Ateísmo x Humanismo

Antes de começar o primeiro post de 2014, gostaria de desejar a todos os leitores do blog um excelente ano novo e agradecer as visitas recebidas nestes poucos meses de existência do “Sou Ateu… E Daí?”.

Tá, eu sei que já estamos no avançar de fevereiro, um pouco tarde para se falar em ano novo… Mas sejam compreensivos e lembrem-se que nosso calendário é uma mera convenção social instituída com base no movimento planetário. No entanto, a virada de um ano para outro pode servir a um propósito, se a utilizarmos como um marco para definirmos objetivos e verificarmos se estamos conseguindo alcançá-los.

Dito isto, eu gostaria de, neste primeiro post do ano, fazer uma espécie de autocrítica, uma reflexão; A respeito do  próprio ateísmo e da influência que ele pode exercer na vida de quem é ateu.

É inegável que a maneira de adquirirmos nossas primeiras orientações religiosas raramente pode ser considerada imparcial. Embora haja exceções, o cenário mais comum é que durante a infância as crianças sejam expostas ao posicionamento religioso de seus pais e parentes mais próximos, sendo direcionadas a também segui-lo.

Qual será a opinião dela a respeito dos ritos batistais?

Qual será a opinião dessa criança a respeito dos ritos batismais? E de todos os outros dogmas da Igreja?

Desvios nessa orientação normalmente começam a aparecer depois que o indivíduo adquire mais contato com o mundo exterior e expande sua bagagem de conhecimentos. Assim, um filho de pais, por exemplo, católicos, pode começar a se descobrir evangélico, espírita, umbandista, ou o que for, durante a adolescência ou no início da fase adulta, depois de passar por certas experiências, conhecer novas pessoas e absorver determinadas culturas.

Com o ateísmo normalmente acontece a mesma coisa. Até alguém chegar à conclusão de que é ateu – à convicção de que não acredita mais em entidades divinas – é provável que muitos questionamentos e ponderações já tenham sido feitos em relação às religiões. Por se tratar de um posicionamento minoritário e controverso, imagino que poucas pessoas tenham chegado a ele sem antes analisar bem o que é afirmado pelas instituições religiosas. E é por isso que – como eu já havia mencionado em um post anterior – muitos ateus acabam conhecendo mais a respeito de algumas religiões do que os próprios religiosos que as seguem.

Porém, quando alguém chega à conclusão de que o ateísmo é o posicionamento “religioso” mais aceitável, surge o risco de se começar a adotar um outro comportamento: o de posicioná-lo como um ponto central em sua vida, querendo promovê-lo aos outros como uma escolha correta a ser feita.

Essa é uma conduta compreensível. Quando se tem determinada visão de mundo, normalmente se quer convencer os outros de que seu ponto de vista  é o correto. Religiosos pregadores são um exemplo notório disso. Porém, muitos ateus acabam apresentando essa mesma atitude. Ao concluir que os ensinamentos religiosos tomados como verdades absolutas pelos crentes provavelmente não passam de mito, muitos de nós tomam como missão demonstrar que eles são falaciosos, passando a agir em uma espécie de promoção do ateísmo.

A validade desse tipo de atitude foi recentemente questionada pelo meu colega blogueiro Josimar Flores em uma parte de seu post “Os Ateus Devem se Unir?“. Segundo o Josimar, a “pregação” do ateísmo faz com que surja o risco de se transformá-lo em um substituto à religião tradicional. Esse tipo de comportamento talvez tenha dado origem à ideia defendida por alguns religiosos de que todos os ateus também são pregadores fanáticos, e que o “neo-ateísmo” na verdade também não passa de uma nova religião.

Eu, particularmente, discordo da ideia de que o ateísmo possa agir em substituto à religião. Qualquer ateu que já tenha feito parte de um sistema religioso, seja ele qual for, sabe que o ateísmo e a religião são conceitos inconciliáveis. Ao pararmos para analisar o ateísmo em sua essência, veremos que nem há muito sentido no ato de se “pregá-lo”.

Isto porque, em última análise, o ateísmo só existe como oposição à crença divina. Sua razão de ser é, na verdade, somente se contrapor à uma posição já existente anteriormente. Se o padrão social fosse não acreditar em deus nenhum, não existiria ateísmo, pelo menos não na concepção dada atualmente ao termo. Isso é fácil de visualizar quando percebemos que ninguém fala em “apapainoelismo” ou “acoelhismo”, e, no entanto, nenhum adulto em sã consciência acredita na existência do papai noel ou do coelho da páscoa.

Quando alguém tenta promover o ateísmo, normalmente ou se está defendendo os métodos que levaram a pessoa a se tornar ateu, ou atacando algum aspecto negativo da religião, nunca defendendo o ateísmo em si. Basta vermos que em fóruns e blogs ateístas se estimulam comumente o uso da lógica e da razão, a busca por conhecimentos científicos, ou se expõe a perversão de alguma instituição ou comportamento religiosos.

religioes

Manifestações como estas não são a favor do ateísmo, e sim contra determinados aspectos da religiosidade.

Isso ocorre porque o ateísmo não é um fim em si. Ele não é um movimento filosófico, não há valores ateístas, ou uma moral ateísta. É simplesmente um possível posicionamento decorrente de um modo de pensar. Teoricamente, mesmo que não fossem ateias, as pessoas também poderiam usar a lógica, a razão, buscar conhecimento científico e identificar os lados negativos das religiões.

Mas então, se o ateísmo por si só não é capaz de pautar nossa maneira de agir e pensar em sociedade, qual é a bússola moral que os ateus seguem? Aos olhos de um ateu, o que determina o que pode ou não ser feito ao próximo, à sociedade, ao ambiente em que se vive?

Bom, isso depende. Cada ateu tem sua própria visão de mundo, seus próprios ideais e experiências, de modo que se você fizer essa pergunta para mais de um ateu, provavelmente ouvirá uma resposta diferente de cada um.

Falando por mim, uma das posturas filosóficas que eu busco seguir para guiar meu modo de pensar e de agir é a pregada pelo Humanismo Secular.

De maneira resumida, o Humanismo é um sistema filosófico que abraça o uso da razão, da lógica, do pensamento crítico e do naturalismo como bases para a moralidade e a tomada de decisões, ao mesmo tempo em que rejeita dogmas religiosos, explicações sobrenaturais e superstições de modo geral. Embora a terminologia “humanismo secular” seja relativamente recente, as obras de vários filósofos tradicionais podem ser consideradas como possuidoras de uma temática humanista, como, por exemplo, Immanuel Kant.

O Humanismo não é uma escola filosófica exatamente nova ou original. Sua origem remonta ao pensamento de filósofos gregos clássicos, como Epicuro e sua doutrina bebe da fonte do Racionalismo. O movimento renascentista e o Iluminismo do século XVIII também podem ser considerados como pilares do Humanismo Secular moderno.

Os Humanistas seculares postulam que o ser humano é plenamente capaz de ser ético e moral sem a necessidade de religiões ou de deuses. No entanto, eles não colocam os seres humanos como sendo de alguma forma especiais, ou superiores à natureza, pelo contrário, enfatizam a imensa responsabilidade imbuída à raça humana e suas escolhas, decorrente de nossa capacidade única de raciocínio e abstração.

Atualmente a maior organização humanística mundial é a IHEU – International Humanist and Ethical Union (União Humanista e Ética Internacional, em tradução livre), fundada em 1952 em Amsterdã. Trata-se de um conglomerado composto por mais de 100 outras organizações ateístas, seculares e racionalistas espalhadas pelo mundo. Segundo o estatuto da IHEU, o Humanismo pode ser definido da seguinte maneira:

“O Humanismo é uma postura de vida ética e democrática que afirma que os seres humanos têm o direito e a responsabilidade de dar sentido e forma às suas próprias vidas. Humanismo significa a construção de uma sociedade mais humana através de uma ética baseada em valores humanos e em outros valores naturais, no espírito da razão e livre questionamento por meio das capacidades humanas. O humanismo não é teísta e não aceita visões sobrenaturais da realidade.”

Happy Human, o símbolo da IHEU e do movimento humanista

Happy Human, o símbolo da IHEU e do movimento humanista

Em terras brasileiras, o maior grupo humanista de que eu tenho conhecimento é a LiHS, a Liga Humanista Secular do Brasil, com sede em Porto Alegre. Você pode visitar o site deles e conhecê-los um pouco melhor clicando aqui.

É claro que você não precisa ser adepto do Humanismo (ou de qualquer outra corrente filosófica) para ser considerado ateu. Talvez haja ateus que discordem dessa filosofia de vida. Mas acho bastante improvável que a recíproca seja verdadeira. Imagino que seria bastante difícil alguém se considerar efetivamente um humanista caso siga alguma religião organizada ou creia em uma entidade divina interventora.

A maior parte dos sistema religiosos existentes preconizam que a divindade na qual eles acreditam exerce direta influência sobre o mundo em que vivemos. Assim, boa parte do sucesso ou do fracasso que conseguimos pode ou deve ser atribuído em maior ou menor grau a um elemento externo – o deus em questão.

Mais do que apenas um modo de definir a forma com que devemos interagir com o mundo e as pessoas à nossa volta, o Humanismo é para mim também a forma mais honesta de se assumir a responsabilidade por nossos atos. Para um humanista o resultado de tudo o que fazemos – seja bom ou ruim – é consequência de nossas escolhas, de nossos conhecimentos e de nossas ações. E a meu ver, o primeiro passo para se melhorar o mundo em que vivemos é tomar consciência do quanto o próprio homem é relevante para que essa mudança seja implementada.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

2 Respostas para “Ateísmo x Humanismo

  1. Pato donaldo

    a questão é enxergar grandes equivocos e ficar calado, pensando no direito que as pessoas teem de cometerem equivocos, acho que a radicalização do ateu enquanto individuo social é inevitavel.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s