Religião, Ateísmo e a Moral

Se você é ateu e já tornou pública sua falta de crença, provavelmente já deve ter ouvido uma dessas frases: “Se você não tem Deus no coração não pode ser uma boa pessoa.” ou “Se você não acredita no inferno, o que o impede de fazer o mal?”

Um dos maiores equívocos cometidos pelas pessoas de fé em relação aos ateus é acreditarem que por não serem tementes a nenhum Deus, eles são más pessoas. É claro que isso não é necessariamente verdade. Embora possa haver ateus maus, provavelmente não é o fato de não acreditar em divindades que faz com que eles sejam assim. Assim como uma pessoa que acredita em Deus não é necessariamente boa.

Mas então o que nos faz sermos bons ou maus? O que nos impede de sermos criaturas egoístas e frias? Se não agimos baseados na condução divina, qual é a nossa bússola moral? Por que um ateu iria precisar ou querer ser bom?

Desde a antiguidade o homem se questiona o que é fazer o bem e o que é fazer o mal. Sócrates, Platão e Aristóteles, por exemplo, esforçaram-se em definir o que seriam a ética e a moral, que deveriam guiar o comportamento dos homens gregos. Na filosofia oriental, Confúcio afirmava que a virtude consistia na busca pelo Tao, a harmonia do universo. Durante séculos essas definições mudavam, dependendo de quem as tentava definir e da cultura que as originavam.

Com a ascensão da Igreja Católica Romana, na Idade Medieval, o conceito de ética e moral ficou intrinsecamente atrelado à religião. Você só poderia ser uma pessoa boa caso seguisse os ensinamentos cristãos e fosse obediente às leis divinas. Analisando-se os pormenores, pode-se notar que boa parte dos conceitos filosóficos de bem e mal adotados pela Igreja Católica nessa época era advinda da filosofia clássica, porém encobertas com uma roupagem religiosa para que fossem difundidos pela Cúria Romana.

Assim, conceitos básicos de ética e moral ficaram associados a outros, como o da recompensa divina por bons comportamentos e o da punição por má conduta. Essa postura é muito útil quando se tem interesse em angariar fiéis para seguir sua religião, pois faz com que as pessoas acreditem que a única maneira de se agir corretamente é seguindo o que sua instituição disser que é o correto. Basta ver as palavras do Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias:

A atual campanha publicitária contra a Igreja faz-nos esquecer uma verdade da qual a história nos dá um inequívoco testemunho: foi a Igreja Católica que livrou o mundo da imoralidade, e é porque está rejeitando a Igreja que o mundo tem afundado novamente no lodo do qual foi resgatado.

Sim, claro, a Igreja Católica é um ícone da ética, e antes de ela existir, o mundo chafurdava no lodo da imoralidade.

fogueira

A Igreja Católica na Idade Média pondo em prática sua idéia de moral e ética. (Daqui)

Essa mentalidade só passou a mudar a partir do iluminismo, quando filósofos como Immanuel Kant, Voltaire, John Locke e Montesquieu, começam a retirar da religião o papel de condutora moral da humanidade e a devolver ao mundo a noção que fazer o bem depende muito mais do próprio ser humano do que de ordens de uma entidade divina.

Mas o fato é que, originando-se na religião ou no humanismo, a idéia do que é fazer o bem pareceu sempre remeter a um mesmo comportamento, a chamada regra de ouro: faça aos outros somente o que você quer que seja feito com você. Diferentes pensadores afirmaram essa máxima de diferentes maneiras, desde Buda, passando por Jesus Cristo, a John Lennon.

Embora essa seja uma boa premissa básica que pode servir como um alicerce ético para qualquer pessoa ou sociedade – independente da crença – a regra de ouro não é o suficiente para se praticar plenamente o bem. O problema com esta regra é que ela demanda que a sua visão do que é o bem seja igual a dos outros. Se eu, por exemplo, achasse legal receber abraços de estranhos quando saísse à rua, eu poderia fazer o mesmo com as outras pessoas, achando que estava fazendo uma coisa boa, mas provavelmente só as incomodaria. Se eu achasse que é uma boa coisa pregar a palavra divina escrita nos textos bíblicos, vou buscar sempre fazer isso para o máximo de pessoas, mesmo para as que estão em um trem lotado voltando do trabalho cansadas e só querendo paz. Imagine se um sadomasoquista resolvesse seguir esta regra em seu cotidiano.

Percebendo este problema, pensadores mais modernos chegaram a regra de platina, que não substitui a de ouro, mas deve ser usada em conjunto com ela: fazer aos outros o que ELES querem que seja feito. Isso retira o egocentrismo da regra de ouro de achar que você sempre sabe o que será o melhor para os outros só porque sabe o que é o melhor para você e faz com que você ofereça às outras pessoas o que elas esperam.

Posteriormente já surgiram até algumas derivações da regra de platina, que dizem que devemos fazer aos outros mais do que eles mesmos esperam ou que devemos fazer ao outro o que eles gostariam até o ponto que não atrapalhe o que gostaríamos que eles fizessem por nós…

Como se pode perceber até mesmo uma regra que parecia simples pode se tornar complicada quando analisada a fundo. Por minha vez, eu tento seguir sempre a  seguinte diretriz ética: o que é bom é o que torna as pessoas felizes e não atrapalha a felicidade dos outros. Assim, eu tento sempre buscar a minha felicidade e ajudar os outros a buscar a deles (ou pelo menos não atrapalhar essa busca). É uma regra relativamente simples e que parece estar funcionando até o  momento.

A meu ver, essa definição resolve, se não totalmente, pelo menos a contento a questão do que é o bem. Porém, ainda não justifica a sua prática.

Se não há recompensa nenhuma em ajudar os outros a buscar a felicidade ou se será mais vantajoso pra mim atrapalhá-los nessa busca, por que agir da maneira que eu consideraria como a “boa”? Não seria melhor para mim ser egoísta e buscar sempre o que for melhor pra mim, independente da consequência que isso trará para os outros?

Talvez se as pessoas não vivessem em sociedade esse pensamento fosse válido. Porém o ser humano é um ser social, nós dependemos um do outro para viver. Por mais independente que você seja, ninguém é uma ilha. Mais cedo ou mais tarde, iremos precisar de outra pessoa. E se você não agir de maneira decente com os outros à sua volta, dificilmente eles o tratarão de maneira diferente quando você precisar.

Mas então isso implica em dizer que nós devemos fazer o bem apenas porque  também queremos recebê-lo de outras pessoas? No fundo isso não é apenas um comportamento que também busca a  recompensa, não muito diferente de fazer o bem apenas porque se espera uma retribuição divina ou a ida ao paraíso após a morte?

Não necessariamente. Eu não acho que esse seja o único motivo para querermos fazer o bem a outras pessoas. Há outros deles e o principal talvez seja a empatia, a capacidade de se colocar no lugar da outra pessoa e sentir o que ela está sentindo. Pessoas normais geralmente fazem o bem aos outros não só porque gostariam de recebê-lo de volta, mas porque elas mesmas não gostariam de passar por uma situação ruim.

E esse ponto de vista pode ser praticado por qualquer ser humano que não tenha um grave desvio psicológico, seja ele crente ou ateu. Sim, nós não acreditamos em deuses, mas isso não significa que somos maus, adoramos o demônio, odiamos os crentes, somos rebeldes, nervosos e queremos destruir as religiões. Claro que alguns podem possuir alguns desse traços, ou todos eles, mas eu desconfio que seja uma minoria inexpressiva.

Falando por mim mesmo, pelo menos, eu diria que me considero uma boa pessoa. Mas, por outro lado, não são todos que se consideram assim?

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1 comentário

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Uma resposta para “Religião, Ateísmo e a Moral

  1. Luís Carlos (anão)

    Sim!… Sou ateu… e daí?…

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