O Papa é Pop , Parte 3 – Análise Social

Chegamos à terceira e última parte da série de posts sobre a vinda do papa ao Brasil. Confira as anteriores, onde eu fiz as análises econômica e religiosa de sua vinda, aqui: Parte 1; Parte2.

Nessa terceira parte, farei uma análise social da vinda do papa, ou seja, a relação entre o Sumo Pontífice, sua Igreja, e o restante da sociedade.

Para ser completamente sincero, essa terceira parte não será uma análise aprofundada de todas as relações sociais envolvidas na JMJ, pois isso requereria muito tempo e provavelmente fugiria da proposta do blog. Então não esperem tantos dados e números quanto nas outras duas. Será mais uma breve reflexão a respeito de alguns acontecimentos sociais ocorridos durante o evento e que eu achei merecedores de observações.

Como eu demonstrei na segunda parte dessa série de posts, o catolicismo está perdendo terreno no Brasil. O ateísmo, o agnosticismo e, principalmente, o protestantismo vêm cada vez mais arregimentando os fiéis de Roma.

No entanto, a Igreja Católica ainda detém o maior número de religiosos no país. Para ser mais exato, 64% da população, segundo o IBGE. Assim, as posições e decisões tomadas pelo Vaticano ainda possuem grande peso para a sociedade brasileira, interferindo em nossa cultura, leis e sociedade de modo geral.

Portanto, não é de se espantar que alguns grupos sociais tenham tomado a decisão de se manifestarem durante a vinda do líder da religião ao Brasil. Os motivos dessas manifestações foram os mais variados. Havia grupos contestando as posições polêmicas da Igreja, reclamando dos recursos aplicados pelo governo nessa visita papal, protestando contra a interferência do Vaticano na política brasileira… Havia inclusive grupos que se aproveitaram da publicidade gerada pela vinda do Papa para apresentar pautas que não tinham necessariamente relação direta com a visita do líder religioso, como, por exemplo, uma turma que resolveu protestar contra o Governador Sérgio Cabral:

Será que o papa votou no Cabral?

Será que o papa votou no Cabral?

Dentre todos esses grupos, três me pareceram merecer destaque nessa análise.

Um grupo de ativistas gays promoveu um beijaço, um grupo de feministas realizou uma “marcha das vadias” e a ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos) promoveu um desbatismo público.

Com tanta comoção popular com a visita papal e algumas atitudes mais ousadas tomadas durante essas manifestações, esses grupos foram prontamente acusados de se excederem.

Quase todas as críticas direcionadas a essas manifestações utilizavam o mesmo argumento, de que os manifestantes estavam desrespeitando ou afrontando as crenças alheias e o direito à liberdade de religião dos fiéis.

Não entrarei aqui no mérito do desrespeito às religiões, pois esse é um tema que pede uma análise mais aprofundada e sobre o qual eu pretendo escrever um post específico muito em breve (atualização: este post aqui). Então usarei esse espaço para refletir somente sobre uma coisa: se as manifestações realizadas do modo como foram tinham a capacidade de serem eficazes, ou seja, se alcançariam o objetivo por elas pretendido.

Quando se faz uma manifestação protestando contra alguma coisa, se supõe que as ações ou o posicionamento contra os quais se está protestando são vistos como algo nocivo, que merece ser combatido. A manifestação seria então uma forma de dar publicidade a esse inconformismo, de tentar fazer os outros entenderem o porquê de você ser contra aquilo e, se possível, fazê-los apoiar o seu lado da discussão.

E, por vezes, essa publicidade necessária realmente requererá atos de maior ousadia. Caberá aos responsáveis pela manifestação ponderar se a atenção negativa causada pela comoção pública e o choque com uma eventual performance audaz em busca de publicidade será compensada pela atenção positiva trazida para a sua causa.

Então para analisar se as atitudes tomadas durante as manifestações foram ou não justificáveis, precisamos verificar mais detalhadamente o que exatamente cada grupo elaborou para promover suas opiniões e críticas.

Os ativistas da causa gay promoveram um beijaço entre casais homossexuais no dia 22/07, em frente à Igreja Nossa Senhora da Glória, na Zona Sul do Rio, onde algumas atrizes encenaram cenas de catequizações católicas e algumas mulheres chegara a ficar seminuas, mostrando os seios. Segundo João Pedro Accioly, um dos organizadores do evento, o objetivo era questionar a influência da Igreja Católica no Estado.

Um casal homossexual se beijando em frente à Igreja durante o beijaço

Um casal homossexual se beijando em frente à Igreja durante o beijaço

Atrizes seminuas encenam a catequização dos índios

Atrizes encenando a catequização de índios

Já as “vadias” realizaram sua marcha saindo da avenida Atlântica em Copacabana e indo em direção à avenida Vieira Souto, em Ipanema. O grupo acabou encontrando com peregrinos da JMJ que iam em direção a um evento que ocorreria no palco instalado na praia de Copacabana, e alguns participantes invadiram o espaço reservado para os fiéis católicos no evento.

Em dado momento, um pequeno exercício performático foi executado por um casal de “artistas” praticamente nus, onde imagens sacras foram destruídas e enfiadas em locais recônditos da anatomia humana. O grand finale se deu quando a “artista” executou uma colonoscopia no rapaz, utilizando um crucifixo como instrumento cirúrgico. As imagens são bem gráficas, portanto cuidado ao visualizar as fotos mostradas abaixo.

Marcha das Vadias na avenida

Marcha das Vadias na avenida

Manifestantes quebrando imagens sacras

Manifestantes quebrando imagens sacras na marcha das vadias

Manifestante fazendo com que a imagem sacra desejasse ser quebrada

Manifestante fazendo com que a imagem sacra desejasse ser quebrada

E... bom... isso aí.

E… bom… isso aí.

E, por fim, tivemos os ateus, que organizaram algo que eles chamaram de desbatismo.  Realizado pela ATEA de forma simultânea em São Paulo, Porto Alegre e Rio de Janeiro, o desbatismo foi baseado em eventos similares realizados por organizações ateístas em outros países e tinha a finalidade simbólica de “desfazer” o batismo a que as pessoas foram submetidas enquanto ainda eram crianças.

O primeiro passo do sarcástico ritual era ouvir alguma palavras em latim de mentirinha (um dos textos tinha até um “Expecto Patronum” do Harry Potter). Depois os desbatizados passavam por secadores de cabelos “para fazer evaporar do corpo as últimas moléculas de água do batismo involuntário, com os ventos do secularismo”. E em seguida o desbatizado assinava um livro de presença e recebia um diploma de “desbatismo”.

Daniel Sottomaior, presidente da ATEA, realizando o desbatismo em um dos manifestantes

Daniel Sottomaior, presidente da ATEA, realizando o desbatismo em um dos manifestantes

Diploma de desbatismo emitido após a cerimônia

Diploma de desbatismo emitido após a cerimônia

Segundo Daniel Sottomaior, o objetivo da ATEA com o desbatismo era protestar contra o uso de recursos públicos no apoio a uma religião.

Com o desbatismo, afirmamos que ninguém tem direito de nos impingir uma religião: nem a nós, pessoalmente, nem ao dinheiro dos nossos impostos, nem ao Estado brasileiro. Afinal de contas, o uso de dinheiro público em eventos católicos nos torna, todos, católicos à força.

É curioso também perceber que o objetivo simbólico da ATEA com o desbatismo era desfazer o que foi imposto pela religião durante a infância, enquanto a JMJ objetivava justamente o contrário, conquistar mais jovens para as fileiras do catolicismo.

Então, ao analisarmos as ações tomadas por cada um desses grupos, nos perguntemos: eles teriam chances de alcançar o objetivo de divulgar suas ideias e fazer as pessoas refletirem sobre seus pontos de vista?

A estratégia de chamar a atenção a qualquer custo pode funcionar muito bem para algumas denominações religiosas que têm como objetivo principal auferir o lucro, mas quando se realiza uma manifestação em que se espera algum apoio popular, ela pode custar caro. Ao fazer algo que o senso comum reprovaria, dá-se munição para que as pessoas contrárias à sua posição a ataquem, quem fosse indiferente à sua causa passe a ficar contra ela e alguns que fossem a favor passem a desaprovar suas ações.

E em minha opinião, nos casos apresentados, parece que, felizmente, o único grupo que poderia atingir seu objetivo com eficiência era a ATEA. E afirmo isso com a consciência tranquila, sem correr o risco de deixar meu ateísmo minar minha imparcialidade, pois já tomei conhecimento de várias manifestações ateístas que eu reprovaria com veemência, como ateus pichando igrejas ou queimando Bíblias.

Como eu disse, eu não estou discutindo aqui se as pessoas têm o direito de protestar como protestaram, ou se a revolta causada por suas atitudes é legítima ou não, estou analisando seus atos somente como estratégia de marketing para a divulgação de suas ideias e convencimento.

Os ativistas gays e as vadias conseguiram não só despertar a ira dos católicos presentes na Jornada (o que provavelmente já era esperado por eles), mas também de uma parte da sociedade que não era necessariamente católica e que talvez nem concordasse com a realização da Jornada a princípio. Até mesmo o pastor Malafaia criticou o beijaço, afirmando que os manifestantes “não respeitavam os valores e princípios de ninguém”.

Em comparação às outras, a manifestação orquestrada pela ATEA me pareceu ter sido bem mais amena. Não foi intencionalmente ofensiva a ninguém, não violou nenhum direito, seus participantes estavam presentes por livre e espontânea vontade e ela se propunha a dar um motivo lógico para sua encenação.

Agora, ter o potencial de atingir os resultados esperados pela ATEA é uma coisa. Se eles realmente foram atingidos já é outra. Algumas pessoas – inclusive alguns ateus – criticaram a ação, acusando-a de ter sido desnecessária, ou rasa e infantil.

Bom, se alguém acha que a manifestação da ATEA não deveria ser feita simplesmente por se discordar do que estava sendo dito, isso é simplesmente censura. O fato de não se concordar com um posicionamento ou achar desnecessária sua divulgação não significa que não se possa expô-lo.

Quanto a qualificá-la dessa ou daquela maneira, é uma questão de opinião. Eu particularmente, não tomaria parte nessa manifestação, pois meu perfil é mais de debates e redação de artigos, como se pode perceber pelos exageradamente extensos posts que eu ocasionalmente redijo aqui.

No entanto, achei interessante a forma que eles escolheram para divulgar o que pensavam, utilizando de bom humor – o que eu julgo fundamental ao se fazer críticas – e sem incomodar ninguém.  Aliás, o paralelo feito com o batismo é interessante até mesmo para quem achou o “desbatismo” uma bobeira parar e pensar se o ritual original no qual ele se baseou também deve ser levado tão a sério. Afinal, se “secar a água do batismo involuntário com o vento do secularismo” soa como uma bobagem, por que jogar água sobre a cabeça de um bebê para que ele se livre de supostos pecados e possa alcançar a salvação não seria também? Nesse sentido, perceba que até um ritual zombeteiro como esse pode fazer pensar, comprovando meu argumento.

Agora, se alguém continua discordando da maneira como a manifestação foi feita, deixo meu apelo: aqueles que acreditam que podem pensar em maneiras mais eficientes de se efetuar um protesto e demonstrar indignação contra alguma situação, podem ficar à vontade para se fazerem úteis oferecendo suas opiniões à ATEA e , mais importante, apresentando novas ideias sobre como se portar em futuras situações análogas.

Afinal, é para isso que serve uma associação como a ATEA, congregar cabeças pensantes e se beneficiar da pluralidade de pensamentos. E sugerir uma solução é sempre mais benéfico do que simplesmente apresentar o problema. Mas também costuma ser mais difícil.

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