Opinando a entrevista de Silas Malafaia – parte 3

Continuação dos comentários feitos à entrevista do pastor Silas Malafaia ao programa De Frente com Gabi em 03/02/13. Veja as partes anteriores aqui: parte 1; parte 2.

18:07/22:40

MG – Ô pastor, ô Silas. No discurso de posse pro segundo mandato, o presidente americano Barack Obama disse textualmente: “Nossa jornada não estará completa até que nossos irmãos e irmãs gays sejam tratados como qualquer pessoa”. Na sua igreja ele não teria sido reeleito.

Sm – Na minha igreja não. Ele não teria sido reeleito… Deixa eu falar sobre essa questão de homossexualismo.

MG – …dade.

SM – Ahn?

MG – Homossexualidade.

SM – Homossexualidade, isso, obrigado. Deixa eu te falar uma coisa. Primeiro, ninguém nasce gay. Homossexualismo é um comportamento.

MG – Isso é contestável.

SM – Tá, então vamos lá. É contestável? Eu mando vir na genética. Quem é que pode dizer se alguém nasce gay ou não? Não é a psicologia, é a genética. A ciência que pode dizer… é igual ao aborto. Quem é que pode dizer aonde começa a vida? A biologia. Então onde é… Quem é que na ciência…

MG – Bom, você sabe que as últimas pesquisas andaram mapeando o cérebro de gente aí.

SM – Não deu nada. Olha aqui…

MG – Deu sim.

SM – Deixa, deixa eu te falar. Deixa eu falar uma coisa pra você aqui que é muito interessante. Ninguém nasce gay. Não existe ordem cromossômica homossexual. Não existe gen homossexual. Existem ordens cromossômicas de macho e de fêmea. Então vou fazer uma definição de homossexualismo. Um homem e uma mulher…

MG – Homossexualidade.

SM – Não, homossexualismo, a prática. Eu posso falar homossexualismo ou a homossexualidade, não tem…

MG – Não, é que homossexualismo caracteriza doença.

SM – Não, mas não, eu não vejo. Não vejo como doença, eu não vejo. Vejo como comportamento. Não há nada de doença. Então a homossexualidade. Um homem ou uma mulher por determinação genética e homossexual por preferência aprendida ou imposta. Agora vamos pra pesquisa. 46% dos homossexuais foram violados, violentados quando crianças ou adolescentes. Como é que alguém nasce? 46%! 54% escolheram ser. Então primeiro, homossexualismo é comportamento. Então vamos pra genética. Gêmeos iguais… tô falando de genética. Gêmeos iguais, isso é, o mesmo embrião, que se divide, tá, é chamado geneticamente iguais, é, homozigóticos. São gêmeos iguais. Então o que que tinha que acontecer? Se um gêmeo é hétero, o outro teria que ser hétero. Se um gêmeo é homossexual, o outro teria que ser. Então vamos lá. 35% dos gêmeos que são homossexuais, o outro, 65% são héteros, então como é que são iguais? Como é que nasce? Peraí, eu tô falando de nascer, nascer homossexual, eu tô falando de genética. Não tem uma fonte na genética, não tem uma fonte… ah, traços psíquicos, não sei que… então vamos lá… 46% passaram a ser homossexuais… eles não falam. O dia que eu falei isso… a partir do dia que foram violados e violentados

MG – Peraí… então vamos lá… então você já tá dando um outro dado.

SM – Eu tô dando um dado.

MG – No geral violentados por quem?

SM – Não… Por parentes, violentados por vizinhos…

MG – Homossexuais?

SM – Não, não. Por ser heterossexuais. Então já… nascer. Nascer é o seguinte. Eu vim a esse mundo e tenho essa vontade…

MG – Por que que animais – e nós somos mais um na natureza – por que que animais praticam sexo com o mesmo…

SM – Não nasce homossexual.

MG – Praticam sexo – muitos animais – com animais do mesmo sexo e não são perturbados na outra sexualidade?

SM – E não é… os animais… não são considerados uma prática homossexual…

MG – Venha cá…

SM – Olha a pergunta que você me fez. Olha a pergunta. Nós tamos conversando, você disse… eu disse aqui: “Ninguém nasce homossexual”. Foi minha resposta aqui pra você…

MG – Eu já disse que é contestável isso.

Sm – Você diz que é contestável eu digo que tem argumentos. A ciência… O que que é ciência? Tem que ter observação. Por que a evolução é teoria? Porque você não pode comprová-la na observação.

Ambos – (falando ao mesmo tempo)

MG – Essa conversa não vai terminar nunca, e eu quero saber de você… eu quero saber qual é a sua questão com a homossexualidade.

SM – Eu vou te dizer qual é a questão. A minha questão aqui no Brasil… A minha questão aqui no Brasil é os direitos que eles querem em detrimento da coletividade…

MG – Quais são os direitos?

Sm – Os direitos? Então vou dizer pra você…

MG – Serem respeitados? Não serem mortos e agredidos?

Sm – Não, não, não, não. Não é nada disso. Vamos lá, você tá falando de mortos, quando eles falam de números eu não… eu acho que ninguém deve morrer. Eu não quero que ninguém morra de nada. Mas quando eles utilizam números é contra eles totalmente…

Nesta parte da entrevista o pastor Silas tenta apresentar justificativas para o seu repúdio aos homossexuais. Surpreendentemente ele quase não se utiliza de passagens bíblicas para isso. Alguns versículos, como esse, por exemplo, costumam estar na ponta da língua nessas horas e vêm sempre a calhar. Ele, no entanto, prefere utilizar uma abordagem mais “científica”. Não sei o porquê dessa escolha do pastor, talvez ele esteja almejando conquistar uma nova camada social com sua retórica ou talvez ele tenha percebido que a audiência do programa da Marília Gabriela não é a mesma com a qual ele está acostumado a lidar em seu programa, já que seus fiéis já estão suficientemente doutrinados a acreditar no que ele afirma sem maiores questionamentos.

Porém, nessa tentativa diferente de se justificar ele acabou falando muitos disparates. Em primeiro lugar, vamos lembrar que o pastor não tem nenhuma formação acadêmica que o qualifique a afirmar com tanta asserção a respeito de genética, ou qualquer coisa da área biológica.  É curioso notar como o pastor fica tão alvoroçado quando o deputado federal Jean Wyllys se arrisca a falar de psicologia, afirmando que ele não tem autoridade para tal por não ter formação acadêmica nessa área, porém não se acanha em falar de genética e traços cromossômicos como se fosse um expert no tema. Claro que qualquer pessoa pode conhecer a respeito de qualquer assunto caso pesquise a respeito, se mantenha atualizado com as pesquisas mais recentes etc. Mas então nesse caso, ele também deve aceitar a opinião de outras pessoas leigas que venham a pesquisar sobre sua área de formação sem exigir toda essa formalidade de credenciais quando as conclusões alheias vão de encontro às de sua religião.

No caso dos traços genéticos, se a pessoa nasce homossexual ou não, alguém que realmente tem autoridade para falar sobre o assunto já se pronunciou a respeito, e deixou claro que o pastor está falando besteiras. O mestre em genética Eli Vieira Araujo, doutorando pela universidade de Cambridge,  postou este vídeo em resposta ao pastor Silas, informando o que os cientistas da área afirmam sobre o assunto. E que, por acaso, não tem nada a ver com o que o pastor afirma.

Eu, do alto da minha leiguice, nem entendi exatamente o que o pastor quis dizer quando afirma que não existe ordem cromossômica homossexual. Isso significa o que? Que os genes determinam nosso correto comportamento sexual? Segundo o entendimento do pastor, os genes determinam que nós somos homens ou mulheres e por isso devemos nos comportar como tais? Isso implicaria em dizer que nós somos escravos do que nossos genes definem, não podendo nos desviar da determinação genética.

Isso me soa um tanto quanto estranho pois, se os traços físicos determinados pelos genes não são passíveis de ser escolhidos, como a cor dos olhos, altura, o sexo etc, os traços comportamentais, por sua vez, são escolhidos por nós a toda hora. Nossos genes nos induzem, por exemplo,  a nos reproduzirmos e propagarmos nosso material genético o máximo possível. Se fôssemos pautar nosso comportamento pelo que nossos genes estabelecem, iríamos sempre fazer sexo com o máximo de pessoas possíveis. O casamento e a monogamia, tão defendidos pelo pastor para manutenção da família, iriam para o espaço. E o sexo com familiares próximos seria algo corriqueiro. Vide as outras espécies de animais, que não têm pudores nenhum em relação a essas duas coisas, como os cachorros, que, como diziam os mamonas “comem a própria mãe, sua irmã e suas tias”.

Eu acredito que nossos genes não determinem comportamento nenhum. Eles podem apontar uma direção comportamental, mas se iremos seguí-la ou não depende de diversos fatores, como o meio social e cultural em que estamos inseridos, nossa convenção de moral e costumes, nosso conhecimento e nossas crenças.

Mas a questão mais importante aqui é realmente essa levantada pelo pastor? Se as pessoas são homossexuais por escolha ou por determinação biológica? Porque para mim, isso tudo que foi discutido na entrevista me parece ser secundário. O que é realmente importante, em minha opinião é que a orientação sexual de alguém é um problema pessoal e, não atrapalhando os outros em nada,  deve ser respeitada. Na verdade não deveria fazer diferença nenhuma se ser homossexual é uma escolha ou não. Uma vez que a pessoa é, isso é problema dela. Seja por sua escolha ou por determinação dos seus genes, ninguém que é homossexual deve deixar de ser ou ter seus direitos tolhidos só porque determinado segmento religioso não gosta desse tipo de gente.

E é claro que aqui o pastor diria que não deixa de gostar deles por isso. Que  na verdade os ama (como ama aos bandidos). Bom, talvez o conceito de amor do pastor seja diferente do meu, mas eu não diria a uma pessoa que eu amo que ela está errada só por amar (ou mesmo se relacionar sem compromisso) outra pessoa, mesmo que do mesmo sexo, e que a entidade divina em que eu acredito vai condená-la à tortura eterna se ela não der um jeito de mudar seu comportamento, ainda que contra sua vontade. Eu não sou exatamente um romântico inveterado, mas essa é uma forma de amor muito estranha até pra mim.

E uma coisa que eu certamente não faria com alguém que eu amo é lutar para que ela não tenha reconhecidos os direitos que eu já tenho. Eu até reconheço que o PLC 122 referido pelo pastor era, em certa medida, uma redundância jurídica, porém pergunte ao pastor o que ele acha a respeito da legalização do casamento homossexual. Eu não entendo como permitir que duas pessoas do mesmo sexo se casem iria afetar a liberdade religiosa dele ou de sua congregação. Ninguém ia obrigá-lo a se relacionar com outra pessoa do mesmo sexo, ninguém ia obrigá-lo a realizar casamentos gays (embora eu me pergunte que casal gay faria questão de se casar em sua instituição) e ninguém iria obrigá-lo a gostar de ver gays juntos. Em suma, nada iria mudar para religioso nenhum se o casamento gay fosse legalizado, mas para os homossexuais faria uma enorme diferença. Porém, as igrejas fazem questão de impedir que pessoas com um comportamento diferente do que eles acreditam ser o correto tenham os mesmos direitos que seus fiéis já têm.

Só posso presumir que o que o pastor quer na verdade é manter o controle que tem sobre seus seguidores. Ao manter os homossexuais à margem do resto da sociedade, é mais fácil mostrar que o que você prega é o correto, afinal, se nem o Estado permite essa prática, não deve ser coisa boa. Se os gays tivessem os mesmos direitos do “povo de Deus”, como eles poderiam se sentir especiais? Assim, ele vai seguir querendo determinar com quem as pessoas devem se relacionar, mesmo que para isso tenha que usar de supostos textos sagrados ou de “pseudociência”. Aliás, de onde ele tirou esses números? 46% dos homossexuais foram estuprados? Haja estuprador nesse país…

E eu vou fingir que nem ouvi o que ele fala a respeito da evolução ser uma teoria, porque isso dá assunto pra mais uns 10 posts… mas espero poder me aprofundar no tema futuramente…

Em breve postarei a parte final dos comentários sobre a entrevista.

*Update: veja a parte final aqui.

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