O Papa É Pop, Parte 2 – Análise Religiosa

Depois da primeira parte da análise da vinda do papa ao Brasil para a realização da Jornada Mundial da Juventude, na qual examinei o impacto econômico da JMJ, partirei agora para um outro tipo de análise: a religiosa.

Nela, eu irei examinar as relações internas da igreja católica – ou seja, entre seus líderes e fiéis – e como isso levou à decisão de realizar esse evento no Brasil.

Para que essa avaliação possa ser feita, primeiramente temos que conhecer um pouco da história da JMJ. O próprio site do evento nos ajuda nessa tarefa, fornecendo uma boa sinopse de todas as jornadas ocorridas desde sua criação.

A Jornada Mundial da Juventude teve sua primeira edição realizada em 1986, em Roma. Desde então ela é realizada em um intervalo de 2 ou 3 anos, em cidades de diferentes países. Até hoje, a única cidade que recebeu o evento duas vezes foi a própria Roma. Ela já passou por Buenos Aires, (Argentina), Santiago de Compostela (Espanha), Czestochowa (Polônia), Denver (EUA), Manila (Filipinas), Paris (França), Toronto (Canadá), Colônia (Alemanha), Sydney (Austrália) e Madri (Espanha).

A jornada foi uma idealização do papa João Paulo II, inspirada em grandes encontros que o finado papa promovia com jovens católicos em Roma. João Paulo II a definiu como um encontro de amor, sonhado por Deus e abraçado pelos jovens.

João Paulo II na primeira Jornada Mundial da Juventude, em 1986

João Paulo II na primeira Jornada Mundial da Juventude, em 1986

Como o próprio nome do evento já deixa claro, seu foco é o público adolescente e juvenil. A intenção é levar a doutrina católica ao máximo de jovens possíveis, como a própria organização do evento enfatiza em seu site:

A JMJ tem como objetivo principal dar a conhecer a todos os jovens do mundo a mensagem de Cristo, mas é verdade também que, através deles, o ‘rosto’ jovem de Cristo se mostra ao mundo.

Não há nada de novidade nessa postura. Doutrinar as pessoas desde jovens nos ensinamentos da Igreja Católica não é exatamente uma estratégia recente.

Rituais como o batismo infantil, o catecismo, a primeira comunhão e a crisma são colocados em prática pelo Vaticano há séculos, e também têm como principal objetivo fazer com que as crianças cresçam vendo os ensinamentos católicos como verdades indiscutíveis e os líderes da Igreja como autoridades incontestáveis na interpretação da vontade divina.

E é claro que essa estratégia não é seguida somente pelos católicos. Praticamente todas as religiões incentivam os pais a iniciarem suas crianças na doutrina que eles seguem, as levando a templos e cultos desde a mais tenra infância, quando elas nem têm condições de entender direito o que lhes está sendo passado como incontroverso, como o bom pastor Feliciano nos exemplifica.

Então, se a doutrinação infantil tradicional sempre foi uma coisa presente na cartilha da Igreja Católica, o que a pode ter levado a decidir promover repentinamente esse evento internacional de proporções épicas com tanta ênfase no público jovem?

Ao que parece, o que aconteceu foi simplesmente uma saída maciça de fiéis da religião católica nos países onde o evento vem sendo organizado.

A queda no número de seguidores do catolicismo não é nenhuma novidade. Desde o século passado o número de fiéis da Santa Sé no mundo inteiro vem diminuindo. Segundo uma pesquisa do PEW research center, em 1910 os católicos perfaziam 17% da população mundial, proporção que até 2010 caiu para 16% (apesar de a quantidade absoluta de católicos ter aumentado, ela não acompanhou o aumento da população mundial total). Pode parecer pouco, mas 1% de 7 bilhões de pessoas são 70 milhões de fiéis a menos para a Igreja, o que representa a população da Argentina e do Canadá somadas.

E embora essa queda percentual tenha sido relativamente pequena, o mais importante no entanto foi a mudança na distribuição geográfica da população católica.

Em 1910, aproximadamente 90% dos católicos viviam na Europa ou na América Latina. Cem anos depois, esse percentual baixou para 63%.

Pode-se perceber que, ao longo do século, o catolicismo se tornou uma religião muito mais globalizada. As únicas regiões que permaneceram praticamente inalteradas foram o Oriente Médio e a África Saariana, devido ao avanço do Islamismo.

Note-se ainda que o aumento da proporção de católicos nas Américas em relação ao resto do mundo não significa que o número de fiéis nestas regiões tenha aumentado. Essa porcentagem só foi ampliada porque o número de fiéis europeus vem sofrendo uma vertiginosa queda ao longo das décadas. Vejamos como anda a situação do catolicismo em alguns países que receberam a JMJ.

Na Itália e na Polônia, os dois países proporcionalmente mais católicos da Europa, é difícil precisar o quanto o catolicismo está em declínio, pois o censo desses dois países toma por base os dados fornecidos pela Igreja Católica, que considera como católicos todos os que foram batizados na religião, ainda que eles não a pratiquem mais. Assim, 87,8% dos italianos e 91% dos poloneses são considerados como católicos – um número proporcional ao de décadas anteriores. No entanto, de acordo com pesquisas conduzidas nos dois países, apenas 36,8% dos italianos e 52% dos poloneses se consideram como praticantes, frequentando a missa pelo menos uma vez  por semana. Se levarmos em consideração somente os católicos entre 18 e 24 anos, esse número cai para 44% na Polônia.

Na Espanha e na Alemanha, os números são muito mais acessíveis e eloquentes. Segundo o PEW, o percentual de católicos no país catalão caiu de 99,9% em 1910 para 75,2% em 2010.  E entre os que se consideram católicos atualmente, quase 60% afirmam não ir à Igreja nunca ou quase nunca. Na Alemanha, pesquisas do Instituto FOWID demonstram que o número de fiéis do catolicismo no país caiu gradualmente de 44,6% para 29,0% entre 1970 e 2011.

E na França a situação é ainda mais periclitante para a Santa Sé. Na nação que deu origem ao Estado Laico com a Revolução Francesa, até mesmo o número de batismos está diminuindo, apesar de o número de nascimentos vir aumentando ao longo dos anos.

Se na Europa a situação do catolicismo não é nada animadora, nas Américas ela se mostra somente um pouco melhor.

Nos Estados Unidos a quantidade de seguidores da Igreja Católica caiu muito pouco, permanecendo praticamente estável. Passou de 26,2% em 1990 para 25,1% em 2008, quando foi feito o último censo religioso. Porém, o catolicismo nunca foi a religião majoritária no país, já que os EUA possuem a característica histórica de terem sido formados por imigrantes europeus que seguiam o protestantismo, em especial os britânicos. Porém o que chama a atenção é a idade dos católicos. A mesma pesquisa aponta que 78% dos seguidores da religião no país têm mais de 30 anos, o que indica que os filhos de católicos seguem uma tendência de não abraçar a religião dos pais. Assim, o número de fiéis do catolicismo tem uma propensão a diminuir ainda mais no futuro, conforme seus integrantes mais idosos forem falecendo.

No Canadá o cenário é um pouco diferente. Os católicos sempre representaram a maioria dos religiosos. Porém a quantidade de seguidores da Igreja Católica também vem apresentando uma tendência de queda nas últimas décadas.  Em 1961 eles representavam 46,7% da população. Segundo o censo de 2011, esse número caiu para 38,7%. E a média de idade da população católica também é alta, de 37,8 anos, um pouco acima da média de idade de 37,3 anos da população total do país, o que indica que a adesão dos jovens também está em baixa.

Estimativas oficiais da Argentina são mais difíceis de se conseguir, pois há uma proibição legal de se incluir a religião no formulário do censo. A separação entre o Estado e a religião é muito mais debilitada no país de nossos vizinhos sul-americanos. Embora a Corte Suprema tenha decidido que o catolicismo não possui o status de religião oficial do país, a constituição argentina determina que o governo ofereça suporte econômico à Igreja Católica, e os bispos católicos recebem um salário do Governo Federal equivalente a 80% da remuneração de um juiz. Assim, o número de católicos no país, alegado pela igreja (88% da população), pode estar longe de representar a realidade, referindo-se mais aos batizados, a exemplo da Itália e da Polônia. Estudos independentes demonstram que o número de pessoas que se consideram adeptas do catolicismo flutua entre 69% e 78%, e o número de pessoas que frequentam os cultos católicos com regularidade é de somente 23%.

E finalmente, chegamos ao Brasil.

Em terras tupiniquins o catolicismo também anda mal das pernas nas últimas décadas. Os católicos, que representavam 92% da população em 1970, tiveram uma acentuada queda, caindo para 65% em 2010, segundo dados do censo. E essa parcela de católicos também está mais concentrada entre as pessoas de meia idade e idosos. Os jovens de uma maneira geral estão se afastando do catolicismo em nosso país. Isso sem levar em conta os que se consideram católicos mas não praticam a religião, apenas nasceram em famílias que também se consideram pertencentes ao catolicismo, ou simplesmente foram batizados nele.

E, depois dessa enxurrada de dados e números, podemos começar a tirar algumas conclusões a respeito da realização da JMJ.

Para facilitar a visualização, deixe-me reproduzir aqui um infográfico publicado pelo jornal O Globo, que mostra as variações na população católica no mundo, durante um período de 40 anos (para vê-lo com maiores detalhes, acesse a matéria completa clicando aqui). Os países com círculos vermelhos representam os lugares onde a população católica encolheu, e os azuis, onde ela aumentou.

Evolução Catolicismo

Agora, façamos uma pequena comparação com os locais onde a Jornada Mundial da Juventude foi realizada ao longo de sua existência:

Locais de Realização da JMJ ao longo dos anos.

É fácil perceber um padrão, não?

Ao se analisar os mapas, pode-se concluir que a Jornada mundial da Juventude pode até ser eventualmente utilizada como um instrumento para a expansão da fé católica ao redor do mundo, com a conquista de novos fiéis, como provavelmente o foi na Austrália e no Canadá. Mas ela demonstra fundamentalmente um visível esforço da Igreja Católica na manutenção de seus fiéis em países nos quais eles estão abandonando a religião, ou, no mínimo, dando menos importância a pôr os ensinamentos católicos teóricos em prática.

A próxima JMJ já está programada para acontecer na Cracóvia, novamente na Polônia, em 2015. Nada mais natural, considerando-se que, conforme os dados apresentados, a Europa é o local com maior abandono de fiéis; um verdadeiro êxodo católico. A possibilidade de canonização de João Paulo II em sua terra natal virá bem a calhar para uma tentativa de retenção desses exilados. E eu não me surpreenderia se a próxima jornada viesse a ser realizada no México ou na Colômbia.

Afinal, a Igreja Católica sabe da importância de se cativar o público jovem e de mantê-lo em sua congregação desde cedo. Uma pessoa que não cresça ouvindo repetidamente dos adultos que a cercam que histórias como homens sendo engolidos por peixes e virgens dando a luz são verdades absolutas, no mínimo as acharia muito inverossímeis se fosse confrontada com elas após adquirir um mínimo de bom senso com a idade. Ou haveria ainda o risco de ela achar que outras histórias inverossímeis são verdadeiras e acabar dedicando seu tempo e dinheiro a outras instituições religiosas.

E esse temor da Igreja é plenamente justificável, pois é exatamente o que vem ocorrendo atualmente. Essa evasão de jovens fiéis da Igreja Católica se deve a diversos motivos distintos, mas dois deles são bem fáceis de se identificar: a expansão das religiões protestantes/pentecostais e do ateísmo/agnosticismo.

Hillsong Church, uma megaigreja pentecostal em Sydney, Austrália

Hillsong Church, uma mega-igreja pentecostal em Sydney, Austrália, onde a JMJ ocorreu em 2008. Notem a idade dos fiéis presentes.

Esses dois motivos são bem distinguíveis na questão geográfica. O aumento do ateísmo e do agnosticismo é mais contundente na Europa, enquanto os protestantes e pentecostais se alastram como fogo pela América Latina.

De acordo com o Eurobarometer, atualmente 18% dos europeus não acreditam em uma espécie de divindade. Dos 10 países com maior percentual de ateus no mundo, 7 ficam na Europa.

Enquanto isso, no Brasil, o número de pessoas sem religião também teve um aumento, embora bem menos expressivo. Passou de menos de 1% em 1970 para cerca de 8% da população em 2010. Como eu já havia dito em um post anterior, é difícil precisar o quanto esse aumento no número de pessoas sem religião implica no aumento de ateus e agnósticos (atualmente cerca de 0,39% da população), já que essas informações específicas só foram recolhidas pelo IBGE em 2010. O que é indiscutível, no entanto, é o aumento vertiginoso dos evangélicos.

O número de seguidores das igrejas evangélicas no país sofreu um boom nas últimas décadas, passando de 6% da população em 1980, para 22,2% em 2010. E segundo o professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, José Eustáquio Diniz Alves, em um estudo realizado por sua equipe, por volta do ano de 2040 eles devem ultrapassar os católicos como a maioria religiosa no país.

Então, é inegável o fato de que esses dois fatores estão influenciando diretamente na diminuição de católicos no país. Mas por que exatamente as pessoas estão deixando a igreja católica em favor dessas duas posições? E o que ela vem fazendo para tentar reverter essa situação?

É fácil entender porque o ateísmo e o agnosticismo são atraentes para a juventude moderna. Estamos vivendo na era da informação. Com o advento da internet – cuja abertura ao público se deu em meados dos anos 80, coincidentemente à mesma época da criação da JMJ – fica muito mais difícil fazer com que as pessoas acreditem incontestavelmente em histórias fantásticas, já que elas podem confirmar a veracidade de qualquer coisa com um simples clique do mouse.

Então quando a Bíblia afirma que as plantas foram criadas antes do Sol, ou que todas as milhões de  espécies de animais cabem em uma arca de 450 pés de comprimento, ou qualquer outra coisa duvidável como essas, é fácil acessar as informações que demonstram que isso seria impossível, e o porquê. Uma leitura completa da Bíblia associada a um computador com acesso à internet tem uma capacidade de afastar as pessoas da religião muito maior do que a de qualquer ateu militante. E os jovens de hoje em dia já nascem conectados, com seus tablets, smartphones e notebooks em mãos.

E para os que, mesmo com todas essas informações disponíveis, sentem a necessidade de continuarem engajados em uma religião, existem os evangélicos.

Também é fácil perceber porque o evangelismo tem atraído tantos fiéis jovens da igreja católica. A proximidade mais acentuada da igreja evangélica com sua comunidade faz com que as pessoas religiosas acabem se identificando mais com essa religião  do que com o catolicismo.

A Igreja Católica, como instituição, sempre foi um pouco afastada de seus fiéis, buscando manter-se superior ao povo que a segue. Ela se intitula a “Igreja estabelecida por Deus para salvar todos os homens”. Seu líder se encontra em outro continente, é “dono” de seu próprio Estado, senta em um trono, cria suas próprias leis e exerce poder sobre as divisões da igreja no mundo todo. Seus sacerdotes se vestem de maneira que os diferencia dos fiéis, não só nas cerimônias, como em todo o restante do tempo, aprendem latim, vivem sob um celibato forçado e passam anos em cursos de teologia. E o próprio culto semanal católico é arcaico, baseado em tradições que se perpetuam há séculos, com um discurso monótono e uma quantidade de movimentos de ajoelhar-sentar-ficar-em-pé que pode ser considerada exagerada por qualquer um que não frequente uma academia.

Enquanto isso, os pastores evangélicos, em sua maioria, são pessoas normais, advindas da própria comunidade em que professam, que simplesmente nasceram com o dom da oratória e praticam a leitura da Bíblia. Eles não seguem uma liderança centralizada e se vestem com um terno, uma roupa que qualquer pessoa normal usaria no cotidiano. Falam no linguajar de seu público e promovem um culto mais animado e motivador, com bastante gritaria e músicas agitadas. Podem se casar, constituir família e, por vezes, exercem outra profissão, o que ajuda ainda mais na identificação com os fiéis.

Com qual desses líderes é mais fácil se identificar? Ou, qual dessas roupas você usaria para sair à rua?

Com qual desses líderes é mais fácil se identificar? Ou ainda: Qual dessas roupas você usaria para sair à rua?

Além disso as igrejas evangélicas possuem até mesmo maior proximidade física de seus seguidores. Enquanto os templos católicos se localizam em pontos específicos de uma cidade, obrigando os seus fiéis a se deslocarem a eles, em cada esquina praticamente há uma igreja evangélica, ainda que de diferentes denominações. Isso porque, enquanto a Igreja Católica exige uma arquitetura específica para a edificação de seus templos, qualquer garagem com cadeiras dobráveis e uma mesa pode abrigar uma igreja evangélica, ainda mais com a facilidade jurídica de se abrir uma igreja no Brasil.

Isso é ainda mais válido em comunidades carentes. Nos chamados aglomerados subnormais (favelas, grotas, invasões, comunidades, palafitas etc), onde a carência – em todos os sentidos da palavra – é enorme e, portanto, a busca pela religião mais presente, raramente se avista uma igreja católica. No entanto, os evangélicos estão sempre lá. Passeie em qualquer comunidade do Rio de Janeiro e o que mais se verá são bailes funk e igrejas evangélicas. Se buscarmos os dados de crescimento das comunidades carentes, tenho certeza que acharíamos uma correlação com o crescimento dos fiéis evangélicos.

Nessa imagem deve haver uns 10 templos evangélicos, 30 bailes funk e 0 igrejas catolicas

Só nessa fração de comunidade deve haver uns 15 cultos evangélicos, 30 bailes funk e nenhuma igreja católica.

É muito mais fácil cativar um seguidor quando ele consegue se ver refletido na figura de seu líder religioso, obtendo conselhos baseados em uma vivência parecida e podendo tratá-lo como um semelhante, não apenas como um emanador de ordens a serem seguidas (embora, obviamente, essa parte também não deixe de ser exercida pelos evangélicos).

Percebendo isso, a Igreja Católica começou um processo de mudanças em sua postura. A chamada Renovação Carismática, teve início na década de 60 nos EUA, mas veio para o Brasil em meados dos anos 70, acompanhando o início da expansão evangélica. Esse movimento buscava impor uma renovação às práticas tradicionais do catolicismo, dando uma maior ênfase à influência do Espírito Santo e admitindo formas mais arrojadas de se adorar ao senhor. Foi graças à Renovação que surgiram músicas católicas de louvor, danças gospel e padres cantores popstars como Marcelo Rossi e Fábio de Melo.

"Os animaizinhos subiram de 2 em 2...". Se você não ouviu isso, você não teve infância.

“Os animaizinhos subiram de 2 em 2…”. Se você nunca ouviu isso, você não teve infância.

Essa mudança de postura é uma das estratégias da Igreja para tentar recuperar essa “juventude perdida”.

Uma outra tática à qual eles parecem estar dando ênfase recentemente é promover a aproximação entre o líder da igreja e seus fiéis.

O papa João Paulo II já era uma pessoa simpática e receptiva. Ele foi um dos que mais incentivou a melhora da relação entre a Igreja Católica e outras religiões, e esteve presente em praticamente todos os países do mundo. Essas atitudes conciliadoras o tornaram um dos papas mais queridos da História, mesmo por quem não seguia a religião católica.

Ao eleger o Papa Bento XVI, a Santa Sé parecia estar dando um passo atrás nessa estratégia. Joseph Ratzinger, de origem alemã era muito mais pragmático, rígido e menos dado à diplomacia que seu antecessor. Alguns o achavam até antipático. Somando-se a isso um obscuro envolvimento com o nazismo em seu passado, e acusações de acobertamento de pedófilos na Igreja, sua figura se tornou muito menos atraente à juventude que a do falecido papa João Paulo. Não sei se isso chegou a ter alguma contribuição para a breve duração de seu papado, mas eu definitivamente consideraria essa uma possibilidade. Pode não ter sido a causa principal, mas acredito que pelo menos alguma influência em sua saída essa fato pode ter exercido.

Porém, ao eleger o Papa Francisco para o cargo de sumo pontífice, a Igreja deu um grande impulso em sua pretensão de ser vista pelos jovens como uma igreja renovada para o novo milênio. Uma das maiores reclamações dos que não seguiam a religião católica era de que o papa se encontrava em uma posição ostentadora, vivendo na riqueza e no conforto, enquanto exigia a prática da caridade a seus fiéis.

Mas agora o Santo Padre à frente dos católicos é um franciscano simpático, que dá beijos em crianças desconhecidas na rua e abdica de certos luxos desfrutados por seus antecessores. Já escreveram até um livro que o entitula o “Papa dos Humildes”.

O papa distribuiu mais beijos que a Hebe Camargo

O papa distribuindo mais beijos que a Hebe Camargo

Mas será que todas essas mudanças de posturas e estratégias de marketing serão o suficiente para que a Igreja Católica retome o crescimento de sua congregação no novo milênio?

Tenho minhas dúvidas se elas terão algum efeito prático na arregimentação de novos fiéis entre a juventude atual. A Igreja está mais moderna, mais conectada com os jovens. Padres e bispos agora possuem Twitter e Facebook. A Jornada da Juventude foi transmitida ao vivo, via satélite, para o mundo inteiro. Os meios de comunicação usados na transmissão da palavra de deus definitivamente mudaram. Mas a mensagem parece continuar sendo a mesma.

As posições polêmicas defendidas pela Igreja não sofreram nenhuma alteração significante nos últimos anos. Pergunte a qualquer bispo ou padre o posicionamento correto em relação ao aborto, método contraceptivo, eutanásia, pesquisas com célula tronco ou casamento gay, e a resposta provavelmente será a mesma que um fiel da Idade Média receberia.

Mesmo que o papa Francisco tenha defendido em recentes discursos que ateus podem ser salvos se exercerem boas ações e que não se pode julgar os gays, essa me parece ser mais a opinião pessoal dele do que um possível aceno para a alteração de  qualquer doutrina em sua igreja, como o arcebispo do Rio já esclareceu. O Papa é uma pessoa, a Igreja é uma instituição. Instituições não têm opiniões, têm regimentos. Estatutos. Dogmas.

Então as crianças e adolescentes que olham para o papa Francisco e (como eu) o consideram uma pessoa bacana, continuarão indo para o catecismo e para a crisma para aprender coisas como “a homossexualidade é injusta“. E quando crescerem, muitas continuarão a se questionar se determinadas posições devem realmente ser aceitas sem contestações.

Então a despeito da bela festa que foi a JMJ, da quantidade colossal de pessoas presentes no evento, e do lucro que ela deve ter gerado para os cofres da Igreja, não acredito que isso irá efetivamente fazer com que a saída de fiéis do catolicismo estanque.

Afinal, se um livro é díficil de ser lido, de nada adianta mudar sua capa se o conteúdo continua igual.

Atualização: veja aqui a parte 3 do post – Análise social da JMJ.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s