Pastor evangélico é preso acusado de estupro e envolvimento com o tráfico

Semana passada, veio à tona a notícia de que o pastor Marcos Pereira da Silva, um dos líderes da igreja evangélica Assembléia de Deus dos Últimos Dias, foi preso, acusado de estupro, assassinato, tráfico de drogas, associação com o tráfico e lavagem de dinheiro.

Até então, o pastor Marcos era conhecido apenas por seus cultos exageradamente teatrais, com exibições de exorcismos e testemunhos de fiéis.

pastor marcos

Pastor Marcos em um de seus dias de habituais lutas contra demônios

Porém, após a divulgação de sua prisão surgiu uma avalancha de notícias esdrúxulas a respeito do pastor. Então, para facilitar quem não acompanhou os notíciários nos últimos dias, vou colocar aqui as principais manchetes a respeito do tema. Basta ir clicando em cada uma para acessar as notícias completas:

pastor preso

pastor extra

pastor assassinato

garagem

Depois da divulgação da notícia de sua prisão, para surpresa de ninguém, outros pastores saíram em defesa do pastor Marcos Pereira. Marco Feliciano, em seu blog, disse acreditar tratar-se de perseguição religiosa ao pastor:

perseguição

Silas Malafaia achou estranhíssima a prisão do pastor:

silas mal

Até a própria esposa do pastor deu seu depoimento, afirmando em entrevista que as acusações eram sem fundamento:

esposa

E, óbvio, o site da própria Igreja publicou um artigo em que afirma que o pastor Marcos está sendo perseguido e clama pela aplicação da justiça:

adud

Bom, ainda é cedo para afirmar se o pastor realmente é esse monstro que a imprensa está fazendo parecer que é. Ao que tudo indica, há sim algo de muito estranho ocorrendo por trás das portas daquela igreja. Mas como estamos em um país onde existem duas pequenas coisas chamadas presunção de inocência e devido processo legal, acho mais sensato esperar o julgamento do pastor para fazer qualquer comentário a respeito de suas supostas atividades ilegais.

Para mim, o que é mais importante nessa história, no momento, são dois aspectos curiosos.

Primeiro, a força da doutrinação sofrida pelos fiéis da igreja, que são levados a defender fervorosamente o pastor e jurar pela sua inocência.

É claro que essa reação não é tão incompreensível assim. Se amanhã ou depois aparecer alguém dizendo que uma pessoa do meu convívio diário, como meu chefe, ou minha empregada, estão envolvidos em crimes dessa magnitude, acho que, a princípio, eu também relutaria em acreditar.

Sendo o homem o animal social que é, para nos relacionamos cotidianamente com alguém, ainda que de maneira superficial, avaliamos se aquela pessoa merece fazer parte de nossas vidas, e se o conhecimento que temos a respeito dela é o suficiente para fazer esse julgamento a seu respeito sem o risco de cometer erros.

Essa suposição se torna ainda mais forte na relação entre os fiéis e os pastores que eles seguem. Além de ser uma pessoa com quem os seguidores mantém uma relação habitual, o pastor é visto como um exemplo a ser seguido, um representante de Deus na Terra, um confidente e, muitas vezes, um amigo.

Porém, diferente das outras relações sociais, esse julgamento dos líderes religiosos feito por seus fiéis, em boa parte não se baseia nos atos dessas pessoas e sim na mera hierarquia religiosa. Se alguém está à frente do altar, pregando para a comunidade, já se parte do pressuposto que ele é uma pessoa decente.

Portanto, acredito que deva ser realmente muito complicado imaginar que aquela pessoa que até a semana passada você via como um exemplo, e que dizia a você e aos seus filhos o que era certo e o que era errado, seja o responsável direto por quatro assassinatos, estupros e incontáveis mortes indiretas.

Talvez seja isso que leve algumas pessoas à negação e a dizerem coisas como essas, que foram ditas no fórum do site Verdade Gospel:

“Eu nunca acreditei nisso, já imaginava que tudo não passa de mais uma sujeira, globo e esse afro regue (sic) essa gente, quando quer incriminar alguém, vale tudo pra eles, mentira é o prato principal deles. Mais (sic) vão todos pagar, Deus fará justiça”

“eu nao acredito em nada do que estao falando deste grande homen de Deus , é só fazer o que ele faz , ele nao fica brincando ele vai atraz (sic) de vidas para Jesus as salva ,..”

“Eu não acredito. Isso tudo, com certeza, é mais uma armação do inferno com a participação daqueles que estão insatisfeitos com tudo que vem acontecendo com os crentes em Jesus.
Tentaram o querido Pr Feliciano, não deu certo, vão atirando para verem algum escândalo”

É muito mais fácil acreditar que há uma teoria da conspiração contra as suas crenças, do que perceber que você fez um mau julgamento a respeito de uma pessoa, o que o levou a manter algum tipo de relação com um criminoso.

Isso me leva ao segundo aspecto dessa notícia. A mania de perseguição de que sofrem alguns evangélicos nesse país.

Como se pode notar das afirmações acima, e das declarações dos pastores Silas Malafaia e Marco Feliciano, alguns evangélicos parecem crer que o fato de a polícia estar investigando os supostos crimes do pastor Marcos Pereira se deve não à possibilidade de o líder religioso ser realmente um criminoso, mas apenas ao fato de ele ser evangélico em um país de maioria católica.

Aparentemente, para uma parte dos evangélicos, essas acusações são fruto da perseguição aos evangélicos, feita pela imprensa marrom, que visa incriminar o pobre pastor divulgando notícias falaciosas, ou pela rede Globo, que é contra a ascensão evangélica no país, ou pelo próprio Capeta, que fica espalhando a discórdia e a mentira pelos quatro cantos da Terra.

Para eles é simplesmente inconcebível a aplicação da hipótese mais plausível ao caso: a de que o pastor seja realmente culpado e que eles estavam esse tempo todo sendo arrebanhados por um traficante assassino estuprador que enriqueceu com as doações de seus fiéis.

É óbvio que isso não se trata de perseguição religiosa. Ninguém está acusando o pastor por ele ser evangélico, e sim por haver a possibilidade de ele estar relacionado a crimes, independente de sua orientação religiosa. Imaginar que só por alguém ser um líder religioso significa que ele não cometa crimes, é dar carta branca a criminosos mal intencionados. É um comportamente perigoso, pois faz com que os bandidos percebam que posar de pastor (ou qualquer outra liderança religiosa que possua fiéis com o mesmo fervor) é um bom disfarce para suas pilantragens.

Tanto não é uma perseguição religiosa que você não vê ninguém dizendo nas notícias que todos os pastores são ladrões safados ou assassinos. Não há generalização de uma classe inteira. O fato de ele ser da liderança de uma igreja é mencionado apenas porque ele se aproveitou dessa posição para cometer seus crimes, assim como seria mencionado se ele fosse o presidente do Banco Central ou o diretor do Detran, o que não significa que todos os presidentes e diretores desses órgãos sejam criminosos.

Mas agora, tente imaginar o cenário caso o acusado não fosse um pastor evangélico, e sim um conhecido (ou até um suposto) ateu. Custo a crer que não surgiriam notícias na imprensa dizendo que a culpa pelos crimes era a falta de Deus no coração, e que todos os ateus são perigosos.

Ah, é verdade, não é necessário imaginar. Isso já aconteceu antes.

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1 comentário

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Uma resposta para “Pastor evangélico é preso acusado de estupro e envolvimento com o tráfico

  1. Fernanda Resende

    Fala não, minha presidenciável querida tá falando um monte de m****, protegendo o Feliciano apenas porque ele é evangélico :/

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