A “Cura” Pela Fé

Há pouco mais de um mês, uma morte abominável ocorreu no estado da Pennsylvania, EUA. Brandon Schaible, uma criança de oito anos de idade parou de respirar após uma grave diarreia e problemas gástricos, vindo a falecer nos meados de abril.

A morte de uma criança por si só já é uma notícia desagradável. Mas os detalhes que levaram ao falecimento de Brandon tornam esse caso em particular ainda mais repugnante.

O garoto vinha apresentando os sintomas que levaram à sua morte há pelo menos uma semana. O que se faz em uma família normal, quando seu filho apresenta os primeiros sintomas de uma doença? Leva-se ao médico, que irá talvez solicitar exames, diagnosticar o que ele tem, receitar um remédio ou tratamento e aguardar a evolução do caso para dar maiores orientações.

Não foi o que os pais de Brandon fizeram.

Herbert e Catherine Schaible, são membros da First Century Gospel Church (Igreja do Evangelho do Primeiro Século, em tradução livre),  cuja doutrina prega a cura pela fé: se você tiver fé o suficiente, Deus irá curar você e sua família de todos os males. Segundo um dos líderes da igreja:

Planos de saúde, taxas hospitalares, e o custo dos remédios hoje em dia são enormes, mas aquele que crê recebe a cura de graça.

Se alguém deposita mais fé em médicos e drogas do que no Deus vivente e no Salvador ressuscitado, sua salvação está em sério risco.

O artigo no site da igreja que explica porque fazer seguros vai contra os ensinamentos divinos também é bastante esclarecedor.

Então, ao invés de levar seu filho ao médico ou a um hospital, os Schaibles decidiram somente deixá-lo em casa, sem nenhum assistência médica, enquanto eles faziam orações pedindo a Deus por sua cura. O Todo Poderoso obviamente não desceu dos céus para tratar do garoto, e o resultado foi esse já informado.

Porém, não sendo essa história estapafúrdia o suficiente, há ainda mais um detalhe escabroso a ser acrescentado. Essa foi a segunda vez que os Schaibles deixaram isso acontecer!

Em 2009, Kent Schaible, um outro filho do casal, que à época tinha  apenas dois anos de idade, estava sofrendo de pneumonia bacteriana, uma doença facilmente tratável com antibióticos e fisioterapia respiratória. No entanto, a solução encontrada pelo casal para tratamento tinha sido a mesma naquela ocasião: rezar para Deus.

Kent, exatamente como seu irmão esse ano, não resistiu à doença e veio a falecer, fazendo com que seus pais fossem acusados e condenados por homicídio culposo e exposição de pessoa incapaz ao perigo. Eles poderiam ter sido condenados até o máximo de 17 anos de prisão, mas não foi o que aconteceu.

Afirmando que, de acordo com as leis do estado da Pennsylvania, a liberdade religiosa é superada pela segurança das crianças, a juíza Carolyn Engel Temin determinou a sentença: 10 anos de liberdade condicional, com a exigência de que os Schaibles marcassem consultas regulares com “profissionais médicos qualificados” para seus filhos e apresentassem seus registros médicos para os agentes de condicional (o que, considerando o ocorrido agora com Brandon, eles obviamente não estavam cumprindo).

Assim, depois de permitir que um de seus filhos morresse por pura negligência e fanatismo religioso, os Schaibles voltaram para sua residência, onde continuaram tomando conta de seus outros sete filhos. É de se imaginar que eles aprenderiam a lição, mas a morte de Brandon parece demonstrar que a cegueira religiosa é permanente em alguns casos.

Herbert e Catherine Schaible, pais do ano

Herbert e Catherine Schaible, pais do ano

Os Schaibles agora aguardam outro julgamento pela morte de mais um de seus filhos enquanto seus outros seis filhos estão em um lar adotivo, esperando a decisão da justiça para saber qual será seu destino.

Se você acha que cenários como este podem parecer absurdos demais para fazer parte da realidade de nosso país, saiba que, infelizmente, o ocorrido com estas duas crianças  nos EUA já teve sua versão tupiniquim.

As testemunhas de Jeová, por conta de uma interpretação bíblica, acreditam que a transfusão de sangue seja proibida por Deus. Isso fez com que em 2010 uma adolescente morresse de leucemia porque seus pais se recusaram a permitir que a transfusão sanguínea fosse feita. O desembargador Galvão Bruno, relator do processo para julgar os pais pela morte da garota deu a seguinte declaração, demonstrando a forma de pensar dos genitores:

Durante todo o processo, os genitores foram alertados de que não havia alternativa à transfusão, caso desejassem salvar a vida da filha. Em resposta, declararam que preferiam ver a filha morta a deixá-la receber a transfusão.

Embora as testemunhas de Jeová, pelo menos que eu tenha conhecimento, sejam o segmento religioso em terras brasileiras mais radical no quesito medicina x religião, não me arrisco a afirmar que as outras religiões aqui presentes não correm o risco de gerar exemplos trágicos como esse.

Diversas correntes religiosas pregam curas milagrosas para atrair fiéis doentes que não têm acesso a recursos médicos eficazes ou que se encontram desesperados porque não conseguiram a cura pelos meios tradicionais. A Igreja Universal, por exemplo, exibe em sua página da Folha Universal uma seção dedicada exclusivamente à divulgação de fiéis que foram curados por sua fé. Os espíritas executam cirurgias espirituais. Os católicos acreditam na intercessão dos santos para a cura e têm praticamente um santo especialista em cada parte do corpo e doença.

O grande problema aqui não é a  pessoa acreditar que Deus irá promover sua cura. É negligenciar por completo a intervenção de profissionais especializados, por acreditar que a ciência e a medicina modernas vão contra os ensinamentos religiosos. Menos mal se um adulto quiser seguir essa linha de pensamento, continuará sendo uma idiotice em minha opinião, mas pelo menos só irá afetar a ele mesmo. Mas fazer isso com crianças inocentes que irão sofrer por uma escolha inadequada de seus pais é absurdo. Me pergunto se os pais da adolescente morta aqui ou os Schaibles tomariam as mesmas decisões se fossem eles os doentes.

Esse é mais um dos casos em que os julgamentos morais que seriam severos em qualquer outra situação são ignorados somente por se invocar a religião. Se eu disser que não vou permitir que minha filha faça uma cirurgia porque eu tenho uma posição filosófica que me faz discordar de procedimentos cirúrgicos, eu provavelmente seria denunciado, responderia na justiça por isso e poderia perder meu poder familiar. Mas se eu falar que minha religião não permite tais procedimentos, haveria a chance de minha posição ser respeitada sem maiores questionamentos. Como eu já comentei em posts anteriores, isso torna a linha entre o que é permitido ou não fazer em nome da religião muito indefinida.

É curioso também perceber que muitos religiosos fazem um alvoroço exacerbado para defender a santidade da vida ao condenar o aborto, mas não mexem um dedo para falar algo em desaprovação às mortes advindas das “curas” pela fé.

Vendo ainda essa questão por um lado mais prático, se uma pessoa acha que Deus irá interceder por sua cura, por que não pode imaginar que ele pode fazer isso indiretamente, proporcionando os avanços da medicina e inspirando os médicos que irão implementar sua cura? As pessoas já não acreditam que ele faz um monte de coisas indiretamente, inclusive escrever livros sagrados através de revelações a profetas? Eu sei que não há nenhuma evidência para nenhuma dessas afirmações, mas se as pessoas exigem uma justificativa religiosa para procurar ajuda médica, eis uma solução para o dilema.

Eu sei também que a fé e a oração podem ser de grande ajuda e conforto para pessoas que possuem uma doença e estão tratando delas. Mas o efeito placebo proporcionado pela crença religiosa no tratamento médico só é alcançado se o tratamento médico já está sendo aplicado. E se sua religião diz que nem o próprio tratamento pode ser feito, por proibição divina, no fim você está contando somente com a própria sorte. Conhecida por alguns como Deus.

Quantas crianças mais precisarão passar por isso para que se aprenda a lição? Você quer professar cegamente seus dogmas religiosos, ótimo. Quer ignorar os avanços da ciência e tecnologia em troca de um ensinamento religioso arcaico e aleatório, tudo bem. Mas deixe as outras pessoas que não têm nada a ver com você fora disso. Especialmente se elas forem crianças que nem fazem ideia do que suas crenças religiosas significam.

Não estou dizendo que não se possa professar as crenças quando se fica doente ou se passa por dificuldades. Se alguém quiser rezar, fazer oferendas, pagar promessas para conseguir sua cura,  que faça. Mas, paralelamente, procure um médico e siga suas recomendações que garanto que suas chances irão aumentar exponencialmente.

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