Saindo do armário ateísta

Primeiramente, deixem-me assegurá-los de que eu estou ciente de que a expressão “sair do armário” é usualmente empregada pela comunidade LGBT e que diz respeito ao anúncio da orientação sexual.

No entanto, a comunidade ateísta vem utilizando a mesma expressão para referir-se aos ateus que ainda estão tomando coragem de se declararem como tal perante seus conhecidos.

Portanto, permitam-me uma licença poética para traçar um paralelo entre a situação de um homossexual (ou transgênero, ou queer, ou cross-dresser etc) que hesita em tornar pública sua condição sexual, com a de um ateu que tem a mesma titubeação em relação a afirmar suas crenças (ou falta dela, no caso) perante a sociedade.

Com os ateus é tão dramático quanto... embora menos colorido

Com os ateus é tão dramático quanto… embora menos colorido

Como eu tentei demonstrar no meu post anterior, os ateus – assim como os homossexuais – não têm exatamente a melhor das reputações perante nossa sociedade. Para muitas pessoas, em especial as religiosas, os dois são vistos como seres humanos maus ou que se desviaram do caminho correto ou que são incapazes de ser felizes. Alguns ainda tentam de tudo para fazer com que eles voltem a viver da maneira que eles julgam como correta.

Embora para pessoas criadas em ambientes mais liberais ou em locais com maior diversidade religiosa e cultural possa ser mais fácil assumir o ateísmo, uma boa parte dos ateus vive em ambientes sociais ou familiares em que essa revelação os tornaria um pária perante as pessoas de seu convívio. Assim, eles preferem esconder essa parte de si a sofrer com as consequências que essa revelação traria (e se acham que estou exagerando, leiam os relatos de alguns ateus cujas famílias souberam de sua descrença).

Porém, se após uma grave ponderação e examinação interior, você decidiu que mostrar quem você é de fato às pessoas de seu convívio é mais importante que a reação que isso causaria, eu tomei a liberdade de, com base nesse texto que eu encontrei na interwebs, listar algumas dicas que podem ser úteis nessa hora decisiva.

  1. Tenha certeza que é isso que você quer fazer. A maior parte das pessoas criadas em ambientes religiosos se descobrem atéias no período da adolescência, que é quando começam a tomar contato com outras culturas, conhecem-se novas pessoas e a curiosidade as impele a pesquisar sobre suas crenças e buscar novos conhecimentos. No entanto, nesse período da vida a maior parte das pessoas ainda é completamente dependente dos pais ou dos tutores, e, como se pode ver pelos relatos acima, nem sempre a família leva essa revelação numa boa. Tenha consciência de que essa simples conversa poderá mudar a maneira como você se relaciona com seus familiares. Analise bem os prós e contras dessa decisão. Em algumas situações é melhor adiar um pouco essa revelação para um momento em que você esteja em uma situação de maior independência, onde seus pais não terão tanta influência sobre seus atos e você poderá exercer seu modo de pensar mais livremente;
  2. Escolha o momento certo de conversar com seus entes queridos. Quando será esse momento, só você poderá avaliar. Você conhece sua família e amigos, sabe quando eles estão mais propensos a brigar, ou mais calmos para receber informações impactantes. Certifique-se apenas de que será em um momento em que vocês terão tempo suficiente para conversar sem que outro compromisso os interrompa. Isso dará tempo de você expor o que pensa, ouví-los e debater a respeito de qualquer dúvida que haja. Mas calmamente – veja a próxima dica;
  3. Mantenha a calma. Você pode estar nervoso ao ter essa conversa, mas não deixe que isso influencie na maneira como você vai se comunicar. Dependendo do nível de tolerância de sua família, eles podem ficar nervosos, histéricos, surtados, começar a gritar ou simplesmente ignorar o que você diz, em negação. Não deixe que nada disso afete muito o modo como você se dirige a eles. Mantenha o tom de voz baixo. Caso eles comecem a falar alto, espere eles pararem de falar e calmamente repita o que você tiver dito por último. Se você se deixar influenciar e começar a levantar o tom para igualar o deles, a conversa vai acabar em discussão ou briga e o resultado vai ser longe do esperado. Se você já espera que seus pais/familiares tenham uma reação negativa a isso, já se prepare antecipadamente esperando essa reação e ensaiando como contorná-la. Caso perceba que está perdendo o controle, tente respirar fundo e começar novamente, ou, se não der certo, diga que gosta muito deles para continuar a conversa dominado pela raiva, vá embora e tente novamente outro dia;
  4. Saiba usar as palavras. Lembre-se, a intenção é fazer com que seu convívio com os outros melhore. Portanto, tente não demonstrar que você não acredita no mesmo que eles porque você acha a crença deles ridícula ou porque você se acha mais inteligente que eles. Mesmo que você concorde com essas coisas, esses detalhes serão desnecessários para o objetivo que você deseja. O impacto de saber que você é ateu já vai ser bem grande sem você precisar ridicularizar as suas crenças. E a intenção não é convertê-los também, portanto tente deixar claro que você respeita o que eles pensam e que eles podem continuar acreditando no que quiserem, mas que você apenas discorda dessa maneira de pensar;
  5. Tire as dúvidas. Se depois de lançar a bomba eles ainda estiverem dispostos a ter uma conversa decente, tire as dúvidas que porventura eles venham a ter. É hora de esclarecer que você não é satanista, não odeia seus familiares, não come criancinhas, ainda é capaz de amar e sentir compaixão etc. Se a conversa estiver fluindo você pode até pensar em discutir detalhes como se quer continuar indo em catequeses, crismas, aulas de religião, missas, cultos e coisas do gênero. Mas se sua família não for tão liberal assim, e o clima começar a esquentar, é hora de seguir a próxima dica;
  6. Tenha um plano B. Em uma família mais reacionária, você poderá começar a sofrer represálias. Estas podem variar desde uma obrigatoriedade de frequentar a igreja ou cultos com a família, a castigos como corte de mesadas, proibição de sair, ou até mesmo castigos corporais ou expulsão de casa. Lembre-se que se você chegou até aqui foi porque você achou que revelar a verdade valia até mesmo passar por essas coisas, mas, esteja preparado pra quando elas acontecerem. Se achar que sua mesada vai ser cortada, economize dinheiro para se manter até a poeira baixar, ou comece a procurar um meio de se sustentar. Se achar que seus pais vão tentar lhe aplicar uma surra, tente fazer isso em um local público ou na companhia de outra pessoa que vá fazer você se sentir mais seguro (lembrando que lesão corporal é crime). Se achar que corre o risco de ser expulso de casa, combine antecipadamente com um amigo ou outro familiar e deixe avisado que pode precisar passar uns dias com ele. Enfim, antecipe-se ao que de ruim possa acontecer. O fato deles tentarem impor a você uma forma de pensar provavelmente não vai fazer muito efeito sobre sua falta de crença, mas quanto mais preparado você estiver, mais fácil será passar por esta fase.

Seguir estas dicas provavelmente não vai fazer com que essa ação se torne fácil, porém pode ser que faça ela ficar menos difícil. Boa sorte e parabéns pela dura decisão.

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6 Comentários

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6 Respostas para “Saindo do armário ateísta

  1. Maiara Lopes

    Texto excelente!

  2. Millli

    Teria escrito orientacao sexual inves de condicao sexual. Sou catolica, tenho amigos de diferentes crencas, religioes ou ateistas. Qdo cheguei na europa fui pressionada por ter uma religiao. Entendo a pressao q vcs ateus sofrem, a obrigacao de ter que se explicar e se defender. Sinto muito e tento apoiar. Acredito no “pluralismo de crencas” . Acho um maximo como voces questionam os sistemas, como vcs tentam libertar os pensamentos de dogmas. Mas por favor, nao repitam os mesmos erros que ” nós” fizemos e ainda fazemos. Abracos e continuem perseverando!

    • [[Teria escrito orientacao sexual inves de condicao sexual.]]

      É mesmo? Conte-me mais sobre quando você DECIDIU ser hetero e gostar de homens.

  3. Aristides Marchetti Filho

    Realmente nunca houve preocupação da minha parte com isso, levando-se em conta a brevidade da vida e a incerteza de tudo que se refira ao momento seguinte.
    Hajo como qualquer animal: como, cago, trepo e durmo.
    Quanto as questões relativas ao conhecimento superior, a única coisa que realmente nos difere de qualquer animal, vou levando.
    Não há nada de fascinante em interagir com máquinas de produzir excremento semelhantes a mim, a não ser no interesse absoluto de sexo e alguma oportunidade material para emoldurar aquilo que acredito ser, no fôro íntimo de minhas considerações, interessantes.

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