Rede Globo x Record – A Disputa Pelos Evangélicos

A Rede Globo de Televisão é uma daquelas instituições que as pessoas normalmente ou amam ou odeiam. Por ser atualmente a maior emissora televisiva do país, com uma forte influência sobre um considerável número de telespectadores, por mais que não se goste dela, é praticamente impossível ficar indiferente à sua participação em nossa sociedade.

Uma prova dessa dualidade de aceitação do público é a permanência habitual da emissora como a de maior ibope no país, apesar da existência de diversos vídeos expondo críticas a ela, como o famigerado “Além do Cidadão Kane“, documentário produzido pela BBC de Londres que mostra um lado pouco conhecido da “Vênus platinada”, e as várias teorias conspiratórias de acusações à empresa, como a que afirma que o debate para as eleições de 1989 foi manipulado pela Globo para favorecer ao então candidato Fernando Collor.

Independente da veracidade dessa acusações, da qualidade de sua grade de programação atual, ou de se gostar ou não da emissora, um fato é incontestável. A Rede Globo atualmente ainda se mantém como a emissora  de televisão de maior influência no país.

Porém, se há algumas décadas essa dominação cultural era incontestável, com o passar dos anos ela vem enfraquecendo, e a guerra pela liderança no ibope já teve algumas batalhas perdidas por parte da Rede Globo.

Existem vários possíveis motivos para essa queda de popularidade. Além do mais óbvio – a qualidade dúbia de alguns de seus programas atuais – há também dois fatores que  ultimamente vinham sendo negligenciados pela emissora, que são a mudança de seu público alvo e a sua dificuldade de adaptação a novas realidades.

Para ilustrar como as coisas mudaram de uns tempos para cá, vejam esta entrevista feita em 1976 pela revista Veja, mostrando como a Globo conhecia o seu público alvo naquela época e sabia exatamente como atingí-lo. Homero Sánchez, o então chefe do departamento de análise e pesquisas da Rede Globo, dá a descrição do telespectador brasileiro da época, segundo o padrão Globo e a receita do que eles esperam:

– É mulher. Casada, pouco mais de 30 anos, católica. Vai uma vez por mês ao cabeleireiro, faz as unhas em casa e acompanha o marido ao cinema nas noites de sábado. Ela é que compra tudo para o homem. O marido só escolhe mesmo o terno e a gravata. 0 resto, até as cuecas, ela compra. Mostra-se mais compreensiva e mais moderna que o companheiro. Do filho, espera que se forme; da filha, torna-se aliada […] Entro às 6 horas com uma história juvenil, que faz a mulher recordar o tempo das avós, pureza, romantismo “A Moreninha”, “0 Feijão e o Sonho”. Às 7, solto uma coisa ainda leve, mas já com alguns problemas, quase uma espécie de fotonovela (“Anjo Mau”). Agora, na novela das 8, meus amigos, aí a mulher faz a catarse – é o dia-a-dia, a vida dela, os filhos de Salviano Lisboa que são uns safados, o inferno da Lucinha (“Pecado Capital”, a neurose de Lina “O Casarão”). Já na novela das 10 forneço uma leitura adulta. É um horário em que a gente pode se soltar mais, ousar mais, experimentar[…]

– O homem chega em casa lá pelas 6 e meia, 7 da noite. Vem do escritório, do trânsito, de um dia cheio de aborrecimentos. Precisa de uma descompressão. A cabeça dele parece estar dentro de uma caixa de vidro, ele não ouve nada. Vai sentar em sua poltrona, enfiar a cara num jornal, continuar inatingível durante o jantar. Só começará a se relaxar, se mexer, se sentir bem, quatro horas depois de chegar em casa. E aí que que eu faço com ele? Jogo o que o cara precisa para se soltar de uma vez: muito tiro, soco, “Kojak”, “Arquivo Confidencial”, “Controle Remoto” o nosso horário de ação.

Graças a uma visão de mercado afiada como essa (ainda que pareça retrógrada hoje em dia, era  compatível com sua época), a Globo foi capaz de se manter no auge das telecomunicações durante vários anos.

E, como se pode perceber pela primeira frase proferida por Homero Sánchez na transcrição acima, um dos filões da Globo sempre foi tentar cativar o público religioso. Atrações como a missa do Galo, padres cantores, a cobertura da vinda de papas ao país e shows católicos sempre fizeram parte de sua grade.

Até bem pouco tempo atrás, essas atrações eram voltadas quase que exclusivamente ao público católico. Sendo essa a religião predominante no país, era, também, a maioria da audiência da companhia de Roberto Marinho.

padre gala

O padre galã no Faustão

O padre postar e a rainha dos baixinhos.

O padre popstar e a rainha dos baixinhos

Em tempos mais recentes, a emissora até arriscou apresentar uma ou outra coisa em sua grade com uma aproximação ao Espiritismo. As novelas “A Viagem” e “O Profeta” me vêm à mente. Fora essas, eu não lembro de mais nenhuma, mas também nunca fui muito de acompanhar programas televisivos. Com exceção das tramas novelescas, não lembro de mais nada que fugisse do padrão catolicista perseguido pela Globo. Até mesmo os filmes religiosos brasileiros veiculados pela emissora eram em sua maioria de temática católica: Maria, mãe do filho de Deus, O auto da compadecida etc.

No entanto, ao longo dos anos, a demografia religiosa foi se alterando. O número de católicos tem diminuído a cada contagem do censo, e o de evangélicos aumentado. E com isso, uma das emissoras concorrentes da Globo foi aos poucos se tornando uma verdadeira ameaça à hegemonia global.

A Rede Record, comprada pelo bispo evangélico Edir Macedo no final da década de 80, que antigamente era mera coadjuvante entre as emissoras, começou a se tornar uma verdadeira ameaça ao império global conforme o número de fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus e evangélicos de uma maneira geral se multiplicavam. Suas produções com o passar do tempo aumentaram de orçamento, vários atores começaram a trocar a Rede Globo pela emissora do bispo e até séries originais com temáticas religiosas passaram a ser produzidas inteiramente pela Record, como “Rei Davi” e “José do Egito“.

Porém, parece que agora a Globo finalmente começou a se incomodar com isso e percebeu que para manter o seu público e hegemonia precisaria adotar algumas mudanças. Assim, seguindo a tendência demográfica, sua alça e massa de mira agora se voltaram também para os evangélicos.

Eu me surpreendi no final do ano passado quando, em um dos raros momentos em que estava assistindo à televisão, vi, por acaso, um anúncio de que a Globo cobriria um evento evangélico de música gospel, o Festival Promessas, com apresentação de Serginho Groisman e tudo. Fiquei curioso e depois, pesquisando sobre o assunto, vi que a emissora não só cobriria o festival, como a empresa GEO Eventos, braço das organizações Globo que produz eventos musicais, era a responsável por sua produção.

Apesar de algumas críticas de lideranças evangélicas, parece que o festival deu o retorno esperado, uma vez que a emissora organizou um segundo festival no mês passado, em São Gonçalo, RJ, onde ela afirma que mais de 35 mil pessoas compareceram.

E, recentemente, andando pelas ruas da minha cidade, eu percebi um outdoor que, se antigamente seria completamente ignorado por mim, dessa vez me chamou a atenção por um pequeno detalhe.

O detalhe que faz a diferença

O Rio não foi o único a receber esse evento. Cidades como Curitiba, Teresina e Manaus também tiveram suas “Marchas para Jesus” devidamente patrocinadas pela Globo. Está aí algo que não se veria há alguns anos. A vênus platinada apoiando abertamente um evento evangélico. E que ainda por cima contava com a presença do Silas Malafaia, que em 2011 transformou o evento em um palanque para criticar a união homossexual.

Porém, quando se nota que, somando-se todos os eventos, o público que compareceu pode ter passado de dois milhões de pessoas, percebe-se que a Globo tem sua razão em tentar cativar esses fiéis. É uma parcela muito grande da população brasileira e com tendências a se tornar ainda maior. Nos dias atuais, ignorá-la ou contrariá-la significa levar um duro golpe no ibope, que é o que mais importa para uma emissora televisiva.

Para confirmar de vez a sua nova tendência de apelo aos evangélicos, a Globo decidiu atraí-los também com o que ela faz de melhor. Telenovelas. Depois da polêmica de “Salve Jorge”, quando parte dos evangélicos decidiram boicotar a emissora, por conta de sua temática envolvendo o santo católico e religiões africanas, a nova novela das 9 (que começa às 10), “Amor à Vida”, conta com uma personagem chave nessa nova estratégia da emissora.

Interpretada por Tatá Werneck, a atriz  revelação egressa da MTV, a personagem Valdirene do Espírito Santo viverá no começo da trama uma vida “desregrada”, caçando a fama e riqueza fáceis, mas depois se converterá à uma religião evangélica.

A Valdirene, apesar de ser periguete, tem uma angústia, um vazio que quer preencher de alguma forma. […] O caminho dela é essa dor de alguém que está tentando sobreviver da maneira que acha certo e não consegue. Isso gera angústia. A religião traz esse conforto.

Tatá Werneck como Valdirene

Tatá Werneck como Valdirene

Isso dá uma bela demonstração da importância que a Globo está dando à conquista desse novo nicho.

Mas, afinal, em que isso pode afetar os ateus desse país?

Bom, como eu disse no começo do post, apesar das bambeadas que deu nos últimos anos, a Globo ainda é a emissora de maior influência do país. E a doutrina evangélica é um pouco diferente da doutrina católica. Por conta de diversos fatores, como sua história, a diversidade cultural brasileira, e a necessidade forçosa de mudanças, a Igreja Católica moderna é muito mais flexível em suas posturas que as evangélicas. Embora haja exceções, os evangélicos normalmente veem o mundo com uma dicotomia mais exacerbada que os católicos: o que não é de Deus é do mundo, e portanto, deve ser evitado.

Em virtude disso, o número de radicais ou fundamentalistas entre os evangélicos costuma ser bem maior que entre os católicos. Boa parte dos que se dizem católicos, inclusive, nem praticam a religião, mas se consideram como integrantes dela por terem crescido em famílias que também se consideram assim. São os chamados católicos culturais. Isso faz com que o diálogo entre o catolicismo e outras doutrinas religiosas, embora divergente, seja mais ameno.

Porém com os evangélicos não é assim. Quem se diz evangélico normalmente é porque frequenta de fato os cultos ministrados por sua igreja e tem um pastor que atua como líder de sua congregação. E a palavra dita por sua religião, através de seu líder, é a correta, sem muito espaço para discussões. Como eu já disse, eu sei que há exceções para essa regra, mas a grande maioria dos evangélicos com quem eu convivo são assim. É muito complicado discutir racionalmente com eles a respeito de temas sobre os quais sua igreja já tenha algum posicionamento tido como o correto.

Se a Globo estiver mesmo decidida a conquistar esse grupo religioso de vez, acredito que ela terá que estar disposta a defender algumas posições polêmicas, ou pelo menos fazer vista grossa a algumas delas. Me pergunto, por exemplo, o quanto dessa nova política influenciou na criação do vilão homossexual da nova novela. Para quem investia tanto na conquista do público GLS, pode ser complicado lutar nessas duas frentes de batalha.

A manutenção do investimento da Globo nesse filão evangélico, traria também uma maior exposição deste segmento religioso e o crescimento da influência da bancada parlamentar evangélica. O que se tornaria um círculo vicioso, fazendo com que o número de fiéis aumentasse e a Globo precisasse investir mais neles.

Assim, por mais que esse posicionamento global a princípio pareça ser uma frivolidade, em uma análise alarmista os seus desdobramentos podem ter consequências que influenciarão os moldes do futuro do país. Se amanhã ou depois o Malafaia, por exemplo, aparecer em um vídeo apoiando a criminalização do homossexualismo, a globo se alinharia automaticamente a ele ou se arriscaria a criticá-lo, pondo em risco todo esse esforço exercido na conquista de seus fiéis?

Isso também me deixa um pouco curioso para saber como a Globo se aproximaria dos ateus se o numero de descrentes tivesse um súbito crescimento demográfico. Teríamos um ateu declarado na próxima novela das oito?

Bom, se as coisas continuarem no passo que estão, certamente ele seria o vilão da novela e seria o pior bandido já inventado na teledramaturgia brasileira. Só me resta mesmo continuar tentando permanecer o mais longe possível da televisão e seguir investindo na literatura e nos games.

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3 Comentários

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3 Respostas para “Rede Globo x Record – A Disputa Pelos Evangélicos

  1. Paulo Henrique S Brandão

    Historicamente todas as brigas religiosas sempre acabam com o tal do livre arbítrio, as pessoas deixam de pensar por si e passam a pensar com os lideres religiosos. Assim fica difícil evoluirmos socialmente. Uma pena!

  2. Saudações Pedro Lima.
    Eu escrevi um artigo no site Gosto de Ler que faz uma reflexão séria sobre este fênomeno atual, porém antigo, pois esta acontecendo de novo.
    Aqui vai o link:
    http://www.gostodeler.com.br/materia/18329/F%C3%A9,%20fanatismo%20e%20convic%C3%A7%C3%A3o%20no%20cen%C3%A1rio%20atual..html
    Desde já agradeço por tua atenção e sucesso para ti.

  3. ROBERTO

    não é á audiencia que paga a porpaganda, e sim o tipo de programa.

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