Aviso aos Navegantes – Até (Breve)

Os leitores que têm acessado o blog nos últimos dias meses devem ter percebido que já faz algum tempo que o blog não recebe atualizações.

Depois de mais de dois anos escrevendo aqui, me sinto na responsabilidade de dar uma satisfação a respeito desse sumiço aos leitores mais antigos.

No momento estou passando por um momento muito atribulado de minha vida. Eu e minha noiva estamos preparando a cerimônia de nosso casamento, que será realizado ainda esse ano, praticamente sozinhos. Além disso, eu estou tentando concluir minha pós-graduação. Quando se junta a isso o emprego e a vida de dono de casa, acaba não sobrando muito tempo para me dedicar a hobbies, como é o caso da escrita aqui no blog.

O pouco tempo que me sobra também tem que ser usado para outros fins: a escrita do meu pretenso futuro livro e as gravações para o meu canal do Youtube, o “Ateu, e daí?”. E como, apesar de não parecer, cada artigo aqui escrito demanda muito tempo para ser finalizado (eu levava, em média, 2 semanas para escrever cada um), eu acabei tendo que deixar o blog um pouco de lado.

Não me entreguei sem luta, ainda me esforcei para continuar escrevendo. No começo do ano eu comecei a esboçar um artigo quando houve os ataques ao Charlie Hebdo, mas nao consegui chegar nem à metade até que as notícias do ataque tivessem se tornado ultrapassadas. O mesmo ocorreu depois com as chacinas do Estado Islâmico. E foi aí que eu percebi que não dava mais para abraçar o mundo e eu teria que escolher a quais projetos continuar dando atenção. E, por diversos motivos, eu decidi que por enquanto o blog irá ficar em suspensão.

Eu poderia continuar fazendo atualizações com artigos escritos apressadamente, mas para fazer uma coisa de qualquer jeito, eu prefiro não fazer. Também acho que se alguém se interessava pelo que eu escrevia aqui, era só porque eu me dedicava integralmente ao que eu propunha fazer. Então acho que a suspensão é a melhor decisão, pelo menos até que eu consiga voltar a me dedicar à escrita aqui da maneira como eu acho que eu tenho que me dedicar.

Aos que gostavam de ler meus artigos (se é que tais pessoas existem), peço desculpas pela descontinuidade, mesmo não tendo culpa direta nisso. Porém, vocês não estarão totalmente livres da minha opinião. Para quem quiser continuar acompanhando meu trabalho, ou, pelo menos, parte dele, eu seguirei usando a página do Facebook do Sou Ateu, e Daí? para divulgar notícias e tecer comentários breves. E para pensamentos e considerações mais longas, seguirei fazendo vídeos para meu canal do Youtube, que você pode acessar clicando no logo abaixo.

Canal

Visite o canal Ateu, e daí?. E inscreva-se.🙂

Quem quiser entrar em contato comigo pode continuar usando o email blogateuedai@gmail.com que eu responderei a todos, mesmo que demore um pouco.

Espero que isso não seja um adeus, e sim um breve até logo.

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Os Ateus E O Natal

Feliz natal, povo!

Para quem ainda não viu, eu fiz um vídeo no meu canal do Youtube dando minha opinião a respeito de os ateus comemorarem o natal:

Provavelmente eu só estarei de volta agora em 2015. Então aproveitem o natal e tenham um excelente ano novo. E se beberem, não dirijam.

Boas festas!

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Leitura Recomendada – Uma História de Deus

A leitura recomendada de hoje é de um livro que trata a respeito de história religiosa: Uma História de Deus – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo : Uma Busca de 4000 Anos.

Uma História de Deus

UMA HISTÓRIA DE DEUS (Edição de Bolso)

Neste livro a autora tenta estabelecer o desenvolvimento histórico e cultural das três principais religiões monoteístas ocidentais: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Nesse sentido, o título da obra pode ser enganoso. Não se trata, obviamente da “história de Deus”. Trata-se da história da ideia que os povos ocidentais têm a respeito de Deus, o que é claramente diferente (as crenças dos povos orientais são mencionadas ocasionalmente, porém sem aprofundamentos). Mas é claro que eu entendo o propósito propagandista dos títulos de livros. Admito que uma edição com o nome “Uma História da ideia ocidental de Deus” provavelmente teria menos apelo comercial…

A autora, Karen Armstrong é uma ex-freira. Ela se ordenou na Society of the Holy Child Jesus em 1965. Porém, abandonou o convento quatro anos depois, quando percebeu que não havia nascido com vocação para a vida monástica. A partir de então ela passou a se dedicar ao estudo sobre as religiões, chegando a roteirizar e apresentar um programa de televisão sobre a vida de São Paulo para o Channel Four.

Para alcançar o objetivo proposto pelo livro, nos primeiros capítulos ela investiga o surgimento das religiões abraâmicas desde suas origens no Oriente Próximo. Os dois primeiros capítulos são basicamente aulas de história mostrando como o monoteísmo judaico evoluiu do politeísmo dos povos da região, como os babilônicos e os cananeus, até chegar à ideia de um deus único, por volta de 600 AEC. A partir daí ela passa a enumerar os diversos pensadores que expandiram e modificaram as ideias a respeito desse deus únitário.

A leitura certamente será muito mais aproveitável para quem já possui certa familiaridade com as doutrinas ou com as histórias dessas religiões ou para quem já tenha estudado religião comparativa em algum momento da vida. Em determinados trechos a autora lança tantas informações, tantos nomes e tantos estrangeirismos que qualquer um que já não possua alguma informação a respeito das religiões estudadas pode se sentir  sobrecarregado com a quantidade de dados fornecidos. E o fato de os capítulos não possuírem subdivisões pode aumentar ainda mais essa confusão. Talvez uma melhor organização favorecesse o repasse de informações, tornando o livro mais acessível para um público leigo.

Um outro problema é a visão pessoal que a autora imprime às análises que faz sobre as crenças, que teoricamente deveriam ser objetivas. Ela obviamente vê a fé como uma coisa boa e necessária, e parece tentar apresentar justificativas para todos os atos tomados com base na religião. Mesmo os que seriam claramente considerados abomináveis sob uma ótica moderna. Além disso ela tenta demonstrar que existe uma espécie de sincretismo entre todas as crenças, querendo nos fazer acreditar que todas as crenças religiosas no fundo afirmam a mesma coisa. O que obviamente é um devaneio. Basta notar as dissidências entre religiões que supostamente adoram o mesmo deus, pra perceber que algumas discordâncias entre elas são irreconciliáveis. Essa parcialidade da autora fica ainda mais notável nos últimos capítulos, quando ela praticamente faz uma espécie de proselitismo pessoal, parecendo defender que a crença correta em Deus é justamente a crença que ela professa.

Mesmo com esses defeitos, esta é uma boa leitura para qualquer um que queira entender melhor a evolução da ideia de Deus em nossa sociedade. Muitos livros apresentam dados e fatos históricos, mas poucos se preocupam em esmiuçar as ideias por trás deles. Se você conseguir separar as opiniões pessoais da autora das informações objetivas, ele será útil até mesmo para entender o cenário religioso atual.

I.S.B.N.: 978-85359115-8-9

Título original: A HISTORY OF GOD

Autora: Karen Armstrong

Editora: Companhia das Letras – 24/01/2008

Origem: EUA

N° de páginas: 560

Dimensões: 18,0 x 12,5 x 2,5 cm (Edição de bolso)

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Cemitérios Proíbem Cultos Afro no Rio

Esta semana tivemos uma notícia interessante aqui no Rio. Segundo o jornal O Dia, a Santa Casa de Misericórdia, entidade responsável pela administração de sete cemitérios na cidade, está impedindo que os participantes de cultos de matrizes africanas realizem suas cerimônias nos locais.

A notícia veio à tona depois que a mãe de santo Rosiane Rodrigues foi barrada por um servidor na porta do cemitério de Ricardo de Albuquerque. A religiosa ia fazer uma oferenda no jazigo de seus pais e avós, quando foi informada pelo funcionário do local que ela não poderia entrar no local com as oferendas:

“Para minha surpresa, quando fui entrar com comidas caseiras, frutas, canjica, pipoca, velas e refrigerantes, o funcionário trancou o portão, disse que eu não podia entrar, ‘por ordem superior’. Fiquei arrasada, pois há anos faço o mesmo ritual. Me senti humilhada.”

A religiosa ainda entrou em contato com a Polícia Militar, que, segundo ela, disse que isso “era assim mesmo” e ignorou o caso. Então Rosiane decidiu filmar o ocorrido e lançou o vídeo nas redes sociais, onde já foi visualizado mais de 50 mil vezes.

Rosiane Rodrigues, proibida de entrar no cemitério para fazer suas oferendas / Uanderson Fernandes - O Dia

Rosiane Rodrigues, proibida de entrar no cemitério para fazer suas oferendas – Uanderson Fernandes/O Dia

Não demorou para que os líderes de religiões afro externassem sua indignação com o episódio. Jorge Mattoso, secretário da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, afirmou que irá denunciar o caso internacionalmente e o babalorizá Pai Omulu deu a seguinte declaração:

“Já sofremos demais com a perseguição de traficantes, de parte da polícia e de pessoas intolerantes nos terreiros e encruzilhadas. Mas isso é culpa principalmente dos nossos governantes, que não investem em um trabalho educacional sobre o respeito entre os praticantes da vasta quantidade de religiões que temos. Isso forma nosso maravilhoso sincretismo religioso”

A Santa Casa, procurada pela reportagem do O Dia, não se pronunciou sobre o ocorrido.

Bom, minha opinião sobre esse caso é simples. Sendo um ateu, é óbvio que eu defendo com unhas e dentes o direito das minorias religiosas. A liberdade de culto deve ser observada sempre que possível, e ninguém deveria ser proibido de frequentar qualquer local público pelo simples fato de possuir uma determinada orientação religiosa.

No entanto, posso estar enganado, mas nesse caso em particular, me parece que a proibição determinada pela Santa Casa não visava discriminar os integrantes de um grupo de religiões em particular, e sim, evitar que os integrantes destes cultos realizassem oferendas que viessem a poluir o ambiente dos cemitérios. Afinal, é de conhecimento público que algumas oferendas feitas por religiões de origem africana acabam por deixar restos de animais e dejetos em vias públicas.

oferenda

Exemplo de oferendas poluindo o ambiente e atrapalhando a passagem de transeuntes.

E ao escrever isso, já posso até prever os protestos de quem defende as orientações religiosas minoritárias: “Ah, então os seguidores de tal religião não podem realizar seus rituais”? “Isso é um desrespeito à diversidade religiosa”. “As pessoas deveriam ter a liberdade de fazer tudo o que suas religiões mandam”!

Bom, liberdade de culto não é uma carta branca para se fazer qualquer coisa em nome da religião.  Se uma orientação religiosa faz com que locais públicos fiquem sujos de comida e animais mortos, isso é um fato que já não diz respeito somente aos integrantes dessa religião, é um caso de saúde e saneamento públicos, portanto envolve o direito de terceiros. A liberdade religiosa tem que ter limites também, que é justamente onde começam os direitos de outrem. Do contrário, imaginem se amanhã ou depois surge uma religião dizendo que seus membros têm que defecar nas ruas. E depois uma outra dizendo que seus mortos têm que ser largados ao ar livre. Teríamos que permitir isso sem discussões? Se liberdade religiosa significasse que as pessoas podem realizar qualquer ritual, desde que amparadas por preceitos religiosos, até mesmo sacrifícios humanos seriam justificáveis pela fé.

E é claro que isso não se aplica somente às religiões de origem africana. Da mesma maneira que eu acho que oferendas que atrapalhem e poluam vias públicas não devem ser permitidas, também acho que os cultos barulhentos das religiões majoritárias que incomodem os vizinhos não deveriam ser realizados. E até mesmo o difundido costume de acender velas e largar seus cotocos em tumbas poderia ser discutido, visto que também causam poluição.

No entanto, não ignoro também que a maneira empregada pela Santa Casa para tentar solucionar o problema pode não ter sido a melhor opção possível. Proibir os integrantes de uma religião de entrar em um local público me parece um exagero. Se o objetivo deles era somente preservar a limpeza e a salubridade do local, talvez uma forma mais efetiva de vigilância, ou a aplicação de uma multa aos poluidores fosse o suficiente. Porém, essa me parece ser uma matéria que merece ser discutida mais profundamente do que simplesmente se afirmando que as pessoas deveriam ter total liberdade para fazer o que quiserem em nome de sua religião. Afinal, em uma vida em sociedade, ninguém tem a liberdade de ferir os direitos de terceiros. Mesmo que queira usar a religião como desculpa pra isso.

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Nova Publicação: A Revista Ateísta

A comunidade ateísta teve esse mês uma grata surpresa. O lançamento da primeira revista inteiramente dedicada a um público ateu e agnóstico: a Ateísta.

Eu publiquei um vídeo em meu canal do Youtube comentando esse fato marcante e inédito, dizendo minhas impressões a respeito da publicação:

Se você quiser comprar sua edição da revista para tirar suas próprias conclusões, você pode fazê-lo pela internet, no site da revista: www.revistaateista.com. A publicação também possui uma página no Facebook.

E nunca é tarde para lembrar que se vocês quiserem ajudar este blog, podem curtir meus outros vídeos, deixar comentários ou se inscrever no meu canal do Youtube. Seria de enorme ajuda e eu nem saberia como agradecer.

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Autor Convidado – Valerio Lima

EU, TEÍSTA, E OS ATEUS

Quando alguém me diz que é ateu, eu sinto muita pena.
E lembro-me do Sr. Antonio de Figueredo, meu antigo chefe.
Jamais conheci alguém com tantas virtudes. Era ateu.
Quando alguém me diz que é ateu, eu morro de vergonha.
E lembro-me de José Mujica, Presidente do Uruguai.
“O presidente mais pobre do mundo”, que não tem conta bancária. Nem dívidas. Não usa gravata. Seu único bem é um Fusca azul 1300, ano 1987, avaliado em mil dólares. Dos US$ 12,5 mil que recebe de salário mensal como presidente, fica só com US$ 1.250. Doa o restante para ONGs, que constroem casas populares. Usa as dependências do palácio presidencial para abrigar sem-tetos. É ateu.
Quando alguém me diz que é ateu, eu sinto muita tristeza.
E lembro-me de Charlie Chaplin, compositor, ator, humorista.
Que fez tanta gente rir nas horas difíceis.
E nos embala até hoje com suas canções como Smile (Sorria). Era ateu.
Quando alguém me diz que é ateu, eu me sinto tão impotente.
E lembro-me de Herbert José de Sousa, o Betinho,
Um grande ativista e defensor dos direitos do ser humano,
Concebeu e dedicou-se ao projeto Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Era ateu.
Quando alguém me diz que é ateu, eu sinto muita ojeriza.
E lembro-me de Angelina Jolie, atriz e ativista contra a fome na África e no mundo que adotou crianças condenadas à morte por inanição. É ateia.
Quando alguém me diz que é ateu, sinto muito desgosto.
E lembro-me de Bill Gates que não se deixou vencer pelo dinheiro,
Destinando cerca de R$ 49 bilhões (quase metade de seu patrimônio pessoal) para diminuir a fome no mundo e investir em pesquisas e na produção de vacinas e energia alternativa. É ateu.
Quando alguém me diz que é ateu, fico chocado.
E lembro-me de Dráuzio Varella um profissional magnífico que faz de sua profissão porto seguro com toda dignidade que lhe é peculiar. É ateu.
Quando alguém me diz que é ateu, eu sinto muita indignação.
E lembro-me de Demócrito, Graciliano Ramos, Jose Saramago, Leonardo da Vinci, Monteiro Lobato, João Cabral de Melo Neto, Zélia Gattai, Chico Buarque, Machado de Assis, Mário Lago, Oscar Niemeyer, Patch Adams, Paulo Freire e tantos outros que contribuíram no conhecimento, humanismo, filosofia, arte e cultura para o crescimento dos povos. Eram ateus.
Quando alguém me diz, tu és teísta,
Eu sinto muita indignação, muito desgosto, muita ojeriza, muita impotência, muita tristeza, muita vergonha e muita pena de mim mesmo porque, apesar de eu ser teísta, jamais me comportei como tal deixando aos outros as responsabilidades que, também, cabiam a mim realizar. E como teísta devo saber que, quando um dia, eu estiver diante do tribunal da minha consciência, ninguém me perguntará em que eu acreditava ou a que religião ou filosofia eu frequentava. Mas a minha consciência me perguntará: – o que fiz para transformar, melhorar, embelezar e humanizar o mundo eu que vivi? Não importa se somos ateus ou teístas. O que realmente importa são as nossas ações e construções para um mundo melhor. Ser ou não ser é somente uma escolha, portanto, façamos o melhor de nós nessas escolhas.


Como vocês devem ter reparado, essa é uma nova seção aqui do blog, onde um autor convidado deixará seus textos e pensamentos.

O convidado de hoje foi o Valerio Lima, criador e moderador da comunidade Seja Exemplo Para um Mundo Melhor, que apesar da crença em Deus, também compartilha da opinião de que as mudanças nesse mundo dependem mais das ações de quem vive nele.

Se tiver interesse em contribuir com um texto para o blog, entre em contato pelo email blogateuedai@gmail.com ou através de nossa página do Facebook.

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Comentando A Declaração Do Padre Marcelo Rossi

Nesta segunda-feira, dia 20, o padre popstar Marcelo Rossi, em entrevista ao Portal Terra, fez uma polêmica afirmação sobre política, que rendeu calorosas discussões nas redes sociais.

marcelo rossi

Padre Marcelo Rossi

Ao comentar o atual cenário político do país, o sacerdote deu sua opinião a respeito da associação que algumas pessoas fazem entre suas crenças religiosas e o exercício da política:

“Eu sou totalmente contra, seja padre ou pastor. Está errado. Ou você é um líder religioso, ou você é um líder político. Pode colocar minhas palavras: ‘Nunca vote em nenhuma pessoa religiosa’. A Igreja Católica viveu isso, a união de Estado, política e religião. Foi a pior fase. Pode ver que a Igreja Católica é a única que não tem candidato. Ela pode até dizer que gosta, mas nunca indica. Eu tenho medo. A pior coisa é fanático. Fuja dessas pessoas, que são as mais perigosas e as que se corrompem mais facilmente”

Descrentes e religiosos que defendem a laicidade do Estado não demoraram em aplaudir o que o padre falou:

declaraçoes1

E é claro que alguns religiosos mais exaltados decidiram fazer o contrário, criticando ostensivamente o que foi dito:

declaracoes2

Sendo eu ateu, assim que li essa notícia na internet, minha primeira reação foi parecida com a das primeiras pessoas acima, concordando plenamente com o padre.

Porém, conforme eu parei para pensar melhor no que ele havia falado, me dei conta de que uma parte de seu discurso pode estar equivocada.

Primeiro, vamos deixar claro uma coisa. O padre Marcelo está enganado ao afirmar que a Igreja Catolica é a única que não tem candidato político. Não vou nem entrar no mérito do chefe de sua igreja ser também o governante do seu próprio Estado, já que isso não me parece estar diretamente relacionado ao que estava sendo afirmado. Porém, mesmo em referência somente às eleiçoes de nosso país, é notável que já houve casos de padres que foram eleitos para cargos políticos, como eu havia apontado antes. E, segundo o UOL, nessas últimas eleições mesmo, 23 párocos católicos disputavam o pleito.

Mas tudo bem, não vou afirmar que o padre mentiu nesse caso. Ele poderia simplesmente não ter conhecimento dos casos acima, ou talvez estivesse se referindo somente a um apoio oficial da Igreja, o que eu não saberia dizer se há ou não, já que não conheço os bastidores do Vaticano. Desconsideremos esse equívoco e nos concentremos em outra parte do que foi afirmado: “Nunca vote em uma pessoa religiosa”.

Depois que eu refleti melhor a respeito do que foi dito, percebi o quanto essa declaração soa discriminatória para com uma parcela da população brasileira. O padre está basicamente defendendo que uma parte da população (os religiosos) não deve poder gozar plenamente de seus direitos políticos, não devendo nunca serem eleitos. Se você não consegue perceber a gravidade do que foi dito, experimente fazer o seguinte: utilize qualquer outra parcela da população na mesma frase para ver se você concordaria com ela. “Nunca vote em um negro”. “Nunca vote em um homossexual”. “Nunca vote em um policial”. “Nunca vote em um ateu!“…

Eu até  entendi o sentido da afirmação do padre. Sua intenção era defender a laicidade, a separação entre o Estado e a religião, e a referência que ele faz à atuação da Igreja na Idade Média é indicativa disso. E eu concordo com o espírito do que ele quis dizer. No entanto, eu diria que a atitude que ele parece julgar necessária para que essa laicidade seja atingida não é a mais acertada.

O problema não está em uma pessoa religiosa, ou mesmo em um líder religioso atingir o poder político. O problema está nessa pessoa não saber separar suas crenças religiosas de seu mandato e deixá-las interferir em sua governança. Sendo assim, eu não veria problema nenhum no fato de um religioso, seja um padre, um pastor, um imame, um babalorixá ou qualquer outro, ascender a um cargo político, desde que ele não tomasse nenhuma decisão ou não propusesse nenhuma lei discriminatória, com base única e exclusivamente em seus preceitos religiosos.

Talvez uma melhor forma de se afirmar o que era pretendido seria dizer: “muito cuidado ao votar em uma pessoa religiosa, para que ele não deixe sua religião interferir negativamente em sua atuação política”, ou algo nesse sentido. Talvez até tenha sido exatamente isso o que o padre quis dizer… Imagino que ao dar uma entrevista ao vivo algumas palavras não exprimam exatamente o que se estava passando em sua mente. Mas é justamente por isso que uma pessoa pública tem que redobrar o cuidado com o que diz.

Em um país onde a democracia fosse melhor aplicada, essa advertência de nunca se votar em um religioso provavelmente seria vista com estranheza e talvez fosse até desnecessária. Eu não imagino, por exemplo, alguém na Suécia, um país onde os governantes são tratados como cidadãos comuns e como modelos a serem seguidos pela comunidade,  precisando alertar os eleitores a nunca votarem em um líder religioso. Mesmo que um deles alcançasse o poder, os próprios eleitores provavelmente não deixariam que medidas anti-democráticas e interesseiras fossem tomadas por esses políticos.

No entanto, é claro que isso também depende muito do povo do país. E no Brasil, onde os candidatos ostentam seus cargos religiosos como trunfo para conseguir votos, onde líderes religiosos pedem votos no púlpito em troca de dinheiro e onde milhares de eleitores seguem o modo de pensar da cidadã abaixo, eu duvido muito que esse discernimento político esteja próximo de ser alcançado:

maluca

Vendo coisas como essa, eu chego a cogitar que no caso do Brasil talvez seja melhor mesmo uma proibição absoluta de se votar em candidatos religiosos…

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