A “Fé na Ciência” – O Metódo Científico.

A dicotomia entre ciência e religião já foi discutida por mim aqui, em um post anterior. Como eu havia afirmado naquela ocasião, acredito que boa parte dos ateus devem sua ausência de crença em divindades ao acúmulo de conhecimento científico durante suas vidas.

A lógica que leva a essa opinião, é a de que quanto mais a ciência ajuda a compreender o mundo à nossa volta, menor a necessidade de se utilizar a religião e as superstições para isso.

No entanto, esse fato leva algumas pessoas religiosas a afirmarem que os ateus na verdade têm tanta fé na ciência quanto um crente tem na religião.

“Afinal” – dizem alguns – “qual é a diferença de acreditar que alguém caminhou sobre as águas do mar há dois milênios e acreditar que a Terra tem milhões de anos de idade, ou que a Via-Láctea está se aproximando de Andrômeda? No final das contas acreditar em todas essas situações não depende exclusivamente de se confiar no que outras pessoas estão afirmando, sem poder se certificar pessoalmente da autenticidade do que é dito?”

É um questionamento válido. Eu nunca vi uma molécula de água na vida. Como eu posso afirmar com absoluta certeza que ela é formada por um átomo de oxigênio e dois de hidrogênio? Ao afirmar coisas como essa, eu confio nos químicos e físicos que estudam o assunto e dizem que a coisa é dessa maneira. Então qual é efetivamente a diferença da confiança no que é afirmado pelos cientistas para a confiança na afirmação de um líder religioso a respeito de uma divindade, já que ele também pode ter dedicado anos de sua vida ao estudo do assunto?

Bom, a diferença é uma só. O método científico.

Definindo de uma maneira bem básica, o método científico é a maneira encontrada pelos cientistas de produzir e validar dados e pesquisas em uma determinada área de estudo. Ele pode servir tanto para a obtenção de novos conhecimentos quanto para a expansão e correção de informações obtidas anteriormente. Ele é também o meio utilizado para se assegurar que os resultados advindos de qualquer investigação científica serão os mais confiáveis possíveis.

O método científico foi desenvolvido ao longo de diversos anos. Sua origem como uma metodologia sistemática remete a René Descartes, filósofo francês que se baseou em diversas ideias e pensamentos anteriores para definir o método e publicá-lo em sua obra “Discurso do Método“.

René Descartes, pai do método científico

René Descartes, pai do método científico como o conhecemos

Descartes defendia que para se entender processos de grande escala, é necessário decompô-los em pequenas partes, que serão estudadas separadamente, para depois serem reincorporadas, fornecendo a  compreensão do todo. Posteriormente, o físico e matemático inglês Isaac Newton levou o método proposto por Descartes à aplicação prática, desenvolvendo-o empiricamente.

A aplicação do método científico consiste essencialmente em cumprirem-se determinadas etapas, até se chegar a uma conclusão.

A definição dessas etapas pode variar um pouco, dependendo da fonte consultada. Porém, isso não significa que o método seja aplicado de forma diferente, sujeito a preferências pessoais. Apenas sua apresentação é feita de maneira diferenciada, de acordo com a metodologia utilizada por cada autor, mas sua essência é a mesma, independente das etapas que se apresentem. Afinal, para se manter a confiabilidade,  uma de suas características principais tem que ser a universalidade, permitindo que diferentes pessoas possam reproduzir de maneira idêntica as experiências que se utilizem do método.

Assim, apresentarei cada etapa de aplicação do método científico abaixo, mas não se assuste se você o encontrar representado de maneira ligeiramente diferente em algum outro lugar. O importante é que as premissa básicas sejam mantidas.

  • Etapa 1: A Observação – É a visualização de um fato ou fenômeno que desperta uma curiosidade ou suscita uma questão. Ela deve ser repetida o máximo de vezes possível, até que sejam apurados todos os detalhes com a maior precisão alcançável. A repetição visa evitar a ocorrência de vícios, como o de se achar que se está observando uma coisa, quando na verdade ela é outra;
  • Etapa 2: Formulação da Pergunta – São os questionamentos sobre o fato observado. O objetivo é estreitar o foco da investigação e identificar o problema em termos específicos;
  • Etapa 3: Colheita de Dados – Recolhem-se informações relacionadas com o problema. Podem ser dados qualitativos ou quantitativos;
  • Etapa 4: Formulação da Hipótese – Com base no que foi observado e nos dados recolhidos, formula-se uma explicação provisória para o problema,  a hipótese. Um ponto relevante em relação à hipótese é que ela tem que ser passível de testes e que possa ser contestada. Se ela não atender a esses requisitos, não pode ser tratada pelo método científico;
  • Etapa 5: Experiência Controlada – Aqui o pesquisador efetua experiências para comprovar ou refutar a hipótese proposta anteriormente. Essas experiências têm que ser controladas (com variáveis dependentes, independentes e grupos de controle) e repetíveis, para que outras pessoas possam realizá-las da mesma maneira posteriormente;
  • Etapa 6: Conclusão – Depois de analisados os dados e o resultado da experimentação, chega-se à conclusão, que é a confirmação de a hipótese estar correta ou não. Caso esteja, ela passará a ser denominada uma lei científica. Caso não esteja, a hipótese será ou descartada ou reformulada para passar pelo processo investigativo novamente.

Uma boa maneira de se visualizar o método científico em ação é através de exemplos. Embora existam vários disponíveis, irei utilizar o exemplo do experimento de Pasteur, por sua simplicidade e didatismo.

Antes de Pasteur realizá-lo, alguns cientistas acreditavam que os seres vivos podiam se originar espontaneamente de matéria não viva, a chamada abiogênese. Outros, como o próprio Pasteur, acreditavam que os seres vivos só poderiam vir de outros seres vivos preexistentes. Esses questionamentos já cobriam as partes da observação e da pergunta, exigidas pelo método científico. O questionamento era: os seres vivos podem se originar de matéria não orgânica?

A hipótese apresentada por Pasteur em resposta à pergunta era que não, não era possível. Para comprovar sua hipótese, Pasteur realizou a seguinte experiência: em dois frascos ele colocou porções iguais de um caldo nutritivo, semelhante a uma sopa.  Em um desses frascos, o gargalo era longo e reto, enquanto no outro, o gargalo tinha um formato de S.método científico 1Em seguida ele ferveu o caldo em cada frasco, para esterilizá-los, acabando com toda matéria viva que porventura estivesse presente.método científico 2

Depois de algumas semanas, Pasteur observou que o caldo no primeiro frasco, o de gargalo reto, apresentava aspecto nublado e sem coloração, enquanto o do gargalo curvo mantinha a mesma aparência. Em análise ao caldo do primeiro frasco, ele notou que este continha vários micro-organismos.

método científico 4Pasteur concluiu que os micro-organismos conduzidos pelo ar conseguiam cair sem obstruções no frasco de gargalo reto, contaminando o caldo, enquanto o outro frasco impedia os germes de chegarem ao caldo, com seu gargalo curvo.

método científico 3Em seguida, Pasteur quebrou o gargalo curvo do frasco não contaminado e o deixou em contato com o ar. Após alguns dias o caldo apresentou a mesma aparência do caldo do primeiro frasco. Ao analisá-lo, Pasteur confirmou que agora ele também havia sido contaminado com micro-organismos.

método científico 5Assim, Pasteur conseguiu provar sua hipótese que os organismos vivos só se originam de outros organismos vivos pré-existentes. Se a abiogênese estivesse correta, o caldo do frasco de bico curvado também teria gerado os organismos espontaneamente, pois estava nas mesmas condições do primeiro frasco. E assim, a biogênese passou a ser a lei científica aceita quanto à origem da vida.

Deixo registrado que o experimento de Pasteur foi aqui apresentado de forma bem simplificada, apenas a título de exemplificação. Na prática houve mais rigor técnico e controle, como normalmente é exigido nos experimentos científicos. O grupo de controle não consistia em somente um frasco, por exemplo. Mas o objetivo aqui é somente demonstrar o funcionamento do método científico na obtenção de um novo conhecimento.

E esse conhecimento é cumulativo. Depois de estabelecer que a biogênese estava correta, pôde-se partir para outras perguntas a respeito da origem da vida. Por exemplo, em que condições exatas ela é capaz de se originar, ou como organismos complexos se originam de organismos simples, ou a relação entre os organismos originais e sua prole.

E é assim que teorias científicas aparentemente complexas são capazes de ser desenvolvidas. Se os cientistas atuais conseguem realizar experimentos que, por exemplo, confirmam a temperatura de planetas a anos-luz de distância, é porque já houve diferentes pesquisas e experiências feitas antes que permitem a eles aferirem estes dados atualmente. Cada conhecimento científico obtido anteriormente se torna um degrau para se alcançar níveis maiores de conhecimento. Como definiu Isaac Newton, se os cientistas modernos conseguem enxergar mais longe hoje, é porque se apoiam nos ombros de gigantes que vieram antes.

E é por isso que a confiança na ciência não é igual à confiança nos ensinamentos religiosos. Os dados e informações obtidos através do método científico podem ser confirmados, contestados ou reproduzidos por qualquer cientista, em qualquer lugar do mundo, enquanto os ensinamentos religiosos são, de maneira geral, baseados em textos supostamente sagrados e sujeitos à subjetividade de quem os interpreta, que por sua vez, sofrerá influência do local e da cultura em que o intérprete se encontra.

Assim, uma pessoa nascida e criada na Europa pode ter uma visão totalmente diferente de uma brasileira em relação ao que é dito na Bíblia, por exemplo. No entanto, um pesquisador científico na Índia pode realizar um mesmo experimento e chegar à mesma conclusão de um pesquisador na América Central.

Porém, ao mesmo tempo em que o método científico garante maior segurança e confiabilidade aos conhecimentos obtidos, ele limita a abrangência da atuação científica. Como eu disse anteriormente, os dados avaliados por este método têm que ser passíveis de testes e capazes de serem contestados. E não é qualquer informação que possui estas características.

Questões como “De onde surgiu o universo?” e “Deus existe?” ainda não são capazes de serem respondidas pelos cientistas, por não se conhecerem métodos que as confirmem ou as desmintam com o rigor exigido pela ciência. Talvez um dia o acúmulo de conhecimento científico nos permita respondê-las com maior apuro. Ou talvez não.

Já a fé religiosa está livre desses limites. Afirmações de que há vida depois da morte, quais atitudes agradam mais a Deus, ou qualquer outra feita com base na fé, também não são passíveis de serem testadas ou postas à prova. Mas no entanto, eles não precisam. A fé consiste em, por definição, acreditar em algo sem qualquer tipo de prova ou verificação. Alguém simplesmente afirma que algo é verdade e se acredita piamente nisso. E é por isso que a afirmação de que alguém tem “fé na ciência” é contraditória, não faz sentido.

A ciência pode não nos fornecer as respostas de todas as perguntas, mas esse não é o papel dela. Sua função é responder de maneira confiável às perguntas que lhe forem possíveis. Afinal, de nada adianta se obter uma resposta para algo, se não se pode confiar que ela esteja correta. E é isso o que a religião faz ao oferecer respostas aos seus fiéis que, embora possam ser reconfortantes ou bem intencionadas, não necessariamente condizem com a realidade.

Afinal, não sendo a ciência capaz de dar uma explicação razoável para um acontecimento então incompreensível, não vejo como o profundo domínio de qualquer mitologia daria a um líder religioso maior qualificação para fazê-lo.

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2 Comentários

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2 Respostas para “A “Fé na Ciência” – O Metódo Científico.

  1. “A mais nobre força do ser humano é a razão. A mais alta meta da razão é o conhecimento de Deus” (Santo Alberto Magno)
    Muito bom texto, Pedro Lemos, respeito a sua linha de raciocínio, no entanto, percebo um mal uso das colocações científicas ao dizer que os ensinamentos religiosos não condizem com a realidade. Todo modelo científico estudado e criado até os dias atuais em nenhum momento contradizem à fé cristã, pelo contrário, se tornam um alicerce para que ela se desenvolva cada vez mais. Com certeza você conhece muito de ciência e sabe que físicos como Isaac Newton(citado no texto), Max Planck e Albert Einstein eram totalmente convictos da existência de DEUS. A teoria do Big Bang proposta pelo Padre Georges Lemaître é sem dúvidas a mais aceita no meio científico e podemos utilizá-la para explicar vários fenômenos encontrados no nosso universo, como por exemplo, dois lugares extremamente opostos e distantes no espaço possuírem a mesma temperatura. Como você mesmo citou, a ciência não é capaz de fornecer as respostas a todas as perguntas, CONTUDO A FÉ É…Como não há nada cientificamente que se contraponha a este pensamento, é incorreto sua afirmação ao dizer que os ensinamentos religiosos não necessariamente condizem com a realidade.
    Como você está aberto a discussões sobre o assunto, agradeço pelo espaço. [http://cienciaefe.wordpress.com/]

    • Bem vindo ao blog Adilson, obrigado pelo comentário.
      O objetivo da ciência é obter conhecimento a respeito da realidade. Se esse conhecimento vai se adequar a uma determinada fé ou não, é efeito colateral, e é irrelevante para a ciência. Ao analisar uma determina situação, ao cientista não interessa (ou não deveria interessar) se a religião X diz isso ou se a Y diz aquilo a respeito do tema. Utiliza-se o método científico para obtenção dos resultados e ponto.
      Ao afirmar que os modelos científicos não contradizem a fé cristã, você está se referindo a todos os dogmas da fé cristã? Pois existem diversas crenças professadas pelos cristãos que contrariam conhecimentos científicos básicos. A própria Bíblia nos apresenta milhares de absurdos científicos, veja: http://www.bibliadocetico.net/ciencia.html. Parto do suposto que os cristãos acreditam que a Bíblia é a própria palavra divina, portanto, inquestionável. Isso para ficar só nas escrituras, sem entrar em outros campos da crença cristã que estão em desacordo com o conhecimento científico, como transubstanciação, ressureição, criacionismo etc.
      E é claro que existem cristãos que contribuíram com o progresso científico. Mas isso não nos diz nada a respeito da fé que eles professavam. Muitos cientistas islâmicos, hinduístas, xintoístas, budistas, judeus e ateus também apresentaram contribuições marcantes para a ciência. Você acha que as crenças deles são mais verossímeis por isso? Se muito, podemos dizer que essas contribuições científicas foram alcançadas APESAR da crença de seus elaboradores. Imagine se o padre Lemâitre decidisse que sua teoria era um absurdo por não estar de acordo com os ensinamentos da Igreja e nunca a divulgasse. Ou se Newton visse a lendária maça caindo e achasse que tinha sido mera obra de Deus. Talvez muitas outras potenciais contribuições para a ciência tenham sido deixadas de lado justamente porque seus criadores achassem que elas contrariavam suas crenças religiosas. E o fato de eles acreditarem em Deus não é tão significativo, já que essas crenças eram devidas mais à cultura em que eles estavam inseridos do que à uma conclusão legítima, racional e consciente a respeito da natureza divina. Praticamente não existiam ateus na época em que esses pensadores existiram, fossem cientistas ou não, pois o padrão era simplesmente acreditar em Deus, e nunca se perguntar o que isso de fato significava. Até porque, em determinadas épocas, esse simples questionamento poderia trazer consequências não muito desejáveis, como aprisionamento ou mesmo a morte.
      E sim, a fé é capaz de fornecer todas as respostas. Mas como eu afirmo no texto, se essas respostas são corretas ou não é outra história.
      Abraços.

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