Opinando a entrevista de Silas Malafaia – parte 2

Dando continuidade ao post anterior, onde opinava a entrevista dada pelo pastor Silas Malafaia à Marília Gabriela em 03/02/13. Veja a parte 1 desse post aqui.

07:06 – 11:41

SM – Então eu vou dizer uma coisa pra você. A Forbes pode falar da fortuna de qualquer um. Mas fale dos que têm. Quando ele diz que eu tenho 300 milhões de reais, o que que a pessoa vai associar? O ser humano, o cérebro humano, o ser humano ele é um ser que se diferencia dos animais porque ele tem inteligência e percepção, ele faz associações, então ele diz assim “pô, esse malandro aí, esse vagabundo aí, tem 300 milhões porque roubou os fiéis”. Então essa é a idéia. E eu não vou receber fama daquilo que eu não tenho. Porque para o bilionário, Gabi, pro empresário, isso aí, olha, “eu estou entre os 100 mais ricos do mundo”, isso dá até crédito pro cara, os bancos, “pô, esse cara aqui tá entre os milionários”. Pra mim é o contrário. O efeito é negativo.

MG – Mas ô pastor, você não devia estar fazendo esse tipo de não defesa da teologia da prosperidade.

SM – Não, diferente, aí vem cá. Quem disse? Existe uma coisa, existe o besteirol da teologia da prosperidade e existe a teologia da prosperidade da Bíblia.

MG – Então explica pra gente.

SM – Eu explico pra você. Qual é o besteirol da teologia da prosperidade? “Olha, vem pra Deus que você vai ficar rico. Vem pra Deus que se você tem um emprego você vai ser patrão. Venha pra Deus que você vai ter um monte de casa”. Então, isso é o besteirol da teologia da prosperidade. Agora, a prosperidade tá em toda a Bíblia. E o cerne da prosperidade diz assim, “bem, pastor, me diga uma coisa que a Bíblia mostra que a pessoa pode ser próspera” ou “o que faz uma pessoa ser próspera à luz da Bíblia”? A Bíblia diz que prosperidade é obedecer as leis de Deus. Tem um salmo que é o salmo 112 que diz assim: “Bem aventurado é o homem que teme ao senhor e que obedece os seus mandamentos. A sua geração será poderosa. A sua descendência será grande na Terra. Fazenda e riqueza haverá na sua casa e a sua descendência permanece pra sempre.” O salmo 1º que é um salmo muito lindo que diz que aquele que medita dia e noite na lei do senhor… olha o que que diz o salmo, é muito interessante… é como árvore plantada junto a ribeiros que dá o seu fruto na estação própria, cujas folhas não caem e tudo quanto o fizer prosperará. Eu sou a favor da prosperidade. Eu prego prosperidade, eu não prego é besteirol. Porque prosperidade não é só finanças. Prosperidade envolve bem estar, prosperidade é você viver bem. Tem um monte de coisa junto.

MG – Mas a minha pergunta é, os seus fiéis, os mais simples, que eu sei, todo mundo… você tem fiéis também que são poderosos…

SM – Todos os níveis sociais, eu tenho.

MG – … e que fazem doações poderosas e sabem o que estão fazendo e querem fazer isso e podem fazer isso. Agora, quando você fala – eu às vezes misturo você e senhor…

SM – Você, pelo amor de Jesus.

MG – Tá bom. Quando você fala dessa… quando você divaga em cima dessa teoria da prosperidade, você de alguma maneira não leva o povo, o fiel, a crer que dando o dízimo a vida dele vai melhorar?

SM – Bem, deixa eu te dizer, não sou eu que digo isso, é a Bíblia. Eu não digo, existe uma coisa, a Bíblia, como qualquer coisa na vida, como qualquer ideologia ou religião, você… os comunistas… ou a ideologia ateísta… ele crê naquilo. OK. Quando você crê existem um conjunto de crenças e valores que estão arraigados ali. Então, quando eu digo pro meu fiel que ele vai dar dízimo e oferta pra ser rico, eu tô falando uma mentira. Agora quando eu digo pro meu fiel que ele tá dando oferta e dízimo porque Deus vai abençoá-lo, é uma verdade. Porque é isso que a Bíblia lá conta. Eu não posso declarar e nunca declarei isso que eu não sou tolo, eu tenho um certo conhecimento, eu tenho uma certa formação teológica, e venho de uma família muito tradicional de formação teológica. Meus pais são pioneiros no ensino teológico e também gente da área de educação.

MG – Eu sei. E você além do mais é formado em psicologia.

SM – É, sou psicólogo. Então, deixa eu te falar, se eu chegar pro meu fiel e dizer: “Minha gente, dá aqui o seu dízimo que você vai ficar rico”. Isso é uma afronta. Agora, quando eu digo pra ele: “Se você for fiel naquilo que a Bíblia diz, Deus vai te abençoar”. Porque aí eu digo assim…

MG – E aí não tá…

Sm – Não, não tá, e eu te explico porque…

MG – Não tá passando uma idéia de que seus desejos serão satisfeitos?

SM – Não, não. Escuta bem, a prosperidade… isso que eu digo, Gabi… se você falar que prosperidade, se um pastor falar que prosperidade é só dinheiro, ele tá incorrendo num erro gravíssimo…

A citada teologia da prosperidade, por vezes chamada de lei da reciprocidade ou ainda lei da recompensa, consiste em afirmar que se você cumprir fielmente determinados preceitos religiosos será recompensado por deus de alguma maneira (normalmente é colocada ênfase na recompensa financeira).

Nessa parte da entrevista, vemos basicamente o pastor fazendo questão de deixar claras duas coisas: que não rouba o dinheiro do dízimo pago por seus fiéis e que estes não dão o dízimo para sua igreja apenas porque acreditam que terão retorno financeiro.

No entanto, conforme ele próprio dá a entender, mesmo quando os seguidores não esperam compensação financeira por suas contribuições, esperam algo. O bem estar da família, saúde, tirar alguém das drogas etc. Eu sinceramente não acho que qualquer exemplo que ele pudesse dar nesse caso seria muito diferente do “besteirol da prosperidade” que ele cita. Qual é a diferença de se pedir para um fiel contribuir com o dízimo para ele conseguir mais dinheiro e para conseguir a cura de uma doença, por exemplo? Em ambos os casos ele não está dando dinheiro para a igreja em troca de algo que deseja muito, em uma espécie de suborno divino?

A questão aqui não é se a contribuição do fiel à sua igreja é uma coisa boa ou não. Qualquer instituição religiosa precisará da doação de seus fiéis para manter-se, mesmo que conte com outras fontes de renda, como venda de imagens, livros, dvds etc. Confesso que nunca pesquisei a participação de cada fonte de renda das intituições religiosas para saber qual é a principal de cada uma delas (e considerando o cuidado que essas instituições dedicam à divulgação de sua contabilidade, suspeito que seja uma pesquisa não tão fácil de ser feita), mas creio que as doações dos fiéis sejam a principal fonte de renda da maioria delas.

A grande polêmica aqui é atrelar a doação feita pelo fiel ao valor de sua fé, e por conseguinte, à graça que ele vai alcançar. Uma coisa é você pedir para alguém colaborar com a sua congregação se ele quiser/puder, outra é dizer que ele só vai alcançar o que ele pediu a Deus, ou atingir a salvação se ele fizer aquela doação. Se a pessoa busca uma solução divina para um problema, é razoável supor que ela já esteja com um certo desespero, e ao ser apresentado a essa doutrina pelo pastor, acaba achando que não há outra saída para seu problema que não seja colaborar com a igreja para que possa receber parte da recompensa divina. Essa prática torna muito tênue a linha que separa a doação voluntariosa da coação moral e também pode impedir que as pessoas encontrem soluções mais reais, simples ou efetivas para seus problemas, imaginando que a igreja ou seu pastor são o único caminho para a resolução de suas dificuldades.

Há ainda quem defenda o dízimo, mesmo de valores desproporcionais à situação financeira da pessoa, dizendo que onde a pessoa emprega seu salário é um problema pessoal. “Cada um faz o que quiser com seu dinheiro”. Para começo de conversa, nem sempre você pode fazer o que quiser com seu dinheiro. Por exemplo, se você for pródigo e interdito, mesmo que receba seu salário não vai poder fazer o que quiser com ele. E não vou nem entrar no mérito dos impostos, destino certo de boa parte do seu salário antes mesmo de ele entrar na conta. Porém, no caso em questão, do dízimo exorbitante, trata-se de uma situação de coação moral ou psicológica. O dinheiro é doado, mas a pessoa que o recebe o está fazendo de má fé, e é isso que a torna uma transação inválida. O problema não está na parte que dá o dinheiro, mas na que recebe. Imagine um sequestrador que é preso após ter recebido o dinheiro do resgate. Ele vai ter que devolver o dinheiro para quem o pagou, independente de a pessoa ter pago porque quis ou não. A questão maior nesses dois exemplos não é se a pessoa que está dando o dinheiro o faz porque quer ou não, já que com a coação moral a pessoa sempre vai querer. A questão é se quem o recebe o faz de boa fé ou não.

Mas há ainda um problema maior com esta teologia de prosperidade. Ela é simplesmente uma afirmação falsa. Se fosse verdade que a prosperidade só é alcançada por quem colabora com a igreja, nenhuma das pessoas que não colaboram a alcançariam. No entanto, existem várias pessoas que não só não colaboram com igreja nenhuma, como também não dividem as mesmas crenças do pastor, e no entanto podem ser consideradas pessoas prósperas, seja lá em qual concepção o pastor queira empregar a palavra.

De fato, acredito que eu mesmo poderia ser o exemplo disso. Sou uma pessoa feliz, tenho um ótimo emprego, me dou muito bem com minha família, não tenho vícios ou nenhum problema muito sério, me considero uma pessoa boa e o último dízimo que eu dei provavelmente foi pra igreja católica e deve ter sido há mais de 10 anos. Não sigo nenhuma religião há um bom tempo e nem sequer acredito em entidades divinas. Se Deus realmente tivesse alguma exigência especial para distribuir a prosperidade, então eu diria que o modo como eu vivo, ignorando as religiões, deve estar bastante de acordo com essas exigências.

Em breve, a parte 3.

*update: veja a parte 3 aqui.

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