Opinando a entrevista de Silas Malafaia – parte final

E chegamos à última parte da série de posts comentando a entrevista dada pelo pastor Silas Malafaia ao programa De frente com Gabi, em 03/02/13. Veja as partes anteriores aqui: parte 1; parte 2; parte 3.

23:59/24:30

(…)

MG – Mas acontece que não todas as pessoas têm a formação que você tem ou têm um tipo de disposição esclarecida. Você falando com essa convicção e desta forma e com essa sua interpretação pode eventualmente estar influenciando pessoas que vão sim praticar violência contra os homossexuais.

SM – Aí minha filha, aí vai me desculpar, então vamos cortar programas de televisão, vamos cortar novelas, vamos cortar filmes que têm ação, porque vai influenciar alguém a matar. Aí nós vamos… Aí a sociedade pára. Então a televisão vai ter que parar agora, vai ficar só Marília Gabriela porque tem entrevista.

Comparar a influência que um filme ou um programa de televisão terão sobre a mente de uma pessoa com a que um pastor tem é até covardia. Quem assiste a um filme ou um programa sabe que se trata de ficção, enquanto quem assiste a um culto ministrado pelo pastor acredita estar ouvindo a palavra da Verdade. Filmes não são vistos como sagrados pelos espectadores, têm restrições de idade, não dizem que as atitudes ali mostradas devem ser imitadas para que você seja salvo, enfim, é óbvio que o pastor está a comparar alhos com bugalhos.

29:01/29:25

MG – …mas quando você diz assim: “Eu estou aqui para defender a família”, eu quero saber que família é essa, que conceito de família é esse, que desde a época de Cristo não foi revisto

SM – Tá. Que conceito de família? Toda história da civilização humana… toda história! O que eu tô te falando é antropológico, sociológico e teológico. Toda a história da civilização humana está sustentada: um homem, uma mulher e sua prole.

Pederastia na grécia antiga. Poligamia na arábia e diversos outros países. Troca de casais entre os esquimós. Sociedade matriarcal na China. Prostituição e homossexualidade liberadas na antiguidade.

É, realmente, a história da humanidade sempre foi sustentada pela relação homem/mulher, em todas as épocas, em todos os lugares do mundo… Do mundo do Silas Malafaia. Isso não é antropologia nem sociologia. É desonestidade intelectual somente.

29:58/30:26

SM – … a Bíblia… eu tô falando de Bíblia porque eu creio. Eu tô falando daquilo que eu creio e o que a Bíblia fala. A Bíblia é um livro pra quem quer crer ou  quem não quer crer que é um direito de cada um. À medida que eu sigo aquele livro, certo, que eu creio que é a palavra de Deus, porque é a única fonte de conhecimento filosófico, teológico, científico e vulgar. Não tem outro livro no mundo que tenha essas quatro fontes de conhecimento. Só a Bíblia. Certo? Nenhum verdade científica da Bíblia até hoje foi derrubada. Nenhuma delas.

Não é possível que o pastor estivesse falando sério nessa hora. Tudo bem os cristãos acreditarem que a Bíblia é um livro sagrado, mas dizer que as “verdades científicas” da Bíblia não foram derrubadas até hoje? Que verdades científicas? Que a Terra tem 6.000 anos de idade e foi criada em 6 dias? A cura da lepra? Que o morcego é uma ave? A lista de absurdos científicos da Bíblia é tão gigantesca que dá até preguiça de colocar todos aqui…

…Mas, por sorte, uma alma caridosa resolveu compilá-los. Clique aqui pastor, e perceba o tamanho da besteira que você falou. Mas é claro que você sabe que é besteira não é mesmo… O problema são os fiéis que ouvem uma coisa dessas, acreditam no que você diz, e vão passar a vida toda imaginando que coisas como colocar todas as espécies de animais em uma arca são verossímeis. Eu inclusive tenho pra mim que uma boa parte dos cristãos nunca chegaram a ler a Bíblia toda, apenas decoram algumas partes bonitas ditas pelo pastor, porque eu tenho certeza que no dia em que pararem pra ler vão começar a se questionar o porquê de levá-la a sério.

31:27/32:33

(…)

MG – Olha eu vou fazer um… vou propor um problema a você. Que é contra, inclusive, o aborto… a legalização do aborto. Supondo que nasça uma criança e que a mãe dessa criança não vá poder criá-la. Um casal homossexual se dispõe a criar essa, essa criatura, que senão vai ficar jogada à disposição do que seja, numa instituição que vai tratá-la mal. Você acha que ainda assim um casal homossexual não pode ter essa criança e fazer dela um belo cidadão, uma bela cidadã e criar um ser humano digno, com todos seus direitos, com toda sua inteligência, com todo seu amor e compaixão pelo outro?

SM – Primeiro, têm mais na fila casais héteros esperando crianças que…

MG – Não, eu não tô perguntado isso pra você, eu tô perguntando conceitualmente. Eu tô falando das novas famílias.

SM – Não acredito. Eu não acredito que dois homens possam criar uma criança perfeita, no sentido total que você quer, como certo, não acredito. Porque eu acredito que Deus fez homem e mulher, e esses seres que se completam…

Infelizmente o pastor não deixa claro qual exatamente é o seu medo no fato de uma criança ser criada por um casal homossexual. Ele só repete que a criança não vai crescer perfeita. Acredito que nesse caso o que ele quer dizer com imperfeição é que ela também será homossexual, o que, sob os olhos do pastor certamente seria uma tremenda imperfeição. Porém, esse e outros mitos sobre crianças sendo criadas por casais de homossexuais já foram desmitificados.

Anos atrás acreditava-se que crianças criadas por pais solteiros ou separados também seriam problemáticas. O pastor pode acreditar no que ele quiser, mas isso não significa que isso é a verdade. Hoje em dia sabe-se que as pessoas com quem os pais dormem ou deixam de dormir na cama têm pouca influência sobre a personalidade da criança. O caráter dos pais e os exemplos dados por eles são muito mais  importantes nesse aspecto, e existem héteros bons e héteros maus, assim como existem homossexuais bons e maus. Ao invés de se preocupar com a orientação sexual de quem vai adotar uma criança, o Estado deveria se concentrar em analisar a índole dos futuros pais.

36:23/37:07

MG – Eu queria falar sobre, ah… primeiro, política e religião. Caminham bem juntas? Você acha… é, nós temos um Estado laico, agora os evangélicos têm…

SM – É laico mas não é laicista.

MG – Ahn. Vai dar em quê?

SM – Vai dar em quê. Assim como um ateísta pode com as suas convicções trafegar na política, eu também com as minhas convicções religiosas posso. O que eu não posso é querer fazer com que a minha religião seja dominante, entre pela goela das pessoas. Agora, eu como cidadão… porque o que que você é eu sou…

MG – Mas você não quer ser político?

SM – De jeito nenhum. Nunca serei.

MG – Mas quer influenciar na política.

SM – Com toda certeza, não só na política, na sociedade.

Bom, acho que essa foi a primeira vez na entrevista que eu concordei em um ponto com o pastor. Não em relação ao Estado ser laico, assunto que eu já pincelei nesse post, mas em relação à influência política.

A sociedade em que vivemos é diversificada. Existem pessoas de diferentes crenças, diferentes culturas e diferentes cenários sociais. A democracia consiste em dar o poder de decidir a todo o povo. Apesar dos representantes políticos serem escolhidos pela maioria, eles devem governar para todos. Então nesse sentido, eu acho que os evangélicos devem sim ter o poder de influenciar na política, assim como os católicos, espíritas, ateus etc.

E na teoria isso tudo seria muito bonito. Porém na prática, em um país com um cenário político como o nosso, sabemos como a influência religiosa funciona na política, com nossos governantes apoiando os líderes que mais convençam suas ovelhas a votarem em quem for de seu interesse, e uma mão lavando a outra depois das eleições.

42:11/42:48

MG – Mas vamos ver lá, agora, bate-bola, jogo rápido. (…) Islamismo?

SM – É, eu acredito de um radicalismo muito horroroso, para o que a gente chama de religião.

E com essa excelente piada feita pelo pastor que deixaria Alanis Morissete orgulhosa, encerro minha série de posts opinando a entrevista do pastor Silas Malafaia. Voltarei em breve à nossa programação normal.

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6 Comentários

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6 Respostas para “Opinando a entrevista de Silas Malafaia – parte final

  1. maris

    Oi, vc é muito fraquinho p contestar né permite vc?

  2. maris

    1. programa de TV, novelas e filmes tem muita influência exatamente pq a pessoa não assiste levando a sério, isso se chama engenharia social, como mensagem subliminar q age no subconsciente. Não vê os casos de crianças q mataram pq ficaram expostas a vídeo game violento. 2. Sugerir Rever a palavra de Cristo já seria piada por si só, mas o argumento é teológico, Deus não precisa de revisão pq Ele é imutável. 3. Ele quis dizer q é essa união homem e mulher a considerada civilizada, o resto existiu mas não resistiu pq tem base fraca, não suporta as mudanças, as outras existiram em épocas diferentes e em todas homem e mulher sempre existiram. 4. O número de crianças abusadas sexualmente por país gays é muito maior do q por país heterossexuais, já é motivo suficiente p mim p proibir.

    • 1 – Eu jogo videogames, assisto a filmes violentos, leio revistas em quadrinhos e navego livremente na internet desde que me entendo por gente. Meus irmãos fizeram a mesma coisa. E nem por isso temos vontade de sair matando as pessoas, de espancar os outros, estuprar mulheres ou causar qualquer tipo de malefício a terceiros. Pelo contrário, somos todos muito bem centrados e tratamos muito bem aos nossos próximos. E todas as outras pessoas que conheço e que passaram pela mesmo situação também não apresentam nenhum desvio psiquiátrico muito grave. Claro que obras literárias, filmes, livros, jogos ou qualquer outro tipo de obra de arte ou cultural têm seu peso sobre o desenvolvimento psicológico de alguém, e em parte nenhuma do post eu nego isso. O que eu disse é que a influência causada por essas coisas são incomparáveis com a influência que uma doutrinação religiosa exerce em um indivíduo. Com certeza a crença de que sua alma estará condenada se você não tomar determinada atitude tem muito mais eficiência em fazer você agir de determinado modo do que um mero filme ou jogo que você assista.

      2 – As supostas palavras de Deus e as supostas palavras de Cristo já foram revisadas milhares de vezes ao longo dos séculos. Ou você acha que as palavras que você lê em uma Bíblia moderna são exatamente as mesmas palavras que foram escritas em uma parte remota do Oriente Médio 2.800 anos atrás? A Bíblia foi escrita em hebraico antigo, aramaico e grego koiné, depois traduzida para o latim, depois para o espanhol, depois para o português. Nesse meio tempo ela sofreu inúmeros acréscimos, decréscimos, censuras e mudanças, de acordo com os interesses teológicos, culturais ou econômicos de quem estivesse no poder. Se um hebreu do século 7 AEC lesse o que se considera a Torá hoje em dia, ele provavelmente ia achar que os judeus modernos são loucos. Dizer que a palavra de Deus é imutável é muita inocência, é simplesmente ignorar a história humana e das religiões.

      3 – O que é considerado civilizado ou não é meramente cultural. O que um grupo considera civilizado, outro pode achar bárbaro. Não há como se definir isso objetivamente. Algumas tribos indígenas brasileiras acham um absurdo as mulheres usarem sutiãs. Tribos africanas não veem sentido no uso de gravatas e saltos altos. Para algumas comunidades não há problema nenhum em comer a carne dos mortos depois que eles morrem. Alguns povos queimam seus mortos, outros os enterram, outros os jogam ao mar. Achar que agir de determinada maneira é a “civilizada” somente porque é a maneira que você cresceu aprendendo como correta é mero egocentrismo, é ignorar que o fato de que possuir um ponto de vista não impede que outras pessoas tenham pontos de vista diferentes. E até hoje há civilizações que vivem os relacionamentos de maneira diferentes da nossa: os esquimós ainda estão por aí, a poligamia ainda é válida em diversos países. Isso só evidencia que não exista uma maneira “correta” de se ver esse assunto, existe sim, a maneira com a qual fomos acostumados.

      4 – Isso é simplesmente um dado inventado por você, ou uma informação que você tomou como verdade sem verificar, apenas para justificar seu preconceito. Por favor, me apresente as fontes de onde você tirou essa informação, gostaria muito de conhecê-la. Não sei se você reparou, mas no post eu apresentei uma reportagem que afirma exatamente o contrário. Porém, como ela contradiz suas crenças, acho que você preferiu ignorá-la, né?

  3. maris

    5. O Brasil é 90% cristão, tem q respeitar a maioria. 6. Islâmicos matam gays, esses sim deveriam ser combatidos como religião homofóbica, ter opinião contrária não é fobia, eu não gosto de couve, nem por isso tenho pavor ao ponto de querer destruir toda plantação q eu vir na frente. E o q Alanis Morrissete tem c isso só mostra a falta de argumento lógico p combater o Malafaia.

    • 5 – Nós temos que respeitar as pessoas, não suas crenças. Crenças são somente conjunto de ideias, e, como tal, podem e devem ser livremente debatidas e questionadas, independente do número de pessoas que as sigam. Se formos seguir essa lógica louca, chegaríamos à conclusão de que, por exemplo, os nazistas não poderiam ser contestados na Alemanha, afinal, eles representavam a maioria da população. Isto posto, eu não vejo em que momento eu fui desrespeitoso com alguém, por favor, seja mais específica.

      6 – Sim, a doutrina islãmica é homofóbica também, sem dúvidas. Mas o fato de alguém estar errado não significa que outros não estejam também: um erro não justifica o outro. É claro que ninguém é obrigado a gostar de gays, ou ser obrigado a adotar comportamentos homossexuais. E se a atuação dos religiosos se limitasse a renegar e proibir esses atos eu também não veria problema nenhum. A grande questão é que, não conformados em seguir uma determinada doutrina, muitos religiosos querem impô-la sobre outras pessoas, seja na base da força ou de leis. O esforço despendido por algumas lideranças religiosas contra o casamento gay é exemplo claro disso. Caso o casamento gay fosse legalizado, isso não ia mudar absolutamente nada para religioso nenhum: eles não seriam obrigados a casar gays em suas igrejas, não seriam obrigados a se relacionar com pessoas do mesmo sexo, não seriam nem mesmo obrigados a falar com homossexuais se assim não desejassem. Mas o que os incomoda é simplesmente o fato de os outros terem os mesmos direitos que eles. Isso quando não resolvem usar da violência para “punir” os comportamentos que consideram pecaminosos ou inadequados… Se você não faz nada do tipo, ótimo, parabéns pra você, continue assim. Mas acho que você não pode negar que existem milhares de pessoas que não são tão tolerantes assim.

      Se você entende inglês, leu a letra da música e a soube interpretar, não fica difícil perceber o que a música da Alanis tem a ver com a situação apresentada.

      Abraços.

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