Leitura Recomendada – O Evangelho Segundo Jesus Cristo

A leitura recomendada de hoje é um dos meus livros favoritos: O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo

O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Escrito pelo lusitano e também ateu José Saramago, em 1991, o livro conta a história mais conhecida da cultura ocidental, a de Jesus de Nazaré, porém, de uma perspectiva um pouco diferente da que estamos acostumados a ver.

Para Saramago, a história de Jesus é a história de um ser humano comum que foi escolhido por Deus para ser sacrificado e se vê envolvido no plano divino sem entender ao certo o porquê.

Para quem nunca leu um livro do Saramago, a leitura pode parecer um pouco estranha no começo. O autor possui um estilo próprio de escrita, bastante inusitado. Ele raramente separa seus períodos por pontos, dando preferência às vírgulas. Não usa travessões para indicar os diálogos, utilizando somente letras maiúsculas para indicar quando uma personagem está falando. A linguagem é mantida no português de Portugal (não sei se por exigência do autor ou preferência da editora), o que resulta na utilização de termos pouco familiares aos leitores brasileiros (você sabe o que é um caravançarai?). E seus parágrafos costumam ser gigantescos, tratando de um assunto no começo, tergiversando no meio, até chegar ao final falando de algo totalmente diverso.

Achou complicado? Pois considere-se sortudo por este livro tratar de um relato histórico, assim cada personagem tem seu devido nome. Em vários livros do Saramago, ele sequer se dá ao trabalho de nomeá-las, referindo-se a elas apenas por suas características específicas (a mulher de óculos escuros) ou sua função (o primeiro ministro, a Morte).

Mas, deixe-me lembrar que meu objetivo aqui não é desencorajar a experimentação do livro, e sim incentivar. A leitura pode parecer difícil a princípio, mas eu acredito que seja mais uma questão de se acostumar com o estilo à medida que se vai lendo.

Passada a estranheza inicial, você se acostuma ao jeito Saramago de escrever, e vai percebendo que a leitura flui diferente de outros livros. Não parece que você está lendo alguém descrevendo um cenário, e sim ouvindo essa pessoa em sua mente falando como é o cenário, como alguém falaria se realmente estivesse ao vivo. As conversas não são simples diálogos para se ler, é como estar presente em uma mesa de bar ouvindo duas pessoas conversando. A leitura fica mais dinâmica, embora em algumas ocasiões você ainda precise reler o parágrafo inteiro para entender o que ele está querendo dizer. É algo meio difícil de explicar, então eu vou colocar aqui um trecho do início do livro para demonstrar o que eu quero dizer:

Viviam José e Maria num lugarejo chamado Nazaré, terra de pouco e de poucos, na região de Galiléia, em uma casa igual a quase todas, como um cubo torto feito de tijolos e barro, pobre entre pobres. Invenções de arte arquitectónica, nenhumas, apenas a banalidade uniforme de um modelo incansavelmente repetido. Com o propósito de poupar alguma coisa nos materiais, tinham-na construído na encosta da colina, apoiada ao declive, escavado pelo lado de dentro, deste modo se criando uma parede completa, a fundeira, com a vantagem adicional de ficar facilitado o acesso à açoteia que formava o tecto. Já sabemos ser José carpinteiro de ofício, regularmente hábil no mester, porém sem talentos para perfeições sempre que lhe encomendem obra de mais finura. Estas insuficiências não deveriam escandalizar os impacientes, pois o tempo e a experiência, cada um com seu vagar, ainda não são bastantes para acrescentar, ao ponto de dar-se por isso no trabalho de todos os dias, o saber oficinal e a sensibilidade estética de um homem que mal passou dos vinte anos e vive em terra de tão escassos recursos e ainda menores necessidades…

Esse é um parágrafo típico do Saramago. E ele não acaba ali, continua por mais umas três páginas. Requer sim mais vontade de ler do que um livro normal, mas eu garanto que compensa. É como subir uma trilha árdua, dá trabalho, mas ao chegar ao final, a vista é  a melhor que se poderia ter e vale todo o esforço.

As narrações feitas pelo autor são minuciosas. Ao descrever os cenários, parece que estamos ao lado das personagens vendo a mesma coisa, como o céu que José vê quando acorda, logo nas primeiras páginas. E a imersão no período histórico é profunda, fica nítido que o escritor fez uma extensa pesquisa para escrever o romance.

A Palestina de Saramago, com suas mulheres em completa submissão a uma sociedade estritamente patriarcal, os judeus com seus rituais religiosos arcaicos, a dominação romana na região e diversos saborosos detalhes que não escapam à mente do autor, é ainda mais crível que a mostrada na Bíblia. Saramago nos apresenta uma história ancorada na dura realidade. Maria não é virgem ao conceber Jesus. Este por sua vez tem oito irmãos mais novos e mantém um relacionamento com Magdalena. Os três reis magos eram meros pastores que passavam pela região quando Jesus estava para nascer, e assim por diante.

Ao nos trazer esta versão mais verossímil de uma história já tão conhecida e tantas vezes contada, e tão mitificada, somos levados a imaginar se não foi daquela maneira que os fatos realmente se deram até serem transformados pelo tempo, culturas, necessidades religiosas e políticas na história fabulosa que se tornou hoje.

Mas é claro que, contando a história que conta, não poderiam faltar elementos místicos, como a visita de anjos, premonições em sonhos ou a presença de Deus e Satanás, mas mesmo assim, parece que esses acontecimentos extraordinários que se adaptam à realidade ao invés do contrário. Assim, quando, por exemplo, Jesus expulsa os demônios que possuíam um cidadão e os manda para os porcos, Saramago em uma sacada genial nos mostra as consequências do ocorrido e o problema que isso geraria para o dono dos suínos.

Essa, aliás, é outra característica típica de Saramago, usar da fina ironia e sarcasmo para expor suas críticas. Diálogos e afirmações que pareceriam absurdos caso ocorressem em outro contexto soam naturais para as situações apresentadas, mas nem por isso menos absurdos, como a séria discussão travada pelas autoridades religiosas locais a respeito do que fazer com uma tigela cheia de terra.

Mas o clímax do livro se encontra mesmo em sua parte final, quando Jesus se encontra com Deus e Satanás em um barquinho no meio do mar para discutir o seu papel nos planos divinos. Aqui o diálogo travado entre as partes deixa transparecer os pensamentos de Saramago sobre o Cristianismo e religiões em geral e os equívocos humanos realizados em nome de Deus. É um diálogo primoroso, carregado de ironia e que, em minha humilde opinião, rivaliza com qualquer coisa que Shakespeare tenha escrito. O colóquio por si só já valeria a leitura do livro. Fazer uma lista com o nome de todos os mártires da Igreja Católica e manter a atenção do leitor enquanto lê não é pra qualquer um.

E é claro que com essa abordagem um tanto quanto diferenciada de uma história tão controversa, o autor sofreu acusações de ofensa à religião da parte de diversos setores da Igreja Católica. O ex-Arcebispo de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, classificou a obra como “uma delirante vida de Cristo” e desqualifica o autor por ser um “ateu confesso e comunista impenitente“. A pressão por parte dos setores religiosos fez com que o então subsecretário de Estado da Cultura, António de Sousa Lara, retirasse a obra de Saramago de uma lista de concorrentes ao Prêmio Literário Europeu. Em represália a esta atitude do governo português, que Saramago considerou como censura, o autor mudou-se de Portugal para as ilhas Canárias, na Espanha, onde permaneceu até o fim de sua vida.

Aliás, considerar o livro como uma versão delirante da vida de Cristo não faz o menor sentido. O simples fato de algo estar na Bíblia não significa que esse algo seja real. Você pode até acreditar que seja, mas querer que todas as outras pessoas também o façam que é delirante.

De fato, a própria Bíblia deixa de cobrir uma grande parte da vida de Jesus, então o autor cria livremente sua história preenchendo essas lacunas deixadas pelas escrituras bíblicas e utilizando da livre interpretação dos evangelhos já existentes para imaginar como realmente ocorreram os fatos ali relatados. Muitas das passagens escritas pelo autor estão presentes na Bíblia, porém com menores detalhes. A meu ver Saramago (ou qualquer outra pessoa) tem tanta credibilidade para escrever sobre os fatos passados quanto tinham as pessoas que escreveram os evangelhos oficiais décadas depois dos fatos ocorridos. E afirmar que um ateu não pode escrever sobre a vida de Jesus por não acreditar na Bíblia é o mesmo que afirmar que um pesquisador moderno não pode escrever sobre Zeus, Rá ou Quetzalcoatl. O fato de não se acreditar em algonão significa que você não o conheça e não possa discorrer sobre ele.

Afirmações como a do arcebispo só fazem sentido para quem acredita na literalidade da Bíblia e se sente ofendido pelo fato de alguém não o fazer. É meio óbvio que o autor não espera que seu romance substitua a crença das pessoas que acreditam que os relatos bíblicos são a verdade absoluta. Ele apenas oferece uma versão diferente da história. Se eu me meter a escrever uma versão diferente da Odisséia, o arcebispo julgaria se tratar de uma visão delirante da vida de Ulisses? Pois para quem vê a Bíblia apenas como literatura, não há diferença nenhuma entre uma coisa e outra. Querer censurar a venda de um livro apenas por discordar de seu conteúdo nos remete a tempos mais obscuros da história da Igreja Católica. E cá entre nós, se a sua fé é abalada com a mera leitura de uma obra de ficção, eu não acho que o problema esteja na obra, e sim no que você acredita.

Então, se você acha que se sentirá ofendido com a simples leitura do livro, não o leia. Mas tenha consciência que, ao deixar de fazê-lo, você estará negligenciando uma grande obra literária, que não só diverte, mas também nos faz refletir sobre nossa condição existencial.

I.S.B.N.: 978-8-5716420-9-6

Título original: O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Autor: José Saramago

Editora: Companhia das Letras – 31/10/1991

Origem: Portugal

N° de páginas: 448

Dimensões: 21 x 14 x 2,3 cm

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Leitura Recomendada

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s