Leitura Recomendada – A Bíblia Sagrada – Parte 3

Continuação dos posts anteriores. Veja as partes precedentes aqui: parte 1 e parte 2.

A RELIGIÃO NOVA DO IMPERADOR

No post anterior, paramos a história da Bíblia em um momento em que o cristianismo estava em expansão pelo mundo. No século IV, um acontecimento fez com que essa expansão tomasse uma velocidade nunca antes alcançada. Um imperador de Roma, Constantino, converteu-se à nova religião.

Estátua representando o Imperador Constantino

Estátua representando o Imperador Constantino

Embora algumas pessoas especulem que Constantino somente utilizou o cristianismo como fator de unificação em uma Roma multirracial e multirreligiosa, é provavel que ele já simpatizasse com a religião mesmo antes de alcançar o poder. Sua mãe era cristã e o nome de sua irmã, Anastácia, vinha do grego e significava “ressurreição”. Depois de uma vitória sobre seu adversário Maxêncio em 312 d.C., Constantino se tornou imperador da parte ocidental do Império Romano e um ano depois já começou a modificar a política religiosa de Roma de modo a favorecer os cristãos. Estes passaram a ser livres para seguir a religião que quisessem, não sendo mais obrigados a seguir as religiões oficiais do Império e as igrejas confiscadas pelos imperadores anteriores foram devolvidas.

Em 324 d.C., após mais uma vitória militar, Constantino  se tornou imperador de todas as terras do Império Romano e seguiu implantando sua religião. E isso fez com que a Bíblia fosse profundamente modificada. A pressão de Constantino levou os mais influentes bispos cristãos a se reunirem no Concílio de Nicéia em 325 d.C. e ali surgiu o cânone do cristianismo. Nesse concílio foi decidida a lista oficial de livros que seriam considerados inspirados por Deus e passariam, então, a compor a Bíblia.

Essa escolha teve bases teológicas, mas uma boa parte dela também foi tomada com as consequências políticas em mente. Um grupo de cristãos queria afirmar seu poder e autoridade sobre os outros. E o grupo que saiu vencedor dessa disputa foi o de cristãos apostólicos, que foram os que escolheram os evangelhos atuais para representar a biografia de Cristo.

Com essa escolha, alguns evangelhos que eram seguidos por outros grupos de cristãos como os docetas, ebionistas e outras seitas foram excluídos do cânone bíblico. Esses textos excluídos ganharam o nome de “apócrifos”, que em grego significa “o que foi ocultado”. A maioria desses textos se perdeu, já que a Igreja não tinha interesse em mantê-los para a posteridade. Mas graças a recentes descobertas arqueológicas, alguns deles vieram à tona.

OS TEXTOS APÓCRIFOS

Depois da morte de Jesus, muitos seguidores do cristianismo passaram a escrever sobre a vida do nazareno. Assim como ocorria nos evangelhos oficiais, a maior parte dos autores dessas histórias não tinha conhecido Jesus ou seus seguidores pessoalmente e escreviam para corroborar suas próprias concepções religiosas, de acordo com o que mais lhes convia.

Assim, antes da escolha dos evangelhos oficiais pelo Concílio de Nicéia, havia vários outros circulantes na região. Os quatro principais evangelhos apócrifos são: o protoevangelho de Tiago, o evangelho da infância de Tomé, o Evangelho de Tomé e o evangelho de Judas.

Textos apócrifos encontrados em Nag Hammadi, Egito

Textos apócrifos encontrados em Nag Hammadi, Egito

Embora não sejam considerados oficialmente como parte da Bíblia esses evangelhos são fontes de algumas tradições consagradas pelos cristãos. Os nomes dos pais de Maria (Joaquim e Ana), por exemplo, só aparecem nos textos apócrifos. Boa parte de seu conteúdo, no entanto, apresenta uma enorme divergência doutrinária para com o restante dos ensinamentos cristãos atuais, e foi justamente por isso que ficaram de fora da Bíblia oficial. Tomé, por exemplo, retrata Jesus mais como um guru místico, espalhando ensinamentos misteriosos do que como um Messias divino.

O texto apócrifo mais polêmico no entanto, é um que foi encontrado no Oriente Médio em 1886. Escrito por uma certa “Maria”, que muitos acreditam ser Maria Madalena, o texto é bem feminista, atribuindo à tal Maria uma posição de destaque tão importante quanto a de Pedro e dos outros apóstolos. Esse texto deu origem a várias teorias da conspiração que afirmam que Madalena na verdade era casada com Jesus, e que eles chegaram a ter filhos juntos.

Embora alguns escritores como Dan Brown tenham utilizado essas ideias para arrecadar milhões de dólares com best-sellers, a verdade é que a relação entre Cristo e Madalena não é deixada clara em nenhum dos evangelhos apócrifos. Assim como nos originais, esses textos parecem ter sido escritos muito depois dos eventos que narram, por grupos cristãos que tinham seus próprios interesses teológicos e políticos. Assim, Maria Madalena poderia estar sendo usada somente como porta-voz de alguns críticos das lideranças religiosas da época.

A BÍBLIA LATINA DE ROMA

Após a conversão do imperador Constantino, o eixo do cristianismo se deslocou do Oriente Médio para Roma. Porém, a língua oficial do Imperio Romano era o latim, não o grego ou hebraico, línguas utilizadas pela maioria dos autores bíblicos. Então, para completar a romanização do cristianismo, faltava um passo. Traduzir a palavra de Deus para o latim.

A missão coube ao teólogo Heusebius Hyeronimus, conhecido hoje em dia como São Jerônimo. Como ele foi incubido de traduzir o Antigo e o Novo Testamentos, ainda teve que aprender hebraico, e, por isso, o trabalho de tradução levou 17 anos para ser finalizado. Mas seus esforços renderam frutos, dando origem à Vulgata, a Bíblia latina, que até hoje é o texto bíblico oficial utilizado pela Igreja Católica.

A Vulgata era tão influente que até os erros de tradução cometidos por São Jerônimo eram relevados. Em uma passagem do Êxodo que descreve o semblante do profeta Moisés, por exemplo, São Jerônimo escreveu em latim “cornuta esse facies sua”, que significa “sua face tinha chifres”. Na verdade São Jêronimo confundiu a palavra hebraica “karan”, que pode significar tanto “chifre” quanto “raio de luz”. A septuaginta apresenta a frase correta: o profeta tinha o rosto iluminado, não chifrudo. Apesar disso, a Vulgata era tão respeitada que artistas como Michelangelo levavam passagens como essa a sério, a ponto de, séculos depois, o escultor renascentista ter esculpido uma estátua representando o profeta Moisés com chifres, que o Vaticano mantém exposta até hoje, na igreja de San Pietro in Vincoli.

Moisés de Michelangelo e seus chifres bíblicos

Moisés de Michelangelo e seus chifres bíblicos

A vulgata reinou absoluta durante séculos. Até a idade média não havia outra tradução do texto bíblico e, assim, basicamente só o clero – que era alfabetizado em latim – tinha acesso direto à palavra divina. Até que uma invenção revolucionária mais uma vez mudou a relação da humanidade com os textos sagrados cristãos. A imprensa.

A BÍBLIA NA LINHA DE PRODUÇÃO

Até Gutenberg inventar o tipo mecânico móvel para imprensão, em 1455, a Bíblia era disseminada somente através de cópias feitas à mão. Porém, diferentemente dos textos que deram origem ao livro sagrado, essa tarefa de copiar foi centralizada pela Igreja, ficando a cargo dos monges copistas. Esses monges raramente saíam dos mosteiros e passavam a vida copiando e catalogando os manuscritos bíblicos. A ideia da Igreja era manter o controle do conteúdo da Bíblia, evitando que erros e divergências surgissem nos textos sagrados, como costumava ocorrer com os papiros bíblicos originais.

Mas, ainda assim, o fator humano no processo fazia com que erros ocasionais e propositais acabassem surgindo nos textos. Em alguns trechos, por exemplo, palavras que podiam significar “pederasta”, “masturbador” ou “estuprador”, acabavam virando simplesmente “homossexual”. Cada copiador escolhia a palavra que achava mais conveniente à ocasião.

Porém tudo isso mudou com a invenção de Gutenberg, que permitia produzir várias cópias de uma obra em série e cujo primeiro trabalho de imprensão foi justamente o de um exemplar da Bíblia. A partir de então ninguém mais dependia dos monges copistas para disseminar as palavras divinas. O foco então passou a ser outro: traduções.

Um dos modelos de prensa móvel, invenção de Gutenberg

Um dos modelos de prensa móvel, invenção de Gutenberg

Uma das três cópias restantes das Bíblias impressas por Gutenberg, em exibição na Biblioteca do Congresso, Washington, EUA.

No ano de 1522 o pastor Martinho Lutero usou a imprensa para divulgar em massa sua tradução da Bíblia feita diretamente do hebraico e do grego para o alemão. Foi a primeira conversão do texto sagrado para uma língua moderna. Em seguida, o britânico Willian Tyndale traduziu os textos bíblicos originais para o inglês. Essas versões serviram de combustível para a reforma protestante. Como não precisavam mais do intermédio da Igreja para publicar suas versões da Bíblia, os tradutores passaram a moldar as palavras sagradas a seu próprio entendimento. Tyndale, por exemplo, traduzia a palavra grega “ecclesia” como “congregação”, em vez de “igreja”, como afronta ao Vaticano. Desnecessário dizer que depois disso Tyndale foi queimado vivo sob a acusação de heresia.

Seguindo as ideias dos reformistas protestantes, no início do século XVII surgiu uma versão da Bíblia em espanhol, conhecida como Reina-Valera, traduzida diretamente do hebraico, aramaico e grego para o castelhano. Essa tradução foi usada como base para a primeira versão em português da Bíblia, feita por João Ferreira de Almeida e publicada em 1743. Hoje, no entanto, a tradução considerada oficial pela Igreja é a da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, publicada em 2001 e feita com base na Nova Vulgata, que por sua vez é uma atualização da Vulgata de São Jerônimo, feita por recomendação da Santa Sé em 1965 após o Concílio Vaticano II.

Então, ao folhear a Bíblia, independente de se acreditar estar lendo a palavra de Deus ou não, de uma coisa se pode ter certeza: diretamente de Deus essa palavra não veio. Na verdade ela já percorreu um longo caminho até chegar às nossas mãos, em nossa língua moderna:

Se você tem uma Bíblia em português em mãos, foi – no mínimo – esse caminho que ela percorreu até chegar aí.

Hoje em dia, milhares de versões diferentes da Biblia já foram lançadas, em todas as línguas imagináveis. Aparentemente há até uma versão em klingon e a tradução para a língua élfica quenya já está sendo providenciada.

Depois de tantos séculos de versões, contra-versões, censuras, acréscimos e traduções, fica difícil – se não impossível – dizer que alguém tem atualmente uma versão correta da Bíblia em mãos. Afinal, se alguém imagina que Deus realmente legou suas palavras à humanidade, como decidir qual versão dessas palavras exprime exatamente o que Ele quis dizer?

A verdade é que hoje a Bíblia é utilizada muito mais como instrumento de controle econômico, social e político do que como base teológica. Atualmente, qualquer grupo pode interpretá-la com o propósito que achar mais conveniente, moldando as supostas palavras divinas a seu próprio interesse.

E esta é a verdadeira importância de se conhecer profundamente a Bíblia, tanto em seu conteúdo quanto em sua história, seja o leitor crente ou descrente. Quando pessoas mal intencionadas começam a escolher passagens bíblicas específicas, ignorando outras inadequadas, ou a distorcer palavras que outras pessoas acreditam ser oriundas de uma entidade divina, passam a ser imbuídas de muito poder. E poder sem controle nunca se mostrou uma coisa benéfica para a humanidade.

E mesmo que não se faça parte de nenhum sistema religioso organizado, esse poder acaba influenciando em sua vida. Em pleno século 21 há, por exemplo, líderes religiosos que renegam a Teoria da Evolução, por contradizer o que uma tribo do deserto que não sabia nem o que era uma bactéria escreveu há mais de 2.000 anos. Há quem use a Bíblia para justificar o preconceito contra homossexuais e ateus, esquecendo que esse mesmo livro era usado para justificar o preconceito contra os canhotos na Idade Média. E um grande número de religiosos se utiliza dos textos bíblicos para conseguir lucros exorbitantes ao custo da miséria de outras pessoas, ainda que a própria Bíblia pregue o desapego a bens materiais em algumas passagens.

A meu ver, longe de mostrar à humanidade um vislumbre do pensamento divino, a Bíblia parece expor muito mais os reflexos da própria mente humana ao longo de sua existência. Para o lado bom e para o ruim.

I.S.B.N.: 978-85-349-0228-1 (Versão consultada para estes posts)

Título: Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Autor: Vários

Editora: Paulus – 15/04/1990

Origem: Brasil

N° de páginas: 1584

Dimensões: 19 x 13,7 x 4 cm

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