O Lado Positivo da Religião

Listar os malefícios que as religiões podem trazer ao mundo é fácil. Em uma rápida googlada, se acham dezenas de exemplos de mortes, atrocidades, discriminações, atrasos científicos e idiotices cometidas em nome de alguma denominação religiosa, seja ela qual for.

Mas, correndo o risco de ser contrariado por um grande número de ateus, vou bancar o advogado do Diabo (com o perdão do trocadilho na expressão), e lançar a pergunta:  será que as religiões não podem trazer algo de positivo também?

Afinal de contas, elas estão aí desde que o homem surgiu no mundo e não parece que vão deixar de existir tão cedo. Não é possível que uma coisa tão persistente tenha somente aspectos negativos.

Então, analisando a minha própria experiência com a religião, eu tentei elaborar uma pequena lista do que ela pode oferecer de bom:

1 – ConfortoExistem mais de 10 mil religiões diferentes no mundo, tornando meio complicado falar de todas elas ou até mesmo de uma maioria delas. Mas, pelo menos as que possuem maior número de fiéis, buscam oferecer aos seus seguidores um certo conforto através de suas crenças.

Tanto o Cristianismo, quanto o Islamismo e o Hinduísmo, que já cobrem mais da metade dos crentes no mundo, dividem a crença de que esse mundo é apenas uma parte da existência do ser humano e de que após a morte haverá uma outra fase em sua vida. Embora possuam diferentes visões sobre o tema, o que elas têm em comum é o fato de afirmarem que as ações tomadas nessa vida farão diferença após a morte. Se você se comportou de acordo com os preceitos religiosos estipulados por cada uma, será recompensado após essa fase terrena. Isso faz com que as pessoas se reconfortem diante de um dos mais antigos temores do ser humano: o medo da morte.

Para algumas pessoas, pensar que nossa experiência neste mundo é efetivamente tudo o que existe pode ser desesperador. Então, imaginar que além dessa vida se pode viver uma outra, ou se pode passar a vida eterna em um lugar literalmente paradisíaco causa alento. Além disso, é uma forma de quem perdeu seus entes queridos lidar melhor com a perda, imaginando que irá revê-los um dia, ou que eles estão em algum lugar melhor, olhando por ele e de alguma maneira, intercedendo pelo seu sucesso.

Pra onde todo mundo acha que os parentes vão depois da morte

Pra onde todo mundo acha que os parentes vão depois da morte

Curiosamente, ninguém parece considerar a possibilidade de após a morte ir para o inferno, ou voltar como uma lesma na próxima vida. Aquela sua tia querida que faleceu no ano passado, por exemplo, poderia estar ardendo no inferno agora porque em sua juventude ela fez uma consulta em um centro espírita ou com uma jogadora de búzios. Deveria ser uma possibilidade a ser considerada, não?

inferno

Aquele seu primo, que trabalhava aos sábados, não é aquele ali no canto esquerdo?

Além disso, boa parte das religiões oferecem respostas sobrenaturais a perguntas que a ciência e a racionalidade ainda não têm como explicar, e talvez nunca tenham. Independente de estarem certas ou não, o simples fato de os fiéis acreditarem nessas respostas dadas por suas religiões traz conforto para outro temor primitivo do ser humano: o medo do desconhecido.

2 – Comunidade: As religiões não se resumem a meras crenças em torno do sobrenatural. Esse é apenas o laço que une as pessoas que participam de uma determinada designação religiosa. Na verdade elas fornecem uma identidade ao segmento da sociedade que as segue, um estilo de vida, podendo às vezes formar verdadeiras comunidades à parte.

O exemplo mais extremo que me vem à mente é dos Amish, um grupo cristão que, por motivos religiosos, repudia o uso de tecnologia moderna e vive em sociedades isoladas, onde não se utiliza nem mesmo energia elétrica.

Engarrafamento amish

Engarrafamento Amish

Embora obviamente não sejam tão extremas como os Amish, toda religião tem um pouco de isolamento social em seu âmago. Afinal, todo sistema religioso acredita que sua doutrina é a maneira correta de agradar à divindade a que se submete, o que, por exclusão, significa que todas as outras não o fazem.

Isso fortalece a visão entre as pessoas que participam de uma mesma religião de que os outros membros têm a mesma forma de encarar o mundo, mesmos valores e mesmas afinidades que elas. Quando um católico vai a uma missa no domingo, ele imagina que as pessoas ao seu redor pensam, se não exatamente da mesma maneira que ele, de maneira parecida, ou, pelo menos, mais parecida do que um sikh, por exemplo, pensaria.

Essa identificação fortalece a afinidade entre as pessoas da mesma religião, ajudando a criar vínculos de amizade, contatos profissionais e sociais, pois o pertencimento a uma mesma congregação inspira automaticamente a confiança nas outras pessoas, ainda que não as se conheça.

No entanto, pode ser também uma faca de dois gumes, dividindo a sociedade em bolhas que não se misturam por diferenças religiosas. Não é raro encontrar famílias que só se relacionam com pessoas que frequentam a mesma igreja que elas. Ou pais e líderes religiosos que defendem apenas o casamento entre pessoas da mesma congregação. Essa tendência pode se agravar com o tempo, até chegar ao seu extremo, que seriam as famigeradas guerras santas.

"Meu Deus é mais justo que o seu! Deixa eu arrancar sua cabeça para provar meu argumento!"

“Meu Deus é mais justo que o seu! Deixe-me arrancar sua cabeça para provar meu argumento!”

3 – Motivação: Quando se tem um grande desafio à frente, quanto mais ajuda se conseguir para superá-lo, melhor. Às vezes esse auxílio pode vir de familiares, amigos, colegas ou até mesmo de desconhecidos.

Mas se essa ajuda puder vir de um ser infinitamente bom, todo poderoso e onisciente, melhor ainda.

Acredito que não há nada que dê maior motivação a uma pessoa religiosa do que crer que a divindade em que acredita está ao seu lado lhe dando forças para vencer o que quer que esteja em seu caminho. Isso dá ânimo para se conquistar vitórias e atingir mudanças que provavelmente não seriam alcançadas se não se contasse com esse apoio.

Essas vitórias podem ser coisas triviais, como passar em uma prova, ou conseguir um emprego muito desejado. Mas essa característica motivacional da religião é muito mais facilmente observável nas conquistas difíceis, como pessoas que deixam as drogas ou a vida criminosa para trás graças à religião. São coisas que provavelmente não aconteceriam se essas pessoas não abraçassem sua fé tão intensamente.

Pode ser questionável o fato de um traficante ou assassino ignorar todo o mal que causou no passado e agir como se tivesse ganho uma nova vida após sua conversão religiosa, ou se a fé cega é um motivo válido para a mudança de atitudes… Mas, independente do juízo de valor que você faça, o fato é que a religião consegue efetivamente mudar as pessoas, e às vezes, essa pode ser uma mudança para melhor.

Pelo menos eu acharia melhor alguém que professasse cegamente uma religião, por mais falsa que ela possa ser, e não cometesse transgressões, do que uma pessoa totalmente racional que contribuísse para o aumento da criminalidade no país.

4 – Caridade: As principais religiões do mundo defendem, de diferentes maneiras, e de um modo geral, a prática da caridade.

Mesmo quando seus seguidores não praticariam boas ações voluntariamente, eles são impelidos a fazê-lo, seja pelo sentimento comunitário citado acima ou por alguma promessa de recompensa que sua religião promova.

Mas não seria melhor que quem promove a caridade por esses motivos o fizesse não porque se sente impelido por sua religião, mas porque sua moral e seu caráter indicam que é a coisa certa a fazer?

Sim, seria. Mas nem sempre as coisas são ideais. Aliás, quase nunca são. E se alguém está praticando uma boa ação como, por exemplo, distribuindo comida para pessoas famintas, eu acho que suas ações são mais importantes que seus motivos. É melhor do que não estar fazendo nada, independente de ele estar fazendo isso porque acha que vai ser recompensado por Deus com riquezas ou vai para o paraíso. E para quem recebe a caridade então, acredito que faça menos diferença ainda.

No entanto, essa característica de promoção da caridade pode ser facilmente desvirtuada em algumas derivações religiosas, sendo aproveitada para o enriquecimento por  parte de alguns líderes religiosos, ou o favorecimento de algum grupo social. Por exemplo, com o dirigente de alguma igreja obrigando sua congregação a votar em determinado político porque ele ajudará a cumprir a missão divina, ou vendendo itens supérfluos a preços exorbitantes para ajudar na “obra de Deus”. Duvida?

Só R$ 200,00? E eu achando que material de construção estava caro no Rio... Imagina a bolha imobiliária no Céu...

Só R$ 200,00? E eu achando que material de construção estava caro no Rio… Imagina a bolha imobiliária no Céu…

5 – Inspiração: As religiões dificilmente são consideradas simples ou de fácil entendimento. Em sua maior parte são compilações de histórias e mitologias complexas, com dezenas de interpretações possíveis e que atravessaram  grandes períodos da história humana, em constante mutação.

Para ser considerado autoridade em alguma religião, normalmente você passa anos estudando suas nuanças, às vezes até mesmo sem acreditar em seus preceitos. Vide os estudiosos atuais das mitologias gregas e romanas, que levam décadas se especializando nessas matérias, mas provavelmente não acreditam na existência de Zeus ou Mercúrio.

Com histórias tão ricas e profundas, as crenças e religiões inspiram o ser humano desde seu surgimento, influenciando na sua maneira de viver, se expressar e se relacionar.

As obras, realizações e artes humanas sofreram e sofrem até hoje essa influência. Os gregos e romanos erigiram diversos monumentos para homenagear suas divindades. Os egípcios construíram umas das maiores maravilhas arquitetônicas impulsionados por suas crenças. Obras primas da arte foram executadas em homenagem à Igreja. Não há uma atividade artística que não tenha sofrido alguma influência de alguma religião no mundo. Música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura, cinema, fotografia, quadrinhos, videogames… basta procurar que você encontrará alguma influência religiosa em qualquer uma delas.

E o irônico é que para receber ou exercer essa inspiração você nem mesmo precisa ser religioso. Basta possuir algum conhecimento cultural e querer expressar alguma coisa, que você inconscientemente já estará sendo inspirado por algo relacionado à religião. Até quando você conversa (“Ai meu Deus”, “Nossa Senhora”).

Esta abrangência cultural da religião não é necessariamente uma coisa ruim. O fato de se sofrer influência da religião não significa que você concorde com ela ou que ela tenha grande relevância em sua vida. Significa apenas que você está inserido em uma cultura impregnada pela religião desde seu surgimento, e que provavelmente ainda estará por um tempo.

Leonardo da Vinci por exemplo, não era nada religioso (há quem diga inclusive que ele era ateu), mas realizou obras primas inspiradas na religião, como A Última Ceia, e A Anunciação. Idem para Michelangelo, o pintor do teto da capela mais famosa do mundo.

Ser inspirado pela religião não é um problema, o problema é deixar a religião se tornar um aspecto dominante em sua vida, deixar a fé cegar sua visão para outras coisas que o mundo tenha a oferecer.

Sem a religião, coisas como essa, por exemplo, não existiriam.

Sem a religião, coisas legais como essa, por exemplo, não existiriam.

E com essa pequena lista, que é bem pessoal, eu acredito que consegui resumir o que eu vejo de positivo nas religiões de uma maneira geral.

Havia mais alguns aspectos positivos nos quais eu pensei, mas acabei achando que, de uma forma ou de outra, eles já estavam inseridos nos que eu mencionei. Se você, ateu ou religioso, quiser contribuir, mencionando algo que eu tenha esquecido ou desconheça, sinta-se a vontade para deixar sua opinião nos comentários.

E talvez agora o leitor esteja pensando: “Mas se você acha que as religiões podem oferecer tantas coisas boas, porque você não é religioso então?”

É uma pergunta válida. E darei dois motivos para eu não ser.

Primeiro, o fato de algo ser positivo ou negativo não faz com que ele seja mais ou menos verdadeiro. O conceito da maioria dos deuses religiosos pode ser uma coisa boa, mas isso não quer dizer que eles sejam reais. Para dar um exemplo frívolo, é só pensar no Papai Noel. Um velhinho que saia distribuindo presentes para crianças comportadas é uma coisa bacana, legal. Mas não quer dizer que ele exista. Então eu não tenho nenhuma religião porque não acredito que a crença de nenhuma delas sejam reais, por mais bem intencionadas que sejam.

Segundo, todos os aspectos positivos mencionados aqui podem ser alcançados sem a necessidade de uma crença no sobrenatural. Uma vida secular pode ter todas as coisas boas que foram citadas acima, sem a necessidade de dogmas, milagres ou irracionalidades.

Então, eu reconheço que, sim, a religião possa ser uma coisa boa; pode fazer as pessoas melhores; pode deixar seus fiéis felizes; pode melhorar o mundo. Só não acredito que elas sejam verdadeiras.

E se o lado positivo da religião compensa seu lado negativo, já é outra história e assunto para outro post.

Aliás, relendo o post agora, eu vejo que ainda consegui descobrir defeitos em quase todas as qualidades que encontrei nas religiões. Talvez eu não tenha nascido para essa coisa de advogado do Diabo, afinal de contas.

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2 Comentários

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2 Respostas para “O Lado Positivo da Religião

  1. TantoFaz

    Excelente texto, cara!

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