Ora, Que Melhora?

-“Vou rezar por você”.

-“Estaremos orando para que isso aconteça”.

-“Peça a Deus, que ele ajuda”.

-“Ora que melhora”.

Quantas vezes você já ouviu alguma das frases acima ou variantes parecidas?

Vivemos em uma sociedade que valoriza a oração como uma coisa positiva. Ela seria uma forma eficaz de comunicação com o poder divino, para que você possa fazer pedidos ou agradecer pessoalmente pelas dádivas permitidas em sua vida.

É comum, por exemplo, na ocorrência de uma tragédia, ouvirmos pessoas dizendo que irão rezar para Deus dar conforto às famílias das vítimas. Ou, na véspera de uma prova, um estudante rezar pedindo para que Deus o ilumine durante a avaliação.

É natural que, sendo ateu, orações não façam muito sentido para mim. Eu particularmente nunca entendi direito pra que rezar pedindo ou agradecendo por algo a um deus que supostamente é onisciente e, portanto, já deveria saber do que você precisa ou se você está realmente agradecido e pelo quê. Além disso, me parece ser muita prepotência achar que um deus onipotente irá modificar o andamento do cosmos apenas para atender aos seus desejos pessoais.

Suponhamos, por exemplo, que eu rezasse para uma divindade pedindo para ficar rico, e não fosse atendido. O que isso significa? Que isso não fazia parte dos planos de Deus para mim? Mas então se Deus já tinha um plano, de que adianta pedir algo para ele se esse plano já vai ser realizado da maneira que ele determinou, independente do que eu peça?

Ou significa que eu não pedi com convicção suficiente? Então um doente que pede com muita fé para ter sua doença curada não deveria ser sempre atendido? Eu desconfio que um crente que possua um câncer terminal e acredita que deus pode curá-lo milagrosamente reze com fé suficiente ao pedir isso. Milagres como o do cego que voltou a enxergar ou de mortos voltando à vida seriam corriqueiros se as orações dependessem apenas da fé do orador.

E quando duas pessoas rezassem com o mesmo fervor, pedindo coisas incompatíveis, como por exemplo, que dois times diferentes fossem campeões? Se um fosse atendido, o outro deixaria de ser, o que tornaria a oração de pelo menos um deles completamente inútil. Ou então o resultado seria um empate eterno, o que acabaria, no fim das contas, anulando os pedidos iniciais. Me vem à mente aquela cena do filme Todo Poderoso em que todos que pedem para ganhar na loteria são atendidos e acabam ganhando centavos como prêmio.

Pode até parecer brincadeira, mas alguns cientistas já levaram essa questão mais a sério, a ponto de fazerem pesquisas visando confirmar se orações feitas em favor de um grupo de doentes produziam algum efeito em sua recuperação. Os resultados de todos os experimentos sérios elaborados não demonstraram diferença nenhuma entre os grupos que receberam orações e os que não receberam.

Ora que melhora não acontece nada.

Ora que melhora não acontece nada.

Há os que digam que experiências desse tipo não são válidas, pois rezar sem fé, apenas para aferição científica, não tem a mesma eficiência de uma oração verdadeira. Mas, além dessa afirmação ser duvidável (afinal, onde está o manual de instruções das orações dizendo quais funcionam e quais não funcionam), muitas orações “genuínas” também não funcionam na prática.

No entanto, uma coisa eu tenho que admitir. Embora uma oração por si só provavelmente não faça nada acontecer, acredito que ela possa ter um grande efeito psicológico na pessoa que acredita nela.

E o motivo para isso é o mesmo pelo qual as pessoas religiosas tendem a acreditar que vão encontrar seus entes queridos em um lugar melhor após a morte, ou que os transgressores nesta vida serão castigados com a ida ao inferno. A busca pelo reconforto. O pensamento de que deus está ao seu lado lhe dando apoio em qualquer coisa que você faça é consolador.

Afinal, o fato de você ter que enfrentar uma prova difícil sozinho é muito duro. Pensar que um deus onisciente está ao seu lado torna esse fardo mais leve. Aguentar uma doença terminal solitariamente é árduo. Mesmo que seus parentes e amigos estejam a seu lado em situações como essa, eles não têm como saber exatamente como você se sente, apenas você sabe isso. Imaginar que uma entidade divina que pode tudo também sabe exatamente pelo que você está passando e está ao seu lado para te apoiar é animador.

E esse efeito alentador e calmante na verdade é o que muitas vezes acaba ajudando as pessoas a verem as situações com mais clareza, ou agirem com mais calma e acharem a solução para o problema em que se encontram. Assim como um maratonista renova suas forças ao perceber o incentivo da torcida à sua volta, crer na presença de um deus ao teu lado te apoiando traz um certo alento.

A meu ver, esse é o verdadeiro poder da oração. Servir como uma muleta emocional aos que nela crêem. Ou, melhor comparando, servir como um placebo psicológico. Basta acreditar que ela vai fazer efeito para que ela faça, independente de isso ser verdadeiro ou não.

No entanto, esses resultados são meramente pessoais, e não têm nenhum efeito no mundo exterior. É provável que as orações que parecem causar algum efeito no mundo à sua volta o façam por mero acaso. Os resultados alcançados seriam os mesmos, com ou sem a reza.

Experimente por exemplo, atravessar a rua sem olhar para os lados, apenas rezando para que deus não permita que nenhum carro o atinja. O resultado provavelmente seria mais uma morte para as estatísticas de vítimas de trânsito. Mas se você o fizer tomando cuidado e calculando a melhor hora para atravessar, vai chegar ao outro lado sem um arranhão e sem necessidade nenhuma da intervenção divina. Então para que serve rezar?

Embora este pareça um exemplo frívolo, lembre-se que trata-se de uma questão de vida ou morte. E situações como essa podem ocorrer o tempo todo, em que você depende apenas de suas ações, ou das de outras pessoas para afetar os resultados dos acontecimentos. Estude com afinco para a prova e você aumentará suas chances de passar. Trate-se com um médico renomado e com os melhores remédios disponíveis e suas chances de curar uma doença irão aumentar. E sem necessidade nenhuma de um poder divino afetando os resultados.

É compreensível que para alguém que passou a vida inteira crendo que uma entidade divina esteve sempre ao seu lado o amparando, imaginar que não há ninguém possa ser aterrador. Para mim, no entanto, foi libertador perceber que eu dependia apenas de mim mesmo e das pessoas à minha volta para resolver a minha vida.

Hoje em dia eu acho muito mais reconfortante pensar que eu dependo mais do meu próprio esforço para tomar as rédeas da minha vida do que ficar dependendo do humor de uma entidade divina que sabe-se lá que rumo gostaria de dar à minha existência.

Como alguém já disse antes, rezar é a melhor maneira de não fazer nada e achar que está ajudando. Então sempre que alguém diz que irá rezar para que eu consiga algo ou que estará orando para que conquiste o que eu desejo, eu reconheço as boas intenções nas palavras da pessoa. Mas não consigo deixar de imaginar que ela estaria me fazendo um favor maior se fizesse algo que efetivamente fosse me ajudar. Ou, sei lá, pelo menos preparasse um sanduíche enquanto eu me esforço para conseguir o que quero.

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