Leitura recomendada – Generation Atheist

Esse post estreia uma nova série no blog, que eu vou chamar de Leitura Recomendada. Nela, eu vou eventualmente falar sobre algum livro que trate de ateísmo, de religião ou qualquer outro tema relevante que gire em torno desse universo.

Minha idéia inicial era começar a série com um outro livro, não este que eu vou apresentar aqui. Porém, este primeiro post especificamente será especial na série, diferente dos demais, pois além de falar do livro, eu consegui entrar em contato com o seu autor, um camarada excepcional, que não só me enviou uma cópia da obra de presente como me autorizou a traduzir um dos capítulos do livro e reproduzí-lo aqui na íntegra.

O nome do livro é Generation Atheist (Geração Atéia, em tradução livre), do autor Dan Riley, e conta a história de 25 ateus estadunidenses, mostrando as trajetórias que os levaram ao ateísmo e como isso afetou suas vidas. Dan Riley trabalha no Center for Inquiry, uma organização não governamental norte americana que busca assegurar a laicidade do Estado e uma sociedade humanista.

generationatheist

Generation Atheist

Infelizmente o livro ainda não foi publicado no Brasil, então quem tiver interesse em lê-lo terá que importá-lo ou comprar a versão digital para ler no Kindle ou outro e-reader, e, por enquanto, só em inglês. A versão em papel pode ser comprada aqui, e a versão digital aqui.

Cada capítulo conta a história de uma das pessoas entrevistadas. Havia muitos capítulos interessantes no livro, alguns inclusive eram mais tocantes do que o que eu escolhi traduzir. Porém eu achei que a história a seguir seria de maior identificação para o público brasileiro, por se tratar de uma jovem ex-católica que se descobre atéia e se vê inserida em uma sociedade predominantemente cristã, até que um dia resolve lutar contra a imposição religiosa promovida pelo Estado, em sua escola. Essa é a história de Jessica Ahlquist:

Jessica Ahlquist sempre foi uma pessoa sensível. Ela chorou em sala de aula quando aprendeu sobre a escravidão na região sul pré-guerra civil. Ela chorou em sala de aula quando aprendeu que o Terceiro Reich massacrou os judeus. Com o que ela vivenciou nos últimos dois anos, é de se imaginar que um rio de lágrimas correria de Cranston até Providence. Mas não foi isso o que ocorreu; ela diz que agora se sente mais confiante do que nunca.

Atéia desde os 10 anos, ela atualmente é uma estudante da escola pública secundária Cranston High School West, em Cranston, Rhode Island. Ela notou um cartaz com uma prece no auditório de sua escola em seu primeiro ano. Ela soube que a prece, dirigida a um deus no céu, já era um problema. A ACLU (American Civil Liberties Union – União de Liberdades Civis Americana) já havia sido contactada por um dos pais de alunos, e um subcomitê foi formado para se decidir o que fazer a respeito. Em sua reunião final, o subcomitê, do qual o superintendente da escola fazia parte, chegou a uma votação de 4-3 para manter a prece.

Apesar das ameaças e da perseguição, Jessica se aliou à ACLU e entrou com um processo contra a escola. Ela encontrou apoio online durante seu ativismo. De acordo com ela, o seu envolvimento no movimento secular mostrou que “há muitas pessoas que se importam – e essa foi a melhor parte de tudo isso.”

II

Jessica Ahlquist: Coragem em Cranston

 Eu sou a mais velha de quatro filhos. Eu tenho uma irmã e dois irmãos mais novos. Meu pai é ateu desde sua adolescência. No entanto, ele não criou a mim e a minha família desse jeito. Eu sempre tive a liberdade de fazer e acreditar no que quisesse. Minha família se identificava como católica, mas eu não acho que nós éramos tradicionais. Eu ia na missa em homenagem a membros da família que faleciam, mas era basicamente isso. Minha mãe fazia parte de um grupo religioso chamado Ciência da Mente; eles acreditam que podem controlar ou manipular o universo através de suas próprias mentes e que o ato de pensar positivo terá automaticamente um impacto positivo nas coisas que acontecem em suas vidas.

Quando eu era mais jovem eu acreditava em Deus, principalmente porque eu acreditava em tudo que me ensinavam. Eu achava que havia um Deus no céu olhando para todos nos, cuidando de nós e nos observando. Quando eu fiquei mais velha, comecei a questionar as coisas. Eu estava ficando mais interessada nas grandes questões, ficando menos infantil. Os irmãos do meu pai são ateus, e uma boa parte do lado da família do meu pai é secular, então eu os ouvia conversando a respeito de questões religiosas. Isso atiçou uma curiosidade que causou uma reação em cadeia. Eu comecei a pesquisar mais e a fazer perguntas ao meu pai. Eventualmente, eu simplesmente decidi que não acreditava em nada disso.

Uma reviravolta em minha vida desafiou o meu distanciamento da fé. Quando eu tinha 10 anos, minha família se mudou para um setor rural de Rhode Island, e nós vivemos lá somente por um ano. Enquanto estávamos lá, minha mãe desenvolveu uma doença mental e ficou muito deprimida. Ela desenvolveu sintomas de psicose. Ela parou de comer completamente, perdeu muito peso e estava muito adoentada. Era assustador; eu estava preocupada com ela e com toda minha família. Eu lembro de me sentir desesperançosa. Sem ter mais para onde correr, eu decidi orar. E quando nada aconteceu por um ano inteiro, eu me senti enganada, traída. Eu percebi, finalmente, que Deus não estava nos ajudando porque Deus não existe.

Eu sempre fiquei muito chateada com as coisas que eu considerava injustas, e por causa disso eu sempre fui muito sensível. Na quinta série, por exemplo, meus colegas e eu estávamos aprendendo a história da escravidão na América. Eu estava no fundo da sala, chorando. As outras crianças da minha sala estavam zombando de mim porque elas achavam que eu era uma tonta por estar chorando, mas eu não conseguia evitar minha comoção com isso. Então novamente, na oitava série, eu aprendi a respeito do holocausto e tive a mesma reação. Em certo ponto, durante minhas próprias pesquisas independentes, eu descobri que Hitler era católico e queria se tornar um padre. Não haviam me ensinado isso na escola. Em minha juventude eu sempre fui ensinada a ver as pessoas religiosas como caridosas. Nunca fui exposta ao  lado mais negro da coisa. O holocausto envolveu religiosidade. Eu acho que isso me fez começar a perceber que ser religioso não necessariamente leva a um comportamento virtuoso.

Eu cresci em uma região muito religiosa, muito católica e eu estava ciente de que se eu “saísse do armário” como atéia eu provavelmente seria desprezada por muitos dos meus conhecidos. Durante um bom tempo, eu não contei a ninguém. Eu mentia para as pessoas e falava para elas que eu era cristã. Eu era meio nerd e não queria perder os poucos amigos que eu tinha.

Nos meus anos de ensino médio, eu conheci a minha amiga Taylor. Assim que eu a conheci ela era muito religiosa, muito católica. Uma vez eu estava na sua casa, e íamos passar a noite lá. Naquele ponto eu já era uma atéia completa, mas eu não havia contado isso a ela. Ao invés de ficarmos pintando as unhas ou passando maquiagem, eu peguei o computador dela e nos conectamos. Eu entrei no site godisimaginary.com e comecei a mostrá-la. Enquanto nós víamos o site, ela estava muito curiosa, e eu estava contente de vê-la assim. Um mês depois, ela se declarou atéia. Minha outra amiga, Alex, que eu conheci entre a sétima e oitava série era, a princípio, meio religiosa. Nós começamos a conversar mais a respeito de religião e, com o tempo, ela também percebeu que era uma atéia. Isso foi maravilhoso pra mim. Me fez sentir um pouco mais segura. Essas são minhas melhores amigas, e eu tive muita sorte de tê-las.

Eu também fui incrivelmente sortuda por ter nascido nessa época, com a internet, em minha infância, crescendo e questionando as coisas. Isso me permitiu encontrar muitos recursos que me influenciaram. Durante a maior parte da minha vida eu não soube que existiam outros ateus. Eu pensei que minha família e eu éramos os únicos por aqui.

O resto da minha história começa no final do meu primeiro ano do ensino médio. Minha amiga Taylor estava no auditório da nossa escola e viu um cartaz do colégio com uma prece. Ela me contou isso e eu corri para dar uma olhada. Eu fiquei em choque; nunca soube que aquilo estava lá. O cartaz pede a Deus que ajude a escola e permita que todos nos demos bem e nos entendamos uns com os outros. E termina com a palavra “amém”. É uma mensagem positiva, mas está pedindo a Deus que nos permita fazer as coisas ao invés de pedir que nós mesmos façamos. Me senti intimidada com isso.

Eu imediatamente perguntei ao meu pai se isso era legal; ele disse que achava que não. Quando eu cheguei em casa da escola, comecei a falar mais a respeito disso. Eu imaginava que tais demonstrações religiosas pudessem ocorrer no sul, ou anos atrás, mas não na minha escola, não nos dias atuais. Eu lembro de ter pesquisado um pouco online para saber se outros casos como esse já haviam ocorrido no passado, porque eu queria saber o que fazer. Eu queria dizer algo. Eu queria levar isso à administração. Mas eu também estava muito assustada porque a maior parte das pessoas na minha comunidade presumem que você é religioso a menos que você diga o contrário. Eu ainda estava considerando minhas opções quando as férias chegaram. Eu fiquei curiosa a respeito disso o verão inteiro. Em julho eu descobri que houve um pai que enviou uma reclamação à ACLU a respeito da prece. A ACLU pediu à escola que a removesse e a escola, em resposta, reuniu um subcomitê para decidir o que fazer.

A primeira reunião a que compareci foi em novembro de 2010. Eu tinha a impressão que eu chegaria lá e aquela reunião seria só uma formalidade, que eles tinham que fazê-la por causa de tecnicalidades. Eu presumi que o subcomitê perceberia que a prece era ilegal e a retiraria. Pensei que estava indo somente como uma observadora. Eu estava planejando falar se eu sentisse necessidade, mas eu não queria realmente fazê-lo. Eu sempre fui incrivelmente tímida.

Na reunião, o meu queixo caiu. A maioria das pessoas presentes queria que a prece ficasse. Eles falavam, “Nós precisamos ter a Deus”. Alguns falavam, “Isso nem é uma prece”. Outros diziam, “Isso é histórico”. Eu estava aturdida. Eu pensei que os adultos saberiam que isso era ilegal e o que fazer. Eu discursei naquela noite. Quando eu o fiz, eu levantei, e pela primeira vez na minha vida, eu disse publicamente que era atéia. Eu nunca havia contado a nenhum dos meus colegas de classe; nenhum dos meus professores sabia.  Eu disse, “Sendo uma estudante atéia, essa prece é discriminatória contra mim.” Alguém engasgou. Outras pessoas começaram a sussurar. Em um outro momento durante a reunião eu levantei para falar novamente e quando eu me sentei a ex-candidata a vice-governadora de Rhode Island, Kara Russo, me chamou baixinho de bruxa. No final da reunião, o subcomitê concordou que eles precisavam agendar outra reunião porque eles não chegaram a uma solução. Depois da reunião, eu estava nos noticiários. Eu lembro de entrar no carro depois da reunião e ficar pasmada, pois ela saiu completamente diferente do que eu havia esperado.

Depois de aparecer nos noticiários, a escola parecia um pouco estranha, mas naquele momento não parecia ser uma grande questão. Muitas pessoas ainda nem sabiam da controvérsia a respeito da oração. Eu criei uma comunidade no Facebook para apoiar a remoção da prece. Depois de aparecer na televisão, havia 150 pessoas na comunidade. A maior parte das pessoas entravam na comunidade e diziam, “Eu sou ateu, obrigado por fazer isso.” Isso foi muito encorajador, pois eu realmente odiei a reunião. Eu não queria voltar para mais uma, mas eu planejava fazê-lo. Me sentia doente toda vez que pensava nisso.

A reunião seguinte foi em fevereiro de 2011. Essa foi muito maior. Nós tivemos que usar uma sala diferente da que estava inicialmente reservada porque havia muitas pessoas e a sala original não acomodava a todos. A maioria absoluta das pessoas presentes era a favor de manter a prece. Eles apareceram liderados pelo ex candidato a prefeito de Providence, Chris Young, e sua noiva, Kara Russo. Eles são dois dos católicos mais fervorosos que eu já conheci.  Na primeira reunião Kara havia dito repetidamente que as pessoas precisavam de Deus em suas vidas, que elas não queriam ficar do lado errado. Eles me fizeram perceber que as pessoas realmente querem inserir a religião no governo; elas realmente estão tentando se infiltrar em nossa laicidade. Para mim, isso é assustador, pois como atéia, eu tenho medo do modo como eles poderiam mudar o país.

Houve uma quantidade massiva de apoio à oração. Todos os que apoiavam o cartaz com a prece apareceram com papéis e cartazes pendurados no pescoço que diziam “Mantenham o cartaz original”. Ele estavam realmente nervosos. Eles não gostavam dos ateus; começaram a gritar a respeito dos “interesses ateístas”. Eles estavam criticando os ateus e dizendo que eu era um fantoche. Eu me senti menosprezada e assustada. Eu esperava que eles agissem com um pouco mais de civilidade, especialmente em relação a uma garota de 15 anos. Eu queria sair, ir pra casa, e chorar por um tempo.

Em um determinado momento durante a reunião, as pessoas disseram que se eu tinha algum problema com Deus , eu deveria ir para uma escola diferente, o que foi realmente frustrante para mim, pois a Cranston High School West é uma escola pública. Se as pessoas querem Deus na escola, então elas devem ir para uma escola privada; nenhum ateu liga pra isso. Ninguém quer retirar esse direito. Eu estava tentando dizer que o que estava acontecendo com o cartaz da prece era ilegal. Eu não estava tentando falar como uma ateísta per se, mas eles meio que transformaram isso em uma guerra religiosa.

No final daquela reunião, o subcomitê decidiu ter ainda mais uma reunião. A seguinte foi em março e foi ainda maior que a última. Nós tínhamos talvez 10 pessoas apoiando a remoção da prece, e mais de 100 pessoas que queriam mantê-la na minha escola. Era muito difícil pra mim falar na frente daquelas pessoas. Quando os defensores da prece subiam para falar, eles não argumentavam somente a respeito de mantê-la. Eles falavam coisas a respeito dos ateus, o quão ruim nós éramos, como os ateus têm interesses ocultos e que nós somos socialistas. Em um momento, uma mulher subiu para falar, e pediu para todos pegarem uma cédula de dólar. Ela pegou uma nota também e disse, ” Segure-a na sua frente. Eu quero que todos nessa sala que não acreditam em Deus rasguem a nota ao meio”. Quando nenhum de nós o fez, ela disse que isso era prova que a prece deveria ficar, enfatizando que “Em Deus nós confiamos” estava nas notas. Eu ainda não entendi ao certo o que ela queria provar.

Na quarta reunião, a votação foi alcançada. O resultado foi uma votação de quatro contra três a favor de manter a prece e enfrentar a ACLU. Eu lembro que na primeira reunião o superintendente havia dito, “se você quer rezar, talvez devesse ir à igreja. Eu sou católico. Eu vou à igreja todo domingo e vejo muitos bancos vazios à minha volta.” Eu apoiava aquilo. Achei que foi muito legal. Ninguém está tentando acabar com a religião; estamos somente tentando separar a religião das escolas públicas. Ele parecia estar do lado dos que queriam retirá-la, mas quando foi sua vez de votar, ele disse, “Eu acho que a prece deveria ficar; precisamos dela aqui.” e votou para mantê-la na escola. Parecia que a superioridade numérica o estava assustando e o fazendo pensar que ele não seria reeleito se não votasse que permitia que o cartaz continuasse. Essa foi uma cena comum com os outros membros do subcomitê. Eles haviam se apresentado bastante neutros no começo.

A ACLU então pediu que eu procedesse com um processo judicial. Eles disseram, “Se você quiser ser a reclamante no caso, nós a representaremos.” Quando eu recebi esse email, eu sabia que diria sim. Era importante pra mim. Não importava muito o fato de que eu provavelmente enfrentaria muito ódio por isso. Eu queria fazê-lo porque me parecia a coisa certa a ser feita. Eu não tenho 18 anos, então eu precisava que um dos pais me desse autorização. Meu pai disse que dependia somente de mim, que essa era uma grande decisão e que eu podia tomá-la se quisesse, mas que não devia haver nenhuma pressão sobre mim. Depois que eu disse sim, eu comecei a imaginar que seria minha culpa se a escola gastasse uma grande quantia de dinheiro se defendendo no processo. No final eu decidi que prosseguiria porque eu conclui que na verdade era culpa da escola. Eles decidiram manter a prece. Poderiam tê-la retirado e não teriam que lidar com o processo. Isso me consumiu muito tempo e muita energia, mas definitivamente valeu a pena.

Há uma história que eu tenho que compartilhar. Na minha escola todo ano tem uma semana chamada “Semana da Diversidade”, e durante esse período há assembléias feitas pelos alunos, que administram a coisa toda. Na época da controvérsia com o cartaz da prece, o prefeito compareceu. Ele é sino-americano. Ele fez um discurso sobre minorias e como elas freqüentemente sofrem discriminações. E falou como ele, apesar de pertencer a uma minoria, conseguiu atingir o sucesso. Foi uma bela conversa. Ao final, houve uma sessão de perguntas e respostas. Um estudante pegou o microfone e perguntou, “Prefeito Fung, qual é sua posição a respeito da prece na nossa escola?” Quando eu ouvi a pergunta, fiquei um pouco nervosa e mesmo surpresa que ela tenha sido feita. Ele apontou para o cartaz da prece e falou, “Eu quero ver a prece permanecer exatamente onde ela está!” Ele foi muito dramático e passional enquanto apontava para a prece. Todos no auditório pulavam e apoiavam e aplaudiam e se mexiam e gritavam. Eu queria sair correndo da sala e chorar porque eu parecia a única pessoa sentada que não gostou do que ele disse. As pessoas começaram a olhar pra mim e eu me senti uma aberração. Foi terrível. O prefeito não pareceu preocupado com a possibilidade de eu estar na sala; ele não pareceu ter a mínima preocupação com o que eu sentia. Também causou um pouco de mágoa nenhum dos professores virem ver se eu estava bem. Todo mundo parecia muito feliz pelo prefeito estar do lado deles. Eu também achei muito irônico ele falar sobre a discriminação das minorias, enquanto dizia achar que o discriminatório cartaz com a prece deveria ficar na escola, magoando os sentimentos de ateus e outros não-cristãos que ficam se sentindo excluídos. Eu acho que o incidente na verdade acabou me deixando mais forte, mais resistente.

Houve ainda outras ocorrências difíceis relacionadas ao cartaz com a prece. No Facebook, os alunos da minha escola começaram a me adicionar como amiga apenas para que pudessem me perturbar. Certa vez eu postei um vídeo sobre como a história de nossa nação é laica e como elementos do governo atual são discriminatórios com os ateus e outras pessoas que não acreditam em um tradicional Deus Cristão. Uma das crianças começou a surtar; ele postou diversos materiais, inclusive um vídeo do Edward Currant onde ele retrata satiricamente um cristão. Eu perguntei, “Você percebeu que o Edward Currant está sendo sarcástico? Ele na verdade é ateu.” Isso conflagrou uma enorme argumentação de 200 ou 300 comentários nos quais esta pessoa e diversos de seus amigos me chamaram das piores coisas que já fui chamada na minha vida. Eles diziam que ninguém me quer na escola e que eu deveria simplesmente sair. Ele disse que se eu soubesse a opinião dele a meu respeito, eu me mataria. No dia seguinte a mesma criança me disse que outras pessoas que não tinham comentado mas viram o desenrolar da coisa falaram-no que ele tinha feito um belo trabalho.

De maneira geral, essa provação toda me mudou. Antes disso, eu nunca me consideraria uma ativista, alguém que falaria sobre esses assuntos. Eu sempre morri de medo de falar em público: eu quase vomitei quando tive que apresentar aos 20 alunos da minha sala na terceira série um trabalho sobre o estado da Georgia. Isso, obviamente, havia sido um pouco mais intenso.

Há uma grande diferença entre quem eu era há uns dois anos e quem eu sou agora. Me sinto melhor. Eu sinto como se tivesse muito mais amigos verdadeiros. Eu me sinto muito mais confortável em colocar as coisas pra fora e ser aberta a respeito do meu ateísmo. Eu acho que está valendo a pena. Eu lembro de me sentir inteiramente desesperançosa e sozinha após a primeira reunião. Eu descobri que há uma comunidade inteira de ateus e que há um movimento. As pessoas que se mobilizaram por mim foram fantásticas. O fato de saber que eu estava falando não só por mim mas também por outras pessoas mudou tudo. Isso fez valer a luta.

Apesar de eu ter passado por algumas dificuldades, eu não acho que estou ficando mais fria. Eu sei que sou a mesma pessoa que eu sempre fui. Eu só entendo mais coisas agora. Eu nunca voltaria a ser religiosa. Quando eu era mais nova, eu lembro de me sentir confusa toda vez que pensava a respeito do universo ou de Deus. Tudo está muito mais claro agora. Eu tenho mais confiança. Pela primeira vez eu posso dizer que não ligo pro que as outras pessoas pensam e genuinamente estar sendo sincera. Eu não evito intencionalmente situações onde eu estarei cercada de pessoas que discordam de mim. Eu tenho diversos amigos, muito apoio e eu sei que o que estou fazendo é o certo. Isso torna tudo muito mais fácil.

Nota: depois da entrevista de Jessica para este livro, um juiz federal considerou o cartaz com a prece em Cranston High School West inconstitucional.

I.S.B.N.: 978-0-9881795-0-9

Título original: Generation Atheist

Autor: Dan Riley

Editora: Dan Riley (Independente) – 28/09/2012

Origem: EUA

Nº de páginas: 294

Dimensões: 23 x 15 x 1,5 cm

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2 Comentários

Arquivado em Leitura Recomendada

2 Respostas para “Leitura recomendada – Generation Atheist

  1. Bruno

    Muito interessante esse livro. Aliás, o seu blog é muito bom – li vários artigos escritos aqui, e afirmo que eles são mais lúcidos e interessantes do que grande parte dos sites ateístas que vejo por aí.
    Posso te recomendar um autor? Trata-se de Garth Ennis, um dos mais respeitados escritores de Histórias em Quadrinhos da atualidade. Assumidamente ateísta, Ennis é autor de várias histórias que lidam com o assunto – as que recomendo são True Faith, Preacher e Apenas um Peregrino – apenas a primeira não foi publicada no BRasil.
    Abraços!

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