Marco Feliciano: Atenção a Qualquer Preço

O autor estadunidense Robert Greene lançou um livro chamado “As 48 Leis do Poder“, que é um guia para pessoas que desejam alcançar o poder e o sucesso profissional ou pessoal.

O livro de Greene sempre me pareceu uma versão atualizada de “O príncipe“, dando vários conselhos que podem até fazer com que você obtenha sucesso e poder, mas não necessariamente tornarão o leitor uma pessoa melhor. Na verdade, boa parte dos conselhos dados pelo autor ignora qualquer convenção ética ou moral e provavelmente faria você ser odiado por seus semelhantes assim que eles percebessem que você está utilizando as táticas demonstradas no livro.

Mas uma dessas leis em específico é interessante para a proposta deste post. A sexta lei do poder de Greene, diz que você deve chamar a atenção a qualquer preço. Nas palavras do próprio autor:

Julga-se tudo pelas aparências: o que não se vê não conta. Não fique perdido no meio da multidão, portanto, ou mergulhado no esquecimento. Destaque-se. Fique visível, a qualquer preço. Atraia as atenções parecendo maior, mais colorido, mais misterioso do que as massa tímidas e amenas.

Isso me soa como uma maneira de refrasear aquele velho ditado: falem bem, ou falem mal, mas falem de mim. Para algumas pessoas é mais importante manter-se embaixo dos holofotes, ainda que para serem vistas com maus olhos, do que sumir no meio da multidão.

Por mais absurdo que essa idéia possa parecer para algumas pessoas, é a única maneira de explicar o porquê de alguns líderes religiosos fazerem questão de estar sempre na mídia, em rodas de discussão, nas redes sociais ou na língua das pessoas, mesmo que seja por atos que a maioria de nós consideraria execráveis.

O pastor/deputado Marco Feliciano é um notável exemplo disso. Ao assumir a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, o deputado atraiu a atenção para si não devido a projetos de lei relevantes ou qualquer atividade ligada a seu mandato parlamentar, mas por opiniões e atitudes expostas antes mesmo de o pastor ter sido eleito deputado.

E agora, a cada dia, novos vídeos e notícias do pastor afirmando coisas abomináveis não param de aparecer na internet. Como este, onde o pastor afirma que John Lennon e os Mamonas Assassinas foram mortos por um castigo divino:

Ou esse, afirmando que Caetano Veloso e Lady Gaga só fizeram sucesso porque têm um pacto com o diabo:

Ou ainda esse, dizendo que a comissão de Direitos Humanos da Câmara era dominada por Satanás:

E eu tenho certeza que em breve aparecerá algum outro vídeo no mesmo tom, em que ele afirmará que a culpa do Brasil ter perdido a Copa de 2006, da crise da Europa e do ataque às torres gêmeas é dos gays e negros, em conluio com o demônio.

Tenho quase certeza que esse cabelinho e essa sobrancelha são coisas do demo também...

Tenho quase certeza que esse cabelinho e essa sobrancelha são coisas do demo também…

Para pessoas normais, demonstrações de ignorância e preconceito como essas causam repulsão, e nos fazem pensar que talvez o pastor não seja somente um ser humano desprezível, mas também tenha alguns parafusos soltos.

Mas ao parar para analisar a situação, pode ser que ele saiba muito bem o que está fazendo e esteja tirando um grande proveito disso tudo.

Até sua nomeação para a presidência da CDHM, poucas pessoas no Brasil (inclusive eu) sabiam quem era o pastor Marco Feliciano. Ele era só mais um pastor entre os milhares de pastores evangélicos existentes no Brasil e mais um deputado entre os componentes da bancada evangélica na câmara.

Após a divulgação de seus tweets e vídeos preconceituosos quando ele assumiu sua nova função, ele passou a ser um dos pastores mais comentados do país, inspirando até manifestações e passeatas populares contra sua nomeação.

Se para uma pessoa normal isso seria uma severa propaganda negativa, para o pastor, no entanto, pode ter um efeito contrário.

Seus fiéis já estão suficientemente doutrinados a ponto de acharem que o pastor é um representante de Deus, e portanto estará certo independente do que diga. E alguns evangélicos que não conheciam o pastor passaram a conhecer e podem considerar essa exposição toda e a firmeza do pastor em manter suas posições como uma característica desejável em um líder religioso, aumentando assim a fileira de fiéis em sua congregação.

A cada declaração odiosa feita por feliciano a aparecer na rede, milhares de pessoas protestam, mas outras milhares concordam com o que o pastor diz e passam a defendê-lo. Não é difícil encontrar em fóruns e blogs pessoas afirmando que concordam com o que ele diz a respeito dos gays e que inclusive votariam nele para presidente caso ele concorresse (vejam os comentários nas páginas dos links).

Assim, ele parece seguir à risca a sexta lei de Greene e estar alcançando seu objetivo. Pergunte a qualquer pessoa com um mínimo de acesso a veículos de notícias quem é Marco Feliciano e ele saberá, independente de ser evangélico ou não. Imagino o aumento de fiéis que essa superexposição causou em sua igreja. Não me surpreenderia se no próximo ano ele conseguisse entrar no Top 5 de pastores evangélicos.

E a ironia disso tudo é que, até mesmo ao escrever este post eu posso estar contribuindo com o aumento da exposição dada ao pastor. O poder de doutrinação das religiões é tão forte que ao criticar um líder religioso e expor sua óbvia perversão, você acaba o fortalecendo.

Talvez a única saída para esse impasse fosse simplemente ignorar o pastor, suas declarações e seus fiéis. Isso já seria quase impossível, já que controlar o que a população vai discutir em mesas de bares ou redes sociais nunca se mostrou uma tarefa muito fácil, ou mesmo admissível em um Estado democrático. Juntando a isso o fato de o pastor possuir o poder de modificar nossa legislação e contar com o potencial apoio de milhões de evangélicos, eu diria que não vislumbro um futuro muito positivo para esse país.

Só nos resta esperar. E torcer.

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1 comentário

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Uma resposta para “Marco Feliciano: Atenção a Qualquer Preço

  1. O post diz exatamente o que penso: toda a ‘novela’ do Feliciano é para chamar atenção;e não só ele, mas vários outros pastores usam essa tática. Porém creio que não usam só para chamar atenção, mas também para desviar atenção.

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