Habemus Papam…. e daí?

Em seguida à surpreendente renúncia do papa Bento XVI, seu sucessor já foi eleito anteontem, no segundo dia de conclave. Jorge Mario Bergoglio, cardeal de Buenos Aires tornou-se o Papa Francisco I, o primeiro sul-americano eleito para o cargo de Sumo Pontífice.

E o que isso significa para um ateu?

Bem, a princípio… nada. Pelo menos diretamente não faz diferença nenhuma para mim quem é o novo Papa, já que atualmente a Igreja Católica e suas decisões têm uma importância quase nula em meu modo de pensar e agir.

Porém, ninguém é uma ilha. Embora eu pessoalmente não ligue para os ditames do Vaticano, moro em um país cuja população é composta por 64% de católicos.  Viver em sociedade significa que eu dependo tanto dos católicos quanto eles dependem de mim. E se a visão deles será influenciada pelo novo papa, posso afirmar que essa escolha terá alguma relevância em minha vida, se não direta, pelo menos indiretamente.

Então, que mudanças será que o novo papa trará para sua igreja? Finalmente ele vai começar uma renovação nos modos de pensar e agir de sua congregação? Qual será sua posição em relação a temas espinhosos para a Santa Sé, como casamento gay, aborto, métodos contraceptivos, eutanásia, celibato, pedofilia, pesquisas com células tronco, ordenação de mulheres etc? Será que ele ajudará a comunidade católica a dar um passo além do pensamento medieval que permeia sua religião?

Infelizmente parece que não poderemos esperar muitas mudanças em relação a quaisquer desses temas. De acordo com o repórter John L. Allen Jr. do National Catholic Reporter, o papa Francisco tem um posição extremamente conservadora quanto aos assuntos mais delicados da doutrina católica:

“Bergoglio é visto como um ortodoxo ferrenho em questões de moral sexual, firmemente contra o aborto, o casamento homossexual e contracepção. Em 2010 ele afirmou que a adoção gay é uma forma de discriminação contra as crianças, ganhando uma reprimenda pública da presidente da Argentina Cristina Fernández de Kirchner.”

Renovando a Igreja Católica para o novo Milênio! Só que ao contrário...

Renovando a Igreja Católica para o novo Milênio! Só que ao contrário…

John Allen, se refere à carta aberta publicada no periódico L`Osservatore Romano, o “jornal do papa”, e direcionada às irmãs carmelitas de cada um dos quatro monastérios na Argentina, onde o então cardeal Jorge Mario, escreveu a respeito de uma proposta de lei apresentada em seu país e que poderia trazer “sérios danos à família”, condenando-a duramente. Em suas próprias palavras:

“Nas próximas semanas o povo argentino irá enfrentar uma situação cujo resultado pode causar sérios danos à família… Em jogo estão a identidade e a sobrevivência da família: pai, mãe e filho. Em jogo estão as vidas de muitas crianças que sofrerão com o preconceito, e serão privadas de um desenvolvimento humano dado por um pai, uma mãe e desejado por Deus. Em jogo está a total rejeição das leis de Deus, gravadas em nossos corações… Não sejamos inocentes: essa não é uma simples disputa política, mas uma tentativa de destruir os planos de Deus. Não é só uma proposta (um mero instrumento) mas uma `jogada´ do pai da mentira, que busca confundir e enganar os filhos de Deus.”

Ao ler estas palavras, uma imaginação fértil seria insuficiente para se imaginar do que o cardeal Jorge falava. Afinal, o que essa proposta de lei intencionava? Obrigar os pais com filhos a se divorciarem? Forçar famílias que se amam a viverem separadas? Matar o primogênito de cada família que não seguisse a religião considerada correta?

Não, simplesmente permitir que casais homossexuais formalizassem sua união civil e pudessem adotar filhos. Sim, para o atual líder da Igreja Católica, um casal gay tirar uma criança abandonada do orfanato e dar um lar, amor e carinho a ela é  equivalente a uma operação secreta comandada pelo Satanás.

Ele só parece ter se esquecido de um pequeno detalhe em sua carta: a situação que ele descreveu englobaria também famílias cujos pais são separados, solteiros ou em que um dos genitores é falecido, que é inclusive meu caso. Minha mãe faleceu quando eu era bem pequeno, então acho que, segundo a lógica do atual papa, eu fui privado do desenvolvimento humano desejado por Deus. Bom, mas se fazia parte dos planos dele, então tudo bem, não é, fazer o quê?

Felizmente o parlamento argentino, que, se comparado ao brasileiro, pelo menos nesse ponto parece ser bem menos submisso aos interesses da cúria romana, ignorou os apelos do cardeal e o casamento e adoção gays foram aprovados naquele mesmo ano. E eu não sei quanto a vocês, mas eu ainda não ouvi falar do surgimento do Anticristo em solos argentinos até o momento.

Em relação ao aborto também não parece que haverá uma mudança muito profunda na mentalidade papal. Em setembro de 2007, ocorreu na Argentina um caso de estupro que causou grande comoção internacional. Uma mulher com deficiência mental foi estuprada e engravidou do malfeitor. Sua família pretendia realizar o aborto da criança e recebeu, inclusive, o apoio do Ministro da Saúde. A opinião do cardeal à respeito?

“…na Argentina nós já instituímos a pena de morte. Uma criança concebida através do estupro de uma deficiente mental pode ser condenada à morte… Nós deveríamos nos dedicar à “coerência eucarística”, ou seja, devemos ter consciência que as pessoas não podem receber a sagrada comunhão e ao mesmo tempo agir ou falar contar os mandamentos, em particular quando o aborto, a eutanásia e outros crimes sérios contra a vida e a família são facilitados.”

A última frase foi publicada na versão final de um texto chamado de “documento de Aparecida“, apresentado no momento pelo cardeal e que representava o pensamento de vários bispos latino-americanos a respeito da situação da igreja em seus países.

Tendo por base as declarações do agora papa nessas ocasiões, eu tenho a impressão que sua posição quanto aos outros assuntos polêmicos sobre os quais a Igreja insiste em estabelecer regras também não seria muito diferente das posições anteriores ao seu papado. Eu ficaria muito surpreso se houvesse alguma drástica mudança na direção da Igreja Católica nos próximos anos.

Devemos nos conformar então. Os dogmas, idéias e normas que influenciam atualmente mais de 120 milhões de brasileiros, nosso governo e nossa cultura de maneira geral provavelmente não serão muito diferentes do que foram nas últimas décadas… ou séculos, dependendo de qual deles esteja sendo referido. Eles não farão diferença para quem não acredita em Deus, mas pode ter certeza que farão diferença para quem vai fazer as leis que você terá que seguir nos próximos anos.

Por outro lado, se o Vaticano realmente continuar insistindo em defender uma mentalidade da Idade Média em pleno século XXI ele mesmo estará selando seu destino de tornar-se irrelevante. Quanto mais autoritária e desconectada  da realidade a igreja católica insistir em ser, mais fiéis farão questão de não se alinharem a seu rebanho.

Como eu já disse anteriormente, é provável que a igreja católica em breve não precise de nenhum antagonista, ela mesma está fazendo um belo trabalho em se tornar a responsável por seu declínio.

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