores para indicar. Porém, o problema de um autor que defende o ateísmo, é que, por definição, o ateísmo é uma posição que só existe como contraposição à crença divina, então não há como defender o ateísmo sem desmentir posições religiosas. Isso faz com que a maior parte dos livros que defendem o ateísmo acabem oferecendo críticas à religião ou à fé pessoal ou coletiva. Por isso é importante que se tenha um olhar crítico também sobre esses autores, sabendo diferenciar o que possa ser mero deboche ou ataques gratuitos das informações úteis. Para quem acabou de se descobrir ateu, como você, eu vou recomendar o óbvio, provavelmente o livro atualmente mais lido por ateus no mundo: Deus, um Delírio, do professor Richard Dawkins. Embora eu discorde de alguns pontos levantados por Dawkins, acho que o livro é um bom resumo das ideias que levam os ateus a desprezarem as crenças religiosas em favor da razão. No entanto, como em tudo que se lê, mantenha seu senso crítico para não incutir no erro – normalmente cometido por religiosos – de achar que se deve concordar com tudo que está escrito. Outros livros que recomendo em defesa do ateísmo e da razão: “Porque Não Sou Cristão”, de Bertrand Russel. Esse você pode encontrar online aqui; “Quebrando o Encanto – A Religião Como Fênomeno Natural“, de Daniel Dennett e “Carta a Uma Nação Cristã“, de Sam Harris. Esse último autor é bem radical em sua opinião, mas não deixa de oferecer argumentos relevantes à sua causa.

E, não menos importante, não posso deixar de recomendar a leitura dos livros que as principais religiões consideram como sagrados. A leitura crítica da Bíblia, do Alcorão, do Bhagavad-Gita, do Livro dos Espíritos etc, nos fornece uma boa visão das crenças básica das religiões (embora elas muitas vezes se afastem do que os próprios livros dizem),  nos permite conhecer o guia que conduz o modo de pensar dos religiosos, nos dá a oportunidade de comparar as diferenças e semelhanças entre uma religião e outra e nos fornece instrumentos para analisar a plausibilidade das afirmações propostas pelos sistemas religiosos. Recomendo associar essa leitura de livros sagrados às obras de historiadores da religião. Sendo brasileiro, acredito que a obra mais relevante seja a Bíblia, por isso recomendo a leitura também de “Quem Jesus Foi, Quem Jesus Não Foi?“, de Bart Ehrman, de “A Descoberta do Jesus Histórico“, do André Chevitarese e “A Bíblia – Uma Biografia“, de Karen Armstrong.

Espero ter sido de alguma ajuda, Nascimento. Obrigado pelo acesso ao site, volte e escreva sempre que quiser.

 Pedro Lemos

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2 Comentários

Arquivado em Pergunte Ao Ateu

2 Respostas para “Pergunte Ao Ateu: Indicações de Leitura

  1. Ser religioso e questão de fé. Ser ateu é questão de inteligência.

    As pessoas são levadas a religiosidade, sem dúvida pelos seus pais.
    As pessoas são levadas para o ateísmo, simplesmente lendo a Bíblia somente com a razão
    Tinha minhas dúvidas sobre o fim ou diminuição das religiões, mas a partir da criação da internet, vejo uma luz no fim do túnel. Quando nasci fui imediatamente rotulado, carimbado como cristão. Minha mãe era analfabeta não poderia me ensinar matemática, ciência ou qualquer outra matéria, mas se julgava perita e cheia de conhecimento religioso, coitada enganaram ela e ela inocentemente tentou me enganar, mas como tenho inteligência e a uso vi logo que seus ensinamentos não procediam, eram falsos e enganosos. Nunca fui religioso, seguia só por tradição de família. A partir de quando conheci a internet e muitos irmãos ateus, ao ler seus textos esclarecedores caminhei rapidamente para a descrença total no tal deus pregado por minha mãe.
    Nós ateus, temos hoje uma importante ferramenta para divulgar idéias esclarecedoras para o combate as religiões, que é a internet. Devemos escrever textos de preferência curtos e objetivos, e divulgá-los o Maximo possível por todas as redes sociais, estes textos entrando na internet irão atingir principalmente os mais jovens, porque os mais idosos não tem mais salvação irão morrer cheios de religiosidade.

    Paulo Luiz Mendonça.

  2. Quando iniciei minha pesquisa diletante acerca da origem do cristianismo eu já tinha uma ideia formada: nada de Bíblia, teologia e história das religiões. Todos os que haviam explorado esse caminho haviam chegado à conclusão alguma. Contidos num cercadinho intelectual, no máximo, sabiam que o que se pensava saber não era verdade. É isso o que a nossa cultura espera de nós, pois não gosta de indiscrições. Como o mundo não havia parado para que o Novo Testamento fosse escrito, o que esse mesmo mundo poderia me contar a respeito dessa curiosidade histórica? Afinal, o que acontecia nos quatro primeiros séculos no mundo greco-romano, entre gregos, romanos e judeus? Ao comentar o livro “Jesus existiu ou não”, de Bart D. Ehrman, respondo a essas perguntas.

    http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/paguei-pra-ver

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